Carlos Castaneda


A ARTE DO SONHAR


Traduo
de
ALVES 
CALADO 


2 
EDIO 



#
Castaneda, 
Carlos, 
1925-
C341a 
A 
arte 
do 
sonhar 
/ 
Carlos 
Castaneda; 
traduo 
de 
Alves 
Calado. 
 
2 
ed. 
 
Rio 
de 
Janeiro 
: 
Record, 
1994. 


(Nova 
Era) 


Traduo 
de: 
The 
art 
of 
dreaming 


1. 
Juan, 
Dom, 
1891-1975. 
2. 
ndios 
Yaqui 
 
Religio 
e 
mitologia. 
3. 
Sonhos. 
4. 
Magia. 
5. 
Feitiaria. 
I. 
Ttulo. 
CDD 
 
299.792 
93-1173 
CDU 
 
299.77 


Ttulo 
original 
norte-americano 
THE 
ART 
OF 
DREAMING 


Agradecemos 
a 
permisso 
para 
reproduzir 
o 
seguinte 
material: 
I 
Have 
Longed 
to 
Move 
Away, 
de 
Dylan 
Thomas, 
extrado 
de 
Paems 
of 
Dylan 
Thomas. 
Copyright 
 
1939 
by 
New 
Directions 
Publishing 
Corp. 
Reproduo 
autorizada 
por 
New 
Directions 
Publishing 
Corp. 


Ilustrao 
de 
capa 
ISABELA 
HARTZ 


Copyright 
 
1993 
by 
Carlos 
Castaneda 
Publicado 
mediante 
acordo 
com 
Harper 
Collins 
Publishers, 
Inc. 


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exclusivos 
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publicao 
em 
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Rio 
de 
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que 
se 
reserva 
a 
propriedade 
literria 
desta 
traduo 


Impresso 
no 
Brasil 
ISBN 
85-01-04109-2 
PEDIDOS 
PELO 
REEMBOLSO 
POSTAL 


Caixa 
Postal 
23.052 
 
Rio 
de 
Janeiro, 
RJ 
 
20922-970 



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#
C
CCO
OON
NNT
TTR
RRA 
AAC
CCA
AAP
PPA 
AAA 
ARTE 
DO 
SONHAR 


Depois 
de 
seis 
anos 
de 
silncio, 
Carlos 
Castaneda 
retorna 
com 
um 
livro 
fascinante 
que 
revela 
o 
mistrio 
mundo 
dos 
espritos 
na 
dimenso 
do 
sonhar. 


Somos 
incrivelmente 
afortunados 
por 
termos 
os 
livros 
de 
Carlos 
Castaneda... 
formam 
uma 
obra 
que 
se 
situa 
entre 
as 
melhores 
j 
produzidas 
pela 
cincia 
e 
pela 
antropologia... 


NEW 
YORK 
TIMES 


Castaneda 
se 
tornou 
um 
dos 
padrinhos 
da 
Nova 
Era... 
Ele 
revela 
as 
principais 
questes 
do 
nosso 
tempo. 


LOS 
ANGELES 
TIMES 


Castaneda 
nos 
obriga 
a 
acreditar 
que 
Dom 
Juan 
 
uma 
das 
mais 
extraordinrias 
figuras 
da 
literatura 
antropolgica, 
um 
sbio 
neoltico. 


LIFE 


E 
impossvel 
ver 
o 
mundo 
da 
mesma 
maneira 
aps 
l-lo... 
Se 
Castaneda 
est 
certo, 
existe 
outro 
mundo, 
um 
mundo 
s 
vezes 
lindo 
e 
s 
vezes 
assustador. 


CHICAGO 
TRIBUNE 


#
Sumrio 


Nota 
do 
Autor 


. 
Feiticeiros 
da 
Antigidade: 
Uma 
Introduo 


. 
O 
Primeiro 
Porto 
do 
Sonhar 


. 
O 
Segundo 
Porto 
do 
Sonhar 


. 
Fixando 
o 
Ponto 
de 
Aglutinao 


. 
O 
Mundo 
dos 
Seres 
Inorgnicos 


. 
O 
Mundo 
das 
Sombras 


. 
O 
Batedor 
Azul 


. 
O 
Terceiro 
Porto 
do 
Sonhar 


. 
A 
Nova 
rea 
de 
Explorao 
. 
Espreitando 
os 
Espreitadores 
. 
O 
Inquilino 
. 
A 
Mulher 
na 
Igreja 
. 
Voando 
nas 
Asas 
do 
Intento 


#
Nota 
do 
Autor 


Nos 
ltimos 
vinte 
anos 
escrevi 
uma 
srie 
de 
livros 
sobre 
meu 
aprendizado 
com 
o 
feiticeiro 
mexicano 
Dom 
Juan 
Matus, 
um 
ndio 
yaqui. 
Contei 
nesses 
livros 
que 
ele 
me 
ensinou 
feitiaria, 
mas 
no 
feitiaria 
como 
a 
entendemos 
a 
partir 
do 
contexto 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano: 
usar 
poderes 
sobrenaturais 
sobre 
os 
outros, 
ou 
atrair 
espritos 
atravs 
de 
encantamentos, 
rituais 
ou 
feitios 
visando 
a 
produzir 
efeitos 
sobrenaturais. 
Para 
Dom 
Juan, 
feitiaria 
era 
o 
ato 
de 
incorporar 
alguns 
princpios 
especializados, 
tericos 
e 
prticos, 
sobre 
a 
natureza 
e 
o 
papel 
que 
a 
percepo 
representa 
em 
moldar 
o 
universo 
ao 
nosso 
redor. 


Seguindo 
a 
sugesto 
de 
Dom 
Juan 
evitei 
usar 
uma 
categoria 
prpria 
da 
antropologia, 
o 
xamanismo, 
para 
classificar 
esse 
conhecimento. 
Durante 
todo 
o 
tempo 
usei 
o 
mesmo 
termo 
que 
ele 
empregava: 
feitiaria. 
Pensando 
bem, 
entretanto, 
percebi 
que 
cham-
lo 
de 
feitiaria 
obscurece 
ainda 
mais 
o 
fenmeno 
j 
obscuro 
que 
ele 
me 
apresentou 
em 
seus 
ensinamentos. 


Em 
obras 
de 
antropologia, 
o 
xamanismo 
 
descrito 
como 
um 
sistema 
de 
crenas 
de 
alguns 
povos 
nativos 
do 
norte 
da 
sia 
 
predominando 
tambm 
entre 
certas 
tribos 
de 
ndios 
da 
Amrica 
do 
Norte 
 
que 
afirma 
a 
existncia 
de 
um 
mundo 
invisvel 
de 
antigas 
foras 
espirituais, 
boas 
e 
ms, 
ao 
nosso 
redor; 
foras 
espirituais 
que 
podem 
ser 
invocadas 
ou 
controladas 
atravs 
de 
atos 
dos 
praticantes, 
que 
so 
os 
intermedirios 
entre 
os 
reinos 
natural 
e 
sobrenatural. 


Dom 
Juan 
era 
de 
fato 
um 
intermedirio 
entre 
o 
mundo 
natural 
da 
vida 
cotidiana 
e 
um 
mundo 
invisvel, 
que 
ele 
no 
chamava 
de 
sobrenatural, 
e 
sim 
de 
segunda 
ateno. 
Seu 
papel 
como 
professor 


#
era 
tornar 
acessvel 
a 
mim 
essa 
configurao 
que 
os 
feiticeiros 
chamam 
de 
segunda 
ateno. 
Em 
meus 
trabalhos 
anteriores 
descrevi 
seus 
mtodos 
de 
ensino 
com 
relao 
a 
ela, 
bem 
como 
as 
artes 
de 
feitiaria 
que 
ele 
me 
fez 
praticar. 
A 
mais 
importante 
chamava-se 
a 
arte 
do 
sonhar. 


Dom 
Juan 
afirmava 
que 
nosso 
mundo, 
que 
acreditamos 
ser 
nico 
e 
absoluto, 
 
apenas 
um 
em 
meio 
a 
um 
conjunto 
de 
mundos 
consecutivos, 
arrumados 
como 
as 
camadas 
de 
uma 
cebola. 
Dizia 
que, 
apesar 
de 
sermos 
energeticamente 
condicionados 
a 
perceber 
apenas 
nosso 
mundo, 
ainda 
temos 
a 
capacidade 
de 
entrar 
nessas 
outras 
regies 
 
que 
so 
to 
reais, 
nicas, 
absolutas 
e 
envolventes 
como 
o 
nosso 
mundo. 


Dom 
Juan 
explicou 
que, 
para 
percebermos 
essas 
outras 
regies, 
precisamos 
no 
apenas 
desej-las. 
Precisamos 
de 
energia 
suficiente 
para 
agarr-las. 
Ele 
dizia 
que 
sua 
existncia 
 
constante 
e 
independe 
de 
nosso 
conhecimento, 
mas 
sua 
inacessibilidade 
 
totalmente 
conseqncia 
de 
nosso 
condicionamento 
energtico. 
Em 
outras 
palavras: 
apenas 
por 
causa 
de 
nosso 
condicionamento 
somos 
compelidos 
a 
presumir 
que 
o 
mundo 
de 
nossa 
vida 
cotidiana 
 
o 
nico 
mundo 
possvel. 


Acreditando 
que 
somente 
nosso 
condicionamento 
energtico 
nos 
impede 
de 
entrar 
nessas 
outras 
regies, 
Dom 
Juan 
afirmava 
que 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
desenvolveram 
um 
conjunto 
de 
prticas 
destinadas 
a 
recondicionar 
nossas 
capacidades 
energticas 
de 
perceber. 
Chamavam 
esse 
conjunto 
de 
prticas 
de 
a 
arte 
do 
sonhar. 


Com 
a 
perspectiva 
proporcionada 
pelo 
tempo, 
percebo 
agora 
que 
a 
afirmao 
mais 
adequada 
que 
Dom 
Juan 
fez 
sobre 
o 
sonho 
foi 
cham-lo 
de 
porto 
para 
o 
infinito. 
Observei, 
no 
momento 
em 
que 
ele 
disse, 
que 
a 
metfora 
no 
tinha 
qualquer 
significado 
para 
mim. 


 
Ento 
vamos 
deixar 
as 
metforas 
de 
lado 
 
ele 
admitiu. 
 
Digamos 
que 
sonhar 
 
o 
meio 
prtico 
dos 
feiticeiros 
utilizarem 
os 
sonhos 
comuns. 


 
Mas 
como 
os 
sonhos 
comuns 
podem 
ser 
utilizados? 
 


#
perguntei. 


 
As 
palavras 
esto 
sempre 
pregando 
peas 
 
disse 
ele. 
 
No 
meu 
caso, 
meu 
professor 
tentou 
descrever 
o 
que 
era 
o 
sonhar 
dizendo 
que 
era 
o 
modo 
dos 
feiticeiros 
dizerem 
boa-noite 
ao 
mundo. 
 
claro 
que 
ele 
estava 
amoldando 
sua 
descrio 
para 
que 
ela 
se 
adaptasse 
mentalmente 
a 
mim. 
Estou 
fazendo 
o 
mesmo 
com 
voc. 
Em 
outra 
ocasio 
Dom 
Juan 
me 
disse: 


 
Sonhar 
s 
pode 
ser 
experimentado. 
Sonhar 
no 
 
apenas 
ter 
sonhos; 
nem 
devaneios 
ou 
desejos 
ou 
imaginao. 
Sonhando 
podemos 
perceber 
outros 
mundos, 
que 
certamente 
podemos 
descrever; 
mas 
no 
podemos 
descrever 
o 
que 
nos 
faz 
perceb-los. 
No 
entanto 
podemos 
sentir 
de 
que 
modo 
o 
sonhar 
abre 
essas 
outras 
regies. 
Sonhar 
parece 
uma 
sensao; 
um 
processo 
em 
nossos 
corpos, 
uma 
percepo 
em 
nossas 
mentes. 
No 
decorrer 
de 
seus 
ensinamentos 
gerais, 
Dom 
Juan 
me 
explicou 
por 
completo 
os 
princpios, 
os 
fundamentos 
e 
as 
prticas 
da 
arte 
do 
sonhar. 
Sua 
instruo 
foi 
dividida 
em 
duas 
partes. 
Uma 
era 
sobre 
os 
procedimentos 
de 
sonhar; 
a 
outra 
sobre 
as 
explicaes 
puramente 
abstratas 
desses 
procedimentos. 
Seu 
mtodo 
de 
ensino 
era 
uma 
interao 
entre 
estimular 
minha 
curiosidade 
intelectual 
com 
relao 
aos 
princpios 
abstratos 
de 
sonhar 
e 
guiar-me 
para 
que 
eu 
buscasse 
um 
escoadouro 
em 
suas 
prticas. 


J 
descrevi 
tudo 
isso, 
com 
mximo 
de 
detalhes 
de 
que 
fui 
capaz. 
E 
tambm 
descrevi 
o 
ambiente 
dos 
feiticeiros, 
onde 
Dom 
Juan 
me 
colocou 
com 
o 
objetivo 
de 
me 
ensinar 
suas 
artes. 
Eu 
tinha 
um 
interesse 
especial 
pela 
interao 
nesse 
ambiente 
de 
feiticeiros, 
porque 
ela 
ocorria 
totalmente 
na 
segunda 
ateno. 
Ali 
eu 
interagia 
com 
as 
dez 
mulheres 
e 
os 
cinco 
homens 
que 
eram 
os 
companheiros 
de 
feitiaria 
de 
Dom 
Juan; 
e 
com 
os 
quatro 
homens 
jovens 
e 
as 
quatro 
mulheres 
jovens 
que 
eram 
seus 
aprendizes. 


Dom 
Juan 
reuniu-os 
imediatamente 
depois 
de 
eu 
ter 
entrado 
em 
seu 
mundo. 
Deixou 
claro 
para 
mim 
que 
eles 
formavam 
um 
grupo 
tradicional 
de 
feiticeiros 
 
uma 
rplica 
do 
grupo 
do 
qual 
ele 
fizera 


#
parte 
 
e 
que 
eu 
deveria 
lider-los. 
Entretanto, 
trabalhando 
comigo, 
Dom 
Juan 
percebeu 
que 
eu 
era 
diferente 
do 
que 
ele 
esperava. 
Explicou 
essa 
diferena 
em 
termos 
de 
uma 
configurao 
vista 
apenas 
pelos 
feiticeiros: 
em 
vez 
de 
ter 
quatro 
compartimentos 
de 
energia, 
como 
ele, 
eu 
possua 
apenas 
trs. 
Essa 
configurao, 
que 
ele 
equivocadamente 
esperava 
ser 
uma 
falha 
corrigvel, 
tornava-me 
to 
inadequado 
para 
liderar 
ou 
interagir 
com 
aqueles 
oito 
aprendizes 
que 
se 
tornou 
imperativo 
para 
Dom 
Juan 
reunir 
outro 
grupo 
de 
pessoas 
diferentes, 
mais 
de 
acordo 
com 
minha 
estrutura 
energtica. 


J 
escrevi 
muito 
sobre 
esses 
eventos. 
Entretanto 
nunca 
mencionei 
o 
segundo 
grupo 
de 
aprendizes; 
Dom 
Juan 
no 
me 
permitiu. 
Argumentava 
que 
eles 
estavam 
exclusivamente 
no 
meu 
campo, 
e 
que 
o 
acordo 
que 
eu 
tinha 
com 
ele 
era 
de 
escrever 
sobre 
o 
seu 
campo, 
e 
no 
sobre 
o 
meu. 


O 
segundo 
grupo 
de 
aprendizes 
era 
extremamente 
compacto. 
Tinha 
apenas 
trs 
membros: 
uma 
sonhadora, 
Florinda 
Donner; 
uma 
espreitadora, 
Taisha 
Abelar; 
e 
uma 
mulher 
nagual, 
Carol 
Tiggs. 


Interagamos 
apenas 
na 
segunda 
ateno. 
No 
mundo 
da 
vida 
cotidiana 
nem 
mesmo 
tnhamos 
uma 
vaga 
noo 
uns 
dos 
outros. 
No 
relacionamento 
com 
Dom 
Juan, 
entretanto, 
nada 
havia 
de 
vago; 
ele 
punha 
um 
enorme 
empenho 
em 
treinar 
igualmente 
todos 
ns. 
Mas 
como 
o 
tempo 
dele 
estava 
perto 
de 
acabar, 
a 
presso 
psicolgica 
de 
sua 
partida 
comeou 
a 
desmoronar 
as 
fronteiras 
rgidas 
da 
segunda 
ateno. 
O 
resultado 
foi 
que 
nossa 
interao 
comeou 
a 
escorregar 
para 
o 
mundo 
das 
questes 
cotidianas. 
E 
nos 
encontramos, 
parece, 
pela 
primeira 
vez. 


Nenhum 
de 
ns 
sabia 
conscientemente 
de 
nossa 
interao 
rdua 
e 
profunda 
na 
segunda 
ateno. 
Como 
todos 
estvamos 
envolvidos 
em 
estudos 
acadmicos, 
terminamos 
mais 
do 
que 
chocados 
ao 
descobrir 
que 
j 
nos 
havamos 
encontrado 
antes. 
Claro 
que, 
intelectualmente, 
isso 
era 
e 
ainda 
 
inadmissvel 
para 
ns; 
e 
ainda 
assim, 
sabamos, 
estava 
dentro 
de 
nossa 
experincia. 
Ficamos 
portanto 
com 
o 
conhecimento 
inquietante 
de 
que 
a 
psique 
humana 
 


#
infinitamente 
mais 
complexa 
do 
que 
nosso 
raciocnio 
mundano 
ou 
acadmico 
nos 
levara 
a 
acreditar. 


Uma 
vez 
pedimos 
a 
Dom 
Juan, 
em 
unssono, 
que 
esclarecesse 
nossa 
situao. 
Ele 
disse 
que 
tinha 
duas 
opes 
para 
explicar. 
Uma 
era 
remendar 
nossa 
racionalidade 
ferida, 
dizendo 
que 
a 
segunda 
ateno 
era 
um 
estado 
perceptivo 
to 
ilusrio 
quanto 
elefantes 
voando 
no 
cu, 
e 
que 
tudo 
que 
achvamos 
ter 
experimentado 
naquele 
estado 
era 
simplesmente 
produto 
de 
sugestes 
hipnticas. 
A 
outra 
opo 
era 
explic-la 
de 
acordo 
com 
a 
compreenso 
dos 
feiticeiros 
sonhadores: 
como 
uma 
configurao 
energtica 
da 
conscincia. 


Durante 
a 
realizao 
de 
minhas 
tarefas 
de 
sonho, 
entretanto, 
a 
barreira 
da 
segunda 
ateno 
permanecia 
imutvel. 
Todas 
as 
vezes 
em 
que 
eu 
entrava 
no 
sonho 
tambm 
entrava 
na 
segunda 
ateno, 
e 
acordar 
do 
sonho 
no 
significava 
necessariamente 
deixar 
a 
segunda 
ateno. 
Durante 
anos 
s 
podia 
recordar 
pequenos 
pedaos 
de 
minhas 
experincias 
nos 
sonhos. 
O 
cerne 
principal 
do 
que 
eu 
fazia 
no 
me 
estava 
disponvel 
energeticamente. 
Demorei 
quinze 
anos 
de 
trabalho 
ininterrupto, 
de 
1973 
a 
1988, 
at 
acumular 
energia 
bastante 
para 
reordenar 
tudo 
na 
minha 
mente. 
Ento 
recordei 
seqncias 
e 
mais 
seqncias 
de 
acontecimentos 
sonhados, 
e 
pude 
preencher 
enfim 
alguns 
aparentes 
lapsos 
de 
memria. 
Desse 
modo 
capturei 
a 
continuidade 
intrnseca 
das 
lies 
de 
Dom 
Juan 
sobre 
a 
arte 
de 
sonhar; 
uma 
continuidade 
que 
eu 
havia 
perdido 
porque 
ele 
me 
fazia 
oscilar 
entre 
a 
conscincia 
de 
nossa 
vida 
cotidiana 
e 
a 
conscincia 
da 
segunda 
ateno. 
Este 
trabalho 
 
o 
resultado 
desse 
reordenamento. 


Tudo 
isso 
me 
traz 
de 
volta 
ao 
final 
de 
minha 
declarao: 
o 
motivo 
de 
escrever 
este 
livro. 
Estando 
de 
posse 
da 
maioria 
das 
lies 
de 
Dom 
Juan 
sobre 
a 
arte 
de 
sonhar, 
gostaria 
de 
explicar, 
num 
trabalho 
futuro, 
a 
posio 
e 
o 
interesse 
atual 
de 
seus 
quatro 
ltimos 
alunos: 
Florinda 
Donner, 
Taisha 
Abelar, 
Carol 
Tiggs 
e 
eu. 
Mas 
antes 
de 
descrever 
e 
explicar 
o 
resultado 
da 
liderana 
e 
da 
influncia 
de 


#
Dom 
Juan 
sobre 
ns, 
devo 
revisar 
 
 
luz 
do 
que 
sei 
agora 
 
as 
partes 
das 
lies 
sobre 
sonhos 
s 
quais 
no 
tive 
acesso 
antes. 


Entretanto, 
o 
verdadeiro 
motivo 
deste 
trabalho 
foi 
dado 
por 
Carol 
Tiggs. 
Ela 
acredita 
que 
explicar 
o 
mundo 
que 
Dom 
Juan 
nos 
deixou 
de 
herana 
 
a 
expresso 
definitiva 
de 
nossa 
gratido 
e 
de 
nosso 
compromisso 
com 
sua 
busca. 


#
A 
ARTE 
DO 
SONHAR 


#
1 


FEITICEIROS 
DA 
ANTIGIDADE: 
UMA 
INTRODUO 


D
D
om 
Juan 
enfatizava 
repetidamente 
que 
tudo 
que 
estava 
me 
ensinando 
fora 
imaginado 
e 
elaborado 
por 
homens 
aos 
quais 
se 
referia 
como 
feiticeiros 
da 
antigidade. 
Deixou 
muito 
claro 
que 
havia 
uma 
diferena 
profunda 
entre 
aqueles 
feiticeiros 
e 
os 
feiticeiros 
dos 
tempos 
modernos. 
Ele 
categorizava 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
como 
homens 
que 
existiram 
no 
Mxico 
h 
talvez 
milhares 
de 
anos 
antes 
da 
conquista 
espanhola; 
homens 
cuja 
maior 
realizao 
fora 
construir 
as 
estruturas 
da 
feitiaria, 
enfatizando 
o 
aspecto 
prtico 
e 
a 
concretude. 
Apresentava-os 
como 
homens 
brilhantes 
mas 
que 
careciam 
de 
sabedoria. 
Os 
feiticeiros 
modernos, 
por 
outro 
lado, 
eram 
retratados 
por 
Dom 
Juan 
como 
homens 
conhecidos 
pela 
mente 
sadia 
e 
pela 
capacidade 
de 
retificar 
o 
curso 
da 
feitiaria, 
caso 
achem 
necessrio. 


Dom 
Juan 
explicou 
que 
os 
princpios 
da 
feitiaria 
relativos 
ao 
sonhar 
haviam 
sido 
naturalmente 
imaginados 
e 
desenvolvidos 
pelos 
feiticeiros 
da 
antigidade. 
Como 
essas 
premissas 
so 
fundamentais 
na 
explicao 
e 
na 
compreenso 
do 
que 
 
sonhar, 
preciso 
escrever 
sobre 
elas 
e 
discuti-las 
de 
novo. 
A 
maior 
parte 
deste 
livro, 
portanto, 
 
uma 
reintroduo 
e 
uma 
ampliao 
do 
que 
j 
apresentei 
em 
meus 
trabalhos 
anteriores. 


Durante 
uma 
de 
nossas 
conversas 
Dom 
Juan 
afirmou 
que, 
com 
o 
objetivo 
de 
avaliar 
a 
posio 
dos 
sonhadores 
e 
do 
ato 
de 


#
sonhar, 
precisamos 
compreender 
a 
luta 
dos 
feiticeiros 
modernos 
para 
afastar 
a 
feitiaria 
da 
concretude, 
levando-a 
em 
direo 
ao 
abstrato. 


 
O 
que 
voc 
chama 
de 
concretude, 
Dom 
Juan? 
 
A 
parte 
prtica 
da 
feitiaria 
 
disse 
ele. 
 
A 
fixao 
obsessiva 
da 
mente 
nas 
prticas 
e 
nas 
tcnicas; 
a 
influncia 
desautorizada 
sobre 
as 
pessoas. 
Tudo 
que 
estava 
no 
mbito 
dos 
feiticeiros 
do 
passado. 
 
E 
o 
que 
voc 
chama 
de 
abstrato? 
 
A 
busca 
de 
liberdade; 
liberdade 
de 
perceber, 
sem 
obsesses, 
tudo 
que 
 
humanamente 
possvel. 
Digo 
que 
os 
feiticeiros 
de 
hoje 
em 
dia 
buscam 
o 
abstrato 
porque 
buscam 
a 
liberdade; 
eles 
no 
tm 
interesse 
nos 
ganhos 
concretos. 
No 
existem 
funes 
sociais 
para 
eles, 
como 
havia 
para 
os 
feiticeiros 
do 
passado. 
De 
modo 
que 
voc 
nunca 
os 
ver 
como 
os 
videntes 
oficiais 
ou 
os 
feiticeiros 
residentes. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
o 
passado 
no 
tem 
valor 
para 
os 
feiticeiros 
modernos? 
 
Claro 
que 
tem 
valor. 
 
do 
sabor 
daquele 
passado 
que 
no 
gosto. 
Pessoalmente 
detesto 
a 
escurido 
e 
a 
morbidez 
da 
mente. 
Gosto 
da 
imensido 
do 
pensamento. 
Entretanto, 
a 
despeito 
do 
que 
gosto 
e 
do 
que 
no 
gosto, 
tenho 
de 
dar 
crdito 
aos 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
porque 
foram 
os 
primeiros 
a 
descobrir 
e 
a 
fazer 
tudo 
que 
conhecemos 
e 
fazemos 
hoje 
em 
dia. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
o 
feito 
mais 
importante 
deles 
foi 
perceber 
a 
essncia 
energtica 
das 
coisas. 
Foi 
to 
importante 
que 
se 
tornou 
a 
premissa 
bsica 
da 
feitiaria. 
Atualmente, 
depois 
de 
toda 
uma 
vida 
de 
disciplina 
e 
exerccios, 
os 
feiticeiros 
adquirem 
a 
capacidade 
de 
perceber 
a 
essncia 
das 
coisas; 
uma 
capacidade 
que 
chamam 
de 
ver. 


 
O 
que 
significaria 
para 
mim 
perceber 
a 
essncia 
energtica 
das 
coisas? 
 
perguntei 
um 
dia 
a 
Dom 
Juan. 
 
Significaria 
que 
voc 
percebe 
a 
energia 
diretamente. 
Separando 
a 
parte 
social 
da 
percepo, 
voc 
perceber 
a 
essncia 
de 
#
tudo. 
Tudo 
que 
percebemos 
 
energia, 
mas 
como 
no 
podemos 
perceber 
energia 
diretamente, 
processamos 
nossa 
percepo 
para 
que 
ela 
se 
adapte 
a 
um 
molde. 
Esse 
molde 
 
a 
parte 
social 
da 
percepo, 
que 
voc 
precisa 
separar. 


 
Por 
que 
preciso 
separ-la? 
 
Porque 
ela 
reduz 
deliberadamente 
o 
mbito 
do 
que 
pode 
ser 
percebido, 
e 
faz 
com 
que 
acreditemos 
que 
o 
molde 
em 
que 
enquadramos 
nossa 
percepo 
 
tudo 
o 
que 
existe. 
Estou 
convencido 
de 
que, 
para 
o 
homem 
sobreviver 
agora, 
a 
base 
social 
de 
sua 
percepo 
deve 
mudar. 
 
O 
que 
 
essa 
base 
social 
da 
percepo, 
Dom 
Juan? 
 
A 
certeza 
fsica 
de 
que 
o 
mundo 
 
feito 
de 
objetos 
concretos. 
Chamo 
isso 
de 
base 
social 
porque 
todo 
mundo 
empenha 
um 
grande 
esforo 
em 
levar-nos 
a 
perceber 
o 
mundo 
do 
jeito 
que 
percebemos. 
 
Ento 
como 
deveramos 
perceber 
o 
mundo? 
 
Tudo 
 
energia. 
Todo 
o 
universo 
 
energia. 
A 
base 
social 
de 
nossa 
percepo 
deveria 
ser 
a 
certeza 
fsica 
de 
que 
a 
energia 
 
tudo 
que 
existe. 
Deveria 
ser 
realizado 
um 
esforo 
gigantesco 
para 
levar-
nos 
a 
perceber 
energia 
como 
energia. 
Ento 
teramos 
as 
duas 
alternativas 
 
mo. 
 
 
possvel 
treinar 
as 
pessoas 
a 
fazer 
isso? 
 
perguntei. 
Dom 
Juan 
respondeu 
que 
era 
possvel. 
E 
que 
era 
precisamente 
isso 
que 
ele 
estava 
fazendo 
comigo 
e 
com 
seus 
outros 
aprendizes. 
Estava 
nos 
ensinando 
um 
novo 
modo 
de 
perceber; 
primeiramente 
fazendo 
com 
que 
notssemos 
que 
processamos 
nossa 
percepo 
para 
adapt-la 
a 
um 
molde 
e, 
em 
segundo 
lugar, 
empurrando-nos 
para 
que 
percebssemos 
diretamente 
a 
energia. 
Assegurou-me 
que 
esse 
mtodo 
era 
muito 
parecido 
com 
o 
que 
 
usado 
para 
ensinar 
a 
perceber 
o 
mundo 
cotidiano. 


Dom 
Juan 
achava 
que 
a 
armadilha 
de 
processar 
nossa 
percepo 
para 
que 
se 
adapte 
a 
um 
molde 
perde 
sua 
fora 
quando 
percebemos 
que 
aceitamos 
esse 
molde, 
como 
herana 
de 
nossos 
ancestrais, 
sem 
nos 
preocuparmos 
em 
examin-lo. 


#
 
Para 
a 
sobrevivncia 
de 
nossos 
ancestrais 
deve 
ter 
sido 
absolutamente 
necessrio 
perceber 
um 
mundo 
de 
objetos 
duros, 
com 
valores 
positivos 
ou 
negativos 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Depois 
de 
eras 
percebendo 
as 
coisas 
desse 
modo, 
somos 
agora 
forados 
a 
acreditar 
que 
o 
mundo 
 
feito 
de 
objetos. 
 
No 
posso 
conceber 
o 
mundo 
de 
outro 
modo, 
Dom 
Juan 
 
reclamei. 
 
Esse 
 
inquestionavelmente 
um 
mundo 
de 
objetos. 
Para 
provar 
s 
precisamos 
tropear 
neles. 


 
Claro 
que 
 
um 
mundo 
de 
objetos. 
No 
estamos 
discutindo 
isso. 
 
Ento, 
o 
que 
voc 
est 
dizendo? 
 
Estou 
dizendo 
que 
em 
primeiro 
lugar 
este 
 
um 
mundo 
de 
energia, 
e 
depois 
um 
mundo 
de 
objetos. 
Se 
no 
partirmos 
da 
premissa 
de 
que 
este 
 
um 
mundo 
de 
energia, 
nunca 
poderemos 
perceber 
a 
energia 
diretamente. 
Seremos 
sempre 
impedidos 
pela 
certeza 
fsica 
do 
que 
acabamos 
de 
mostrar: 
a 
dureza 
dos 
objetos. 
Para 
mim 
seu 
argumento 
era 
mistificador 
demais. 
Naqueles 
dias 
minha 
mente 
se 
recusava 
por 
completo 
a 
considerar 
qualquer 
alternativa 
 
compreenso 
do 
mundo 
com 
a 
qual 
eu 
era 
familiarizado. 
As 
afirmaes 
de 
Dom 
Juan 
e 
as 
questes 
que 
ele 
formulava 
eram 
propostas 
exticas 
que 
eu 
no 
conseguia 
aceitar, 
mas 
que 
tampouco 
podia 
recusar. 


 
Nosso 
modo 
de 
perceber 
 
o 
modo 
do 
predador 
 
ele 
me 
disse 
uma 
ocasio. 
 
Um 
jeito 
muito 
eficiente 
de 
avaliar 
e 
classificar 
a 
comida 
e 
o 
perigo. 
Mas 
no 
 
o 
nico 
jeito 
que 
temos 
de 
perceber. 
H 
outro 
modo, 
aquele 
com 
o 
qual 
estou 
familiarizando 
voc; 
o 
ato 
de 
perceber 
diretamente 
a 
essncia 
de 
tudo, 
da 
prpria 
energia. 
Perceber 
a 
essncia 
de 
tudo 
ir 
nos 
fazer 
compreender, 
classificar 
e 
descrever 
o 
mundo 
em 
termos 
completamente 
novos, 
mais 
emocionantes 
e 
mais 
sofisticados. 
Isso 
era 
o 
que 
Dom 
Juan 
dizia. 
E 
os 
termos 
mais 
sofisticados 
aos 
quais 
aludia 
eram 
os 
que 
havia 
aprendido 
com 
seus 
predecessores; 
termos 
que 
correspondiam 
a 
verdades 
da 
feitiaria, 
que 
no 
tm 
fundamento 
racional 
nem 


#
qualquer 
relao 
com 
os 
fatos 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano, 
mas 
que 
so 
verdades 
auto-evidentes 
para 
os 
feiticeiros 
que 
percebem 
diretamente 
a 
energia, 
e 
que 
vem 
a 
essncia 
de 
tudo. 


Para 
esses 
feiticeiros 
o 
ato 
mais 
significativo 
da 
feitiaria 
 
ver 
a 
essncia 
do 
universo. 
A 
verso 
de 
Dom 
Juan 
 
que 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
os 
primeiros 
a 
ver 
a 
essncia 
do 
universo, 
descreveram-
na 
da 
melhor 
maneira. 
Disseram 
que 
a 
essncia 
do 
universo 
lembra 
fios 
incandescentes, 
esticados 
at 
o 
infinito 
em 
todas 
as 
direes 
concebveis; 
filamentos 
luminosos 
com 
uma 
conscincia 
de 
si 
prprios 
impossvel 
de 
ser 
compreendida 
pela 
mente 
humana. 


Depois 
de 
ver 
a 
essncia 
do 
universo, 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
passaram 
a 
ver 
a 
essncia 
energtica 
dos 
seres 
humanos. 
Dom 
Juan 
afirmou 
que 
eles 
descreviam 
os 
seres 
humanos 
como 
formas 
cheias 
de 
brilho 
que 
lembravam 
ovos 
gigantes, 
e 
chamavam-nos 
de 
ovos 
luminosos. 


 
Quando 
os 
feiticeiros 
vem 
os 
seres 
humanos 
 
disse 
Dom 
Juan 
 
vem 
uma 
gigantesca 
forma 
luminosa 
que 
flutua 
fazendo, 
enquanto 
se 
move, 
um 
sulco 
profundo 
na 
energia 
da 
terra; 
exatamente 
como 
se 
a 
forma 
luminosa 
tivesse 
uma 
raiz 
que 
fosse 
sendo 
arrastada. 
Dom 
Juan 
tinha 
a 
impresso 
de 
que 
nossa 
forma 
energtica 
muda 
com 
o 
correr 
do 
tempo. 
Disse 
que 
todo 
vidente 
que 
conhecia, 
inclusive 
ele 
prprio, 
via 
que 
os 
seres 
humanos 
tinham 
mais 
a 
forma 
de 
bolas 
ou 
mesmo 
de 
lpides 
do 
que 
de 
ovos. 
Mas, 
de 
vez 
em 
quando, 
e 
por 
algum 
motivo 
que 
desconhecem, 
os 
feiticeiros 
vem 
uma 
pessoa 
cuja 
energia 
tem 
a 
forma 
de 
um 
ovo. 
Talvez 
as 
pessoas 
que 
hoje 
em 
dia 
tm 
a 
forma 
de 
ovo 
sejam 
mais 
parecidas 
com 
as 
pessoas 
da 
antigidade, 
foi 
o 
que 
Dom 
Juan 
sugeriu. 


No 
transcorrer 
de 
seus 
ensinamentos, 
Dom 
Juan 
discutiu 
e 
explicou 
repetidamente 
o 
que 
ele 
considerava 
a 
descoberta 
decisiva 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade. 
Chamou-a 
de 
caracterstica 
crucial 
dos 
seres 
humanos, 
como 
bolas 
luminosas: 
um 
ponto 
esfrico 
de 
brilho 
intenso, 
do 
tamanho 
de 
uma 
bola 
de 
tnis, 
permanentemente 


#
alojado 
dentro 
da 
bola 
luminosa, 
emparelhada 
com 
sua 
superfcie, 
cerca 
de 
sessenta 
centmetros 
atrs 
da 
omoplata 
direita 
da 
pessoa. 


Como 
eu 
tinha 
dificuldade 
em 
visualizar 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
Dom 
Juan 
descreveu 
aquilo, 
ele 
me 
explicou 
que 
a 
bola 
luminosa 
 
muito 
maior 
do 
que 
o 
corpo 
humano; 
que 
o 
ponto 
de 
brilho 
intenso 
faz 
parte 
dessa 
bola 
de 
energia; 
e 
que 
est 
localizado 
na 
altura 
das 
omoplatas, 
 
distncia 
de 
um 
brao 
a 
partir 
das 
costas 
da 
pessoa. 
Disse 
que 
os 
antigos 
feiticeiros 
deram-lhe 
o 
nome 
de 
ponto 
de 
aglutinao, 
depois 
de 
ver 
o 
que 
ele 
faz. 


 
O 
que 
faz 
o 
ponto 
de 
aglutinao? 
 
perguntei. 
 
Faz 
com 
que 
percebamos. 
Os 
antigos 
feiticeiros 
viram 
que, 
nos 
seres 
humanos, 
a 
percepo 
 
aglutinada 
ali, 
naquele 
ponto. 
Ao 
ver 
que 
todos 
os 
seres 
humanos 
tm 
um 
ponto 
brilhante 
como 
esse, 
os 
feiticeiros 
antigos 
conjecturaram 
que 
a 
percepo 
em 
geral 
deve 
acontecer 
naquele 
ponto, 
de 
algum 
modo 
pertinente. 
 
O 
que 
os 
antigos 
feiticeiros 
viram, 
fazendo-os 
concluir 
que 
a 
percepo 
acontece 
no 
ponto 
de 
aglutinao? 
Ele 
respondeu 
que, 
primeiro, 
eles 
viram 
que 
dos 
milhes 
de 
filamentos 
de 
energia 
do 
universo 
que 
passam 
pela 
bola 
luminosa, 
apenas 
um 
pequeno 
nmero 
passa 
diretamente 
atravs 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
como 
 
de 
se 
esperar 
devido 
ao 
seu 
pequeno 
tamanho 
em 
relao 
ao 
todo. 


Em 
seguida 
eles 
viram 
que 
um 
brilho 
esfrico 
extra, 
ligeiramente 
maior 
do 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao, 
estava 
sempre 
rodeando-o, 
intensificando 
grandemente 
a 
luminosidade 
dos 
filamentos 
que 
passavam 
diretamente 
por 
aquele 
brilho. 


E 
finalmente 
eles 
viram 
duas 
coisas. 
Uma, 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
dos 
seres 
humanos 
pode 
se 
deslocar 
do 
ponto 
onde 
est 
geralmente 
localizado. 
E 
duas, 
que 
quando 
est 
em 
sua 
posio 
habitual, 
a 
percepo 
e 
a 
conscincia 
parecem 
ser 
normais, 
julgando-se 
pelo 
comportamento 
normal 
dos 
indivduos 
que 
esto 
sendo 
observados. 
Mas 
quando 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
a 
esfera 
de 
brilho 
ao 
redor 
esto 
numa 
posio 
diferente 
da 
habitual, 
seu 


#
comportamento 
incomum 
parece 
ser 
a 
prova 
de 
que 
sua 
conscincia 
 
diferente, 
e 
de 
que 
esto 
percebendo 
de 
modo 
no-familiar. 


A 
concluso 
a 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
chegaram 
 
que, 
quanto 
maior 
o 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
mais 
incomum 
ser 
o 
comportamento 
conseqente 
e, 
claro, 
a 
conscincia 
e 
a 
percepo 
conseqentes. 


 
Observe 
que 
quando 
falo 
de 
ver, 
sempre 
digo 
tendo 
a 
aparncia 
de, 
ou 
parecia 
 
alertou-me 
Dom 
Juan. 
 
Tudo 
que 
vemos 
 
to 
especial 
que 
no 
h 
como 
falar 
a 
respeito, 
a 
no 
ser 
comparando 
com 
algo 
que 
nos 
seja 
familiar. 
Ele 
disse 
que 
o 
exemplo 
mais 
adequado 
dessa 
dificuldade 
 
o 
modo 
como 
os 
feiticeiros 
falam 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
do 
brilho 
que 
o 
rodeia. 
Descrevem-nos 
como 
brilho, 
e 
no 
entanto 
no 
pode 
ser 
brilho, 
porque 
so 
vistos 
sem 
os 
olhos. 
Eles 
tm 
de 
descontar 
a 
diferena 
e 
dizer 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
 
um 
ncleo 
de 
luz, 
e 
ao 
redor 
dele 
existe 
um 
halo, 
um 
brilho. 
Dom 
Juan 
lembrou 
que 
somos 
to 
visuais, 
to 
regulados 
por 
nossa 
percepo 
de 
predador 
que 
tudo 
que 
vemos 
deve 
ser 
descrito 
em 
termos 
do 
que 
o 
olho 
do 
predador 
normalmente 
v. 


Dom 
Juan 
disse 
que, 
depois 
de 
verem 
o 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
o 
seu 
brilho 
parecem 
estar 
fazendo, 
os 
feiticeiros 
antigos 
tentaram 
uma 
explicao. 
Propuseram 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
nos 
seres 
humanos, 
ao 
concentrar 
sua 
esfera 
brilhante 
nos 
filamentos 
de 
energia 
que 
passam 
diretamente 
atravs 
dele, 
automaticamente 
e 
sem 
qualquer 
premeditao 
aglutina 
esses 
filamentos 
de 
energia 
numa 
percepo 
fixa 
do 
mundo. 


 
Como 
esses 
filamentos 
de 
que 
voc 
fala 
so 
aglutinados 
numa 
percepo 
fixa 
do 
mundo? 
 
perguntei. 
 
 
possvel 
que 
ningum 
saiba 
 
ele 
respondeu 
enfatica-
mente. 
 
Os 
feiticeiros 
vem 
o 
movimento 
da 
energia, 
mas 
apenas 
ver 
o 
movimento 
da 
energia 
no 
lhes 
diz 
como 
ou 
por 
que 
a 
energia 
se 
move. 
Dom 
Juan 
afirmou 
que, 
ao 
ver 
que 
milhes 
de 
filamentos 
de 


#
energia 
consciente 
passam 
atravs 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
os 
feiticeiros 
antigos 
postularam 
que, 
ao 
passar 
atravs 
do 
mesmo, 
eles 
se 
juntam, 
reunidos 
pelo 
brilho 
que 
o 
rodeia. 
Depois 
de 
ver 
que 
o 
brilho 
 
extremamente 
fraco 
em 
pessoas 
que 
foram 
deixadas 
inconscientes 
ou 
que 
esto 
em 
vias 
de 
morrer, 
e 
totalmente 
ausentes 
nos 
cadveres, 
eles 
se 
convenceram 
de 
que 
esse 
brilho 
 
a 
conscincia. 


 
E 
quanto 
ao 
ponto 
de 
aglutinao? 
Ele 
est 
ausente 
nos 
cadveres? 
Ele 
respondeu 
que 
no 
h 
qualquer 
trao 
de 
um 
ponto 
de 
aglutinao 
nos 
mortos, 
porque 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
o 
brilho 
ao 
redor 
so 
a 
marca 
da 
vida 
e 
da 
conscincia. 
A 
concluso 
inevitvel 
dos 
feiticeiros 
antigos 
foi 
que 
a 
conscincia 
e 
a 
percepo 
esto 
juntas 
e 
que 
esto 
ligadas 
ao 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
ao 
brilho 
que 
o 
rodeia. 


 
Existe 
uma 
chance 
de 
que 
aqueles 
feiticeiros 
poderiam 
estar 
enganados 
sobre 
o 
que 
viam? 
 
perguntei. 
 
No 
posso 
explicar 
por 
que, 
mas 
no 
h 
como 
os 
feiticeiros 
se 
enganarem 
sobre 
o 
que 
vem 
 
disse 
Dom 
Juan 
num 
tom 
que 
no 
admitia 
contestao. 
 
Agora, 
as 
concluses 
a 
que 
eles 
podem 
chegar 
a 
partir 
de 
sua 
viso 
podem 
estar 
erradas, 
mas 
isso 
acontecer 
porque 
eles 
so 
ingnuos, 
no-cultivados. 
Para 
evitar 
esse 
desastre, 
os 
feiticeiros 
tm 
de 
cultivar 
suas 
mentes, 
do 
jeito 
que 
puderem. 
Em 
seguida 
ele 
suavizou 
a 
voz 
e 
disse 
que, 
sem 
dvida, 
seria 
infinitamente 
mais 
seguro 
para 
os 
feiticeiros 
permanecer 
apenas 
no 
nvel 
de 
descrever 
o 
que 
vem, 
mas 
que 
a 
tentao 
de 
concluir 
e 
explicar, 
ainda 
que 
apenas 
para 
si 
prprio, 
 
grande 
demais 
para 
se 
resistir. 


Os 
efeitos 
do 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
eram 
outra 
configurao 
energtica 
que 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
podiam 
ver 
e 
estudar. 
Dom 
Juan 
disse 
que, 
quando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
 
deslocado 
para 
outra 
posio, 
um 
novo 
conglomerado 
de 
milhes 
de 


#
filamentos 
luminosos 
de 
energia 
junta-se 
naquele 
ponto. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
viam 
isso 
e 
concluram 
que, 
como 
o 
brilho 
da 
conscincia 
est 
sempre 
presente 
onde 
quer 
que 
esteja 
o 
ponto 
de 
aglutinao, 
a 
percepo 
 
automaticamente 
aglutinada 
ali. 
Entretanto, 
devido 
 
posio 
diferente 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
o 
mundo 
resultante 
no 
pode 
ser 
o 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Ser 
outro. 


Dom 
Juan 
explicou 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
eram 
capazes 
de 
distinguir 
dois 
tipos 
de 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Um 
era 
um 
deslocamento 
para 
qualquer 
posio 
na 
superfcie 
ou 
no 
interior 
da 
bola 
luminosa; 
um 
deslocamento 
que 
chamavam 
de 
mudana 
no 
ponto 
de 
aglutinao. 
O 
outro 
era 
um 
deslocamento 
para 
posies 
fora 
da 
bola 
luminosa; 
chamavam-no 
de 
movimento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Eles 
descobriram 
que 
a 
diferena 
entre 
uma 
mudana 
e 
um 
movimento 
era 
a 
natureza 
da 
percepo 
que 
cada 
um 
deles 
permite. 


Como 
as 
mudanas 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
so 
deslocamentos 
dentro 
da 
bola 
luminosa, 
os 
mundos 
que 
eles 
engendram, 
no 
importando 
o 
quo 
bizarros, 
maravilhosos 
ou 
inacreditveis 
pudessem 
ser, 
ainda 
eram 
mundos 
pertencentes 
ao 
domnio 
humano. 
O 
domnio 
humano 
so 
os 
filamentos 
que 
passam 
atravs 
de 
toda 
a 
bola 
luminosa. 
Os 
movimentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
por 
outro 
lado, 
j 
que 
so 
deslocamentos 
para 
posies 
fora 
da 
bola 
luminosa, 
captam 
filamentos 
de 
energia 
que 
esto 
alm 
da 
compreenso; 
mundos 
inconcebveis 
sem 
nenhum 
trao 
de 
antecedentes 
humanos. 


Naqueles 
dias 
o 
problema 
da 
confirmao 
representava 
sempre 
um 
papel 
fundamental 
em 
minha 
mente 


 
Desculpe, 
Dom 
Juan 
 
falei 
numa 
ocasio 
, 
mas 
essa 
coisa 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
uma 
idia 
to 
distante, 
to 
inadmissvel 
que 
no 
sei 
como 
lidar 
com 
ela 
nem 
o 
que 
pensar 
a 
respeito. 
 
S 
h 
uma 
coisa 
para 
voc 
fazer 
 
ele 
retorquiu. 
 
Veja 
o 
ponto 
de 
aglutinao! 
No 
 
to 
difcil 
de 
ver. 
A 
dificuldade 
est 
em 
#
romper 
o 
muro 
retentor 
que 
todos 
temos 
em 
nossas 
mentes 
e 
que 
nos 
mantm 
no 
lugar. 
Para 
romp-lo, 
tudo 
que 
precisamos 
 
de 
energia. 
Assim 
que 
temos 
a 
energia, 
ver 
acontece 
por 
si. 
O 
truque 
 
abandonar 
nossa 
fortaleza 
de 
autocomplacncia 
e 
falsa 
segurana. 


 
Para 
mim 
 
bvio, 
Dom 
Juan, 
que 
 
preciso 
de 
muito 
conhecimento 
para 
ver. 
No 
 
apenas 
questo 
de 
ter 
energia. 
 
 
apenas 
questo 
de 
ter 
energia, 
pode 
acreditar. 
A 
parte 
difcil 
 
se 
convencer 
de 
que 
pode 
ser 
feito. 
Para 
isso 
voc 
precisa 
de 
confiar 
no 
Nagual. 
A 
maravilha 
da 
feitiaria 
 
que 
todo 
feiticeiro 
tem 
de 
provar 
tudo 
dentro 
de 
sua 
prpria 
experincia. 
Estou 
falando 
sobre 
os 
princpios 
da 
feitiaria 
no 
com 
a 
esperana 
de 
que 
voc 
os 
memorize, 
mas 
com 
a 
esperana 
de 
que 
voc 
os 
pratique. 
Sem 
dvida 
Dom 
Juan 
estava 
certo 
sobre 
a 
necessidade 
de 
confiar. 
Nos 
primeiros 
estgios 
dos 
meus 
treze 
longos 
anos 
de 
aprendizado 
com 
ele, 
a 
coisa 
mais 
difcil 
para 
mim 
foi 
me 
afiliar 
ao 
seu 
mundo 
e 
 
sua 
pessoa. 
Para 
mim 
essa 
afiliao 
significava 
aprender 
a 
confiar 
nele 
implicitamente 
e 
aceit-lo 
sem 
preconceitos 
como 
o 
Nagual. 


O 
papel 
de 
Dom 
Juan 
no 
mundo 
dos 
feiticeiros 
era 
sintetizado 
no 
ttulo 
que 
lhe 
foi 
concedido 
pelos 
seus 
pares. 
Ele 
era 
chamado 
de 


o 
Nagual. 
Foi-me 
explicado 
que 
esse 
conceito 
refere-se 
a 
qualquer 
pessoa, 
homem 
ou 
mulher, 
que 
possua 
um 
tipo 
especfico 
de 
configurao 
energtica, 
que 
para 
um 
vidente 
aparece 
como 
uma 
bola 
luminosa 
dupla. 
Os 
videntes 
acreditam 
que 
quando 
uma 
dessas 
pessoas 
entra 
no 
mundo 
dos 
feiticeiros 
aquela 
carga 
extra 
de 
energia 
transforma-se 
numa 
medida 
da 
fora 
e 
da 
capacidade 
de 
liderana. 
Assim, 
o 
Nagual 
 
o 
guia 
natural, 
o 
lder 
de 
um 
grupo 
de 
feiticeiros. 
A 
princpio, 
sentir 
essa 
confiana 
por 
Dom 
Juan 
era 
algo 
bastante 
perturbador 
para 
mim, 
quando 
no 
completamente 
odioso. 
Quando 
discuti 
isso 
com 
ele, 
ele 
me 
assegurou 
que 
para 
ele 
tambm 
fora 
igualmente 
difcil 
confiar 
em 
seu 
professor. 


 
Eu 
disse 
ao 
meu 
professor 
a 
mesma 
coisa 
que 
voc 
est 
me 
dizendo 
agora. 
Ele 
respondeu 
que 
sem 
confiar 
no 
Nagual 
no 
h 
#
possibilidade 
de 
alvio 
e, 
portanto, 
no 
h 
possibilidade 
de 
tirar 
os 
escombros 
de 
nossas 
vidas 
para 
sermos 
livres. 


Dom 
Juan 
reiterou 
o 
quanto 
seu 
professor 
estivera 
certo. 
E 
eu 
reiterei 
meu 
profundo 
desacordo. 
Falei 
que 
o 
fato 
de 
ter 
sido 
criado 
num 
ambiente 
religioso 
opressor 
resultara 
em 
efeitos 
pavorosos 
em 
mim. 
Que 
as 
afirmaes 
de 
seu 
professor 
e 
sua 
prpria 
concordncia 
me 
fizeram 
lembrar 
do 
dogma 
que 
tive 
de 
aprender 
quando 
criana, 
e 
que 
eu 
abominava. 


 
Parece 
que 
voc 
est 
exprimindo 
uma 
crena 
religiosa 
quando 
fala 
do 
Nagual 
 
eu 
disse. 
 
Voc 
pode 
acreditar 
no 
que 
quiser 
 
Dom 
Juan 
respondeu 
impvido. 
 
O 
fato 
 
que 
sem 
o 
Nagual 
no 
h 
jogo. 
Sei 
disso, 
e 
 
o 
que 
digo. 
O 
mesmo 
fizeram 
todos 
os 
naguais 
que 
vieram 
antes 
de 
mim. 
Mas 
eles 
no 
o 
dizem 
do 
ponto 
de 
vista 
da 
auto-importncia, 
nem 
eu. 
Dizer 
que 
no 
existe 
caminho 
sem 
o 
Nagual 
refere-se 
totalmente 
ao 
fato 
de 
que 
o 
homem 
 
um 
Nagual 
porque 
pode 
refletir 
o 
abstrato, 
o 
esprito, 
melhor 
do 
que 
os 
outros. 
Mas 
isso 
 
tudo. 
Nosso 
elo 
 
com 
o 
prprio 
esprito, 
e 
apenas 
incidentalmente 
com 
o 
homem 
que 
nos 
traz 
sua 
mensagem. 
Eu 
aprendi 
a 
confiar 
implicitamente 
em 
Dom 
Juan 
como 
o 
Nagual, 
e 
isso, 
como 
ele 
afirmara, 
trouxe-me 
uma 
imensa 
sensao 
de 
alvio, 
e 
uma 
capacidade 
maior 
de 
aceitar 
o 
que 
ele 
lutava 
para 
me 
ensinar. 


Em 
seus 
ensinamentos 
ele 
colocava 
grande 
nfase 
em 
explicar 
e 
discutir 
o 
ponto 
de 
aglutinao. 
Uma 
vez 
perguntei 
se 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
tinha 
alguma 
coisa 
a 
ver 
com 
o 
corpo 
fsico. 


 
No 
tem 
nada 
a 
ver 
com 
o 
que 
normalmente 
percebemos 
como 
o 
corpo 
 
disse 
ele. 
 
Faz 
parte 
do 
ovo 
luminoso, 
que 
 
nosso 
Eu 
energtico. 
 
Como 
 
que 
ele 
se 
desloca? 
 
Atravs 
de 
correntes 
de 
energia. 
Golpes 
de 
energia, 
originados 
fora 
ou 
dentro 
de 
nossa 
forma 
energtica. 
So 
em 
geral 
correntes 
imprevisveis 
que 
acontecem 
aleatoriamente, 
mas 
no 
caso 
#
dos 
feiticeiros 
so 
correntes 
muito 
previsveis 
que 
obedecem 
ao 
seu 
intento. 


 
Voc 
pode 
sentir 
essas 
correntes? 
 
Todo 
feiticeiro 
sente. 
Todo 
ser 
humano 
sente, 
mas 
o 
ser 
humano 
mdio 
vive 
muito 
preocupado 
com 
seus 
afazeres, 
para 
prestar 
ateno 
a 
esse 
tipo 
de 
sentimento. 
 
Como 
 
a 
sensao 
dessas 
correntes? 
 
Como 
um 
pequeno 
desconforto; 
uma 
sensao 
vaga 
de 
tristeza 
seguida 
imediatamente 
por 
euforia. 
Como 
nem 
a 
tristeza 
nem 
a 
euforia 
tm 
um 
fundamento 
real, 
nunca 
as 
vemos 
como 
verdadeiros 
golpes 
do 
desconhecido, 
e 
sim 
como 
uma 
melancolia 
inexplicvel 
e 
sem 
fundamento. 
 
O 
que 
acontece 
quando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
move-se 
para 
fora 
da 
forma 
energtica? 
Fica 
pairando 
do 
lado 
de 
fora? 
Ou 
grudado 
na 
bola 
luminosa? 
 
Ele 
empurra 
o 
contorno 
da 
forma 
energtica, 
sem 
quebrar 
as 
fronteiras 
de 
energia. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
o 
resultado 
final 
de 
um 
movimento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
uma 
mudana 
total 
na 
forma 
energtica 
dos 
seres 
humanos. 
Em 
vez 
de 
uma 
bola 
ou 
um 
ovo, 
eles 
se 
tornam 
algo 
parecido 
com 
um 
cachimbo. 
A 
extremidade 
do 
cabo 
 
o 
ponto 
de 
aglutinao, 
e 
o 
fornilho 
do 
cachimbo 
 
o 
que 
sobra 
da 
bola 
luminosa. 
Se 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
continuar 
se 
movendo, 
chega 
um 
momento 
em 
que 
a 
bola 
luminosa 
torna-se 
uma 
fina 
linha 
de 
energia. 


Dom 
Juan 
prosseguiu 
explicando 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
eram 
os 
nicos 
que 
realizavam 
esse 
feito 
da 
transformao 
da 
forma 
energtica. 
E 
eu 
perguntei 
se, 
em 
sua 
nova 
forma 
energtica, 
aqueles 
feiticeiros 
continuavam 
sendo 
homens. 


 
Claro 
que 
continuavam 
sendo 
homens. 
Mas 
acho 
que 
o 
que 
voc 
quer 
saber 
 
se 
eles 
ainda 
eram 
homens 
racionais, 
pessoas 
confiveis. 
Bem, 
no 
muito. 
 
Em 
que 
sentido 
eles 
eram 
diferentes? 
#
 
Em 
suas 
preocupaes. 
Os 
desejos 
e 
as 
preocupaes 
humanas 
no 
tinham 
qualquer 
significado 
para 
eles. 
E 
tambm 
tinham 
uma 
aparncia 
nova. 
 
Quer 
dizer 
que 
eles 
no 
pareciam 
homens? 
 
 
muito 
difcil 
dizer 
o 
que 
acontecia 
com 
aqueles 
feiticeiros. 
Eles 
certamente 
pareciam 
homens. 
Com 
o 
qu 
iriam 
parecer? 
Mas 
no 
eram 
o 
que 
voc 
ou 
eu 
esperaramos. 
No 
entanto, 
se 
voc 
me 
pressionar 
para 
dizer 
em 
que 
eram 
diferentes, 
vou 
ficar 
andando 
em 
crculos, 
como 
um 
cachorro 
caando 
o 
rabo. 
 
Voc 
j 
conheceu 
um 
desses 
homens, 
Dom 
Juan? 
 
Conheci 
um. 
 
Como 
ele 
era? 
 
Na 
aparncia, 
uma 
pessoa 
normal. 
O 
seu 
comportamento 
 
que 
era 
incomum. 
 
Incomum 
em 
que 
sentido? 
 
Tudo 
que 
posso 
dizer 
 
que 
o 
comportamento 
do 
feiticeiro 
que 
conheci 
 
algo 
que 
desafia 
a 
imaginao. 
Mas 
colocar 
como 
uma 
questo 
meramente 
de 
comportamento 
 
um 
equvoco. 
Na 
verdade 
 
uma 
coisa 
que 
voc 
precisa 
ver 
para 
avaliar. 
 
E 
todos 
aqueles 
feiticeiros 
eram 
como 
esse 
que 
voc 
conheceu? 
 
Certamente 
que 
no. 
No 
sei 
como 
eram 
os 
outros, 
a 
no 
ser 
por 
histrias 
de 
feiticeiros 
passadas 
de 
gerao 
em 
gerao. 
E 
essas 
histrias 
colocam-nos 
como 
bastante 
esquisitos. 
 
Voc 
quer 
dizer 
monstruosos? 
 
No 
de 
todo. 
Dizem 
que 
eles 
eram 
agradveis 
mas 
extremamente 
assustadores. 
Eram 
mais 
como 
criaturas 
desconhecidas. 
O 
que 
faz 
a 
humanidade 
ser 
homognea 
 
o 
fato 
de 
todos 
sermos 
bolas 
luminosas. 
E 
aqueles 
feiticeiros 
no 
eram 
mais 
bolas 
de 
energia, 
e 
sim 
linhas 
de 
energia 
que 
tentavam 
curvar-se 
num 
crculo 
fechado, 
o 
que 
eles 
no 
conseguiam 
fazer. 
 
O 
que 
finalmente 
aconteceu 
com 
eles, 
Dom 
Juan? 
Morreram? 
#
 
As 
histrias 
dos 
feiticeiros 
dizem 
que, 
como 
eles 
conseguiram 
esticar 
sua 
forma, 
tambm 
conseguiram 
esticar 
a 
durao 
de 
suas 
conscincias. 
De 
modo 
que 
esto 
vivos 
e 
conscientes 
at 
hoje. 
H 
histrias 
sobre 
aparecimentos 
peridicos 
na 
terra. 
 
O 
que 
voc 
acha 
disso 
tudo, 
Dom 
Juan? 
 
Para 
mim 
 
esquisito 
demais. 
Eu 
quero 
liberdade. 
Liberdade 
para 
manter 
minha 
conscincia 
e 
ainda 
assim 
desaparecer 
na 
vastido. 
Em 
minha 
opinio 
pessoal 
esses 
feiticeiros 
antigos 
eram 
homens 
extravagantes, 
obsessivos 
e 
caprichosos, 
que 
se 
tornaram 
presa 
de 
suas 
prprias 
maquinaes. 
Mas 
no 
deixe 
que 
meus 
sentimentos 
pessoais 
o 
influenciem. 
Os 
feitos 
dos 
feiticeiros 
antigos 
no 
tm 
paralelos. 
No 
mnimo 
eles 
nos 
provaram 
que 
o 
potencial 
do 
homem 
no 
 
coisa 
de 
se 
menosprezar. 


Outro 
tpico 
das 
explicaes 
de 
Dom 
Juan 
era 
que 
a 
uniformidade 
e 
a 
coeso 
energtica 
eram 
indispensveis 
para 
o 
objetivo 
de 
perceber. 
Ele 
dizia 
que 
a 
humanidade 
s 
percebe 
o 
mundo 
do 
jeito 
que 
o 
percebemos 
porque 
compartilhamos 
a 
uniformidade 
e 
a 
coeso 
energtica. 
Dizia 
que 
conseguimos 
automaticamente 
essas 
duas 
condies 
da 
energia 
enquanto 
somos 
criados; 
e 
que 
elas 
so 
um 
ponto 
to 
pacfico 
que 
no 
notamos 
sua 
importncia 
vital 
enquanto 
no 
ficamos 
diante 
da 
possibilidade 
de 
perceber 
outros 
mundos 
diferentes. 
Nesses 
momentos 
torna-se 
claro 
que 
precisamos 
de 
uma 
nova 
uniformidade 
e 
uma 
nova 
coeso 
energtica 
adequadas, 
para 
podermos 
perceber 
com 
coerncia 
e 
totalidade. 


Perguntei 
o 
que 
era 
uniformidade 
e 
coeso, 
e 
ele 
explicou 
que 
a 
forma 
energtica 
do 
homem 
tinha 
uniformidade 
no 
sentido 
de 
que 
todo 
ser 
humano 
na 
terra 
tem 
a 
forma 
de 
uma 
bola 
ou 
um 
ovo. 
E 
o 
fato 
de 
que 
a 
energia 
humana 
aglutina-se 
na 
forma 
de 
uma 
bola 
ou 
de 
um 
ovo 
prova 
que 
ela 
tem 
coeso. 
Ele 
disse 
que 
um 
exemplo 
de 
uma 
nova 
uniformidade 
e 
uma 
nova 
coeso 
acontecia 
quando 
a 


#
forma 
energtica 
dos 
feiticeiros 
antigos 
se 
tornava 
uma 
linha: 
cada 
um 
deles 
tornou-se 
uniformemente 
uma 
linha, 
e 
coesivamente 
permaneceu 
como 
uma 
linha. 
Uniformidade 
e 
coeso, 
num 
nvel 
linear, 
permitiu 
que 
aqueles 
feiticeiros 
antigos 
percebessem 
um 
novo 
mundo 
homogneo. 


 
Como 
se 
adquire 
a 
uniformidade 
e 
a 
coeso? 
 
perguntei. 
 
A 
chave 
para 
isso 
 
a 
posio 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
ou 
melhor, 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Ele 
no 
quis 
prosseguir. 
Ento 
perguntei 
se 
aqueles 
feiticeiros 
antigos 
poderiam 
ter 
revertido 
sua 
forma 
linear, 
para 
que 
ela 
voltasse 
a 
ser 
um 
ovo. 
Ele 
respondeu 
que 
at 
um 
determinado 
ponto 
poderiam, 
mas 
que 
no 
o 
fizeram. 
E 
ento 
a 
coeso 
linear 
se 
estabeleceu, 
e 
tornou 
a 
volta 
impossvel. 
Ele 
acreditava 
que 
o 
que 
realmente 
cristalizou 
aquela 
linha 
de 
coeso 
e 
impediu 
que 
fizessem 


o 
caminho 
de 
volta 
foi 
uma 
questo 
de 
escolha 
e 
cobia. 
O 
mbito 
das 
coisas 
que 
aqueles 
feiticeiros 
podiam 
perceber 
e 
fazer, 
na 
forma 
de 
linhas 
de 
energia, 
era 
astronomicamente 
maior 
do 
que 
um 
homem 
comum 
ou 
um 
feiticeiro 
comum 
podia 
fazer 
ou 
perceber. 
Explicou 
que 
o 
domnio 
do 
homem 
que 
tem 
a 
forma 
de 
uma 
bola 
de 
energia 
abrange 
os 
filamentos 
energticos 
que 
atravessam 
o 
espao 
contido 
nas 
fronteiras 
da 
bola. 
Normalmente 
no 
percebemos 
todo 
o 
domnio 
humano, 
mas 
talvez 
apenas 
um 
milsimo. 
Ele 
achava 
que, 
se 
levamos 
isso 
em 
considerao, 
torna-se 
aparente 
a 
enormidade 
do 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
faziam; 
eles 
se 
esticavam 
numa 
linha 
mil 
vezes 
maior 
do 
que 
o 
tamanho 
de 
um 
homem 
com 
a 
forma 
de 
bola 
de 
energia, 
e 
percebiam 
todos 
os 
filamentos 
de 
energia 
que 
passavam 
atravs 
daquela 
linha. 


Seguindo 
sua 
insistncia, 
fiz 
um 
esforo 
gigantesco 
para 
compreender 
o 
novo 
modelo 
de 
configurao 
energtica 
que 
ele 
me 
delineava. 
Finalmente, 
depois 
de 
muito 
pensar, 
pude 
acompanhar 
a 
idia 
de 
filamentos 
de 
energia 
dentro 
e 
ao 
redor 
da 
bola 
luminosa. 
Mas 
se 
eu 
pensasse 
numa 
multido 
de 
bolas 
luminosas 
o 
modelo 
se 
desmoronava 
em 
minha 
mente. 
Numa 
multido 
de 
bolas 
luminosas, 


#
pensei, 
os 
filamentos 
de 
energia 
que 
esto 
fora 
de 
uma 
delas 
estaro 
por 
fora 
dentro 
da 
que 
estiver 
ao 
lado. 
De 
modo 
que, 
numa 
multido, 
no 
poderia 
haver 
qualquer 
filamento 
de 
energia 
fora 
de 
alguma 
bola 
luminosa. 


 
Compreender 
isso 
tudo 
no 
 
um 
exerccio 
racional 
 
ele 
respondeu 
depois 
de 
ouvir 
atentamente 
meus 
argumentos. 
 
No 
tenho 
como 
explicar 
o 
que 
os 
feiticeiros 
querem 
dizer 
com 
filamentos 
dentro 
e 
fora 
da 
forma 
humana. 
Quando 
vem 
a 
forma 
energtica 
humana, 
eles 
vem 
uma 
nica 
bola 
de 
energia. 
Se 
h 
outra 
bola 
por 
perto, 
ela 
 
vista 
de 
novo 
como 
uma 
nica 
bola 
de 
energia. 
A 
idia 
de 
uma 
multido 
de 
bolas 
de 
energia 
vem 
de 
seu 
conhecimento 
das 
multides 
humanas. 
No 
universo 
da 
energia 
existem 
apenas 
indivduos 
separados, 
sozinhos, 
rodeados 
pelo 
ilimitado. 
Voc 
deve 
ver 
por 
si 
mesmo! 


Argumentei 
ento 
que 
era 
intil 
me 
dizer 
para 
ver 
por 
mim 
mesmo, 
porque 
ele 
sabia 
que 
eu 
no 
podia. 
E 
ele 
props 
que 
eu 
pegasse 
emprestada 
sua 
energia 
e 
a 
usasse 
para 
ver. 


 
Como 
posso 
fazer 
isso? 
Pegar 
sua 
energia 
emprestada? 
 
Muito 
simples. 
Posso 
fazer 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
mudar 
para 
outra 
posio 
mais 
adequada 
para 
perceber 
diretamente 
a 
energia. 
Foi 
a 
primeira 
vez, 
pelo 
que 
me 
lembro, 
que 
ele 
falou 
deliberadamente 
sobre 
algo 
que 
estava 
fazendo 
o 
tempo 
todo: 
levando-me 
a 
entrar 
em 
algum 
estado 
de 
percepo 
incompreensvel, 
um 
estado 
que 
desafiava 
minha 
idia 
do 
mundo 
e 
de 
mim; 
um 
estado 
que 
ele 
chamava 
de 
segunda 
ateno. 
E 
para 
fazer 
com 
que 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
mudasse 
para 
uma 
posio 
mais 
adequada 
a 
perceber 
energia 
diretamente, 
Dom 
Juan 
bateu 
em 
minhas 
costas, 
entre 
as 
omoplatas, 
com 
tanta 
fora 
que 
me 
fez 
perder 
o 
flego. 
Pensei 
que 
devia 
ter 
desmaiado 
ou 
que 
talvez 
o 
soco 
tenha 
me 
feito 
dormir. 
De 
sbito 
eu 
estava 
olhando, 
ou 
sonhava 
que 
estava 
olhando 
para 
algo 
literalmente 
alm 
dos 
mundos. 
Fios 
brilhantes 
de 
luz 
vinham 
de 
todos 
os 
lugares, 
indo 
para 
todos 
os 
lugares; 
fios 
de 
luz 


#
que 
no 
se 
pareciam 
com 
nada 
que 
j 
tivesse 
penetrado 
em 
meus 
pensamentos. 


Quando 
recuperei 
o 
flego, 
ou 
quando 
acordei, 
Dom 
Juan 
me 
perguntou 
ansioso: 


 
O 
que 
voc 
viu? 
E 
quando 
respondi, 
sincero: 
 
Seu 
soco 
me 
fez 
ver 
estrelas 
 
ele 
se 
dobrou 
de 
rir. 
Observou 
que 
eu 
ainda 
no 
estava 
pronto 
para 
compreender 
qualquer 
percepo 
incomum 
que 
pudesse 
ter 
tido. 


 
Fiz 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
mudar 
 
ele 
prosseguiu. 
 
E 
por 
um 
instante 
voc 
sonhou 
com 
os 
filamentos 
do 
universo. 
Mas 
voc 
ainda 
no 
tem 
a 
disciplina 
ou 
a 
energia 
para 
rearrumar 
sua 
uniformidade 
e 
coeso. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
eram 
mestres 
consumados 
nesse 
rearranjo. 
Era 
assim 
que 
viam 
tudo 
que 
pode 
ser 
visto 
pelo 
homem. 
 
O 
que 
significa 
rearranjar 
a 
uniformidade 
e 
a 
coeso? 
 
Significa 
entrar 
na 
segunda 
ateno 
mantendo 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
seu 
novo 
posicionamento, 
e 
impedi-lo 
de 
voltar 
 
posio 
original. 
Ento 
Dom 
Juan 
me 
deu 
uma 
definio 
tradicional 
da 
segunda 
ateno. 
Disse 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
chamavam 
de 
segunda 
ateno 
o 
resultado 
de 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
outros 
posicionamentos. 
E 
tratavam 
a 
segunda 
ateno 
como 
uma 
rea 
de 
toda 
atividade 
inclusiva, 
do 
mesmo 
modo 
que 
a 
ateno 
do 
mundo 
cotidiano 
 
uma 
rea 
de 
toda 
atividade 
inclusiva. 
Afirmou 
que 
os 
feiticeiros 
tm, 
na 
verdade, 
duas 
reas 
completas 
para 
suas 
atividades. 
Uma 
pequena, 
chamada 
de 
primeira 
ateno, 
ou 
de 
conscincia 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano 
ou 
de 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
dentro 
de 
seu 
posicionamento 
habitual. 
E 
uma 
rea 
muito 
maior, 
a 
segunda 
ateno, 
ou 
a 
conscincia 
de 
outros 
mundos, 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
cada 
um 
dos 
incontveis 
novos 
posicionamentos. 


Dom 
Juan 
me 
ajudou 
a 
explicar 
coisas 
inexplicveis 
na 


#
segunda 
ateno 
atravs 
do 
que 
ele 
chamou 
de 
manobra 
do 
feiticeiro: 
batendo 
em 
minhas 
costas 
suavemente 
ou 
dando 
um 
forte 
soco 
na 
altura 
de 
minhas 
omoplatas. 
Explicou 
que 
com 
seus 
golpes 
ele 
deslocava 
meu 
ponto 
de 
aglutinao. 
A 
partir 
de 
meu 
ponto 
de 
experimentao, 
esses 
deslocamentos 
significavam 
que 
minha 
conscincia 
costumava 
entrar 
num 
estado 
extremamente 
perturbador 
de 
clareza 
sem 
igual; 
um 
estado 
de 
superconscincia, 
do 
qual 
eu 
desfrutava 
por 
pequenos 
espaos 
de 
tempo, 
e 
onde 
eu 
podia 
compreender 
tudo 
com 
prembulos 
mnimos. 
No 
era 
exatamente 
um 
estado 
agradvel. 
Na 
maior 
parte 
das 
vezes 
era 
como 
um 
sonho 
estranho, 
to 
intenso 
que 
a 
conscincia 
normal 
empalidecia 
em 
comparao. 


Dom 
Juan 
justificou 
a 
indispensabilidade 
dessa 
manobra 
dizendo 
que 
na 
conscincia 
normal 
um 
feiticeiro 
ensina 
aos 
seus 
aprendizes 
conceitos 
e 
procedimentos 
bsicos, 
e 
que 
na 
segunda 
ateno 
ele 
d 
explicaes 
abstratas 
e 
detalhadas. 


Geralmente 
os 
aprendizes 
no 
se 
recordam 
dessas 
explicaes, 
ainda 
que, 
de 
algum 
modo, 
guardem-nas 
intactas 
na 
memria. 
Parece 
que 
os 
feiticeiros 
vm 
usando 
essa 
aparente 
peculiaridade 
da 
memria, 
e 
transformaram 
a 
lembrana 
de 
tudo 
que 
lhes 
acontece 
na 
segunda 
ateno 
em 
uma 
das 
tarefas 
tradicionais 
mais 
difceis 
e 
complexas 
da 
feitiaria. 


Os 
feiticeiros 
explicam 
essa 
aparente 
peculiaridade 
da 
memria 


 
e 
a 
tarefa 
de 
record-la 
 
dizendo 
que 
toda 
vez 
que 
algum 
entra 
na 
segunda 
ateno 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
est 
num 
posicionamento 
diferente. 
Lembrar, 
ento, 
significa 
recolocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
exato 
que 
ele 
ocupava 
quando 
ocorreram 
aquelas 
entradas 
na 
segunda 
ateno. 
Dom 
Juan 
me 
assegurou 
que 
os 
feiticeiros 
no 
apenas 
tm 
lembrana 
total 
e 
absoluta: 
atravs 
desse 
ato 
de 
levar 
de 
volta 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
aqueles 
posicionamentos 
especficos 
eles 
revivem 
cada 
experincia 
que 
tiveram 
na 
segunda 
ateno. 
Tambm 
me 
assegurou 
que 
os 
feiticeiros 
dedicam 
toda 
uma 
vida 
a 
essa 
tarefa 
de 
#
recordar. 


Na 
segunda 
ateno 
Dom 
Juan 
me 
deu 
explicaes 
muito 
detalhadas 
sobre 
feitiaria, 
sabendo 
que 
a 
preciso 
e 
a 
fidelidade 
desse 
ensino 
permaneceriam 
comigo, 
fielmente 
intactas, 
por 
toda 
a 
vida. 


Sobre 
essa 
fidelidade 
ele 
disse: 


 
Aprender 
alguma 
coisa 
na 
segunda 
ateno 
 
mais 
ou 
menos 
como 
o 
que 
aprendemos 
na 
infncia. 
Permanece 
por 
toda 
a 
vida. 
 
minha 
segunda 
natureza, 
dizemos 
sobre 
as 
coisas 
que 
aprendemos 
muito 
cedo 
na 
vida. 
Julgando 
a 
partir 
de 
minha 
posio 
atual, 
percebo 
que 
Dom 
Juan 
me 
fez 
entrar 
na 
segunda 
ateno, 
o 
mximo 
de 
vezes 
que 
pde, 
para 
me 
forar 
a 
manter, 
por 
longos 
perodos, 
novos 
posicionamentos 
de 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
perceber 
coerentemente 
estando 
neles; 
isto 
, 
ele 
buscava 
forar-me 
a 
rearranjar 
minha 
uniformidade 
e 
minha 
coeso. 


Vezes 
incontveis 
consegui 
perceber 
tudo 
com 
tanta 
exatido 
quanto 
percebo 
no 
mundo 
cotidiano. 
Meu 
problema 
era 
a 
incapacidade 
de 
fazer 
uma 
ponte 
entre 
meus 
atos 
na 
segunda 
ateno 
e 
minha 
conscincia 
do 
mundo 
cotidiano. 
Custou-me 
muito 
esforo 
e 
muito 
tempo 
compreender 
o 
que 
 
a 
segunda 
ateno. 
No 
tanto 
por 
sua 
complexidade 
e 
complicao, 
que 
so 
realmente 
extremas, 
mas 
porque, 
assim 
que 
voltava 
 
conscincia 
normal, 
eu 
achava 
impossvel 
no 
somente 
lembrar 
que 
havia 
entrado 
na 
segunda 
ateno: 
eu 
nem 
mesmo 
recordava 
que 
esse 
estado 
existia. 


Outro 
feito 
monumental 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
segundo 
Dom 
Juan, 
foi 
descobrir 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
desloca 
facilmente 
durante 
o 
sono. 
Essa 
descoberta 
levou 
a 
outra: 
que 
os 
sonhos 
esto 
totalmente 
associados 
a 
esse 
deslocamento. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
viram 
que, 
quanto 
maior 
o 
deslocamento, 
mais 
incomum 
o 
sonho, 
e 
vice-versa: 
quanto 
mais 
incomum 
o 
sonho, 
maior 
o 
deslocamento. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
essa 
observao 
levou-os 
a 
criar 
tcnicas 
extravagantes 
para 
forar 
o 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 


#
como 
ingerir 
plantas 
que 
produziam 
estados 
alterados 
de 
conscincia; 
ou 
submetendo-se 
a 
situaes 
de 
fome, 
cansao 
ou 
tenso; 
e 
especialmente 
controlando 
os 
sonhos. 
Desse 
modo, 
e 
talvez 
sem 
nem 
mesmo 
saber, 
eles 
criaram 
a 
arte 
de 
sonhar. 


Um 
dia, 
enquanto 
caminhvamos 
pela 
praa 
da 
cidade 
de 
Oaxaca, 
Dom 
Juan 
me 
deu 
a 
definio 
mais 
coerente 
do 
sonhar, 
segundo 
o 
ponto 
de 
vista 
de 
um 
feiticeiro. 


 
Os 
feiticeiros 
vem 
o 
sonhar 
como 
uma 
arte 
extremamente 
sofisticada. 
A 
arte 
de 
deslocar 
 
vontade 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
com 
o 
objetivo 
de 
ampliar 
o 
mbito 
do 
que 
pode 
ser 
percebido. 
Disse 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
ancoraram 
a 
arte 
de 
sonhar 
em 
cinco 
condies 
que 
eles 
viram 
no 
fluxo 
de 
energia 
dos 
seres 
humanos. 


Um, 
eles 
viram 
que 
apenas 
os 
filamentos 
de 
energia 
que 
passam 
diretamente 
atravs 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
podem 
ser 
aglutinados 
em 
percepes 
coerentes. 


Dois, 
viram 
que, 
se 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
 
deslocado 
para 
outro 
posicionamento 
 
no 
importando 
que 
fossem 
deslocamentos 
minsculos 
 
filamentos 
de 
energia 
diferentes 
e 
estranhos 
comearam 
a 
passar 
atravs 
dele, 
envolvendo 
a 
conscincia 
e 
forando 
a 
aglutinao 
desses 
campos 
de 
energia 
estranhos 
numa 
percepo 
fixa 
e 
coerente. 


Trs, 
eles 
viram 
que, 
no 
decorrer 
dos 
sonhos 
comuns, 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
facilmente 
se 
desloca 
sozinho 
para 
outro 
posicionamento 
na 
superfcie 
ou 
no 
interior 
do 
ovo 
luminoso. 


Quatro, 
viram 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
pode 
ser 
movimentado 
para 
posicionamentos 
fora 
do 
ovo 
luminoso, 
para 
os 
filamentos 
de 
energia 
do 
universo 
exterior. 


E 
cinco, 
eles 
viram 
que, 
atravs 
de 
disciplina, 
 
possvel 
cultivar 
e 
realizar, 
no 
decorrer 
do 
sono 
e 
dos 
sonhos 
comuns, 
um 
deslocamento 
sistemtico 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 


#
2 


O 
PRIMEIRO 
PORTO 
DO 
SONHAR 


C
C
omo 
prembulo 
 
sua 
primeira 
lio 
sobre 
sonhar, 
Dom 
Juan 
falou 
sobre 
a 
segunda 
ateno 
como 
um 
desenvolvimento. 
Comea 
com 
a 
idia 
que 
nos 
vem 
mais 
como 
uma 
curiosidade 
do 
que 
como 
uma 
possibilidade 
real; 
transforma-se 
em 
algo 
que 
s 
pode 
ser 
sentido, 
como 
uma 
sensao; 
e 
finalmente 
evolui 
para 
um 
estado 
de 
ser, 
ou 
uma 
regio 
de 
praticalidades, 
ou 
uma 
fora 
superior 
que 
nos 
abre 
mundos 
alm 
de 
nossas 
fantasias 
mais 
desvairadas. 


Os 
feiticeiros 
tm 
duas 
opes 
para 
explicar 
a 
feitiaria. 
Uma 
 
falar 
em 
termos 
metafricos, 
e 
contar 
sobre 
um 
mundo 
de 
dimenses 
mgicas. 
Outra 
 
explicar 
suas 
atividades 
em 
termos 
abstratos, 
prprios 
da 
feitiaria. 
Eu 
sempre 
preferi 
a 
ltima, 
apesar 
de 
nenhuma 
das 
duas 
opes 
jamais 
satisfazer 
a 
mente 
racional 
de 
um 
ocidental. 


Dom 
Juan 
me 
disse 
que, 
ao 
descrever 
metaforicamente 
a 
segunda 
ateno 
como 
um 
desenvolvimento, 
ele 
queria 
dizer 
que, 
sendo 
um 
subproduto 
do 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
a 
segunda 
ateno 
no 
 
algo 
que 
acontea 
naturalmente: 
deve 
ser 
intencional, 
vendo-a 
de 
incio 
como 
uma 
idia 
e 
terminando 
por 
perceb-la 
como 
uma 
conscincia 
fixa 
e 
controlada 
do 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 


 
Vou 
ensinar 
a 
voc 
o 
primeiro 
passo 
para 
o 
poder 
 
disse 
Dom 
Juan, 
iniciando 
sua 
instruo 
sobre 
a 
arte 
de 
sonhar. 
 
Vou 
#
ensinar 
como 
estabelecer 
o 
sonhar. 


 
O 
que 
significa 
estabelecer 
o 
sonhar? 
 
Significa 
ter 
um 
comando 
preciso 
e 
prtico 
sobre 
a 
situao 
geral 
de 
um 
sonho. 
Por 
exemplo, 
voc 
pode 
sonhar 
que 
est 
em 
sua 
sala 
de 
aula. 
Estabelecer 
o 
sonhar 
significa 
que 
voc 
no 
deixa 
o 
sonho 
virar 
outra 
coisa. 
Voc 
no 
salta 
da 
sala 
de 
aula 
para 
as 
montanhas, 
por 
exemplo. 
Em 
outras 
palavras, 
voc 
controla 
a 
viso 
da 
sala 
de 
aula, 
e 
no 
deixa 
que 
ela 
desaparea 
enquanto 
voc 
quiser. 
 
Mas 
 
possvel 
fazer 
isso? 
 
Claro 
que 
 
possvel. 
Esse 
controle 
no 
 
diferente 
do 
controle 
que 
temos 
sobre 
qualquer 
situao 
em 
nossas 
vidas 
cotidianas. 
Os 
feiticeiros 
esto 
acostumados 
com 
ele 
e 
conseguem-no 
sempre 
que 
desejem 
ou 
precisem. 
Para 
se 
acostumar 
com 
ele 
voc 
deve 
comear 
a 
fazer 
uma 
coisa 
bastante 
simples. 
Esta 
noite, 
em 
seus 
sonhos, 
voc 
deve 
olhar 
para 
as 
mos. 
No 
falamos 
muito 
mais 
sobre 
isso 
na 
conscincia 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Em 
minhas 
recordaes 
das 
experincias 
na 
segunda 
ateno, 
entretanto, 
descobri 
que 
tivemos 
uma 
troca 
mais 
do 
que 
extensiva. 
Por 
exemplo, 
eu 
expressei 
meus 
sentimentos 
sobre 


o 
absurdo 
da 
tarefa, 
e 
Dom 
Juan 
sugeriu 
que 
eu 
deveria 
encar-la 
em 
termos 
de 
uma 
busca 
divertida, 
em 
vez 
de 
solene 
e 
mrbida. 
 
Seja 
to 
pesado 
quanto 
quiser 
ao 
falarmos 
sobre 
sonhar 
 
disse 
ele. 
 
As 
explicaes 
sempre 
pedem 
pensamentos 
profundos. 
Mas 
quando 
estiver 
sonhando, 
seja 
to 
leve 
quanto 
uma 
pena. 
Sonhar 
tem 
de 
ser 
feito 
com 
integridade 
e 
seriedade, 
mas 
no 
meio 
de 
risos 
e 
com 
a 
confiana 
de 
quem 
no 
tem 
qualquer 
preocupao. 
Somente 
nessas 
condies 
nossos 
sonhos 
podem 
se 
transformar 
no 
sonhar. 


Dom 
Juan 
me 
assegurou 
que 
havia 
escolhido 
aleatoriamente 
minhas 
mos 
para 
que 
eu 
olhasse 
nos 
sonhos, 
e 
que 
seria 
vlido 
olhar 
para 
qualquer 
outra 
coisa. 
O 
objetivo 
do 
exerccio 
no 
era 
descobrir 
uma 
coisa 
especfica, 
mas 
empenhar 
minha 
ateno 
sonhadora. 


#
Dom 
Juan 
descreveu 
a 
ateno 
sonhadora 
como 
o 
controle 
que 
adquirimos 
sobre 
nossos 
sonhos 
depois 
de 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
qualquer 
posicionamento 
novo 
para 
o 
qual 
ele 
tenha 
se 
deslocado 
durante 
os 
sonhos. 
Em 
termos 
mais 
gerais, 
ele 
chamava 
a 
ateno 
sonhadora 
de 
uma 
faceta 
incompreensvel 
da 
conscincia, 
que 
existe 
por 
si, 
esperando 
o 
momento 
de 
atra-la, 
um 
momento 
em 
que 
lhe 
daremos 
um 
objetivo, 
uma 
faculdade 
oculta 
que 
todos 
ns 
temos 
em 
reserva, 
mas 
que 
nunca 
temos 
a 
oportunidade 
de 
usar. 


As 
primeiras 
tentativas 
de 
procurar 
minhas 
mos 
no 
sonho 
foram 
um 
fiasco. 
Depois 
de 
meses 
de 
esforos 
malsucedidos 
desisti 
e 
reclamei 
de 
novo 
com 
Dom 
Juan 
sobre 
o 
absurdo 
dessa 
tarefa. 


 
Existem 
sete 
portes 
 
ele 
disse 
em 
resposta. 
 
E 
os 
sonhadores 
precisam 
abrir 
todos 
eles, 
um 
de 
cada 
vez. 
Voc 
est 
diante 
do 
primeiro 
porto 
que 
precisa 
ser 
aberto 
caso 
deseje 
sonhar. 
 
Por 
que 
voc 
no 
me 
disse 
isso 
antes? 
 
Teria 
sido 
intil 
falar 
sobre 
os 
portes 
do 
sonhar 
antes 
de 
voc 
bater 
de 
cabea 
contra 
o 
primeiro. 
Agora 
voc 
sabe 
que 
h 
um 
obstculo 
e 
que 
precisa 
super-lo. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
h 
entradas 
e 
sadas 
no 
fluxo 
de 
energia 
do 
universo, 
e 
que 
no 
caso 
especfico 
do 
sonhar 
h 
sete 
entradas 
experimentadas 
como 
obstculos, 
que 
os 
feiticeiros 
chamam 
de 
sete 
portes 
do 
sonhar. 


 
O 
primeiro 
porto 
 
o 
limiar 
que 
precisamos 
atravessar 
tornando-nos 
conscientes 
de 
uma 
sensao 
particular 
antes 
do 
sono 
profundo. 
Uma 
sensao 
como 
um 
peso 
agradvel 
que 
no 
nos 
deixa 
abrir 
os 
olhos. 
Chegamos 
a 
esse 
porto 
no 
instante 
em 
que 
nos 
conscientizamos 
de 
que 
estamos 
caindo 
no 
sono, 
suspensos 
na 
escurido 
e 
na 
sensao 
de 
peso. 
 
Como 
me 
conscientizo 
de 
que 
estou 
caindo 
no 
sono? 
Existem 
etapas 
a 
seguir? 
 
No. 
No 
existem 
etapas 
a 
seguir. 
S 
precisamos 
intentar 
que 
temos 
conscincia 
de 
estar 
caindo 
no 
sono. 
 
Mas, 
como 
se 
intenta 
que 
estamos 
conscientes 
disso? 
#
 
 
muito 
difcil 
se 
falar 
a 
respeito 
do 
intento. 
Eu, 
ou 
qualquer 
outra 
pessoa, 
pareceria 
idiota 
tentando 
explicar. 
Pense 
nisso 
quando 
ouvir 
o 
que 
tenho 
a 
dizer 
em 
seguida: 
simplesmente 
intentando, 
os 
feiticeiros 
intentam 
alguma 
coisa 
que 
os 
coloca 
no 
intento. 
 
Isso 
no 
significa 
nada, 
Dom 
Juan. 
 
Preste 
muita 
ateno. 
Algum 
dia 
vai 
ser 
sua 
vez 
de 
explicar. 
A 
afirmao 
parece 
sem 
sentido 
porque 
voc 
no 
a 
est 
colocando 
no 
contexto 
adequado. 
Como 
qualquer 
pessoa 
racional, 
voc 
pensa 
que 
compreender 
est 
unicamente 
no 
mbito 
da 
razo, 
de 
sua 
mente. 
Para 
os 
feiticeiros, 
como 
a 
afirmao 
que 
fiz 
tem 
a 
ver 
com 
o 
intento 
e 
com 
intentar, 
compreend-la 
est 
no 
mbito 
da 
energia. 
Os 
feiticeiros 
acreditam 
que, 
se 
intentarmos 
essa 
afirmao 
para 
o 
corpo 
energtico, 
o 
corpo 
energtico 
ir 
entend-la 
em 
termos 
inteiramente 
diferentes 
dos 
termos 
da 
mente. 
O 
truque 
 
buscar 
o 
corpo 
energtico. 
Para 
isso 
voc 
precisa 
de 
energia. 


 
Em 
que 
termos 
o 
corpo 
energtico 
entenderia 
essa 
afirmao, 
Dom 
Juan? 
 
Em 
termos 
de 
um 
sentimento 
corporal, 
o 
que 
 
difcil 
de 
descrever. 
Voc 
precisa 
experimentar, 
para 
saber 
o 
que 
estou 
dizendo. 
Pedi 
uma 
explicao 
mais 
precisa, 
mas 
Dom 
Juan 
bateu 
nas 
minhas 
costas 
e 
me 
fez 
entrar 
na 
segunda 
ateno. 
Aquilo 
ainda 
era 
algo 
totalmente 
misterioso 
para 
mim. 
Eu 
poderia 
ter 
jurado 
que 
seu 
toque 
me 
hipnotizou. 
Acreditei 
que 
ele 
tinha 
instantaneamente 
me 
colocado 
para 
dormir, 
e 
sonhei 
que 
me 
vi 
andando 
com 
ele 
numa 
avenida 
larga, 
ladeada 
por 
rvores, 
em 
alguma 
cidade 
desconhecida. 
Foi 
um 
sonho 
to 
ntido, 
e 
eu 
estava 
to 
consciente 
de 
tudo, 
que 
imediatamente 
tentei 
me 
orientar 
lendo 
os 
letreiros 
e 
olhando 
as 
pessoas. 
Definitivamente 
no 
era 
uma 
cidade 
onde 
se 
falava 
ingls 
ou 
espanhol, 
mas 
era 
uma 
cidade 
ocidental. 
As 
pessoas 
pareciam 
ser 
do 
norte 
da 
Europa, 
talvez 
lituanas. 
Fiquei 
absorvido 
tentando 
ler 
cartazes 
e 
sinalizaes 
de 
trnsito. 


Dom 
Juan 
me 
cutucou 
levemente. 


 
No 
se 
preocupe 
com 
isso. 
No 
estamos 
em 
nenhum 
lugar 
#
identificvel. 
S 
emprestei 
minha 
energia 
para 
que 
voc 
alcanasse 
seu 
corpo 
energtico, 
e 
com 
isso 
atravessamos 
para 
outro 
mundo. 
Isso 
no 
vai 
durar, 
ento 
use 
seu 
tempo 
com 
sabedoria. 
Olhe 
para 
tudo, 
mas 
sem 
ser 
bvio. 
No 
deixe 
que 
ningum 
o 
perceba. 


Andamos 
em 
silncio. 
Foi 
uma 
caminhada 
de 
um 
quarteiro, 
e 
que 
teve 
um 
efeito 
notvel 
sobre 
mim. 
Quanto 
mais 
andvamos, 
maior 
minha 
sensao 
de 
ansiedade 
visceral. 
Minha 
mente 
estava 
curiosa, 
meu 
corpo 
alarmado. 
Tinha 
a 
compreenso 
clarssima 
de 
no 
estar 
neste 
mundo. 
Quando 
chegamos 
a 
uma 
esquina 
e 
paramos 
de 
andar, 
vi 
que 
as 
rvores 
da 
rua 
haviam 
sido 
cuidadosamente 
podadas. 
Eram 
rvores 
baixas 
com 
folhas 
enroladas 
e 
de 
aparncia 
dura. 
Cada 
rvore 
tinha 
um 
grande 
espao 
quadrado 
para 
receber 
gua. 
No 
havia 
ervas 
daninhas 
nem 
lixo 
naqueles 
espaos, 
como 
se 
v 
ao 
redor 
das 
rvores 
nas 
cidades. 
Somente 
uma 
terra 
fofa, 
preta 
como 
carvo. 


No 
momento 
em 
que 
focalizei 
os 
olhos 
na 
esquina, 
antes 
de 
dar 


o 
passo 
para 
atravessar 
a 
rua, 
percebi 
que 
no 
havia 
carros. 
Tentei 
desesperadamente 
olhar 
as 
pessoas 
ao 
redor, 
para 
descobrir 
alguma 
coisa 
que 
explicasse 
minha 
ansiedade. 
Elas 
me 
olharam 
de 
volta. 
Num 
instante 
um 
crculo 
de 
olhos 
duros, 
azuis 
e 
castanhos, 
havia-se 
formado 
ao 
nosso 
redor. 
Uma 
certeza 
me 
golpeou 
como 
um 
soco: 
isso 
no 
era 
absolutamente 
um 
sonho; 
estvamos 
numa 
realidade 
alm 
do 
que 
conheo 
como 
real. 
Virei-me 
para 
encarar 
Dom 
Juan. 
Naquele 
momento 
eu 
estava 
para 
perceber 
o 
que 
havia 
de 
diferente 
com 
aquelas 
pessoas, 
mas 
um 
vento 
estranho 
e 
seco 
que 
veio 
direto 
s 
minhas 
narinas 
bateu 
em 
meu 
rosto, 
borrou 
minha 
viso 
e 
me 
fez 
esquecer 
o 
que 
queria 
dizer 
a 
Dom 
Juan. 
No 
instante 
seguinte 
voltei 
ao 
lugar 
onde 
tudo 
comeara: 
a 
casa 
de 
Dom 
Juan. 
Estava 
deitado 
num 
colcho 
de 
palha, 
encolhido 
de 
lado. 


 
Emprestei 
minha 
energia 
e 
voc 
alcanou 
seu 
corpo 
energtico 
 
Dom 
Juan 
disse 
num 
tom 
casual. 
Ouvi 
que 
ele 
estava 
falando, 
mas 
eu 
me 
sentia 
tonto. 
Uma 
coceira 
estranha 
em 
meu 
plexo 
solar 
fazia 
com 
que 
eu 
respirasse 


#
entrecortado. 
Eu 
sabia 
que 
estivera 
em 
vias 
de 
descobrir 
alguma 
coisa 
transcendental 
sobre 
o 
sonhar 
e 
sobre 
as 
pessoas 
que 
vira, 
e 
no 
entanto 
no 
conseguia 
colocar 
em 
foco 
o 
que 
quer 
que 
soubesse. 


 
Onde 
ns 
estvamos, 
Dom 
Juan? 
 
perguntei. 
 
Foi 
um 
sonho? 
Um 
estado 
hipntico? 
 
No 
foi 
um 
sonho 
 
ele 
respondeu. 
 
Foi 
o 
sonhar. 
Ajudei-o 
a 
alcanar 
a 
segunda 
ateno, 
para 
que 
voc 
compreendesse 
o 
intento, 
no 
como 
um 
tema 
para 
o 
seu 
raciocnio, 
mas 
para 
seu 
corpo 
energtico. 
Nesse 
ponto 
voc 
ainda 
no 
pode 
compreender 
a 
importncia 
disso 
tudo, 
no 
s 
porque 
no 
tem 
energia 
suficiente, 
mas 
tambm 
porque 
no 
est 
intentando 
nada. 
Se 
estivesse, 
seu 
corpo 
energtico 
compreenderia 
de 
imediato 
que 
o 
nico 
modo 
de 
intentar 
 
concentrando 
seu 
intento 
naquilo 
que 
voc 
deseja 
intentar. 
Dessa 
vez 
concentrei-o, 
para 
voc, 
em 
alcanar 
seu 
corpo 
energtico. 


 
O 
objetivo 
de 
sonhar 
 
intentar 
o 
corpo 
energtico? 
 
perguntei, 
subitamente 
com 
o 
poder 
de 
um 
raciocnio 
estranho. 


 
Pode-se 
colocar 
desse 
modo 
 
ele 
disse. 
 
Neste 
caso 
em 
especial, 
j 
que 
estamos 
falando 
sobre 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar, 
o 
objetivo 
de 
sonhar 
 
intentar 
que 
o 
seu 
corpo 
energtico 
torne-se 
consciente 
de 
que 
voc 
est 
caindo 
no 
sono. 
Deixe 
seu 
corpo 
energtico 
faz-lo. 
Intentar 
 
desejar 
sem 
desejar, 
fazer 
sem 
fazer. 
Aceite 
o 
desafio 
de 
intentar 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Empenhe 
sua 
determinao 
silenciosa, 
sem 
qualquer 
pensamento, 
em 
convencer-
se 
de 
que 
alcanou 
o 
corpo 
energtico 
e 
de 
que 
 
um 
sonhador. 
Isso 
ir 
automaticamente 
coloc-lo 
na 
posio 
de 
estar 
consciente 
de 
que 
est 
caindo 
no 
sono. 


 
Como 
posso 
me 
convencer 
de 
que 
sou 
um 
sonhador, 
quando 
no 
sou? 
 
Quando 
voc 
ouve 
que 
precisa 
se 
convencer, 
imediatamente 
se 
torna 
mais 
racional. 
Como 
pode 
se 
convencer 
de 
que 
 
um 
sonhador 
quando 
sabe 
que 
no 
? 
Intentar 
 
as 
duas 
coisas: 
o 
ato 
de 
convencer 
a 
si 
prprio 
de 
que 
 
de 
fato 
um 
sonhador, 
apesar 
de 
nunca 
ter 
sonhado 
antes, 
e 
o 
ato 
de 
ficar 
convencido. 
#
 
Ento 
eu 
tenho 
de 
dizer 
a 
mim 
mesmo 
que 
sou 
um 
sonhador 
e 
tentar 
o 
mximo 
possvel 
acreditar 
nisso? 
 
No. 
Intentar 
 
muito 
mais 
simples 
e, 
ao 
mesmo 
tempo, 
infinitamente 
mais 
complexo 
do 
que 
isso. 
Exige 
imaginao, 
disciplina 
e 
objetivo. 
Neste 
caso, 
intentar 
significa 
que 
voc 
obtm 
um 
conhecimento 
inquestionavelmente 
corporal 
de 
que 
 
um 
sonhador. 
Voc 
sente 
que 
 
um 
sonhador 
com 
todas 
as 
clulas 
do 
corpo. 
Dom 
Juan 
acrescentou 
num 
tom 
jocoso 
que 
ele 
no 
tinha 
energia 
suficiente 
para 
me 
fazer 
outro 
emprstimo 
para 
o 
intento, 
e 
que 
a 
coisa 
a 
fazer 
era 
buscar 
sozinho 
meu 
corpo 
energtico. 
Assegurou-me 
que 
intentar 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar 
era 
um 
dos 
meios 
descobertos 
pelos 
feiticeiros 
da 
antigidade 
para 
chegar 
 
segunda 
ateno 
e 
ao 
corpo 
energtico. 


Depois 
de 
dizer 
isso 
ele 
praticamente 
me 
expulsou 
de 
sua 
casa, 
ordenando 
que 
eu 
no 
voltasse 
at 
ter 
intentado 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar. 


Voltei 
para 
casa. 
E 
todas 
as 
noites, 
durante 
meses, 
fui 
dormir 
intentando 
com 
toda 
a 
fora 
me 
conscientizar 
de 
que 
estava 
caindo 
no 
sono 
e 
ver 
minhas 
mos 
nos 
sonhos. 
A 
outra 
parte 
da 
tarefa, 
convencer-me 
de 
que 
era 
um 
sonhador 
e 
que 
havia 
alcanado 
o 
corpo 
energtico, 
era 
totalmente 
impossvel. 


Ento, 
numa 
tarde 
enquanto 
cochilava, 
sonhei 
que 
estava 
olhando 
para 
minhas 
mos. 
O 
choque 
bastou 
para 
me 
acordar. 
Aquele 
se 
mostrou 
um 
sonho 
especial 
que 
no 
pde 
ser 
repetido. 
Passaram-se 
semanas 
e 
fui 
incapaz 
de 
me 
conscientizar 
de 
que 
estava 
caindo 
no 
sono 
ou 
de 
encontrar 
minhas 
mos. 
Comecei 
a 
perceber, 
entretanto, 
que 
estava 
tendo 
em 
meus 
sonhos 
um 
vago 
sentimento 
de 
algo 
que 
eu 
deveria 
ter 
feito, 
mas 
que 
no 
conseguia 
recordar 
o 
que 
fosse. 
Esse 
sentimento 
ficou 
to 
forte 
a 
ponto 
de 
me 
acordar 
constantemente 
durante 
a 
noite. 


Quando 
contei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
minhas 
tentativas 
fteis 
de 
atravessar 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar, 
ele 
me 
deu 
algumas 
diretrizes. 


#
 
Pedir 
que 
um 
sonhador 
encontre 
um 
determinado 
item 
em 
seus 
sonhos 
 
um 
subterfgio 
 
disse 
ele. 
 
A 
verdadeira 
questo 
 
conscientizar-se 
de 
que 
est 
caindo 
no 
sono. 
E, 
por 
mais 
estranho 
que 
possa 
parecer, 
isso 
no 
acontece 
ordenando-se 
a 
ficar 
consciente 
de 
estar 
caindo 
no 
sono, 
e 
sim 
mantendo 
a 
viso 
da 
coisa 
que 
se 
est 
procurando 
no 
sono. 
Disse-me 
que 
os 
sonhadores 
olham 
rpida 
e 
deliberadamente 
tudo 
que 
est 
no 
sonho. 
Se 
concentram 
sua 
ateno 
em 
algo 
especfico, 
 
apenas 
como 
um 
ponto 
de 
partida. 
A 
partir 
dali, 
os 
sonhadores 
passam 
a 
olhar 
outros 
itens 
do 
contedo 
do 
sonho, 
voltando 
ao 
ponto 
de 
partida 
quantas 
vezes 
for 
possvel. 


Depois 
de 
grande 
esforo 
realmente 
encontrei 
mos 
em 
meu 
sonho, 
mas 
nunca 
eram 
minhas. 
Eram 
mos 
que 
apenas 
pareciam 
me 
pertencer; 
mos 
que 
mudavam 
de 
forma, 
tornando-se 
s 
vezes 
quase 
um 
pesadelo. 
Mas 
o 
resto 
do 
contedo 
dos 
sonhos 
estava 
sempre 
agradavelmente 
fixo. 
Eu 
quase 
podia 
sustentar 
a 
viso 
de 
qualquer 
coisa 
em 
que 
focalizasse 
minha 
ateno. 


A 
coisa 
prosseguiu 
assim 
durante 
quatro 
meses, 
at 
um 
dia 
em 
que 
minha 
capacidade 
de 
sonhar 
mudou 
aparentemente 
por 
si 
prpria. 
Eu 
no 
tinha 
feito 
nada 
de 
especial, 
apesar 
da 
determinao 
constante 
de 
me 
conscientizar 
de 
que 
estava 
caindo 
no 
sono 
e 
de 
encontrar 
minhas 
mos. 


Sonhei 
que 
estava 
visitando 
a 
cidade 
onde 
nasci. 
No 
que 
a 
cidade 
com 
a 
qual 
sonhava 
se 
parecesse 
com 
aquela 
onde 
nasci, 
mas 
de 
algum 
modo 
eu 
tinha 
a 
convico 
de 
que 
era. 
Tudo 
comeou 
como 
um 
sonho 
comum, 
porm 
bastante 
vivido. 
Ento 
a 
luz 
do 
sonho 
mudou. 
As 
imagens 
tornaram-se 
mais 
ntidas. 
A 
rua 
onde 
eu 
andava 
tornou-se 
notavelmente 
mais 
real 
do 
que 
um 
momento 
antes. 
Meus 
ps 
comearam 
a 
doer. 
Pude 
sentir 
que 
as 
coisas 
eram 
absurdamente 
duras. 
Por 
exemplo, 
ao 
bater 
contra 
uma 
porta, 
no 
somente 
experimentei 
a 
dor 
no 
joelho 
que 
bateu 
como 
tambm 
fiquei 
furioso 
por 
minha 
falta 
de 
jeito. 


Caminhei 
realisticamente 
por 
aquela 
cidade 
at 
ficar 
exausto. 
Vi 
tudo 
que 
poderia 
ver 
se 
fosse 
um 
turista 
andando 
pelas 
ruas 
de 


#
uma 
cidade. 
E 
no 
havia 
qualquer 
diferena 
entre 
aquela 
caminhada 
onrica 
e 
as 
caminhadas 
que 
eu 
dava 
numa 
cidade 
que 
visitava 
pela 
primeira 
vez. 


 
Acho 
que 
voc 
foi 
um 
pouquinho 
longe 
demais 
 
Dom 
Juan 
disse 
depois 
de 
ouvir 
meu 
relato. 
 
S 
era 
necessria 
a 
sua 
conscincia 
de 
estar 
caindo 
no 
sono. 
O 
que 
voc 
fez 
 
equivalente 
a 
derrubar 
uma 
parede 
s 
para 
esmagar 
um 
mosquito 
pousado 
nela. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
eu 
fiz 
besteira? 
 
No. 
Mas 
aparentemente 
voc 
est 
tentando 
repetir 
algo 
que 
fez 
antes. 
Quando 
fiz 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
mudar, 
e 
ns 
terminamos 
naquela 
cidade 
misteriosa, 
voc 
no 
estava 
dormindo. 
Estava 
sonhando, 
mas 
no 
dormindo. 
Isso 
quer 
dizer 
que 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
alcanou 
aquele 
posicionamento 
atravs 
de 
um 
sonho 
normal. 
Eu 
forcei-o 
a 
se 
deslocar. 
Voc 
certamente 
pode 
alcanar 
a 
mesma 
posio 
atravs 
de 
um 
sonho, 
mas 
eu 
no 
aconselharia 
isso, 
por 
enquanto. 


 
 
perigoso? 
 
E 
como! 
Sonhar 
tem 
que 
ser 
uma 
coisa 
muito 
sbria. 
No 
 
possvel 
se 
dar 
ao 
luxo 
de 
qualquer 
movimento 
em 
falso. 
Sonhar 
 
um 
processo 
de 
despertar, 
de 
obter 
controle. 
Nossa 
ateno 
sonhadora 
deve 
ser 
sistematicamente 
exercitada, 
porque 
ela 
 
a 
porta 
para 
a 
segunda 
ateno. 
 
Qual 
 
a 
diferena 
entre 
a 
ateno 
sonhadora 
e 
a 
segunda 
ateno? 
 
A 
segunda 
ateno 
 
como 
um 
oceano, 
e 
a 
ateno 
sonhadora 
 
como 
um 
rio 
que 
desgua 
nela. 
A 
segunda 
ateno 
 
estar 
consciente 
de 
mundos 
inteiros, 
to 
totais 
quanto 
o 
nosso, 
ao 
passo 
que 
a 
ateno 
sonhadora 
 
estar 
consciente 
dos 
itens 
de 
nossos 
sonhos. 
Ele 
enfatizou 
que 
a 
ateno 
sonhadora 
 
a 
chave 
para 
cada 
movimento 
no 
mundo 
dos 
feiticeiros. 
Disse 
que 
entre 
a 
imensido 
de 
itens 
de 
nossos 
sonhos 
existem 
interferncias 
energticas 
reais; 
coisas 
que 
foram 
postas 
em 
nossos 
sonhos 
por 
uma 
fora 
estranha. 
Poder 
encontr-las 
e 
segui-las 
 
feitiaria. 


#
A 
nfase 
que 
ele 
ps 
naquelas 
afirmaes 
foi 
tamanha 
que 
tive 
de 
pedir-lhe 
para 
explicar. 
Ele 
hesitou 
por 
um 
instante 
antes 
de 
responder. 


 
Os 
sonhos 
so, 
se 
no 
uma 
porta, 
um 
alapo 
para 
outros 
mundos. 
Assim, 
os 
sonhos 
so 
vias 
de 
duas 
mos. 
Por 
esse 
alapo 
nossa 
conscincia 
atravessa 
para 
outros 
reinos; 
e 
esses 
outros 
reinos 
mandam 
batedores 
para 
nossos 
sonhos. 
 
O 
que 
so 
esses 
batedores? 
 
Cargas 
de 
energia 
que 
se 
misturam 
aos 
itens 
de 
nossos 
sonhos 
normais. 
So 
fluxos 
de 
energia 
estranha 
que 
entram 
em 
nossos 
sonhos, 
e 
que 
ns 
interpretamos 
como 
itens 
familiares 
ou 
desconhecidos. 
 
Desculpe, 
Dom 
Juan, 
mas 
no 
consigo 
achar 
p 
nem 
cabea 
na 
sua 
explicao. 
 
No 
consegue 
porque 
insiste 
em 
pensar 
nos 
sonhos 
em 
termos 
que 
voc 
conhece: 
como 
aquilo 
que 
acontece 
conosco 
durante 
o 
sono. 
E 
estou 
insistindo 
em 
dar 
outra 
verso: 
o 
sonho 
 
uma 
abertura 
para 
outras 
esferas 
de 
percepo. 
Atravs 
desse 
alapo 
entram 
correntes 
de 
energias 
estranhas. 
A 
mente 
 
ou 
o 
crebro 
 
capta 
essas 
correntes 
de 
energias 
e 
transforma 
em 
partes 
dos 
nossos 
sonhos. 
Parou, 
obviamente 
para 
dar 
 
minha 
mente 
tempo 
de 
absorver 


o 
que 
dizia. 
 
Os 
feiticeiros 
tm 
conscincia 
dessas 
correntes 
de 
energia 
estranha 
 
continuou. 
 
Eles 
percebem-nas 
e 
tentam 
isol-las 
dos 
itens 
normais 
de 
seus 
sonhos. 
 
Por 
que 
eles 
as 
isolam, 
Dom 
Juan? 
 
Porque 
elas 
vm 
de 
outras 
esferas. 
Se 
as 
seguirmos 
at 
suas 
fontes, 
elas 
serviro 
como 
guias 
para 
reas 
de 
um 
mistrio 
to 
grande 
que 
os 
feiticeiros 
estremecem 
 
simples 
meno 
dessa 
possibilidade. 
 
Como 
os 
feiticeiros 
as 
isolam 
dos 
itens 
normais 
dos 
seus 
sonhos? 
 
Atravs 
do 
exerccio 
e 
do 
controle 
de 
sua 
ateno 
sonhadora. 
#
Num 
momento, 
nossa 
ateno 
sonhadora 
as 
descobre 
entre 
os 
itens 
de 
um 
sonho, 
concentra-se 
nelas 
e 
ento 
todo 
o 
sonho 
se 
desmorona, 
deixando 
apenas 
a 
energia 
estranha. 


Dom 
Juan 
se 
recusou 
a 
levar 
o 
tema 
adiante. 
Voltou 
a 
discutir 
minha 
experincia 
e 
disse 
que, 
no 
todo, 
tinha 
de 
ver 
meu 
sonho 
como 
minha 
primeira 
tentativa 
genuna, 
e 
que 
isso 
significava 
que 
eu 
conseguira 
alcanar 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar. 


Em 
outra 
discusso, 
numa 
outra 
poca, 
ele 
trouxe 
abruptamente 
o 
assunto 
de 
volta. 
Disse: 


 
Vou 
repetir 
o 
que 
voc 
deve 
fazer 
em 
seu 
sonho 
para 
atravessar 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar. 
Primeiro 
deve 
focalizar 
sua 
vista 
em 
qualquer 
coisa 
que 
voc 
escolha 
como 
ponto 
de 
partida. 
Em 
seguida 
vire-se 
para 
outros 
itens 
e 
d 
olhadas 
breves. 
Focalize 
seu 
olhar 
no 
mximo 
de 
coisas 
que 
puder. 
Lembre-se 
de 
que, 
se 
voc 
olhar 
rapidamente, 
as 
imagens 
no 
mudam. 
Em 
seguida 
volte 
para 
o 
item 
original, 
o 
primeiro 
para 
o 
qual 
voc 
olhou. 
 
O 
que 
significa 
passar 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar? 
 
Alcanamos 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar 
ficando 
conscientes 
de 
que 
estamos 
caindo 
no 
sono 
ou 
tendo, 
como 
voc 
teve, 
um 
sonho 
gigantescamente 
real. 
Depois 
de 
termos 
alcanado 
o 
porto, 
devemos 
atravess-lo 
podendo 
manter 
a 
viso 
de 
qualquer 
item 
do 
sonho. 
 
Eu 
quase 
posso 
olhar 
fixo 
para 
os 
itens 
de 
meus 
sonhos, 
mas 
eles 
se 
dissipam 
muito 
rpido. 
 
 
precisamente 
isso 
que 
estou 
tentando 
dizer. 
Para 
compensar 
a 
qualidade 
evanescente 
dos 
sonhos, 
os 
feiticeiros 
inventaram 
o 
uso 
do 
item 
ponto 
de 
partida. 
Toda 
vez 
que 
voc 
o 
isola 
e 
olha 
para 
ele, 
recebe 
um 
jorro 
de 
energia, 
de 
modo 
que 
no 
princpio 
no 
olhe 
muitas 
coisas 
em 
seus 
sonhos. 
Quatro 
itens 
j 
bastam. 
Mais 
tarde 
voc 
pode 
alargar 
o 
alcance 
at 
poder 
abarcar 
tudo 
que 
quiser, 
mas 
assim 
que 
as 
imagens 
comearem 
a 
mudar 
e 
voc 
sentir 
que 
est 
perdendo 
o 
controle, 
volte 
para 
o 
item 
ponto 
de 
partida 
e 
comece 
tudo 
de 
novo. 
 
Voc 
acredita 
que 
eu 
realmente 
cheguei 
ao 
primeiro 
porto 
do 
sonhar 
Dom 
Juan? 
#
 
Chegou, 
e 
isso 
j 
 
muito. 
Voc 
vai 
descobrir, 
enquanto 
prossegue, 
como 
vai 
ser 
fcil 
sonhar 
agora. 
Achei 
que 
Dom 
Juan 
estava 
exagerando 
ou 
me 
dando 
incentivo. 
Mas 
ele 
me 
assegurou 
que 
no. 
 
A 
coisa 
mais 
espantosa 
que 
acontece 
com 
os 
sonhadores 
 
disse 
ele 
 
 
que, 
ao 
chegar 
ao 
primeiro 
porto, 
tambm 
chegam 
ao 
corpo 
energtico. 


 
O 
que, 
exatamente, 
 
o 
corpo 
energtico? 
 
 
a 
contrapartida 
do 
corpo 
fsico. 
Uma 
configurao 
fantasmagrica 
feita 
de 
pura 
energia. 
 
Mas 
o 
corpo 
fsico 
no 
 
feito 
tambm 
de 
energia? 
 
Claro 
que 
. 
A 
diferena 
 
que 
o 
corpo 
energtico 
tem 
apenas 
aparncia, 
no 
tem 
massa. 
Como 
 
energia 
pura, 
ele 
pode 
realizar 
atos 
alm 
das 
possibilidades 
do 
corpo 
fsico. 
 
Como 
o 
que, 
por 
exemplo? 
 
Como 
se 
transportar 
num 
instante 
at 
os 
confins 
do 
universo. 
E 
sonhar 
 
a 
arte 
de 
afinar 
o 
corpo 
energtico, 
de 
torn-lo 
flexvel 
e 
coerente 
atravs 
do 
exerccio 
gradual. 
Atravs 
do 
sonhar 
condensamos 
o 
corpo 
energtico 
at 
que 
ele 
se 
torne 
uma 
unidade 
capaz 
de 
perceber. 
Sua 
percepo, 
apesar 
de 
afetada 
por 
nosso 
modo 
normal 
de 
perceber 
o 
mundo 
cotidiano, 
 
independente. 
Tem 
sua 
prpria 
esfera. 


 
O 
que 
 
essa 
esfera, 
Dom 
Juan? 
 
Essa 
esfera 
 
a 
energia. 
O 
corpo 
energtico 
lida 
com 
energia 
em 
termos 
de 
energia. 
Existem 
trs 
modos 
atravs 
dos 
quais 
ele 
lida 
com 
a 
energia 
nos 
sonhos. 
Ele 
pode 
perceber 
a 
energia 
enquanto 
ela 
flui, 
pode 
usar 
a 
energia 
para 
lanar-se 
como 
um 
foguete 
at 
reas 
inesperadas, 
ou 
pode 
perceber 
como 
percebemos 
comumente 
o 
mundo. 
 
O 
que 
significa 
perceber 
a 
energia 
enquanto 
ela 
flui? 
 
Significa 
ver. 
Significa 
que 
o 
corpo 
energtico 
v 
a 
energia 
diretamente 
como 
uma 
luz, 
como 
uma 
espcie 
de 
corrente 
vibratria 
ou 
como 
uma 
perturbao. 
Ou 
ento 
sente-a 
como 
um 
tranco 
ou 
uma 
sensao 
que 
pode 
ser 
at 
dolorosa. 
#
 
E 
quanto 
ao 
outro 
modo 
do 
qual 
voc 
falou, 
Dom 
Juan? 
O 
corpo 
energtico 
usando 
energia 
como 
um 
combustvel 
de 
foguete. 
 
Como 
a 
energia 
 
a 
sua 
esfera, 
no 
h 
problema 
para 
o 
corpo 
energtico 
usar 
correntes 
de 
energia 
que 
existem 
no 
universo 
para 
impulsion-lo. 
Tudo 
que 
precisa 
 
isolar 
essas 
correntes, 
e 
l 
se 
vai 
ele. 
Parou 
de 
falar 
e 
pareceu 
indeciso, 
como 
se 
desejasse 
acrescentar 
alguma 
coisa 
mas 
no 
tivesse 
certeza. 
Sorriu 
e, 
justo 
quando 
eu 
ia 
comear 
a 
fazer 
uma 
pergunta, 
continuou 
a 
explicao. 


 
J 
disse 
antes 
que, 
em 
seus 
sonhos, 
os 
feiticeiros 
isolam 
batedores 
de 
outras 
esferas. 
Seu 
corpo 
energtico 
faz 
isso. 
Reconhece 
a 
energia 
e 
vai 
atrs 
dela. 
Mas 
no 
 
desejvel 
que 
os 
feiticeiros 
fiquem 
procurando 
batedores. 
Eu 
estava 
relutando 
em 
dizer 
isso 
a 
voc, 
por 
causa 
da 
facilidade 
com 
que 
podemos 
ficar 
envolvidos 
nessa 
busca. 
Em 
seguida 
Dom 
Juan 
passou 
rapidamente 
para 
outro 
assunto. 
Delineou 
cuidadosamente 
todo 
um 
conjunto 
de 
prticas. 
Na 
poca 
achei 
que 
num 
determinado 
nvel 
era 
tudo 
incompreensvel. 
Mas 
em 
outro 
era 
perfeitamente 
lgico 
e 
compreensvel. 
Ele 
reiterou 
que 
alcanar, 
com 
controle 
deliberado, 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonho 
 
um 
modo 
de 
chegar 
ao 
corpo 
energtico. 
Mas 
manter 
esse 
ganho 
 
uma 
questo 
que 
implicava 
apenas 
energia. 
Os 
feiticeiros 
obtm 
essa 
energia 
reestruturando 
de 
modo 
mais 
inteligente 
a 
energia 
que 
possuem 
e 
que 
usam 
para 
perceber 
o 
mundo 
cotidiano. 


Quando 
insisti 
para 
que 
Dom 
Juan 
explicasse 
com 
mais 
clareza, 
ele 
acrescentou 
que 
todos 
ns 
temos 
uma 
determinada 
quantidade 
de 
energia 
bsica. 
Essa 
quantidade 
 
toda 
a 
energia 
que 
possumos, 
e 
usamos 
toda 
ela 
para 
perceber 
e 
lidar 
com 
nosso 
mundo 
envolvente. 
Repetiu 
vrias 
vezes, 
para 
enfatizar, 
que 
em 
nenhum 
lugar 
existe 
mais 
energia 
para 
ns, 
e 
que, 
j 
que 
nossa 
energia 
disponvel 
est 
ocupada, 
no 
sobra 
nem 
um 
pouquinho 
para 
qualquer 
percepo 
extraordinria 
como, 
por 
exemplo, 
sonhar. 


 
Em 
que 
ponto 
isso 
nos 
deixa? 
 
perguntei. 
 
Isso 
nos 
deixa 
tendo 
que 
arranjar 
energia 
por 
conta 
prpria, 
#
onde 
quer 
que 
possamos 
encontr-la. 


Dom 
Juan 
explicou 
que 
os 
feiticeiros 
tm 
um 
mtodo 
de 
arranj-la. 
Eles 
redistribuem 
inteligentemente 
sua 
energia 
cortando 
tudo 
que 
considerem 
suprfluo 
em 
suas 
vidas. 
Chamam 
esse 
mtodo 
de 
caminho 
dos 
feiticeiros. 
Em 
essncia 
o 
caminho 
dos 
feiticeiros, 
segundo 
Dom 
Juan, 
 
uma 
cadeia 
de 
escolhas 
de 
comportamento 
ao 
lidar 
com 
o 
mundo, 
escolhas 
muito 
mais 
inteligentes 
do 
que 
aquelas 
que 
nossos 
pais 
nos 
ensinaram. 
Essas 
escolhas 
dos 
feiticeiros 
destinam-se 
a 
recompor 
nossas 
vidas 
alterando 
nossas 
reaes 
bsicas 
com 
relao 
a 
estarmos 
vivos. 


 
Quais 
so 
essas 
reaes 
bsicas? 
 
Existem 
dois 
meios 
de 
enfrentar 
o 
fato 
de 
estarmos 
vivos 
 
disse 
ele. 
 
Um 
 
render-se 
a 
ele, 
seja 
concordando 
com 
suas 
exigncias, 
seja 
lutando 
contra 
elas. 
Outro 
 
moldando 
nossa 
situao 
particular 
de 
vida 
para 
que 
ela 
se 
adapte 
a 
nossas 
prprias 
configuraes. 


 
Podemos 
realmente 
moldar 
nossa 
situao 
de 
vida, 
Dom 
Juan? 
 
Nossa 
situao 
particular 
de 
vida 
pode 
ser 
moldada 
para 
se 
ajustar 
s 
nossas 
especificaes 
 
insistiu 
Dom 
Juan. 
 
Os 
sonhadores 
fazem 
isso. 
Acha 
uma 
afirmativa 
doida? 
No 
, 
se 
voc 
considerar 
como 
ns 
conhecemos 
pouco 
ns 
mesmos. 
Disse 
que 
seu 
interesse, 
como 
professor, 
era 
envolver-se 
por 
inteiro 
com 
os 
temas 
da 
vida 
e 
de 
estar 
vivo; 
isto 
, 
com 
a 
diferena 
entre 
a 
vida 
 
como 
conseqncia 
de 
foras 
biolgicas 
 
e 
o 
ato 
de 
estar 
vivo 
 
como 
uma 
questo 
cognitiva. 


 
Quando 
os 
feiticeiros 
falam 
de 
moldar 
nossa 
situao 
de 
vida 
esto 
falando 
de 
moldar 
a 
conscincia 
de 
estar 
vivo. 
Moldando 
essa 
conscincia 
podemos 
conseguir 
energia 
suficiente 
para 
alcanar 
e 
manter 
o 
corpo 
energtico, 
e 
com 
ele 
certamente 
podemos 
moldar 
a 
direo 
total 
e 
as 
conseqncias 
de 
nossas 
vidas. 
Dom 
Juan 
terminou 
nossa 
conversa 
sobre 
sonhar 
insistindo 
para 
que 
eu 
no 
pensasse 
meramente 
no 
que 
ele 
me 
disse, 
mas 
que 
transformasse 
seus 
conceitos 
num 
modo 
factvel 
de 
vida 
atravs 
de 


#
um 
processo 
de 
repetio. 
Afirmou 
que 
tudo 
que 
 
novo 
em 
nossas 
vidas, 
como 
os 
conceitos 
dos 
feiticeiros 
que 
ele 
estava 
me 
ensinando, 
deve 
ser 
repetido 
at 
a 
exausto, 
antes 
que 
possamos 
nos 
abrir 
para 
eles. 
Observou 
que 
a 
repetio 
 
o 
modo 
pelo 
qual 
nossos 
progenitores 
nos 
socializaram 
para 
funcionar 
no 
mundo 
cotidiano. 


Enquanto 
prosseguia 
meus 
exerccios 
de 
sonhar, 
consegui 
a 
capacidade 
de 
ficar 
completamente 
consciente 
de 
que 
estava 
caindo 
no 
sono, 
bem 
como 
a 
capacidade 
de 
parar 
em 
meio 
a 
um 
sonho 
para 
examinar 
 
vontade 
tudo 
que 
fazia 
parte 
do 
contedo 
daquele 
sonho. 
Para 
mim, 
experimentar 
aquilo 
foi 
nada 
menos 
do 
que 
um 
ato 
miraculoso. 


Dom 
Juan 
afirmou 
que, 
 
medida 
que 
ganhamos 
maior 
controle 
sobre 
nossos 
sonhos, 
tambm 
aumentamos 
o 
controle 
sobre 
nossa 
ateno 
sonhadora. 
Ele 
estava 
certo 
ao 
dizer 
que 
a 
ateno 
sonhadora 
entra 
em 
ao 
ao 
ser 
chamada, 
quando 
recebe 
um 
objetivo. 
Ela 
entrar 
em 
ao 
no 
 
realmente 
um 
processo, 
como 
normalmente 
compreendemos 
um 
processo: 
um 
sistema 
contnuo 
de 
operaes 
ou 
uma 
srie 
de 
aes 
ou 
funes 
que 
produzem 
um 
resultado. 
 
mais 
parecido 
com 
acordar. 
Uma 
coisa 
adormecida 
que 
se 
torna 
subitamente 
funcional 


#
3 


O 
SEGUNDO 
PORTO 
DO 
SONHAR 


D
D
escobri, 
atravs 
de 
meus 
exerccios, 
que 
um 
professor 
do 
sonhar 
deve 
criar 
uma 
sntese 
didtica 
para 
enfatizar 
um 
determinado 
ponto. 
Em 
essncia, 
o 
que 
Dom 
Juan 
desejava 
com 
a 
primeira 
tarefa 
que 
me 
deu 
era 
exercitar 
minha 
ateno 
sonhadora, 
concentrando-a 
nos 
itens 
de 
meus 
sonhos. 
Com 
esse 
objetivo 
usou, 
como 
ponta 
de 
lana, 
a 
idia 
de 
ficar 
consciente 
de 
que 
estava 
caindo 
no 
sono. 
Seu 
subterfgio 
foi 
dizer 
que 
o 
nico 
modo 
de 
ficar 
consciente 
de 
estar 
caindo 
no 
sono 
era 
examinar 
os 
elementos 
dos 
sonhos. 


Percebi, 
praticamente 
assim 
que 
iniciei 
meus 
exerccios 
de 
sonhar, 
que 
exercitar 
a 
ateno 
sonhadora 
 
o 
ponto 
essencial 
no 
sonhar. 
Para 
a 
mente, 
entretanto, 
parece 
impossvel 
podermos 
nos 
exercitar 
para 
ficar 
conscientes 
no 
nvel 
dos 
sonhos. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
o 
elemento 
ativo 
desse 
treinamento 
 
a 
persistncia, 
e 
que 
a 
mente 
e 
todas 
as 
suas 
defesas 
racionais 
no 
podem 
enfrentar 
a 
persistncia. 
Cedo 
ou 
tarde, 
disse 
ele, 
as 
barreiras 
da 
mente 
desmoronam 
sob 
seu 
impacto, 
e 
a 
ateno 
sonhadora 
floresce. 


Enquanto 
eu 
treinava 
concentrar 
e 
manter 
minha 
ateno 
sonhadora 
nos 
itens 
de 
meus 
sonhos, 
comecei 
a 
sentir 
uma 
auto-
confiana 
peculiar, 
to 
notvel 
que 
pedi 
a 
Dom 
Juan 
para 
coment-
la. 


 
 
o 
fato 
de 
voc 
estar 
entrando 
na 
segunda 
ateno 
que 
lhe 
d 
essa 
sensao 
de 
autoconfiana. 
Isso 
pede 
ainda 
mais 
sobriedade 
#
de 
sua 
parte. 
V 
devagar, 
mas 
no 
pare. 
E, 
acima 
de 
tudo, 
no 
fale 
a 
respeito. 
Apenas 
faa! 


Falei 
que, 
na 
prtica, 
eu 
j 
havia 
confirmado 
o 
que 
ele 
me 
dissera, 
que 
se 
desse 
olhadas 
rpidas 
para 
tudo 
que 
houvesse 
num 
sonho 
as 
imagens 
no 
se 
dissolviam. 
Comentei 
que 
a 
parte 
difcil 
 
romper 
a 
barreira 
inicial 
que 
nos 
impede 
de 
trazer 
o 
sonho 
 
ateno 
consciente. 
Pedi 
a 
Dom 
Juan 
que 
desse 
sua 
opinio 
sobre 
esse 
assunto, 
j 
que 
eu 
acreditava 
seriamente 
que 
essa 
 
uma 
barreira 
psicolgica 
criada 
por 
nossa 
socializao, 
que 
valoriza 
o 
fato 
de 
desconsiderarmos 
os 
sonhos. 


 
A 
barreira 
 
mais 
do 
que 
socializao 
 
ele 
respondeu. 
 
 
o 
primeiro 
porto 
do 
sonhar. 
Agora 
que 
o 
ultrapassou, 
voc 
acha 
estpido 
no 
podermos 
parar 
 
vontade 
e 
prestar 
ateno 
aos 
itens 
de 
nossos 
sonhos. 
Essa 
 
uma 
falsa 
certeza. 
O 
primeiro 
porto 
do 
sonhar 
tem 
a 
ver 
com 
o 
fluxo 
de 
energia 
no 
universo. 
 
um 
obstculo 
natural. 
Dom 
Juan 
fez 
com 
que 
eu 
concordasse 
que 
falaramos 
sobre 
sonhar 
apenas 
na 
segunda 
ateno, 
e 
do 
jeito 
que 
ele 
achasse 
adequado. 
Encorajou-me 
a 
exercitar, 
enquanto 
isso, 
e 
prometeu 
no 
interferir. 


Enquanto 
adquiria 
prtica 
em 
estabelecer 
o 
sonho, 
experimentei 
repetidamente 
sensaes 
que 
eu 
pessoalmente 
achei 
de 
grande 
importncia, 
como 
a 
sensao 
de 
estar 
rolando 
para 
um 
fosso 
exatamente 
na 
hora 
em 
que 
caa 
no 
sono. 
Dom 
Juan 
nunca 
me 
disse 
que 
essas 
fossem 
sensaes 
absurdas, 
e 
deixou 
que 
as 
registrasse 
em 
minhas 
anotaes. 
Agora 
percebo 
o 
quanto 
devo 
ter 
parecido 
absurdo 
para 
ele. 
Hoje, 
se 
eu 
estivesse 
ensinando 
a 
sonhar, 
desencorajaria 
totalmente 
esse 
comportamento. 
Dom 
Juan 
meramente 
zombava 
de 
mim, 
chamando-me 
de 
egomanaco 
disfarado, 
que 
professava 
estar 
lutando 
contra 
a 
auto-importncia 
e 
mesmo 
assim 
mantinha 
um 
dirio 
meticuloso 
e 
superpessoal 
chamado 
de 
Meus 
Sonhos. 


Sempre 
que 
tinha 
oportunidade 
Dom 
Juan 
afirmava 
que 
a 


#
energia 
necessria 
para 
liberar 
a 
ateno 
sonhadora 
de 
sua 
priso 
socializante 
vinha 
de 
redistribuir 
nossa 
energia 
existente. 
Nada 
poderia 
ser 
mais 
verdadeiro. 
O 
surgimento 
da 
ateno 
sonhadora 
 
um 
corolrio 
direto 
da 
remodelao 
de 
nossas 
vidas. 
J 
que, 
como 
disse 
Dom 
Juan, 
no 
temos 
como 
buscar 
uma 
fonte 
externa 
para 
reforar 
nossa 
energia, 
devemos 
redistribuir 
nossa 
energia 
existente 
atravs 
de 
qualquer 
meio 
disponvel. 


Dom 
Juan 
insistia 
em 
que 
o 
caminho 
dos 
feiticeiros 
era 
o 
melhor 
jeito 
de 
lubrificar, 
por 
assim 
dizer, 
as 
engrenagens 
da 
redistribuio 
da 
energia, 
e 
que 
de 
todos 
os 
itens 
do 
caminho 
dos 
feiticeiros 
o 
mais 
eficaz 
 
perder 
a 
auto-importncia. 
Ele 
estava 
totalmente 
convencido 
de 
que 
isso 
 
indispensvel 
para 
tudo 
que 
os 
feiticeiros 
fazem, 
e 
por 
isso 
fazia 
um 
esforo 
enorme 
em 
guiar 
todos 
os 
seus 
alunos 
a 
cumprir 
essa 
exigncia. 
Era 
de 
opinio 
que 
a 
auto-
importncia 
no 
 
apenas 
o 
inimigo 
supremo 
dos 
feiticeiros, 
mas 
a 
nmesis 
da 
humanidade. 


O 
argumento 
de 
Dom 
Juan 
era 
que 
a 
maior 
parte 
de 
nossa 
energia 
vai 
para 
o 
sustento 
de 
nossa 
importncia. 
Isso 
fica 
mais 
bvio 
em 
nossa 
infinita 
preocupao 
com 
a 
apresentao 
do 
Eu; 
com 


o 
fato 
de 
sermos 
ou 
no 
admirados 
ou 
amados 
ou 
reconhecidos. 
Ele 
dizia 
que, 
se 
formos 
capazes 
de 
perder 
parte 
dessa 
importncia, 
duas 
coisas 
extraordinrias 
nos 
aconteceriam. 
Uma, 
libertaramos 
nossa 
energia 
da 
tentativa 
de 
manter 
a 
idia 
ilusria 
de 
grandeza; 
e 
duas, 
danamos 
a 
ns 
mesmos 
energia 
suficiente 
Para 
entrar 
na 
segunda 
ateno 
e 
vislumbrar 
a 
grandeza 
real 
do 
universo. 
Demorei 
mais 
de 
dois 
anos 
at 
conseguir 
focalizar 
minha 
ateno 
sonhadora 
em 
qualquer 
coisa 
que 
desejasse. 
E 
fiquei 
to 
hbil 
que 
sentia 
como 
se 
viesse 
fazendo 
aquilo 
durante 
toda 
a 
vida. 
O 
mais 
misterioso 
 
que 
eu 
no 
podia 
conceber 
que 
um 
dia 
no 
tivera 
essa 
capacidade. 
No 
entanto, 
podia 
lembrar 
como 
fora 
difcil 
at 
mesmo 
pensar 
nela 
como 
uma 
coisa 
possvel. 
Ocorreu-me 
que 
a 
capacidade 
de 
examinar 
o 
contedo 
dos 
sonhos 
deveria 
ser 
o 
produto 
de 
uma 
configurao 
natural 
de 
nossos 
seres, 
talvez 
semelhante 
 


#
capacidade 
de 
andar. 
Estamos 
fisicamente 
condicionados 
a 
andar 
apenas 
de 
um 
modo, 
com 
os 
dois 
ps. 
No 
entanto, 
precisamos 
fazer 
um 
esforo 
monumental 
para 
aprender 
a 
andar. 


Essa 
nova 
capacidade 
de 
olhar 
rapidamente 
para 
os 
itens 
de 
meus 
sonhos 
vinha 
junto 
com 
uma 
insistncia 
irritante 
em 
me 
lembrar 
para 
que 
olhasse 
os 
elementos 
dos 
sonhos. 
Eu 
conhecia 
minha 
tendncia 
compulsiva, 
mas 
nos 
sonhos 
essa 
compulsividade 
era 
tremendamente 
aumentada. 
Tornou-se 
to 
evidente 
que 
eu 
no 
apenas 
me 
ressentia 
de 
me 
ouvir 
insistindo 
comigo 
mesmo: 
comecei 
a 
questionar 
se 
era 
realmente 
compulsividade 
ou 
alguma 
outra 
coisa. 
Cheguei 
a 
pensar 
que 
estava 
ficando 
doido. 


 
Nos 
meus 
sonhos 
eu 
falo 
comigo 
mesmo 
sem 
parar, 
lembrando-me 
de 
olhar 
para 
as 
coisas 
 
disse 
a 
Dom 
Juan. 
Eu 
vinha 
respeitando 
nosso 
acordo 
de 
s 
falarmos 
sobre 
sonhar 
quando 
ele 
puxasse 
o 
assunto. 
Entretanto 
achei 
que 
aquela 
era 
uma 
emergncia. 


 
Soa 
como 
se 
no 
fosse 
voc, 
e 
sim 
outra 
pessoa? 
 
ele 
perguntou. 
 
Pensando 
bem, 
sim. 
Nessas 
horas 
no 
pareo 
ser 
eu. 
 
Ento 
no 
 
voc. 
Ainda 
no 
 
hora 
de 
explicar 
isso. 
Mas 
digamos 
que 
ns 
no 
estamos 
sozinhos 
neste 
mundo. 
Digamos 
que 
existem 
outros 
mundos 
disponveis 
para 
os 
sonhadores; 
mundos 
inteiros. 
Algumas 
vezes 
entidades 
energticas 
vm 
desses 
mundos 
at 
ns. 
Da 
prxima 
vez 
em 
que 
se 
ouvir 
resmungando 
consigo 
mesmo 
nos 
sonhos, 
fique 
com 
raiva 
e 
grite 
uma 
ordem. 
Diga: 
Pra 
com 
isso! 
Entrei 
em 
outra 
arena 
desafiante: 
lembrar, 
em 
meus 
sonhos, 
de 
gritar 
aquela 
ordem. 
Acho 
que 
talvez 
por 
ter-me 
irritado 
tanto 
ao 
me 
ouvir 
resmungando, 
realmente 
me 
lembrei 
de 
gritar: 
pra 
com 
isso! 
Os 
resmungos 
terminaram 
instantaneamente 
e 
nunca 
mais 
se 
repetiram. 


 
Todo 
sonhador 
experimenta 
isso? 
 
perguntei 
a 
Dom 
Juan 
quando 
o 
vi 
de 
novo. 
#
 
Alguns 
sim 
 
ele 
respondeu 
desinteressado. 
Comecei 
uma 
arenga, 
dizendo 
como 
aquilo 
tudo 
tinha 
sido 
estranho. 
Ele 
me 
interrompeu, 
dizendo: 


 
Agora 
voc 
est 
pronto 
para 
entrar 
no 
segundo 
porto 
do 
sonhar. 
Avaliei 
a 
oportunidade 
de 
buscar 
respostas 
para 
perguntas 
que 
eu 
no 
pudera 
fazer. 
O 
que 
experimentei 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
ele 
me 
fizera 
sonhar 
continuava 
em 
minha 
mente. 
Disse 
a 
Dom 
Juan 
que 
eu 
observava 
 
vontade 
os 
elementos 
de 
meus 
sonhos 
e 
nunca 
sentira 
qualquer 
coisa 
nem 
de 
longe 
semelhante, 
em 
termos 
de 
clareza 
e 
detalhe. 


 
Quando 
mais 
penso 
a 
respeito 
 
falei 
 
mais 
intrigante 
fica. 
Olhando 
aquelas 
pessoas 
naquele 
sonho 
eu 
senti 
um 
medo 
e 
uma 
repulsa 
impossvel 
de 
esquecer. 
O 
que 
era 
aquele 
sentimento, 
Dom 
Juan? 
 
Em 
minha 
opinio, 
seu 
corpo 
energtico 
se 
agarrou 
 
energia 
estranha 
daquele 
lugar 
e 
deitou 
e 
rolou. 
Naturalmente 
voc 
sentiu 
medo 
e 
repulsa: 
estava 
examinando 
pela 
primeira 
vez 
na 
vida 
uma 
energia 
aliengena. 
Voc 
tem 
uma 
propenso 
para 
se 
comportar 
como 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade. 
No 
momento 
em 
que 
tem 
uma 
chance, 
deixa 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
ir 
embora. 
Daquela 
vez 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
deslocou 
uma 
boa 
distncia. 
O 
resultado 
foi 
que 
voc 
viajou, 
como 
os 
feiticeiros 
antigos, 
para 
alm 
do 
mundo 
que 
conhecemos. 
Uma 
jornada 
real, 
mas 
perigosa. 


Deixei 
de 
lado 
o 
significado 
de 
sua 
afirmao, 
em 
nome 
de 
meu 
prprio 
interesse, 
e 
perguntei: 


 
Ser 
que 
aquela 
cidade 
ficava 
em 
outro 
planeta? 
 
Voc 
no 
pode 
explicar 
o 
sonhar 
atravs 
de 
coisas 
que 
sabe 
ou 
que 
suspeita 
saber. 
S 
posso 
dizer 
que 
a 
cidade 
que 
voc 
visitou 
no 
fica 
neste 
mundo. 
 
Onde 
fica, 
ento? 
 
Fora 
deste 
mundo, 
claro. 
Voc 
no 
 
to 
estpido. 
Essa 
foi 
a 
#
primeira 
coisa 
que 
voc 
percebeu. 
O 
que 
o 
faz 
andar 
em 
crculos 
 
que 
voc 
no 
imagina 
nada 
fora 
deste 
mundo. 


 
Onde 
 
fora 
deste 
mundo, 
Dom 
Juan? 
 
Acredite, 
a 
caracterstica 
mais 
extravagante 
da 
feitiaria 
 
a 
configurao 
chamada 
fora 
deste 
mundo. 
Por 
exemplo, 
voc 
presumiu 
que 
eu 
estava 
vendo 
as 
mesmas 
coisas 
que 
voc. 
Prova 
disso 
 
que 
nunca 
me 
perguntou 
o 
que 
eu 
vi. 
Voc, 
e 
apenas 
voc, 
viu 
uma 
cidade 
e 
pessoas 
naquela 
cidade. 
Eu 
no 
vi 
nada 
do 
tipo. 
Eu 
vi 
energia. 
De 
modo 
que 
fora 
deste 
mundo 
foi 
uma 
cidade 
apenas 
para 
voc, 
naquela 
ocasio. 
 
Mas 
ento, 
Dom 
Juan, 
no 
era 
uma 
cidade 
real. 
Existiu 
apenas 
para 
mim, 
na 
minha 
mente. 
 
No. 
No 
 
esse 
o 
caso. 
Agora 
voc 
quer 
reduzir 
uma 
coisa 
transcendental 
a 
uma 
coisa 
mundana. 
No 
pode 
fazer 
isso. 
Aquela 
viagem 
foi 
real. 
Voc 
a 
viu 
como 
uma 
cidade. 
Eu 
vi 
como 
energia. 
Nenhum 
de 
ns 
dois 
est 
certo 
nem 
errado. 
 
Minha 
confuso 
vem 
quando 
voc 
fala 
das 
coisas 
serem 
reais. 
Voc 
disse 
antes 
que 
chegamos 
a 
um 
lugar 
real. 
Mas, 
se 
era 
real, 
como 
podemos 
ter 
duas 
verses 
dele? 
 
Simples. 
Temos 
duas 
verses 
porque 
tivemos, 
naquele 
momento, 
dois 
nveis 
diferentes 
de 
uniformidade 
e 
coeso. 
Eu 
j 
expliquei 
que 
esses 
dois 
atributos 
so 
fundamentais 
para 
a 
percepo. 
 
Voc 
acha 
que 
eu 
posso 
voltar 
quela 
cidade 
em 
particular? 
 
Agora 
voc 
me 
pegou. 
No 
sei. 
Ou 
talvez 
saiba 
mas 
no 
possa 
explicar. 
Ou 
talvez 
possa 
explicar 
mas 
no 
queira. 
Voc 
vai 
ter 
de 
esperar 
e 
descobrir 
sozinho 
qual 
 
o 
caso. 
Recusou-se 
a 
continuar 
discutindo. 


 
Vamos 
continuar 
com 
nossos 
negcios 
 
falou. 
 
Voc 
alcana 
o 
segundo 
porto 
do 
sonhar 
quando 
acorda 
de 
um 
sonho 
em 
outro 
sonho. 
Voc 
pode 
ter 
quantos 
sonhos 
queira 
ou 
quantos 
seja 
capaz 
de 
ter, 
mas 
deve 
exercer 
um 
controle 
adequado 
e 
no 
acordar 
no 
mundo 
que 
conhecemos. 
#
Tive 
um 
choque 
de 
pnico. 


 
Est 
dizendo 
que 
eu 
nunca 
deveria 
acordar 
neste 
mundo? 
 
No, 
no 
quis 
dizer 
isso. 
Mas 
agora 
que 
voc 
falou, 
preciso 
dizer 
que 
 
uma 
alternativa. 
Os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
costumavam 
fazer 
isso, 
nunca 
acordar 
no 
mundo 
que 
conhecemos. 
Alguns 
dos 
feiticeiros 
de 
minha 
linha 
tambm 
fizeram 
isso. 
Certamente 
que 
pode 
ser 
feito, 
mas 
no 
recomendo. 
O 
que 
desejo 
 
que 
voc 
acorde 
naturalmente 
quando 
terminar 
de 
sonhar. 
Mas, 
enquanto 
est 
sonhando, 
quero 
que 
sonhe 
que 
acordou 
em 
outro 
sonho. 
Ouvi-me 
fazendo 
a 
mesma 
pergunta 
que 
fizera 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
ele 
me 
falou 
sobre 
estabelecer 
o 
sonhar. 


 
Mas 
 
possvel 
fazer 
isso? 
Dom 
Juan 
obviamente 
aproveitou 
minha 
estupidez 
e, 
rindo, 
repetiu 
a 
mesma 
resposta 
que 
havia 
dado 
antes: 


 
Claro 
que 
 
possvel. 
Esse 
controle 
no 
 
diferente 
do 
controle 
que 
temos 
sobre 
qualquer 
situao 
de 
nossas 
vidas 
cotidianas. 
Rapidamente 
superei 
meu 
embarao 
e 
estava 
pronto 
a 
fazer 
mais 
perguntas, 
mas 
Dom 
Juan 
antecipou-se 
e 
comeou 
a 
explicar 
caractersticas 
do 
segundo 
porto 
do 
sonhar; 
uma 
explicao 
que 
me 
deixou 
ainda 
mais 
inquieto. 


 
Existe 
um 
problema 
com 
o 
segundo 
porto 
 
disse 
ele. 
 
 
um 
problema 
que 
pode 
ser 
srio, 
dependendo 
da 
tendncia 
do 
carter 
de 
cada 
um. 
Se 
nossa 
tendncia 
for 
para 
nos 
entregarmos 
s 
coisas 
ou 
s 
situaes,poderemos 
levar 
um 
soco 
no 
queixo. 
 
Em 
que 
sentido, 
Dom 
Juan? 
 
Pense 
por 
um 
instante. 
Voc 
j 
experimentou 
a 
alegria 
extica 
de 
examinar 
o 
contedo 
dos 
seus 
sonhos. 
Imagine-se 
indo 
de 
sonho 
em 
sonho, 
olhando 
tudo, 
examinando 
cada 
detalhe. 
 
muito 
fcil 
perceber 
que 
podemos 
afundar 
em 
profundezas 
mortais. 
Especialmente 
se 
somos 
dados 
a 
nos 
entregar. 
 
O 
corpo 
ou 
o 
crebro 
no 
poria 
um 
ponto 
final 
nisso? 
#
 
Se 
fosse 
uma 
situao 
de 
sono 
natural, 
ou 
seja, 
normal, 
sim. 
Mas 
essa 
no 
 
uma 
situao 
normal. 
Isso 
 
o 
sonhar. 
Um 
sonhador, 
ao 
cruzar 
o 
primeiro 
porto, 
j 
chegou 
ao 
corpo 
energtico. 
O 
que 
realmente 
atravessa 
o 
segundo 
porto, 
saltando 
de 
sonho 
em 
sonho, 
 
o 
corpo 
energtico. 
 
Qual 
 
a 
implicao 
disso 
tudo, 
Dom 
Juan? 
 
A 
implicao 
 
que, 
ao 
cruzar 
o 
segundo 
porto, 
voc 
deve 
intentar 
um 
controle 
maior 
e 
mais 
sbrio 
de 
sua 
ateno 
sonhadora: 
a 
nica 
vlvula 
de 
segurana 
para 
os 
sonhadores. 
 
O 
que 
 
essa 
vlvula 
de 
segurana? 
 
Voc 
vai 
descobrir 
sozinho 
que 
o 
verdadeiro 
objetivo 
do 
sonhar 
 
aperfeioar 
o 
corpo 
energtico. 
Um 
corpo 
energtico 
perfeito 
 
entre 
outras 
coisas, 
claro 
 
tem 
um 
controle 
to 
grande 
sobre 
a 
ateno 
sonhadora 
a 
ponto 
de 
fazer 
com 
que 
o 
sonho 
pare 
quando 
for 
preciso. 
Essa 
 
a 
vlvula 
de 
segurana 
que 
os 
sonhadores 
tm. 
No 
importa 
o 
quanto 
eles 
se 
entreguem 
num 
determinado 
momento, 
sua 
ateno 
sonhadora 
deve 
fazer 
com 
que 
possam 
emergir. 
Comecei 
tudo 
de 
novo, 
em 
outra 
busca 
nos 
sonhos. 
Dessa 
vez 
o 
objetivo 
era 
mais 
escorregadio 
do 
que 
da 
primeira, 
e 
a 
dificuldade 
era 
ainda 
maior. 
Exatamente 
como 
acontecera 
na 
primeira 
tarefa, 
eu 
no 
conseguia 
ter 
idia 
do 
que 
fazer. 
Sentia 
a 
suspeita 
desencorajante 
de 
que 
toda 
a 
prtica 
que 
eu 
tivera 
no 
me 
ajudaria 
dessa 
vez. 
Depois 
de 
incontveis 
fracassos 
desisti 
e 
decidi 
simplesmente 
continuar 
a 
fixar 
minha 
ateno 
sonhadora 
em 
todos 
os 
itens 
dos 
sonhos. 
A 
aceitao 
dessa 
incapacidade 
pareceu 
me 
dar 
um 
impulso, 
e 
tornei-me 
ainda 
mais 
capaz 
de 
manter 
a 
viso 
de 
qualquer 
item 
de 
meus 
sonhos. 


Um 
ano 
se 
passou 
sem 
qualquer 
alterao, 
at 
que 
um 
dia 
alguma 
coisa 
mudou. 
Enquanto 
eu 
olhava 
uma 
janela 
em 
meu 
sonho, 
tentando 
descobrir 
se 
poderia 
vislumbrar 
a 
paisagem 
fora 
da 
sala, 
alguma 
fora 
que 
parecia 
um 
vento 
 
que 
eu 
senti 
como 
um 
zumbido 
nos 
ouvidos 
 
empurrou-me 
pela 
janela 
at 
o 
outro 
lado. 
Imediatamente 
antes 
minha 
ateno 
sonhadora 
tinha 
sido 
captada 


#
por 
uma 
estrutura 
estranha 
ao 
longe. 
Parecia 
um 
trator. 
A 
prxima 
coisa 
que 
eu 
soube 
 
que 
estava 
ao 
lado 
dele, 
examinando-o. 


Eu 
tinha 
perfeita 
conscincia 
de 
estar 
no 
sonho. 
Olhei 
ao 
redor 
para 
descobrir 
se 
poderia 
dizer 
de 
qual 
janela 
estivera 
olhando. 
A 
cena 
era 
uma 
fazenda 
no 
interior. 
No 
havia 
qualquer 
construo 
 
vista. 
Quis 
pensar 
a 
respeito. 
Mas 
a 
quantidade 
de 
mquinas 
agrcolas 
ao 
redor, 
como 
se 
estivessem 
abandonadas, 
atraiu 
toda 
a 
minha 
ateno. 
Examinei 
ceifadeiras, 
tratores, 
colheitadeiras, 
arados 
de 
disco, 
debulhadoras. 
Havia 
tantas 
que 
esqueci 
meu 
sonho 
original. 
O 
que 
eu 
desejava 
era 
me 
orientar 
olhando 
a 
paisagem 
ao 
redor. 
Havia 
alguma 
coisa 
a 
distncia 
que 
parecia 
um 
quadro 
de 
anncios 
perto 
de 
alguns 
postes 
de 
telefone. 


No 
instante 
em 
que 
fixei 
minha 
ateno 
no 
quadro 
de 
anncios 
passei 
a 
estar 
perto 
dele. 
A 
estrutura 
de 
ao 
do 
quadro 
me 
amedrontou. 
Era 
ameaadora. 
No 
quadro 
havia 
a 
figura 
de 
um 
prdio. 
Li 
o 
texto: 
era 
o 
anncio 
de 
um 
motel. 
Senti 
uma 
certeza 
peculiar 
de 
que 
estava 
no 
Oregon 
ou 
no 
norte 
da 
Califrnia. 


Procurei 
outras 
caractersticas 
do 
ambiente 
de 
meu 
sonho. 
Vi 
montanhas, 
muito 
distantes, 
e 
alguns 
morros 
verdes 
e 
arredondados 
no 
muito 
longe. 
Naqueles 
morros 
havia 
agrupamentos 
do 
que, 
segundo 
pensei, 
eram 
carvalhos 
da 
Califrnia. 
Desejei 
ser 
puxado 
pelos 
morros 
verdes, 
mas 
o 
que 
me 
puxou 
foram 
as 
montanhas 
distantes. 
Fiquei 
convencido 
de 
que 
eram 
as 
Sierras. 


Naquelas 
montanhas 
minha 
energia 
sonhadora 
me 
abandonou. 
Mas 
antes 
disso 
fui 
puxado 
por 
todas 
as 
caractersticas 
possveis. 
Meu 
sonho 
deixou 
de 
ser 
um 
sonho. 
At 
o 
ponto 
em 
que 
conseguia 
perceber, 
eu 
estava 
verdadeiramente 
nas 
Sierras, 
voando 
sobre 
ravinas, 
pedras, 
rvores, 
cavernas. 
Ia 
das 
escarpas 
aos 
picos 
das 
montanhas, 
at 
no 
ter 
mais 
impulso 
e 
no 
poder 
focalizar 
a 
ateno 
sonhadora 
em 
nada. 
Senti 
que 
perdia 
o 
controle. 
Finalmente 
no 
houve 
mais 
paisagem. 
Apenas 
escurido. 


 
Voc 
chegou 
ao 
segundo 
porto 
do 
sonhar 
 
disse 
Dom 
Juan 
quando 
narrei 
meu 
sonho. 
 
Em 
seguida 
voc 
deve 
atravess-
#
lo. 
Atravessar 
o 
segundo 
porto 
 
uma 
coisa 
muito 
sria; 
requer 
um 
esforo 
extremamente 
disciplinado. 


Eu 
no 
tinha 
certeza 
se 
havia 
realizado 
a 
tarefa 
que 
ele 
me 
propusera, 
porque 
na 
verdade 
no 
havia 
acordado 
em 
outro 
sonho. 
Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
essa 
irregularidade. 


 
O 
erro 
foi 
meu 
 
disse 
ele. 
 
Eu 
falei 
que 
era 
preciso 
acordar 
em 
outro 
sonho, 
mas 
queria 
dizer 
que 
 
preciso 
mudar 
de 
sonhos 
de 
um 
modo 
ordenado 
e 
preciso, 
como 
voc 
fez. 
Com 
o 
primeiro 
porto 
voc 
gastou 
um 
tempo 
enorme 
olhando 
exclusivamente 
para 
as 
mos. 
Dessa 
vez 
voc 
foi 
direto 
para 
a 
soluo 
sem 
se 
importar 
em 
seguir 
o 
comando: 
acordar 
em 
outro 
sonho. 


Dom 
Juan 
disse 
que 
existem 
dois 
modos 
de 
cruzar 
o 
segundo 
porto 
do 
sonhar. 
Um 
 
acordarem 
outro 
sonho, 
isto 
, 
sonhar 
que 
est 
tendo 
um 
sonho 
e 
em 
seguida 
sonhar 
que 
est 
acordando 
dele. 
A 
outra 
alternativa 
 
usar 
os 
itens 
de 
um 
sonho 
para 
disparar 
outro 
sonho, 
exatamente 
como 
eu 
fizera. 


Como 
vinha 
fazendo 
o 
tempo 
todo, 
Dom 
Juan 
me 
deixou 
treinar 
sem 
qualquer 
interferncia. 
E 
eu 
corroborei 
as 
duas 
alternativas 
que 
ele 
descrevera. 
Sonhava 
que 
tinha 
um 
sonho 
do 
qual 
sonhava 
que 
havia 
acordado. 
Ou 
fazia 
um 
zoom, 
indo 
de 
um 
item 
definido, 
acessvel 
 
minha 
ateno 
sonhadora 
imediata, 
at 
outro, 
no 
to 
acessvel. 
Ou 
entrava 
numa 
ligeira 
variao 
do 
segundo 
processo: 
olhava 
para 
qualquer 
item 
de 
um 
sonho, 
mantendo 
o 
olhar 
at 
que 
o 
item 
mudava 
de 
forma 
e, 
mudando, 
puxava-me 
para 
outro 
sonho 
atravs 
de 
um 
vrtice 
cheio 
de 
zumbidos. 
Mas 
nunca 
fui 
capaz 
de 
decidir 
antecipadamente 
qual 
dos 
trs 
processos 
utilizaria. 
Meus 
exerccios 
de 
sonhar 
terminavam 
sempre 
quando 
eu 
ficava 
sem 
energia 
e 
finalmente 
acordava 
ou 
caa 
num 
sono 
escuro 
e 
profundo. 


Tudo 
corria 
bem 
em 
meus 
exerccios. 
A 
nica 
perturbao 
era 
uma 
interferncia 
peculiar; 
um 
choque 
de 
medo 
ou 
desconforto 
que 
comecei 
a 
sentir 
com 
freqncia 
cada 
vez 
maior. 
O 
modo 
de 


#
descart-lo 
era 
acreditar 
que 
tinha 
a 
ver 
com 
meus 
horrveis 
hbitos 
alimentares 
ou 
com 
o 
fato 
de 
que, 
naqueles 
dias, 
Dom 
Juan 
estava 
me 
dando 
uma 
profuso 
de 
plantas 
alucingenas, 
como 
parte 
do 
treinamento. 
Mas 
aqueles 
choques 
tornaram-se 
to 
freqentes 
que 
precisei 
pedir 
o 
conselho 
de 
Dom 
Juan. 


 
Agora 
voc 
entrou 
na 
faceta 
mais 
perigosa 
do 
conhecimento 
dos 
feiticeiros 
 
comeou 
ele. 
 
 
o 
puro 
pavor; 
um 
verdadeiro 
pesadelo. 
Eu 
poderia 
brincar 
com 
voc 
e 
dizer 
que 
no 
mencionei 
essa 
hiptese 
em 
considerao 
 
sua 
racionalidade 
adorada, 
mas 
no 
posso. 
Nesse 
ponto 
temo 
que 
voc 
possa 
achar 
que 
est 
indo 
s 
ltimas 
conseqncias. 
Dom 
Juan 
me 
explicou 
solenemente 
que 
a 
vida 
e 
a 
conscincia, 
por 
serem 
exclusivamente 
questo 
de 
energia, 
no 
so 
propriedade 
nica 
dos 
organismos. 
Disse 
que 
os 
feiticeiros 
viram 
que 
existem 
dois 
tipos 
de 
seres 
conscientes 
perambulando 
na 
terra, 
os 
orgnicos 
e 
os 
inorgnicos; 
e 
que, 
ao 
comparar 
um 
com 
o 
outro, 
viram 
que 
ambos 
so 
massas 
luminosas 
atravessadas, 
de 
todos 
os 
ngulos 
imaginveis, 
por 
milhes 
dos 
filamentos 
de 
energia 
do 
universo. 
So 
diferentes 
entre 
si 
na 
forma 
e 
no 
brilho. 
Os 
seres 
inorgnicos 
so 
longos, 
parecidos 
com 
velas, 
porm 
opacos, 
enquanto 
os 
seres 
orgnicos 
so 
redondos 
e 
muito 
mais 
brilhantes. 
Outra 
diferena 
digna 
de 
nota 
 
que, 
segundo 
Dom 
Juan, 
os 
feiticeiros 
viram 
 
 
que 
a 
vida 
e 
a 
conscincia 
dos 
seres 
orgnicos 
so 
curtas, 
porque 
eles 
so 
feitos 
para 
o 
movimento 
rpido 
e 
a 
pressa, 
enquanto 
a 
vida 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
infinitamente 
mais 
longa, 
e 
sua 
conscincia 
infinitamente 
mais 
calma 
e 
profunda. 


 
Os 
feiticeiros 
no 
tiveram 
qualquer 
problema 
em 
interagir 
com 
eles 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Os 
seres 
inorgnicos 
possuem 
o 
ingrediente 
crucial 
para 
a 
interao: 
a 
conscincia. 
 
Mas 
esses 
seres 
inorgnicos 
realmente 
existem? 
Como 
voc 
e 
eu? 
 
Claro 
que 
sim. 
Acredite, 
os 
feiticeiros 
so 
criaturas 
muito 
inteligentes; 
sob 
nenhuma 
condio 
brincariam 
com 
aberraes 
da 
#
mente 
e 
em 
seguida 
achariam 
que 
elas 
fossem 
reais. 


 
Por 
que 
voc 
diz 
que 
eles 
so 
vivos? 
 
Para 
os 
feiticeiros, 
ter 
vida 
significa 
ter 
conscincia. 
Significa 
ter 
um 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
o 
brilho 
de 
conscincia 
ao 
redor; 
essa 
condio 
mostra 
aos 
feiticeiros 
que 
o 
ser 
que 
est 
 
sua 
frente, 
orgnico 
ou 
inorgnico, 
 
totalmente 
capaz 
de 
perceber. 
A 
percepo 
 
vista 
pelos 
feiticeiros 
como 
a 
precondio 
para 
estar 
vivo. 
 
Ento 
os 
seres 
inorgnicos 
tambm 
devem 
morrer. 
Isso 
 
verdade, 
Dom 
Juan? 
 
Naturalmente. 
Eles 
perdem 
sua 
conscincia 
exatamente 
como 
ns, 
s 
que 
a 
durao 
de 
sua 
conscincia 
 
estonteante. 
 
Esses 
seres 
inorgnicos 
aparecem 
para 
os 
feiticeiros? 
 
Com 
eles, 
 
muito 
difcil 
dizer 
o 
que 
 
o 
qu. 
Digamos 
que 
esses 
seres 
so 
atrados 
por 
ns, 
ou 
melhor, 
so 
compelidos 
a 
interagir 
conosco. 
Dom 
Juan 
encarou-me 
atentamente. 


 
Voc 
no 
est 
captando 
nada 
 
disse 
no 
tom 
de 
quem 
estivesse 
chegando 
a 
uma 
concluso. 
 
Para 
mim 
 
quase 
impossvel 
pensar 
nisso 
racionalmente 
 
falei. 


 
Eu 
disse 
que 
o 
assunto 
iria 
pr 
sua 
razo 
 
prova. 
O 
melhor 
 
suspender 
o 
julgamento 
e 
deixar 
que 
as 
coisas 
sigam 
seu 
curso, 
ou 
seja, 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
venham 
at 
voc. 
 
Est 
falando 
srio, 
Dom 
Juan? 
 
Mortalmente 
srio. 
A 
dificuldade 
com 
os 
seres 
inorgnicos 
 
que 
sua 
conscincia 
 
muito 
lenta 
em 
comparao 
com 
a 
nossa. 
Leva 
anos 
at 
um 
feiticeiro 
ser 
percebido 
pelos 
seres 
inorgnicos. 
De 
modo 
que 
 
aconselhvel 
ter 
pacincia 
e 
esperar. 
Cedo 
ou 
tarde 
eles 
aparecem. 
Mas 
no 
como 
voc 
ou 
eu. 
Eles 
tm 
um 
jeito 
muito 
especial 
de 
se 
mostrar. 
 
Como 
os 
feiticeiros 
os 
atraem? 
Eles 
tm 
um 
ritual? 
 
Bom, 
certamente 
no 
ficam 
no 
meio 
da 
estrada 
chamando 
por 
eles 
com 
voz 
trmula 
 
meia-noite, 
se 
 
o 
que 
voc 
quer 
dizer. 
#
 
Ento 
o 
que 
fazem? 
 
Eles 
os 
atraem 
nos 
sonhos. 
Eu 
disse 
que 
o 
que 
estava 
envolvido 
era 
mais 
do 
que 
atra-los; 
atravs 
do 
ato 
de 
sonhar 
os 
feiticeiros 
obrigam 
esses 
seres 
a 
interagir 
com 
eles. 
 
Como 
os 
feiticeiros 
os 
obrigam 
atravs 
do 
ato 
de 
sonhar? 
 
Sonhar 
 
manter 
o 
posicionamento 
para 
o 
qual 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
mudou 
nos 
sonhos. 
Esse 
ato 
cria 
uma 
carga 
energtica 
especial 
que 
atrai 
a 
ateno 
deles. 
 
como 
isca 
para 
peixe; 
eles 
vo 
atrs. 
Os 
feiticeiros, 
ao 
atravessar 
os 
dois 
primeiros 
portes 
do 
sonhar, 
lanam 
a 
isca 
para 
esses 
seres 
e 
obrigam-nos 
a 
aparecer. 
Atravessando 
os 
dois 
portes 
voc 
fez 
com 
que 
eles 
notassem 
sua 
isca. 
Agora 
precisa 
esperar 
um 
sinal. 


 
Que 
sinal 
vai 
ser, 
Dom 
Juan? 
 
Possivelmente 
o 
aparecimento 
de 
um 
deles, 
se 
bem 
que 
parece 
cedo 
demais. 
Sou 
de 
opinio 
que 
o 
sinal 
deles 
ser 
sim-
plesmente 
alguma 
interferncia 
em 
seu 
sonhar. 
Acredito 
que 
os 
choques 
de 
medo 
que 
voc 
est 
experimentando 
atualmente 
no 
sejam 
indigesto, 
e 
sim 
choques 
de 
energia 
mandados 
pelos 
seres 
inorgnicos. 
 
O 
que 
devo 
fazer? 
 
Deve 
medir 
suas 
expectativas. 
No 
entendi 
o 
que 
ele 
quis 
dizer, 
e 
ele 
explicou 
cuidadosa 
mente 
que 
nossa 
expectativa 
normal, 
ao 
entrarmos 
em 
interao 
com 
os 
humanos 
ou 
com 
outros 
seres 
orgnicos, 
 
receber 
uma 
resposta 
imediata 
 
nossa 
solicitao. 
Os 
seres 
inorgnicos, 
entretanto, 
so 
separados 
de 
ns 
por 
uma 
barreira 
gigantesca: 
a 
energia 
que 
se 
move 
a 
diferentes 
velocidades. 
Os 
feiticeiros 
devem 
levar 
em 
conta 
essa 
diferena, 
medir 
suas 
expectativas 
e 
manter 
a 
solicitao 
pelo 
tempo 
necessrio 
para 
que 
ela 
seja 
confirmada. 


 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
a 
solicitao 
 
a 
mesma 
coisa 
que 
o 
treinamento 
do 
sonhar? 
 
Sim. 
Mas 
para 
um 
resultado 
perfeito 
voc 
deve 
acrescentar 
ao 
seu 
treino 
o 
intento 
de 
alcanar 
esses 
seres 
inorgnicos. 
Mandar 
#
para 
eles 
um 
sentimento 
de 
poder 
e 
de 
confiana, 
um 
sentimento 
de 
fora, 
de 
desprendimento. 
Evitar 
a 
todo 
custo 
mandar 
um 
sentimento 
de 
medo 
ou 
de 
morbidez. 
Eles 
j 
so 
bastante 
mrbidos; 
 
desnecessrio 
acrescentar 
a 
sua 
morbidez, 
para 
dizer 
o 
mnimo. 


 
Para 
mim 
ainda 
no 
est 
claro 
o 
modo 
como 
eles 
aparecem 
aos 
feiticeiros. 
Qual 
 
o 
modo 
especial 
como 
eles 
se 
do 
a 
conhecer? 
 
Algumas 
vezes 
eles 
se 
materializam 
no 
mundo 
cotidiano, 
bem 
na 
nossa 
frente. 
Na 
maioria 
das 
vezes, 
entretanto, 
sua 
presena 
invisvel 
 
marcada 
por 
um 
choque 
fsico; 
uma 
espcie 
de 
tremor 
que 
vem 
do 
tutano 
dos 
ossos. 
 
E 
no 
sonhar, 
Dom 
Juan? 
 
No 
sonhar 
temos 
o 
oposto 
total. 
s 
vezes 
ns 
os 
sentimos 
como 
voc 
est 
sentindo, 
como 
um 
choque 
de 
medo. 
Na 
maioria 
das 
vezes 
eles 
se 
materializam 
na 
nossa 
frente. 
Como 
no 
incio 
do 
sonhar 
no 
temos 
qualquer 
experincia, 
eles 
podem 
nos 
provocar 
um 
medo 
sem 
tamanho. 
Um 
verdadeiro 
perigo 
para 
ns. 
Atravs 
do 
canal 
do 
medo 
eles 
podem 
nos 
seguir 
at 
o 
mundo 
cotidiano, 
com 
resultados 
desastrosos. 
 
Em 
que 
sentido, 
Dom 
Juan? 
 
O 
medo 
pode 
se 
estabelecer 
em 
nossas 
vidas 
e 
teramos 
de 
nos 
desgarrar 
de 
tudo 
para 
poder 
lidar 
com 
ele. 
Os 
seres 
inorgnicos 
podem 
ser 
piores 
do 
que 
uma 
peste. 
Atravs 
do 
medo 
eles 
podem 
facilmente 
levar-nos 
 
loucura 
total. 
 
O 
que 
os 
feiticeiros 
fazem 
com 
os 
seres 
inorgnicos? 
 
Unem-se 
a 
eles. 
Transformam-nos 
em 
aliados. 
Formam 
associaes, 
criam 
amizades 
extraordinrias. 
Eu 
as 
chamo 
de 
vastos 
empreendimentos, 
onde 
a 
percepo 
representa 
o 
papel 
principal. 
Somos 
seres 
sociais. 
Buscamos 
inevitavelmente 
a 
companhia 
da 
conscincia. 
O 
segredo, 
com 
os 
seres 
inorgnicos, 
 
no 
ter 
medo. 
E 
isso 
deve 
ser 
feito 
desde 
o 
incio. 
Temos 
de 
mandar 
para 
eles 
um 
intento 
de 
poder 
e 
desapego. 
Nesse 
intento 
podemos 
codificar 
a 
mensagem: 
No 
tenho 
medo 
de 
voc. 
Venha 
me 
ver. 
Se 
vier, 
dou 
as 
boas-vindas. 


#
Se 
no 
quiser 
vir, 
vou 
sentir 
sua 
falta. 
Com 
uma 
mensagem 
assim, 
eles 
ficaro 
to 
curiosos 
que 
certamente 
iro 
aparecer. 


 
Por 
que 
eles 
viriam 
me 
procurar, 
ou 
por 
que 
diabo 
eu 
deveria 
procur-los? 
 
Os 
sonhadores, 
querendo 
ou 
no, 
buscam 
em 
seus 
sonhos 
associaes 
com 
outros 
seres. 
Isso 
pode 
ser 
um 
choque 
para 
voc, 
mas 
os 
sonhadores 
automaticamente 
buscam 
grupos 
de 
seres; 
nexos 
de 
seres 
inorgnicos, 
neste 
caso. 
Os 
sonhadores 
procuram-nos 
avidamente. 
 
Isso 
 
muito 
estranho, 
Dom 
Juan. 
Por 
que 
os 
sonhadores 
fazem 
isso? 
 
Para 
ns 
a 
novidade 
so 
os 
seres 
inorgnicos. 
E 
a 
novidade 
para 
eles 
 
a 
nossa 
maneira 
de 
cruzar 
as 
fronteiras 
at 
o 
seu 
reino. 
De 
agora 
em 
diante 
voc 
deve 
ter 
em 
mente 
que 
os 
seres 
inorgnicos, 
com 
sua 
conscincia 
soberba, 
exercem 
uma 
tremenda 
atrao 
sobre 
os 
sonhadores 
e 
podem 
facilmente 
transport-los 
para 
mundos 
alm 
de 
qualquer 
descrio. 
Os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
usavam-nos, 
e 
foram 
eles 
que 
cunharam 
o 
nome: 
aliados. 
Seus 
aliados 
lhes 
ensinaram 
a 
mover 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
fora 
dos 
limites 
do 
ovo, 
para 
o 
universo 
no-humano. 
Quando 
transportam 
um 
feiticeiro, 
eles 
transportam-
no 
para 
mundos 
alm 
do 
domnio 
humano. 


Enquanto 
ouvia 
fui 
assolado 
por 
estranhos 
medos 
e 
dvidas, 
que 
ele 
captou 
de 
imediato. 


 
Voc 
 
um 
homem 
religioso 
at 
no 
poder 
mais 
 
e 
riu. 
 
Bom, 
est 
sentindo 
o 
bafo 
do 
diabo 
na 
nuca. 
Pense 
nesses 
termos 
sobre 
o 
sonhar: 
sonhar 
 
perceber 
mais 
do 
que 
acreditamos 
que 
 
possvel 
perceber. 


Enquanto 
estava 
acordado 
eu 
me 
preocupava 
com 
a 
possibilidade 
de 
os 
seres 
inorgnicos 
realmente 
existirem. 
Quando 
sonhava, 
entretanto, 
minhas 
preocupaes 
conscientes 
no 
tinham 
muita 
importncia. 
Os 
choques 
de 
medo 
fsico 
prosseguiram, 
mas 
vinham 
sempre 
seguidos 
por 
uma 
estranha 
calma; 
uma 
calma 
que 


#
assumia 
o 
controle 
sobre 
mim 
e 
deixava 
que 
eu 
procedesse 
como 
se 
no 
tivesse 
qualquer 
medo. 


Naquela 
poca 
parecia 
que 
todas 
as 
viradas 
na 
arte 
de 
sonhar 
me 
aconteciam 
de 
sbito, 
sem 
aviso. 
A 
presena 
de 
seres 
inorgnicos 
em 
meus 
sonhos 
no 
foi 
exceo. 
Aconteceu 
enquanto 
eu 
sonhava 
com 
um 
circo 
que 
conheci 
na 
infncia. 
O 
cenrio 
parecia 
uma 
cidade 
nas 
montanhas 
do 
Arizona. 
Comecei 
a 
olhar 
as 
pessoas 
com 
a 
vaga 
esperana, 
que 
sempre 
sentia, 
de 
encontrar 
de 
novo 
as 
pessoas 
que 
vira 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
Dom 
Juan 
me 
fizera 
entrar 
na 
segunda 
ateno. 


Enquanto 
olhava 
senti 
um 
grande 
choque 
de 
nervosismo 
na 
boca 
do 
estmago; 
foi 
como 
um 
soco. 
O 
choque 
me 
distraiu 
e 
perdi 
de 
vista 
as 
pessoas, 
o 
circo 
e 
a 
cidade 
nas 
montanhas 
do 
Arizona. 
No 
lugar 
estavam 
duas 
figuras 
de 
aparncia 
estranha. 
Eram 
finas; 
menos 
de 
trinta 
centmetros 
de 
largura, 
mas 
compridas, 
talvez 
com 
dois 
metros 
e 
trinta 
de 
altura. 
Estavam 
curvadas 
sobre 
mim, 
como 
duas 
minhocas 
gigantes. 


Eu 
sabia 
que 
era 
um 
sonho, 
mas 
tambm 
sabia 
que 
estava 
vendo. 
Dom 
Juan 
havia 
discutido 
o 
ato 
de 
ver 
em 
minha 
conscincia 
normal 
e 
na 
segunda 
ateno. 
Apesar 
de 
minha 
incapacidade 
de 
fazer 
a 
experincia, 
achava 
que 
compreendia 
a 
idia 
de 
perceber 
a 
energia 
diretamente. 
Naquele 
sonho, 
olhando 
as 
duas 
aparies 
estranhas, 
percebi 
que 
estava 
vendo 
a 
essncia 
energtica 
de 
algo 
inacreditvel. 


Fiquei 
bastante 
calmo. 
No 
me 
mexi. 
Para 
mim 
a 
coisa 
mais 
notvel 
foi 
que 
eles 
no 
se 
dissolveram 
nem 
se 
transformaram 
em 
outra 
coisa. 
Eram 
seres 
coesos, 
que 
mantinham 
sua 
forma 
de 
vela. 
Alguma 
coisa 
neles 
estava 
forando 
alguma 
coisa 
em 
mim 
a 
manter 
a 
viso 
de 
sua 
forma. 
Eu 
sabia, 
porque 
algo 
estava 
me 
dizendo 
que, 
se 
no 
me 
mexesse, 
eles 
tambm 
no 
se 
mexeriam. 


Tudo 
terminou 
num 
determinado 
momento, 
quando 
acordei 
assustado. 
Fui 
imediatamente 
envolvido 
por 
medos. 
Uma 
preocupao 
profunda 
tomou 
conta 
de 
mim. 
No 
era 
uma 


#
preocupao 
psicolgica, 
mas 
uma 
sensao 
fsica 
de 
angstia, 
de 
tristeza 
sem 
motivo 
aparente. 


A 
partir 
de 
ento 
as 
duas 
formas 
estranhas 
apareciam 
em 
todas 
as 
minhas 
sesses 
de 
sonhar. 
Chegou 
a 
ser 
como 
se 
eu 
sonhasse 
apenas 
para 
encontr-los. 
Eles 
nunca 
tentavam 
se 
mover 
em 
minha 
direo 
ou 
interferir 
comigo 
de 
qualquer 
modo. 
Apenas 
ficavam 
ali, 
imveis, 
na 
minha 
frente, 
pelo 
tempo 
que 
o 
sonho 
durasse. 
Nunca 
fiz 
qualquer 
esforo 
de 
mudar 
os 
sonhos, 
e 
at 
mesmo 
esqueci 
a 
busca 
original 
de 
meus 
exerccios. 


Quando 
finalmente 
discuti 
com 
Dom 
Juan 
o 
que 
estava 
acontecendo 
eu 
j 
havia 
passado 
meses 
apenas 
olhando 
as 
duas 
formas. 


 
Voc 
est 
preso 
numa 
encruzilhada 
perigosa 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
No 
 
certo 
expulsar 
esses 
seres, 
mas 
tambm 
no 
 
certo 
deixar 
que 
eles 
fiquem. 
Por 
enquanto 
a 
presena 
deles 
 
um 
entrave 
para 
o 
seu 
sonhar. 
 
O 
que 
devo 
fazer, 
Dom 
Juan? 
 
Enfrente-os, 
agora 
mesmo, 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana, 
e 
diga 
para 
voltarem 
mais 
tarde, 
quando 
voc 
tiver 
mais 
poder 
de 
sonhar. 
 
Como 
posso 
enfrent-los? 
 
No 
 
simples, 
mas 
pode 
ser 
feito. 
Basta 
que 
voc 
tenha 
coragem 
suficiente, 
o 
que 
voc 
tem, 
claro. 
Sem 
esperar 
que 
eu 
dissesse 
a 
ele 
que 
no 
tinha 
a 
menor 
coragem, 
ele 
me 
levou 
para 
os 
morros. 
Na 
poca 
ele 
morava 
no 
norte 
do 
Mxico 
e 
me 
dera 
a 
total 
impresso 
de 
ser 
um 
feiticeiro 
solitrio; 
um 
velho 
esquecido 
por 
todos 
e 
completamente 
fora 
da 
corrente 
principal 
das 
questes 
humanas. 
No 
entanto 
eu 
deduzira 
que 
ele 
era 
inteligente 
alm 
da 
conta. 
E 
por 
causa 
disso 
estava 
disposto 
a 
ceder 
ao 
que 
acreditava 
que 
fossem 
simples 
excentricidades. 


A 
esperteza 
dos 
feiticeiros, 
cultivada 
atravs 
de 
eras, 
era 
a 
marca 
registrada 
de 
Dom 
Juan. 
Ele 
certificava-se 
de 
que 
eu 
compreendesse 
tudo 
que 
pudesse 
em 
minha 
conscincia 
normal 
e, 


#
ao 
mesmo 
tempo, 
tambm 
se 
certificava 
de 
que 
eu 
entrasse 
na 
segunda 
ateno, 
onde 
eu 
compreendia 
ou 
pelo 
menos 
ouvia 
apaixonadamente 
tudo 
que 
ele 
ensinava. 
Desse 
modo 
ele 
me 
dividia 
em 
dois. 
Em 
minha 
conscincia 
normal 
eu 
no 
podia 
compreender 
por 
que, 
ou 
como, 
estava 
sempre 
disposto 
a 
levar 
a 
srio 
suas 
excentricidades. 
Na 
segunda 
ateno 
tudo 
fazia 
sentido. 


Ele 
dizia 
que 
a 
segunda 
ateno 
est 
disponvel 
a 
todos, 
mas 
que 
o 
fato 
de 
nos 
agarramos 
 
nossa 
racionalidade 
capenga 
 
alguns 
com 
mais 
fora 
do 
que 
outros 
 
mantm 
a 
segunda 
ateno 
fora 
do 
alcance. 
Sua 
idia 
era 
que 
o 
sonhar 
derruba 
os 
muros 
que 
rodeiam 
e 
isolam 
a 
segunda 
ateno. 


No 
dia 
em 
que 
ele 
me 
levou 
ao 
deserto 
de 
Sonora 
para 
encontrar 
os 
seres 
inorgnicos 
eu 
estava 
em 
minha 
conscincia 
normal. 
De 
algum 
modo, 
entretanto, 
eu 
sabia 
que 
teria 
de 
fazer 
alguma 
coisa 
inacreditvel. 


Cara 
uma 
chuva 
leve 
no 
deserto. 
A 
terra 
vermelha 
ainda 
estava 
mida 
e 
se 
grudava 
s 
solas 
de 
borracha 
dos 
meus 
sapatos. 
Eu 
tinha 
de 
pisar 
em 
pedras 
para 
limpar 
os 
pesados 
bolos 
de 
terra. 
Andvamos 
para 
o 
leste, 
subindo 
em 
direo 
aos 
montes. 
Quando 
chegamos 
a 
uma 
estreita 
ravina 
entre 
dois 
morros, 
Dom 
Juan 
parou. 


 
Sem 
qualquer 
dvida 
esse 
 
um 
lugar 
ideal 
para 
invocar 
os 
seus 
amigos 
 
falou. 
 
Por 
que 
voc 
diz 
que 
so 
meus 
amigos? 
 
Eles 
prprios 
o 
escolheram. 
Quando 
fazem 
isso, 
significa 
que 
esto 
buscando 
uma 
associao. 
J 
falei 
que 
os 
feiticeiros 
formam 
laos 
de 
amizade 
com 
eles. 
Seu 
caso 
parece 
ser 
um 
exemplo. 
E 
voc 
nem 
mesmo 
precisa 
solicitar. 
 
Em 
que 
consiste 
essa 
amizade, 
Dom 
Juan? 
 
Consiste 
numa 
troca 
mtua 
de 
energia. 
Os 
seres 
inorgnicos 
do 
sua 
alta 
conscincia, 
e 
os 
feiticeiros 
lhes 
do 
sua 
alta 
energia. 
O 
resultado 
positivo 
 
uma 
troca 
eqitativa. 
O 
resultado 
negativo 
 
a 
dependncia 
de 
ambas 
as 
partes. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
costumavam 
amar 
seus 
aliados. 
Na 


#
verdade, 
eles 
amavam 
seus 
aliados 
mais 
do 
que 
amavam 
sua 
prpria 
espcie. 
Posso 
imaginar 
perigos 
terrveis 
nisso. 


 
O 
que 
recomenda 
que 
eu 
faa, 
Dom 
Juan? 
 
Invoque-os. 
Avalie-os 
e 
decida 
voc 
mesmo 
o 
que 
fazer. 
 
O 
que 
devo 
fazer 
para 
invoc-los? 
 
Visualize 
a 
imagem 
deles 
nos 
sonhos. 
Eles 
o 
saturaram 
com 
a 
presena 
nos 
sonhos 
porque 
desejam 
criar 
na 
sua 
mente 
uma 
lembrana 
da 
forma 
que 
possuem. 
E 
este 
 
o 
momento 
de 
usar 
essa 
lembrana. 
Dom 
Juan 
me 
ordenou 
que 
fechasse 
os 
olhos 
e 
os 
mantivesse 
fechados. 
Em 
seguida 
guiou-me 
para 
que 
eu 
sentasse 
numa 
pedra. 
Senti 
a 
dureza 
e 
o 
frio 
da 
pedra, 
que 
era 
inclinada. 
Ficou 
difcil 
manter 
o 
equilbrio. 


 
Sente-se 
a 
e 
visualize 
a 
forma 
deles, 
at 
que 
fique 
exatamente 
como 
eles 
so 
nos 
sonhos 
 
Dom 
Juan 
disse 
em 
meu 
ouvido. 
 
Diga 
quando 
tiver 
colocado 
em 
foco. 
Custou 
muito 
pouco 
tempo 
e 
esforo 
conseguir 
uma 
imagem 
mental 
completa, 
como 
nos 
sonhos. 
No 
me 
surpreendeu 
em 
absoluto 
o 
fato 
de 
poder 
faz-lo. 
O 
que 
me 
chocou 
foi 
que, 
mesmo 
tentando 
desesperadamente 
dizer 
a 
Dom 
Juan 
que 
os 
havia 
visualizado, 
no 
conseguia 
verbalizar 
as 
palavras 
nem 
abrir 
os 
olhos. 
Eu 
estava 
definitivamente 
acordado. 
Podia 
escutar 
tudo. 


Ouvi 
Dom 
Juan 
dizer: 


 
Agora 
voc 
pode 
abrir 
os 
olhos. 
Abri 
sem 
qualquer 
dificuldade. 
Eu 
estava 
sentado 
de 
pernas 
cruzadas, 
sobre 
algumas 
pedras 
que 
no 
eram 
as 
mesmas 
que 
sentira 
ao 
me 
sentar. 
Dom 
Juan 
se 
encontrava 
logo 
atrs 
de 
mim, 
 
direita. 
Tentei 
me 
virar 
para 
encar-lo, 
mas 
ele 
forou 
minha 
cabea 
a 
continuar 
olhando 
em 
frente. 
E 
em 
seguida 
vi 
duas 
figuras 
escuras, 
como 
dois 
finos 
troncos 
de 
rvore 
diante 
de 
mim. 


Fiquei 
olhando, 
boquiaberto. 
No 
eram 
to 
altos 
quanto 
nos 
sonhos. 
Tinham 
encolhido 
at 
metade 
do 
seu 
tamanho. 
Em 
vez 
de 
formas 
de 
luminosidade 
opaca, 
eram 
agora 
duas 
hastes 


#
ameaadoras, 
condensadas, 
escuras, 
quase 
negras. 


 
Levante-se 
e 
agarre 
um 
deles 
 
Dom 
Juan 
me 
ordenou. 
 
E 
no 
largue, 
no 
importa 
o 
quanto 
ele 
o 
sacudir. 
Eu 
definitivamente 
no 
queria 
fazer 
uma 
coisa 
daquelas, 
mas 
algum 
impulso 
desconhecido 
me 
fez 
levantar 
contra 
a 
vontade. 
Naquele 
momento 
percebi 
claramente 
que 
terminaria 
fazendo 
o 
que 
ele 
me 
ordenara, 
mesmo 
no 
tendo 
a 
inteno 
consciente. 


Avancei 
mecanicamente 
na 
direo 
das 
duas 
figuras; 
meu 
corao 
bombeava 
quase 
fora 
do 
peito. 
Agarrei 
a 
da 
direita. 
O 
que 
senti 
foi 
uma 
descarga 
eltrica 
que 
quase 
me 
fez 
largar 
aquela 
coisa 
escura. 


A 
voz 
de 
Dom 
Juan 
chegou 
como 
se 
ele 
estivesse 
gritando 
de 
uma 
longa 
distncia: 


 
Se 
largar, 
voc 
est 
perdido. 
Agarrei 
a 
figura, 
que 
se 
retorceu 
e 
sacudiu-se. 
No 
como 
um 
animal 
macio, 
mas 
como 
algo 
fofo 
e 
leve, 
mas 
fortemente 
eltrico. 
Durante 
um 
bom 
tempo 
rolamos 
e 
giramos 
na 
areia 
da 
ravina. 
Ela 
me 
deu 
choque 
aps 
choque 
de 
uma 
corrente 
eltrica 
enjoativa. 
Achei 
enjoativa 
porque 
percebi 
que 
era 
diferente 
da 
energia 
que 
eu 
sempre 
encontrara 
em 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Quando 
batia 
em 
meu 
corpo, 
a 
energia 
cutucava 
e 
me 
fazia 
gritar 
e 
rugir 
como 
um 
animal; 
no 
de 
angstia, 
mas 
de 
uma 
estranha 
raiva. 


Finalmente 
aquilo 
tornou-se 
uma 
forma 
parada, 
quase 
slida, 
debaixo 
de 
mim. 
Ficou 
inerte. 
Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
se 
o 
ser 
inorgnico 
estava 
morto, 
mas 
no 
ouvi 
minha 
voz. 


 
No 
h 
a 
menor 
chance 
 
disse 
algum 
rindo, 
algum 
que 
no 
era 
Dom 
Juan. 
 
Voc 
apenas 
esgotou 
a 
carga 
energtica 
dele. 
Mas 
no 
se 
levante 
ainda. 
Fique 
a 
s 
mais 
um 
instante. 
Olhei 
para 
Dom 
Juan 
com 
uma 
pergunta 
nos 
olhos. 
Ele 
estava 
me 
examinando 
com 
grande 
curiosidade. 
Em 
seguida 
ajudou-me 
a 
ficar 
de 
p. 
A 
coisa 
escura 
continuou 
no 
cho. 
Quis 
perguntar 
a 
Dom 
Juan 
se 
aquela 
figura 
estava 
bem. 
De 
novo 
no 
consegui 
verbalizar 
a 
pergunta. 
Ento 
fiz 
uma 
coisa 
extravagante. 
Assumi 
aquilo 
tudo 


#
como 
real. 
At 
aquele 
momento 
alguma 
coisa 
em 
minha 
mente 
preservava 
a 
racionalidade 
tomando 
aquilo 
como 
um 
sonho; 
um 
sonho 
induzido 
pelas 
maquinaes 
de 
Dom 
Juan. 


Fui 
at 
a 
figura 
no 
cho 
e 
tentei 
levant-la. 
No 
pude 
colocar 
os 
braos 
ao 
redor, 
porque 
ela 
no 
tinha 
massa. 
Fiquei 
desorientado. 
A 
mesma 
voz, 
que 
no 
era 
a 
de 
Dom 
Juan, 
disse-me 
para 
deitar 
sobre 
o 
ser 
inorgnico. 
Fiz 
isso, 
e 
ns 
dois 
nos 
levantamos 
num 
nico 
movimento; 
o 
ser 
inorgnico 
veio 
como 
uma 
sombra 
negra 
agarrada 
a 
mim. 
Ele 
separou-se 
gentilmente 
e 
desapareceu, 
deixando-me 
com 
um 
sentimento 
agradvel 
de 
completude. 


Demorei 
mais 
de 
vinte 
e 
quatro 
horas 
para 
recuperar 
todo 
o 
controle 
sobre 
minhas 
faculdades. 
Dormi 
a 
maior 
parte 
do 
tempo. 
Dom 
Juan 
me 
checava 
de 
vez 
em 
quando, 
fazendo 
a 
mesma 
pergunta: 


 
A 
energia 
do 
ser 
inorgnico 
era 
como 
fogo 
ou 
como 
gua? 
Minha 
garganta 
parecia 
ressecada. 
No 
conseguia 
dizer 
que 
os 
choques 
de 
energia 
que 
sentira 
eram 
como 
jatos 
de 
gua 
eletrificada. 
Nunca 
senti 
jatos 
de 
gua 
eletrificada 
na 
vida. 
No 
tenho 
certeza 
se 
 
possvel 
produzi-los 
ou 
senti-los, 
mas 
essa 
era 
a 
imagem 
em 
meu 
pensamento 
sempre 
que 
Dom 
Juan 
fazia 
sua 
pergunta 
fundamental. 


Dom 
Juan 
ainda 
estava 
dormindo 
quando 
eu 
percebi 
que 
estava 
totalmente 
recuperado. 
Sabendo 
que 
sua 
pergunta 
tinha 
enorme 
importncia, 
acordei-o 
e 
disse 
o 
que 
sentira. 


 
Voc 
no 
vai 
ter 
amigos 
prestativos 
entre 
os 
seres 
inorgnicos, 
e 
sim 
relacionamentos 
de 
dependncia 
incmoda 
 
afirmou. 
 
Seja 
extremamente 
cuidadoso. 
Os 
seres 
inorgnicos 
aquosos 
so 
mais 
dados 
a 
excessos. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
acreditavam 
que 
eles 
eram 
mais 
amveis; 
mais 
capazes 
de 
imitar, 
ou 
talvez 
at 
mesmo 
de 
ter 
sentimentos. 
Em 
oposio 
aos 
de 
fogo 
que, 
segundo 
se 
achava, 
eram 
mais 
srios; 
mais 
contidos 
do 
que 
os 
outros, 
mas 
tambm 
mais 
pomposos. 
 
Qual 
o 
significado 
disso 
tudo 
para 
mim, 
Dom 
Juan? 
 
O 
significado 
 
vasto 
demais 
para 
ser 
discutido 
nesse 
#
momento. 
Minha 
recomendao 
 
que 
voc 
expulse 
o 
medo 
dos 
sonhos 
e 
da 
vida, 
para 
salvaguardar 
sua 
unidade. 
O 
ser 
inorgnico, 
do 
qual 
voc 
esgotou 
a 
energia 
e 
em 
seguida 
recarregou, 
quase 
saiu 
de 
sua 
forma 
de 
vela, 
de 
tanta 
emoo. 
Ele 
vai 
voltar 
pedindo 
mais. 


 
Por 
que 
no 
me 
fez 
parar, 
Dom 
Juan? 
 
Voc 
no 
me 
deu 
tempo. 
Alm 
disso, 
voc 
nem 
mesmo 
me 
ouviu 
gritando 
para 
deixar 
o 
ser 
inorgnico 
no 
cho. 
 
Voc 
deveria 
ter-me 
preparado 
antes 
para 
todas 
as 
possibilidades, 
como 
sempre 
faz. 
 
Eu 
no 
conhecia 
todas 
as 
possibilidades. 
Nas 
questes 
dos 
seres 
inorgnicos 
sou 
praticamente 
um 
principiante. 
Recusei 
essa 
parte 
do 
conhecimento 
dos 
feiticeiros 
porque 
 
muito 
confusa 
e 
caprichosa. 
No 
desejo 
ficar 
 
merc 
de 
qualquer 
entidade, 
orgnica 
ou 
inorgnica. 
Esse 
foi 
o 
fim 
de 
nossa 
conversa. 
Eu 
deveria 
ter-me 
preocupado 
com 
sua 
reao 
claramente 
negativa, 
mas 
no 
me 
preocupei. 
De 
algum 
modo 
tinha 
certeza 
de 
que, 
o 
que 
quer 
que 
tivesse 
feito, 
estava 
certo. 


Continuei 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
sem 
qualquer 
interferncia 
por 
parte 
dos 
seres 
inorgnicos. 


#
4 


FIXANDO 
O 
PONTO 
DE 
AGLUTINAO 


C
C
omo 
nosso 
acordo 
era 
discutir 
o 
sonhar 
apenas 
quando 
Dom 
Juan 
achasse 
necessrio, 
eu 
raramente 
perguntava 
a 
respeito 
e 
nunca 
insistia 
em 
continuar 
minhas 
perguntas 
alm 
de 
um 
determinado 
ponto. 
De 
modo 
que 
estava 
sempre 
ansioso 
para 
ouvi-lo 
quando 
ele 
decidia 
entrar 
no 
assunto. 
Seus 
comentrios 
ou 
discusses 
sobre 
o 
sonhar 
invariavelmente 
se 
apoiavam 
em 
outros 
tpicos 
de 
seus 
ensinamentos, 
e 
surgiam 
sempre 
de 
modo 
sbito 
e 
abrupto. 


Um 
dia 
estvamos 
tendo 
uma 
conversa 
sem 
qualquer 
relao, 
enquanto 
eu 
o 
visitava 
em 
sua 
casa, 
quando 
sem 
qualquer 
prembulo 
ele 
disse 
que, 
atravs 
dos 
contatos 
de 
sonho 
com 
os 
seres 
inorgnicos, 
os 
feiticeiros 
antigos 
tornaram-se 
enormemente 
versados 
na 
manipulao 
do 
ponto 
de 
aglutinao; 
um 
tema 
vasto 
e 
soturno. 


Imediatamente 
agarrei 
a 
oportunidade 
e 
pedi 
a 
Dom 
Juan 
uma 
estimativa 
sobre 
a 
poca 
em 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
teriam 
vivido. 
Eu 
j 
fizera 
a 
mesma 
pergunta 
em 
vrias 
oportunidades 
anteriores, 
mas 
ele 
nunca 
dera 
uma 
resposta 
satisfatria. 
No 
entanto 
eu 
tinha 
confiana 
de 
que 
naquele 
momento, 
talvez 
porque 
ele 
mesmo 
puxara 


o 
assunto, 
ele 
estivesse 
disposto 
a 
me 
esclarecer. 
 
Esse 
 
um 
assunto 
muito 
rduo. 
 
O 
modo 
como 
falou 
me 
fez 
acreditar 
que 
estava 
descartando 
a 
pergunta. 
Fiquei 
bastante 
surpreso 
quando 
ele 
continuou, 
dizendo: 
 
Isso 
vai 
abalar 
tanto 
sua 
#
racionalidade 
quanto 
o 
tpico 
dos 
seres 
inorgnicos. 
A 
propsito, 
o 
que 
voc 
acha 
deles 
agora? 


 
Deixei 
minhas 
opinies 
de 
lado 
 
falei. 
 
No 
consigo 
ter 
qualquer 
idia. 
Minha 
resposta 
deliciou-o. 
Ele 
riu 
e 
comentou 
sobre 
seus 
medos 
e 
suas 
averses 
pelos 
seres 
inorgnicos. 


 
Eles 
nunca 
foram 
a 
minha 
preferncia. 
Claro, 
o 
motivo 
principal 
para 
isso 
 
o 
meu 
medo. 
No 
fui 
capaz 
de 
super-lo 
quando 
era 
preciso, 
e 
virou 
uma 
coisa 
fixa. 
 
Voc 
tem 
medo 
deles 
agora, 
Dom 
Juan? 
 
No 
 
propriamente 
medo, 
e 
sim 
repulsa. 
No 
quero 
nada 
com 
eles. 
 
Existe 
algum 
motivo 
particular 
para 
essa 
repulsa? 
 
O 
melhor 
motivo 
do 
mundo: 
ns 
somos 
antteses. 
Eles 
amam 
a 
escravido 
e 
eu 
amo 
a 
liberdade. 
Eles 
adoram 
comprar, 
e 
eu 
no 
vendo. 
Fiquei 
inexplicavelmente 
agitado 
e 
disse 
bruscamente 
que 
o 
assunto 
era 
to 
disparatado 
que 
no 
poderia 
lev-lo 
a 
srio. 
Ele 
me 
olhou 
sorrindo 
e 
disse: 


 
A 
melhor 
coisa 
a 
fazer 
com 
os 
seres 
inorgnicos 
 
o 
que 
voc 
faz: 
negar 
sua 
existncia, 
mas 
visit-los 
com 
regularidade 
e 
afirmar 
que 
est 
sonhando, 
e 
que 
nos 
sonhos 
tudo 
 
possvel. 
Desse 
modo 
voc 
no 
se 
compromete. 
Senti-me 
estranhamente 
culpado, 
mas 
no 
poderia 
imaginar 
por 
qu. 
Fui 
obrigado 
a 
perguntar: 


 
Do 
que 
est 
falando, 
Dom 
Juan? 
 
De 
suas 
visitas 
aos 
seres 
inorgnicos 
 
ele 
respondeu 
secamente. 
 
Est 
brincando? 
Que 
visitas? 
 
Eu 
no 
queria 
discutir 
isso, 
mas 
acho 
que 
est 
na 
hora 
de 
dizer 
que 
a 
voz 
que 
voc 
ouvia, 
lembrando-o 
para 
fixar 
sua 
ateno 
sonhadora 
nos 
itens 
dos 
sonhos, 
era 
a 
voz 
de 
um 
ser 
inorgnico. 
Achei 
que 
Dom 
Juan 
estava 
sendo 
completamente 
irracional. 


#
Fiquei 
to 
irritado 
que 
gritei 
com 
ele. 
Ele 
riu 
e 
pediu 
que 
eu 
falasse 
sobre 
minhas 
sesses 
de 
sonhos 
incomuns. 
Esse 
pedido 
me 
surpreendeu. 
Eu 
nunca 
mencionara 
a 
ningum 
que 
de 
vez 
em 
quando 
eu 
costumava 
fazer 
um 
zoom, 
saindo 
de 
um 
sonho 
atrado 
por 
um 
determinado 
item. 
Mas 
em 
vez 
de 
mudar 
de 
sonho, 
como 
deveria, 
todo 
o 
clima 
do 
sonho 
se 
alterava 
e 
eu 
me 
via 
numa 
dimenso 
desconhecida. 
Pairava 
ali, 
dirigido 
por 
algum 
guia 
invisvel 
que 
me 
fazia 
rodar 
e 
rodar. 
Eu 
sempre 
acordava 
desses 
sonhos 
ainda 
girando, 
e 
continuava 
rodando 
e 
rodando 
durante 
longo 
tempo 
at 
acordar 
por 
completo. 


 
So 
encontros 
genunos 
que 
voc 
est 
tendo 
com 
seus 
amigos 
inorgnicos 
 
disse 
Dom 
Juan. 
No 
quis 
discutir 
com 
ele, 
mas 
tambm 
no 
quis 
concordar. 
Fiquei 
quieto. 
Havia 
esquecido 
minha 
pergunta 
sobre 
os 
feiticeiros 
antigos, 
mas 
Dom 
Juan 
retomou 
o 
assunto. 


 
Pelo 
que 
sei 
os 
feiticeiros 
antigos 
remontam 
talvez 
a 
uns 
dez 
mil 
anos 
atrs 
 
falou 
sorrindo 
e 
observando 
minha 
reao. 
Baseando-me 
nos 
dados 
arqueolgicos 
existentes 
sobre 
a 
migrao 
das 
tribos 
nmades 
asiticas 
at 
as 
Amricas, 
falei 
que 
achava 
que 
sua 
datao 
estava 
incorreta. 
Dez 
mil 
anos 
era 
tempo 
demais. 


 
Voc 
tem 
o 
seu 
conhecimento 
e 
eu 
tenho 
o 
meu 
 
disse 
ele. 
 
Meu 
conhecimento 
 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
reinaram 
durante 
quatro 
mil 
anos, 
de 
sete 
mil 
a 
trs 
mil 
anos 
atrs. 
H 
trs 
mil 
anos 
eles 
foram 
para 
o 
nada. 
E 
a 
partir 
da 
os 
feiticeiros 
vm 
se 
reagrupando, 
reestruturando 
o 
que 
foi 
deixado 
pelos 
antigos. 
 
Como 
pode 
ter 
tanta 
certeza 
sobre 
as 
suas 
datas? 
 
perguntei. 


 
Como 
pode 
ter 
tanta 
certeza 
sobre 
as 
suas? 
 
ele 
retrucou. 
Falei 
que 
os 
arquelogos 
tm 
mtodos 
infalveis 
para 
estabelecer 
a 
data 
de 
culturas 
antigas. 
E 
novamente 
ele 
retrucou 
que 
os 
feiticeiros 
tambm 
tm 
mtodos 
infalveis. 


 
No 
estou 
tentando 
contrari-lo 
ou 
desmenti-lo 
 
#
continuou. 
 
Mas 
algum 
dia 
voc 
poder 
perguntar 
a 
algum 
que 
sabe 
com 
certeza. 


 
Ningum 
pode 
ter 
certeza 
disso, 
Dom 
Juan. 
 
Esta 
 
outra 
coisa 
impossvel 
de 
acreditar, 
mas 
existe 
algum 
que 
pode 
verificar 
tudo 
isso. 
Um 
dia 
voc 
vai 
encontrar 
essa 
pessoa. 
 
Ora, 
Dom 
Juan, 
voc 
tem 
que 
estar 
brincando. 
Quem 
pode 
verificar 
o 
que 
aconteceu 
h 
sete 
mil 
anos? 
 
Muito 
simples: 
um 
dos 
feiticeiros 
antigos 
de 
quem 
estivemos 
falando. 
O 
feiticeiro 
que 
eu 
conheci. 
Foi 
ele 
quem 
me 
contou 
tudo 
sobre 
os 
feiticeiros 
antigos. 
Espero 
que 
voc 
se 
lembre 
do 
que 
vou 
dizer 
sobre 
esse 
homem. 
Ele 
 
a 
chave 
para 
muitas 
das 
nossas 
buscas, 
e 
voc 
ter 
de 
encontr-lo. 
Falei 
a 
Dom 
Juan 
que 
estava 
ligado 
a 
cada 
palavra 
que 
ele 
dizia, 
ainda 
que 
no 
compreendesse. 
Ele 
me 
acusou 
de 
no 
lev-lo 
a 
srio, 
e 
de 
no 
acreditar 
numa 
palavra 
sobre 
os 
feiticeiros 
antigos. 
Admiti 
que 
em 
meu 
estado 
de 
conscincia 
cotidiana, 
claro, 
eu 
no 
acreditava 
naquelas 
histrias 
disparatadas 
sobre 
os 
feiticeiros 
antigos. 
Tampouco 
acreditava 
quando 
estava 
na 
segunda 
ateno. 
Ainda 
que, 
l, 
eu 
tivesse 
uma 
reao 
diferente. 


 
S 
fica 
uma 
histria 
disparatada 
quando 
voc 
avalia 
o 
que 
eu 
disse 
 
ele 
observou. 
 
Se 
voc 
no 
envolver 
o 
seu 
senso 
comum, 
permanece 
apenas 
uma 
questo 
de 
energia. 
 
Por 
que 
voc 
disse, 
Dom 
Juan, 
que 
vou 
encontrar 
um 
dos 
feiticeiros 
antigos? 
 
Porque 
vai. 
 
fundamental 
que 
vocs 
dois 
se 
encontrem 
algum 
dia. 
Mas 
por 
enquanto 
deixe-me 
contar 
outra 
histria 
disparatada 
sobre 
um 
dos 
naguals 
da 
minha 
linha, 
o 
Nagual 
Sebastian. 
Contou 
que 
o 
Nagual 
Sebastian 
fora 
sacristo 
numa 
igreja 
no 
sul 
do 
Mxico, 
em 
princpios 
do 
sculo 
XVIII. 
Em 
seu 
relato 
Dom 
Juan 
enfatizou 
que 
os 
feiticeiros, 
do 
passado 
ou 
do 
presente, 
buscam 
e 
encontram 
refgio 
em 
instituies 
estabelecidas, 
como 
a 
Igreja. 
Ele 


#
achava 
que, 
devido 
ao 
seu 
superior 
senso 
de 
disciplina, 
os 
feiticeiros 
so 
empregados 
de 
confiana, 
e 
que 
so 
procurados 
avidamente 
por 
instituies 
que 
esto 
sempre 
em 
extrema 
necessidade 
desse 
tipo 
de 
pessoa. 
Dom 
Juan 
disse 
que, 
enquanto 
ningum 
souber 
das 
atividades 
dos 
feiticeiros, 
sua 
falta 
de 
simpatias 
ideolgicas 
faz 
com 
que 
paream 
trabalhadores 
exemplares. 


Dom 
Juan 
continuou 
sua 
histria 
e 
disse 
que 
um 
dia, 
enquanto 
Sebastian 
realizava 
seus 
deveres 
de 
sacristo, 
um 
estranho 
entrou 
na 
igreja, 
um 
velho 
ndio 
que 
parecia 
doente. 
Em 
voz 
fraca 
disse 
a 
Sebastian 
que 
precisava 
de 
ajuda. 
O 
Nagual 
pensou 
que 
o 
ndio 
queria 
o 
proco, 
mas 
o 
homem, 
num 
grande 
esforo, 
dirigiu-se 
a 
ele. 
Num 
tom 
spero 
e 
direto, 
disse 
que 
sabia 
que 
Sebastian 
era 
no 
apenas 
um 
feiticeiro, 
mas 
tambm 
um 
Nagual. 


Alarmado 
pela 
sbita 
ocorrncia, 
Sebastian 
empurrou 
o 
ndio 
para 
o 
lado 
e 
exigiu 
desculpas. 
O 
homem 
respondeu 
que 
no 
estava 
ali 
para 
se 
desculpar, 
e 
sim 
para 
conseguir 
ajuda 
especializada. 
Disse 
que 
precisava 
receber 
a 
energia 
do 
Nagual 
para 
manter 
sua 
vida 
que, 
segundo 
assegurou 
a 
Sebastian, 
cobria 
milhares 
de 
anos, 
mas 
que 
no 
momento 
estava 
se 
desfazendo. 


Sebastian, 
que 
era 
um 
homem 
inteligente 
e 
no 
estava 
disposto 
a 
prestar 
ateno 
quele 
absurdo, 
insistiu 
que 
o 
velho 
ndio 
parasse 
de 
bancar 
o 
palhao. 
O 
velho 
ficou 
irado 
e 
ameaou 
expor 
Sebastian 
e 
seu 
grupo 
s 
autoridades 
eclesisticas, 
caso 
no 
atendesse 
 
sua 
exigncia. 


Dom 
Juan 
lembrou 
que 
naquela 
poca 
as 
autoridades 
eclesisticas 
estavam 
erradicando 
brutal 
e 
sistematicamente 
as 
prticas 
herticas 
entre 
os 
ndios 
do 
Novo 
Mundo. 
E 
a 
ameaa 
do 
homem 
no 
poderia 
ser 
descartada. 
O 
Nagual 
e 
seu 
grupo 
estavam 
correndo 
perigo 
mortal. 
Sebastian 
perguntou 
ao 
ndio 
como 
poderia 
lhe 
dar 
energia. 
O 
homem 
explicou 
que 
os 
naguals, 
atravs 
da 
disciplina, 
obtm 
uma 
energia 
peculiar, 
que 
eles 
guardam 
nos 
corpos, 
e 
que 
ele 
iria 
capt-la 
de 
modo 
indolor, 
do 
centro 
de 
energia 
no 
umbigo 
de 
Sebastian. 
Em 
troca 
Sebastian 
teria 
no 
s 
a 


#
oportunidade 
de 
continuar 
seus 
afazeres 
sem 
perturbao, 
mas 
tambm 
receberia 
um 
dom 
de 
poder. 


A 
conscincia 
de 
estar 
sendo 
manipulado 
pelo 
velho 
ndio 
no 
foi 
do 
agrado 
do 
Nagual, 
mas 
o 
homem 
continuou 
inflexvel 
e 
no 
deixou 
outra 
alternativa 
a 
no 
ser 
concordar 
com 
a 
exigncia. 


Dom 
Juan 
me 
assegurou 
que 
o 
ndio 
velho 
no 
estava 
exagerando 
em 
seus 
pedidos. 
Ele 
era 
um 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
um 
dos 
conhecidos 
como 
desafiadores 
da 
morte. 
Parece 
que 
havia 
sobrevivido 
at 
o 
presente 
manipulando 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
de 
um 
modo 
que 
apenas 
ele 
sabia. 


Dom 
Juan 
disse 
que 
o 
que 
foi 
trocado 
entre 
o 
sacristo 
e 
aquele 
homem 
tornou-se 
mais 
tarde 
a 
base 
de 
um 
acordo 
unindo 
todos 
os 
seis 
naguals 
que 
seguiam 
Sebastian. 
O 
desafiador 
da 
morte 
manteve 
a 
palavra. 
Em 
troca 
da 
energia 
de 
cada 
um 
daqueles 
homens 
fez 
uma 
doao, 
uma 
doao 
de 
poder. 
Sebastian 
teve 
de 
aceitar 
o 
dom, 
ainda 
que 
com 
relutncia; 
fora 
encostado 
contra 
a 
parede 
e 
no 
teve 
outra 
escolha. 
Entretanto 
os 
outros 
naguals 
que 
o 
seguiam 
aceitaram 
felizes 
e 
orgulhosos 
os 
seus 
dons. 


Dom 
Juan 
concluiu 
sua 
histria 
dizendo 
que, 
com 
o 
correr 
do 
tempo, 
o 
desafiador 
da 
morte 
veio 
a 
ser 
conhecido 
como 
o 
inquilino. 
E 
por 
mais 
de 
duzentos 
anos 
os 
naguals 
da 
linha 
de 
Dom 
Juan 
honraram 
aquele 
acordo, 
criando 
uma 
relao 
simbitica 
que 
mudou 


o 
curso 
e 
o 
objetivo 
final 
de 
sua 
linhagem. 
Dom 
Juan 
no 
se 
preocupou 
em 
explicar 
mais 
a 
histria, 
e 
fiquei 
com 
uma 
estranha 
sensao 
de 
verdade, 
mais 
perturbadora 
do 
que 
eu 
poderia 
imaginar. 


 
Como 
ele 
pde 
viver 
tanto? 
 
perguntei. 
 
Ningum 
sabe. 
Tudo 
que 
sabemos 
a 
seu 
respeito, 
durante 
geraes, 
 
o 
que 
ele 
conta. 
O 
desafiador 
da 
morte 
foi 
a 
pessoa 
a 
quem 
perguntei 
sobre 
os 
feiticeiros 
antigos, 
e 
ele 
me 
disse 
que 
chegaram 
ao 
auge 
h 
trs 
mil 
anos 
 
Como 
sabe 
que 
ele 
estava 
dizendo 
a 
verdade? 
 
perguntei. 
Dom 
Juan 
balanou 
a 
cabea 
com 
espanto, 
se 
 
que 
no 
com 
#
repulsa. 


 
Quando 
voc 
est 
encarando 
aquele 
inconcebvel 
desconhecido 
l 
fora 
 
falou 
apontando 
para 
tudo 
ao 
redor 
 
no 
se 
enrola 
com 
mentiras 
mesquinhas. 
As 
mentiras 
so 
apenas 
para 
pessoas 
que 
no 
testemunharam 
o 
que 
est 
l 
fora, 
esperando 
por 
elas. 
 
O 
que 
nos 
espera 
l 
fora, 
Dom 
Juan? 
Sua 
resposta, 
aparentemente 
uma 
frase 
incua, 
me 
aterrorizou 
mais 
do 
que 
se 
ele 
houvesse 
descrito 
a 
coisa 
mais 
horrenda. 


 
Algo 
absolutamente 
impessoal 
 
falou. 
Ele 
deve 
ter 
percebido 
que 
eu 
estava 
desmoronando. 
Fez 
com 
que 
eu 
mudasse 
os 
nveis 
de 
conscincia 
para 
que 
meu 
medo 
desvanecesse. 


Alguns 
meses 
mais 
tarde 
minha 
prtica 
de 
sonhar 
deu 
uma 
estranha 
reviravolta. 
Comecei 
a 
obter 
nos 
sonhos 
respostas 
a 
perguntas 
que 
estava 
planejando 
fazer 
a 
Dom 
Juan. 
A 
parte 
mais 
impressionante 
dessa 
esquisitice 
 
que 
aquilo 
rapidamente 
passou 
a 
ocorrer 
nos 
perodos 
em 
que 
estava 
acordado. 
E 
um 
dia, 
sentado 
 
escrivaninha, 
recebi 
a 
resposta 
a 
uma 
pergunta 
no-verbalizada 
sobre 
a 
realidade 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Eu 
vira 
tantas 
vezes 
os 
seres 
inorgnicos 
em 
sonhos 
que 
comeara 
a 
pensar 
neles 
como 
coisas 
reais. 
Lembrei-me 
de 
que 
havia 
at 
mesmo 
tocado 
um 
deles, 
num 
estado 
de 
conscincia 
seminormal 
no 
deserto 
de 
Sonora. 
E 
meus 
sonhos 
haviam 
sido 
periodicamente 
desviados 
para 
vises 
de 
mundos 
que 
eu 
seriamente 
duvidava 
que 
fossem 
produtos 
de 
minha 
mentalidade. 
Queria 
fazer 
a 
Dom 
Juan 
uma 
pergunta 
absolutamente 
concisa. 
De 
modo 
que 
moldei 
uma 
questo 
em 
pensamento: 
se 
aceitarmos 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
to 
reais 
quanto 
as 
pessoas, 
onde 
 
na 
estrutura 
fsica 
do 
universo 
 
fica 
o 
lugar 
onde 
eles 
existem? 


Depois 
de 
formular 
a 
pergunta 
a 
mim 
mesmo 
ouvi 
um 
riso 
estranho, 
como 
o 
que 
escutara 
no 
dia 
da 
luta 
com 
o 
ser 
inorgnico. 
Em 
seguida 
uma 
voz 
de 
homem 
me 
respondeu: 


#
 
Esse 
lugar 
existe 
numa 
posio 
especfica 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Exatamente 
como 
o 
seu 
mundo 
existe 
na 
posio 
habitual 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
A 
ltima 
coisa 
que 
eu 
desejava 
era 
um 
dilogo 
com 
uma 
voz 
sem 
corpo, 
de 
modo 
que 
levantei-me 
da 
cadeira 
e 
sa 
correndo 
de 
casa. 
Pensei 
que 
estava 
ficando 
louco. 
Outro 
tormento 
para 
adicionar 
 
minha 
coleo. 


A 
voz 
tinha 
sido 
to 
clara 
e 
autoritria 
que 
no 
somente 
me 
intrigou: 
me 
aterrorizou. 
Esperei, 
trepidando 
por 
dentro, 
que 
viessem 
jorros 
e 
mais 
jorros 
daquela 
voz, 
mas 
aquilo 
no 
se 
repetiu. 
Na 
primeira 
oportunidade 
consultei-me 
com 
Dom 
Juan. 


Ele 
no 
ficou 
nem 
um 
pouco 
impressionado. 


 
Voc 
deve 
entender 
de 
uma 
vez 
por 
todas 
que 
essas 
so 
coisas 
normais 
na 
vida 
de 
um 
feiticeiro. 
Voc 
no 
est 
ficando 
louco; 
est 
simplesmente 
ouvindo 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonhar. 
Depois 
de 
atravessar 
o 
primeiro 
ou 
o 
segundo 
porto 
do 
sonhar, 
os 
feiticeiros 
chegam 
a 
uma 
fronteira 
de 
energia 
e 
comeam 
a 
ver 
coisas 
ou 
a 
ouvir 
vozes. 
Na 
verdade 
no 
so 
vozes, 
e 
sim 
uma 
nica 
voz. 
Os 
feiticeiros 
chamam-na 
de 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho. 
 
O 
que 
 
o 
emissrio 
do 
sonho? 
 
Energia 
aliengena 
consciente. 
Energia 
aliengena 
que 
procura 
ajudar 
os 
sonhadores 
dizendo 
coisas. 
O 
problema 
com 
o 
emissrio 
do 
sonho 
 
que 
ele 
s 
pode 
dizer 
o 
que 
os 
feiticeiros 
j 
sabem 
ou 
deveriam 
saber, 
se 
valessem 
o 
que 
comem 
 
Dizer 
que 
 
uma 
energia 
aliengena 
consciente 
no 
me 
ajuda 
em 
nada, 
Dom 
Juan. 
Que 
tipo 
de 
energia? 
Benigna, 
maligna, 
certa, 
errada, 
o 
qu? 
 
 
exatamente 
o 
que 
eu 
disse: 
energia 
aliengena. 
Uma 
fora 
impessoal 
que 
transformamos 
em 
muito 
pessoal, 
porque 
tem 
uma 
voz. 
Alguns 
feiticeiros 
tm 
confiana 
absoluta 
nela. 
At 
mesmo 
a 
vem. 
Ou, 
como 
aconteceu 
com 
voc, 
simplesmente 
ouvem-na 
como 
voz 
de 
homem 
ou 
de 
mulher. 
E 
a 
voz 
pode 
falar 
com 
eles 
sobre 
o 
estado 
das 
coisas, 
o 
que 
na 
maior 
parte 
das 
vezes 
 
visto 
como 
um 
#
conselho 
sagrado. 


 
Por 
que 
alguns 
de 
ns 
ouvimos 
essa 
energia 
como 
se 
fosse 
uma 
voz? 
 
Ns 
vemos 
ou 
ouvimos 
porque 
mantemos 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
fixo 
num 
determinado 
posicionamento; 
quanto 
mais 
intensa 
a 
fixao, 
mais 
intensa 
nossa 
percepo 
do 
emissrio. 
Cuidado! 
Voc 
pode 
v-lo 
e 
senti-lo 
como 
uma 
mulher 
nua. 
Dom 
Juan 
riu 
do 
que 
disse, 
mas 
eu 
estava 
assustado 
demais 
para 
levar 
na 
brincadeira. 


 
Essa 
fora 
 
capaz 
de 
se 
materializar? 
 
Certamente. 
E 
tudo 
depende 
de 
como 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
est 
fixo. 
Mas 
fique 
tranqilo, 
se 
voc 
for 
capaz 
de 
manter 
um 
grau 
de 
desapego, 
nada 
acontece. 
O 
emissrio 
continua 
sendo 
o 
que 
: 
uma 
fora 
impessoal 
que 
age 
em 
ns 
por 
causa 
da 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
 
E 
o 
conselho 
dele 
 
garantido? 
 
No 
pode 
ser 
um 
conselho. 
Ele 
s 
diz 
o 
que 
 
o 
qu, 
e 
ns 
tiramos 
as 
concluses. 
Contei 
a 
Dom 
Juan 
o 
que 
a 
voz 
me 
havia 
dito. 


 
 
como 
eu 
falei 
 
Dom 
Juan 
observou. 
 
O 
emissrio 
no 
disse 
nada 
de 
novo. 
Sua 
afirmao 
estava 
correta, 
mas 
s 
na 
aparncia 
era 
uma 
coisa 
reveladora. 
O 
que 
o 
emissrio 
fez 
foi 
meramente 
repetir 
o 
que 
voc 
j 
sabia. 
 
Acho 
que 
no 
posso 
dizer 
que 
j 
sabia 
aquilo, 
Dom 
Juan. 
 
Pode 
sim. 
Agora 
voc 
sabe 
infinitamente 
mais 
sobre 
o 
mistrio 
do 
universo 
do 
que 
suspeita 
em 
termos 
racionais. 
Mas 
esse 
 
o 
mal 
dos 
seres 
humanos: 
sabemos 
mais 
sobre 
o 
mistrio 
do 
universo 
do 
que 
suspeitamos. 
Ter 
experimentado 
sozinho 
esse 
fenmeno 
incrvel, 
sem 
o 
apoio 
de 
Dom 
Juan, 
fez 
com 
que 
eu 
me 
sentisse 
exaltado. 
Queria 
mais 
informaes 
sobre 
o 
emissrio. 
Comecei 
a 
perguntar 
a 
Dom 
Juan 
se 
ele 
tambm 
ouvia 
a 
voz 
do 
emissrio. 


Ele 
me 
interrompeu 
e 
disse 
com 
um 
sorriso 
largo: 


#
 
Sim, 
sim. 
O 
emissrio 
tambm 
fala 
comigo. 
Quando 
eu 
era 
jovem 
costumava 
v-lo 
como 
um 
frade 
vestindo 
um 
capuz 
preto. 
Um 
frade 
falador 
que 
me 
deixava 
apavorado 
todas 
as 
vezes 
em 
que 
surgia. 
Depois, 
quando 
meu 
medo 
ficou 
mais 
manobrvel, 
ele 
tornou-se 
uma 
voz 
sem 
corpo, 
que 
at 
hoje 
me 
diz 
coisas. 
 
Que 
tipo 
de 
coisas, 
Dom 
Juan? 
 
Qualquer 
coisa 
em 
que 
eu 
focalize 
meu 
intento; 
coisas 
que 
no 
quero 
ter 
o 
problema 
de 
rastrear 
sozinho. 
Como, 
por 
exemplo, 
detalhes 
sobre 
o 
comportamento 
de 
meus 
aprendizes. 
O 
que 
eles 
fazem 
quando 
no 
estou 
por 
perto. 
Ele 
me 
diz 
coisas 
sobre 
voc, 
em 
particular. 
O 
emissrio 
me 
diz 
tudo 
que 
voc 
faz. 
Naquele 
ponto 
eu 
realmente 
no 
me 
preocupava 
com 
a 
direo 
que 
nossa 
conversa 
tomara. 
Revirei 
freneticamente 
o 
pensamento 
em 
busca 
de 
perguntas 
sobre 
outros 
tpicos, 
enquanto 
ele 
gargalhava. 


 
O 
emissrio 
do 
sonho 
 
um 
ser 
inorgnico? 
 
perguntei. 
 
Digamos 
que 
o 
emissrio 
do 
sonho 
 
uma 
fora 
que 
vem 
das 
esferas 
dos 
seres 
inorgnicos. 
 
por 
isso 
que 
os 
sonhadores 
sempre 
o 
encontram. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
todo 
sonhador 
ouve 
ou 
enxerga 
o 
emissrio 
do 
sonho? 
 
Todos 
ouvem 
o 
emissrio; 
muito 
poucos 
o 
vem 
ou 
sentem-
no. 
 
Voc 
tem 
alguma 
explicao 
para 
isso? 
 
No. 
Mas 
realmente 
no 
me 
preocupo 
com 
o 
emissrio. 
Num 
determinado 
ponto 
de 
minha 
vida 
precisei 
decidir 
se 
me 
concentrava 
nos 
seres 
inorgnicos 
e 
seguia 
as 
pegadas 
dos 
feiticeiros 
antigos 
ou 
se 
recusava 
isso 
tudo. 
Meu 
professor, 
o 
Nagual 
Julian, 
me 
ajudou 
a 
decidir 
pela 
recusa. 
Nunca 
me 
arrependi 
dessa 
deciso. 
 
Voc 
acha 
que 
eu 
deveria 
recusar 
os 
seres 
inorgnicos, 
Dom 
Juan? 
Ele 
no 
respondeu. 
Em 
vez 
disso 
explicou 
que 
toda 
a 
esfera 
dos 
seres 
inorgnicos 
tem 
sempre 
uma 
postura 
de 
ensinar. 
Talvez 
porque 
tenham 
uma 
conscincia 
mais 
profunda 
do 
que 
a 
nossa, 
os 
seres 


#
inorgnicos 
sentem-se 
compelidos 
a 
nos 
manter 
debaixo 
de 
suas 
asas. 


 
E 
eu 
no 
vejo 
nenhum 
sentido 
em 
virar 
aluno 
deles 
 
acrescentou. 
 
O 
preo 
 
alto 
demais. 


 
Qual 
 
o 
preo? 
 
Nossas 
vidas, 
nossa 
energia, 
nossa 
devoo 
a 
eles. 
Em 
outras 
palavras, 
nossa 
liberdade. 
 
Mas 
o 
que 
eles 
ensinam? 
 
Coisas 
pertinentes 
ao 
seu 
mundo. 
O 
mesmo 
que 
ns 
ensinaramos 
se 
fssemos 
capazes 
de 
ensinar-lhes: 
coisas 
pertinentes 
ao 
nosso 
mundo. 
O 
mtodo 
deles, 
entretanto, 
 
tomar 
nosso 
Eu 
bsico 
como 
um 
medidor 
para 
o 
que 
precisamos, 
e 
em 
seguida 
nos 
ensinar 
de 
acordo 
com 
isso. 
Uma 
coisa 
tremendamente 
perigosa! 
 
No 
vejo 
por 
que 
seja 
perigosa. 
 
Se 
algum 
vai 
usar 
seu 
Eu 
bsico 
como 
um 
medidor, 
com 
todos 
os 
seus 
medos, 
suas 
ganncias 
e 
sua 
inveja 
etc. 
etc., 
e 
ensinar 
coisas 
que 
preencham 
esse 
estado 
de 
ser, 
qual 
voc 
acha 
que 
seria 
o 
resultado? 
Era 
um 
beco 
sem 
sada. 
Pensei 
ter 
compreendido 
perfeitamente 
os 
motivos 
de 
sua 
rejeio. 


 
O 
problema 
com 
os 
feiticeiros 
antigos 
 
que 
eles 
aprenderam 
coisas 
maravilhosas, 
mas 
isso 
foi 
feito 
a 
partir 
de 
seu 
Eu 
inferior 
no-adulterado. 
Os 
seres 
inorgnicos 
tornaram-se 
seus 
aliados, 
e 
atravs 
de 
exemplos 
intencionais 
ensinaram 
maravilhas 
aos 
feiticeiros 
antigos. 
Os 
aliados 
executavam 
as 
aes 
e 
os 
feiticeiros 
eram 
guiados 
passo 
a 
passo 
para 
copiar 
essas 
aes, 
sem 
mudar 
em 
nada 
com 
relao 
 
sua 
natureza 
bsica. 
 
Esses 
relacionamentos 
com 
os 
seres 
inorgnicos 
ainda 
existem 
hoje 
em 
dia? 
 
No 
posso 
responder 
com 
certeza. 
S 
digo 
que 
no 
posso 
me 
conceber 
tendo 
um 
relacionamento 
assim. 
Os 
envolvimentos 
dessa 
natureza 
interrompem 
nossa 
busca 
de 
liberdade 
ao 
consumir 
toda 
a 
#
nossa 
energia 
disponvel. 
Com 
o 
objetivo 
de 
realmente 
seguir 
o 
exemplo 
de 
seus 
aliados, 
os 
feiticeiros 
antigos 
passaram 
suas 
vidas 
na 
regio 
dos 
seres 
inorgnicos. 
 
uma 
coisa 
assombrosa 
a 
quantidade 
de 
energia 
necessria 
para 
se 
realizar 
uma 
jornada 
ininterrupta 
como 
essa. 


 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
podiam 
existir 
naquelas 
regies 
do 
mesmo 
modo 
como 
existimos 
aqui? 
 
No 
exatamente 
como 
existimos 
aqui, 
mas 
eles 
certamente 
viviam 
l: 
mantinham 
sua 
conscincia, 
sua 
individualidade. 
O 
emissrio 
do 
sonho 
tornava-se 
a 
entidade 
mais 
vital 
para 
aqueles 
feiticeiros. 
Se 
um 
feiticeiro 
deseja 
viver 
na 
esfera 
dos 
seres 
inorgnicos, 
o 
emissrio 
 
a 
ponte 
perfeita; 
ele 
fala, 
e 
sua 
tendncia 
 
ensinar, 
guiar. 
 
Voc 
j 
esteve 
naquelas 
regies, 
Dom 
Juan? 
 
Vezes 
sem 
conta. 
E 
voc 
tambm. 
Mas 
no 
faz 
sentido 
falar 
sobre 
isso 
agora. 
Voc 
ainda 
no 
tirou 
todo 
o 
entulho 
de 
sua 
ateno 
sonhadora. 
Outro 
dia 
falamos 
sobre 
esse 
lugar. 
 
Pelo 
que 
estou 
percebendo, 
Dom 
Juan, 
voc 
no 
aprova 
o 
emissrio 
nem 
gosta 
dele. 
 
isso? 
 
Nem 
o 
aprovo 
nem 
gosto 
dele. 
Ele 
pertence 
a 
outro 
reino. 
Alm 
disso, 
seus 
ensinamentos 
e 
sua 
liderana 
em 
nosso 
mundo 
so 
um 
absurdo. 
E 
por 
esse 
absurdo 
o 
emissrio 
nos 
cobra 
uma 
enormidade 
em 
termos 
de 
energia. 
Um 
dia 
voc 
concordar 
comigo. 
Voc 
vai 
ver. 
Pelo 
tom 
de 
sua 
voz 
percebi 
a 
crena 
velada 
de 
que 
discordava 
com 
relao 
ao 
emissrio. 
Eu 
estava 
em 
vias 
de 
cobrar 
isso 
dele 
quando 
ouvi 
a 
voz 
do 
emissrio 
em 
meus 
ouvidos. 


 
Ele 
est 
certo 
 
disse 
a 
voz. 
 
Voc 
gosta 
de 
mim 
porque 
no 
v 
nada 
de 
errado 
em 
explorar 
todas 
as 
possibilidades. 
Voc 
quer 
conhecimento; 
conhecimento 
 
poder. 
Voc 
no 
quer 
ficar 
seguro 
nas 
rotinas 
e 
nas 
crenas 
de 
seu 
mundo 
cotidiano. 
O 
emissrio 
falou 
isso 
em 
ingls, 
com 
um 
tom 
carregado 
da 
costa 
do 
Pacfico. 
Em 
seguida 
passou 
para 
o 
espanhol. 
Percebi 
um 


#
leve 
sotaque 
argentino. 
Eu 
nunca 
antes 
ouvira 
o 
emissrio 
falar 
assim. 
Aquilo 
me 
fascinou. 
O 
emissrio 
falou 
sobre 
realizao, 
conhecimento; 
sobre 
como 
eu 
estava 
longe 
do 
lugar 
onde 
nascera; 
sobre 
meu 
anseio 
por 
aventuras 
e 
minha 
quase-obsesso 
por 
coisas 
novas, 
novos 
horizontes. 
A 
voz 
falou 
at 
mesmo 
em 
portugus, 
com 
uma 
inflexo 
clara 
dos 
pampas. 


Ouvir 
aquela 
voz 
jorrando 
essa 
quantidade 
de 
elogios 
no 
somente 
me 
apavorou: 
me 
deixou 
nauseado. 
Falei 
com 
Dom 
Juan, 
no 
ato, 
que 
tinha 
de 
interromper 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 
Ele 
me 
olhou, 
apanhado 
de 
surpresa; 
mas 
quando 
repeti 
o 
que 
ouvira, 
ele 
concordou 
que 
eu 
deveria 
parar, 
apesar 
de 
eu 
sentir 
que 
ele 
fazia 
isso 
s 
para 
me 
deixar 
tranqilo. 


Algumas 
semanas 
mais 
tarde 
achei 
que 
minha 
reao 
havia 
sido 
um 
tanto 
histrica, 
e 
que 
minha 
deciso 
de 
desistir 
era 
infundada. 
E 
voltei 
aos 
exerccios 
de 
sonhar. 
Tinha 
certeza 
de 
que 
Dom 
Juan 
sabia 
que 
eu 
havia 
cancelado 
minha 
desistncia. 


Em 
uma 
das 
visitas 
que 
lhe 
fiz 
ele 
falou 
bastante 
abruptamente 
sobre 
sonhos. 


 
S 
porque 
no 
nos 
ensinaram 
a 
enfatizar 
os 
sonhos 
como 
um 
genuno 
campo 
de 
explorao 
no 
significa 
que 
eles 
no 
o 
sejam. 
Os 
sonhos 
so 
analisados 
em 
busca 
de 
seu 
sentido 
ou 
vistos 
como 
indicaes 
de 
portentos, 
mas 
nunca 
so 
encarados 
como 
uma 
esfera 
onde 
ocorrem 
eventos 
reais. 
Que 
eu 
saiba, 
s 
os 
feiticeiros 
antigos 
fizeram 
isso 
 
continuou 
Dom 
Juan. 
 
Mas 
no 
final 
eles 
estragaram 
tudo. 
Picaram 
cheios 
de 
cobia 
e, 
quando 
chegaram 
a 
uma 
encruzilhada 
crucial, 
pegaram 
o 
caminho 
errado. 
Puseram 
todos 
os 
ovos 
numa 
nica 
cesta: 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
nos 
milhares 
de 
posicionamento 
que 
ele 
pode 
adotar. 


Dom 
Juan 
mostrou 
seu 
espanto 
com 
o 
fato 
de, 
dentre 
todas 
as 
coisas 
maravilhosas 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
aprenderam 
explorando 
esses 
milhares 
de 
posicionamentos, 
somente 
a 
arte 
de 
sonhar 
e 
a 
arte 
de 
espreitar 
permanecem 
hoje 
em 
dia. 
Reiterou 
que 
a 


#
arte 
de 
sonhar 
tem 
a 
ver 
com 
o 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
E 
ento 
definiu 
a 
espreita 
como 
a 
arte 
que 
lida 
com 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
qualquer 
posicionamento 
para 
o 
qual 
ele 
foi 
deslocado. 


 
Fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
qualquer 
novo 
posicionamento 
para 
o 
qual 
foi 
deslocado 
significa 
adquirir 
coeso 
 
falou. 
 
Voc 
esteve 
fazendo 
exatamente 
isso 
em 
seus 
exerccios 
de 
sonhar. 
 
Achei 
que 
estava 
aperfeioando 
minha 
ateno 
sonhadora 
 
falei, 
um 
tanto 
surpreso 
com 
sua 
afirmao. 


 
Voc 
est 
fazendo 
isso 
e 
muito 
mais; 
est 
aprendendo 
a 
ter 
coeso. 
Sonhar 
faz 
isso 
forando 
os 
sonhadores 
a 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao. 
A 
ateno 
sonhadora, 
o 
corpo 
energtico, 
a 
segunda 
ateno, 
o 
relacionamento 
com 
seres 
inorgnicos, 
o 
emissrio 
do 
sonho, 
so 
apenas 
subprodutos 
do 
processo 
de 
adquirir 
coeso; 
em 
outras 
palavras, 
so 
todos 
subprodutos 
de 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
vrias 
posies 
do 
sonhar. 
 
O 
que 
 
uma 
posio 
do 
sonhar, 
Dom 
Juan? 
 
Qualquer 
novo 
posicionamento 
para 
onde 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
tenha 
se 
deslocado 
durante 
o 
sono. 
 
Como 
 
que 
ns 
fixamos 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
numa 
posio 
do 
sonhar? 
 
Sustentando 
a 
viso 
de 
qualquer 
item 
dos 
sonhos, 
ou 
mudando 
os 
sonhos 
 
vontade. 
Atravs 
de 
seus 
exerccios 
de 
sonhar 
voc 
na 
verdade 
est 
exercitando 
sua 
capacidade 
de 
manter 
uma 
nova 
forma 
energtica, 
sustentando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
de 
qualquer 
sonho 
especfico 
que 
esteja 
tendo. 
 
Eu 
realmente 
mantenho 
uma 
nova 
forma 
energtica? 
 
No 
exatamente, 
e 
no 
porque 
no 
possa, 
mas 
somente 
porque 
est 
deslocando 
o 
ponto 
de 
aglutinao, 
em 
vez 
de 
mov-lo. 
Os 
deslocamentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
produzem 
mudanas 
minsculas, 
que 
so 
praticamente 
imperceptveis. 
O 
desafio 
dos 
deslocamentos 
 
que 
eles 
so 
to 
pequenos 
e 
to 
numerosos 
que 
#
manter 
a 
coeso 
em 
todos 
eles 
 
um 
triunfo. 


 
Como 
podemos 
saber 
que 
estamos 
mantendo 
coeso? 
 
Sabemos 
por 
causa 
da 
clareza 
de 
nossa 
percepo. 
Quanto 
mais 
clara 
a 
viso 
dos 
sonhos, 
maior 
nossa 
coeso. 
Em 
seguida 
ele 
disse 
que 
era 
hora 
de 
eu 
ter 
uma 
aplicao 
prtica 
para 
o 
que 
aprendera 
no 
sonhar. 
Sem 
me 
dar 
tempo 
de 
perguntar 
nada, 
insistiu 
para 
que 
eu 
concentrasse 
minha 
ateno, 
como 
se 
estivesse 
num 
sonho, 
na 
folhagem 
de 
uma 
rvore 
do 
deserto 
que 
havia 
ali 
perto: 
uma 
algarobeira. 


 
Quer 
que 
eu 
simplesmente 
olhe 
para 
ela? 
 
perguntei. 
 
No 
quero 
que 
simplesmente 
olhe; 
quero 
que 
voc 
faa 
algo 
muito 
especial 
com 
aquela 
folhagem. 
Lembre-se 
de 
que 
em 
seus 
sonhos, 
sempre 
que 
voc 
consegue 
manter 
a 
viso 
de 
qualquer 
item, 
est 
na 
verdade 
sustentando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
do 
sonho. 
Agora 
olhe 
para 
aquelas 
folhas, 
como 
se 
estivesse 
num 
sonho. 
Mas 
com 
uma 
variao 
ligeira, 
ainda 
que 
tremendamente 
significativa: 
voc 
vai 
manter 
sua 
ateno 
sonhadora 
nas 
folhas 
da 
algarobeira 
enquanto 
permanece 
na 
conscincia 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Meu 
nervosismo 
tornou 
impossvel 
seguir 
sua 
linha 
de 
pensamento. 
Ele 
explicou 
pacientemente 
que, 
ao 
olhar 
para 
a 
folhagem, 
eu 
realizaria 
um 
deslocamento 
minsculo 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Em 
seguida, 
invocando 
minha 
ateno 
sonhadora 
ao 
olhar 
para 
algumas 
folhas 
individualmente, 
eu 
fixaria 
aquele 
deslocamento 
minsculo, 
e 
minha 
coeso 
faria 
com 
que 
eu 
percebesse 
nos 
termos 
da 
segunda 
ateno. 
Acrescentou 
com 
um 
risinho 
que 
o 
processo, 
de 
to 
simples, 
era 
ridculo. 


Dom 
Juan 
estava 
certo. 
S 
precisei 
focalizar 
a 
vista 
nas 
folhas, 
mant-la 
e, 
num 
instante, 
eu 
era 
levado 
por 
uma 
sensao 
de 
redemoinho, 
extremamente 
parecida 
com 
os 
vrtices 
em 
meus 
sonhos. 
A 
folhagem 
da 
algarobeira 
transformou-se 
num 
universo 
de 
dados 
sensoriais. 
Era 
como 
se 
a 
folhagem 
tivesse 
me 
engolido, 
mas 
no 
somente 
minha 
viso 
estava 
envolvida; 
eu 
tocava 
as 
folhas, 


#
podia 
senti-las. 
Tambm 
podia 
sentir 
o 
seu 
cheiro. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
era 
multissensorial, 
em 
vez 
de 
apenas 
visual, 
como 
no 
sonhar 
comum. 


O 
que 
iniciara 
quando 
eu 
simplesmente 
olhei 
para 
a 
algarobeira 
havia-se 
transformado 
num 
sonho. 
Eu 
acreditava 
estar 
numa 
rvore 
de 
sonho, 
como 
estivera 
em 
rvores 
de 
incontveis 
sonhos. 
E, 
naturalmente, 
me 
comportava 
nessa 
rvore 
de 
sonho 
como 
aprendera 
a 
me 
comportar 
nos 
sonhos; 
passava 
de 
item 
para 
item, 
puxado 
pela 
fora 
de 
um 
vrtice 
que 
tomava 
forma 
em 
qualquer 
parte 
da 
rvore 
em 
que 
eu 
focalizasse 
minha 
ateno 
sonhadora 
multissensorial. 
Os 
redemoinhos 
se 
formavam 
no 
apenas 
ao 
olhar, 
mas 
tambm 
ao 
tocar 
qualquer 
coisa 
com 
qualquer 
parte 
do 
corpo. 


No 
meio 
dessa 
viso, 
ou 
desse 
sonho, 
tive 
um 
ataque 
de 
dvidas 
racionais. 
Comecei 
a 
me 
perguntar 
se 
no 
teria 
realmente 
subido 
na 
rvore, 
em 
meio 
a 
um 
atordoamento, 
e 
no 
estaria 
de 
verdade 
abraando 
as 
folhas, 
perdido 
na 
copa, 
sem 
saber 
o 
que 
fazia. 
Ou 
se 
no 
teria 
cado 
no 
sono, 
talvez 
hipnotizado 
pelo 
balano 
das 
folhas 
ao 
vento, 
e 
estaria 
sonhando. 
Mas, 
exatamente 
como 
no 
sonhar, 
eu 
no 
tinha 
energia 
para 
ponderar 
muito 
tempo. 
Meus 
pensamentos 
voavam. 
Duravam 
um 
instante 
e 
em 
seguida 
a 
fora 
da 
experincia 
direta 
encobria-os 
por 
completo. 


Um 
sbito 
movimento 
ao 
redor 
sacudiu 
tudo 
e 
terminou 
por 
fazer 
com 
que 
eu 
emergisse 
do 
puxo 
magntico 
da 
rvore. 
Eu 
estava 
sobre 
uma 
elevao, 
olhando 
para 
um 
horizonte 
imenso. 
Montanhas 
escuras 
e 
vegetao 
verdejante 
me 
rodeavam. 
Outro 
choque 
de 
energia 
fez 
com 
que 
eu 
saltasse 
e 
em 
seguida 
estava 
em 
outro 
lugar. 
Havia 
rvores 
enormes 
por 
todo 
lado. 
Maiores 
do 
que 
os 
pinheiros 
Douglas, 
do 
Oregon 
e 
do 
Estado 
de 
Washington. 
Eu 
nunca 
vira 
uma 
floresta 
daquelas. 
A 
paisagem 
fazia 
um 
contraste 
to 
grande 
com 
a 
aridez 
do 
deserto 
de 
Sonora 
que 
no 
tive 
qualquer 
dvida 
de 
que 
estava 
tendo 
um 
sonho. 


Agarrei-me 
quela 
viso 
extraordinria, 
com 
medo 
de 
deixar 


#
que 
ela 
se 
fosse, 
sabendo 
que 
era 
mesmo 
um 
sonho 
e 
que 
desapareceria 
assim 
que 
eu 
sasse 
da 
ateno 
sonhadora. 
Mas 
as 
imagens 
continuaram, 
mesmo 
quando 
pensei 
que 
deveria 
ter 
esgotado 
a 
ateno 
sonhadora. 
Um 
pensamento 
horrvel 
me 
atravessou 
a 
mente: 
e 
se 
isso 
no 
fosse 
um 
sonho 
nem 
a 
vida 
real? 


Apavorado, 
como 
um 
animal 
deve 
experimentar 
o 
pavor, 
recolhi-me 
para 
o 
amontoado 
de 
folhas 
de 
onde 
eu 
emergira. 
O 
mpeto 
do 
recuo 
me 
fez 
continuar 
atravs 
da 
folhagem, 
passando 
ao 
redor 
dos 
galhos 
duros. 
Arrancou-me 
da 
rvore 
e 
num 
segundo 
eu 
estava 
sentado 
perto 
de 
Dom 
Juan, 
 
porta 
de 
sua 
casa 
no 
deserto 
de 
Sonora. 


Num 
instante 
percebi 
que 
reentrara 
num 
estado 
em 
que 
podia 
pensar 
coerentemente, 
mas 
no 
conseguia 
falar. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
eu 
no 
me 
preocupasse. 
Falou 
que 
nossa 
faculdade 
da 
fala 
 
extremamente 
dbil, 
e 
que 
os 
ataques 
de 
mudez 
so 
comuns 
entre 
feiticeiros 
que 
se 
aventuram 
alm 
da 
percepo 
normal. 


Por 
dentro 
eu 
sentia 
que 
Dom 
Juan 
estava 
com 
pena 
de 
mim, 
e 
que 
decidira 
me 
enrolar. 
Mas 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho, 
que 
ouvi 
claramente 
naquele 
instante, 
disse 
que 
dentro 
de 
algumas 
horas 
e 
depois 
de 
um 
descanso 
eu 
ficaria 
completamente 
bem. 


Depois 
de 
acordar 
fiz, 
a 
pedido 
de 
Dom 
Juan, 
um 
relato 
completo 
do 
que 
vira 
e 
fizera. 
Ele 
me 
avisou 
que 
no 
era 
possvel 
contar 
com 
a 
racionalidade 
para 
compreender 
minha 
experincia, 
no 
porque 
minha 
racionalidade 
estivesse 
danificada, 
mas 
porque 
o 
que 
acontecera 
fora 
um 
fenmeno 
fora 
dos 
parmetros 
da 
razo. 


Naturalmente 
argumentei 
que 
nada 
pode 
estar 
fora 
dos 
limites 
da 
razo; 
as 
coisas 
podem 
ser 
obscuras, 
mas 
cedo 
ou 
tarde 
a 
razo 
descobre 
um 
meio 
de 
lanar 
luzes 
sobre 
tudo. 
E 
eu 
realmente 
acreditava 
nisso. 


Dom 
Juan, 
com 
pacincia 
extrema, 
observou 
que 
a 
razo 
 
apenas 
um 
subproduto 
do 
posicionamento 
habitual 
do 
ponto 
de 
aglutinao; 
assim, 
saber 
o 
que 
est 
acontecendo, 
ter 
a 
mente 
sadia, 
ter 
os 
ps 
no 
cho 
 
fontes 
de 
grande 
orgulho 
para 
ns 
e 
coisas 


#
vistas 
como 
conseqncia 
natural 
de 
nosso 
valor 
 
so 
meramente 
resultado 
da 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
seu 
lugar 
habitual. 
Quanto 
mais 
rgido 
e 
estacionrio, 
maior 
nosso 
sentimento 
de 
autoconfiana, 
maior 
nosso 
sentimento 
de 
conhecer 
o 
mundo, 
de 
poder 
prever. 


Acrescentou 
que 
o 
sonhar 
nos 
d 
a 
fluidez 
para 
entrar 
em 
outros 
universos, 
destruindo 
nossa 
sensao 
de 
conhecer 
este 
mundo. 
Disse 
que 
sonhar 
era 
uma 
jornada 
de 
dimenses 
impensveis, 
uma 
jornada 
que, 
depois 
de 
nos 
fazer 
perceber 
tudo 
que 
podemos 
perceber 
humanamente, 
faz 
com 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
salte 
para 
fora 
do 
domnio 
humano 
e 
perceba 
o 
inconcebvel. 


 
Estamos 
de 
volta 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Abordando 
o 
tpico 
mais 
importante 
do 
mundo 
dos 
feiticeiros: 
o 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
A 
maldio 
dos 
feiticeiros 
antigos 
e 
a 
espinha 
atravessada 
na 
garganta 
da 
humanidade. 
 
Por 
que 
diz 
isso, 
Dom 
Juan? 
 
Porque 
ambos, 
a 
humanidade 
em 
geral 
e 
os 
feiticeiros 
antigos, 
caram 
presas 
do 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
A 
humanidade, 
por 
no 
saber 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
existe, 
 
obrigada 
a 
tomar 
o 
subproduto 
de 
seu 
posicionamento 
habitual 
como 
algo 
definitivo 
e 
indiscutvel. 
E 
os 
feiticeiros 
antigos 
porque, 
apesar 
de 
saberem 
tudo 
sobre 
o 
ponto 
de 
aglutinao, 
caram 
por 
causa 
da 
facilidade 
dele 
ser 
manipulado. 
Voc 
deve 
evitar 
essas 
armadilhas 
 
continuou. 
 
Seria 
realmente 
abominvel 
se 
voc 
se 
alinhasse 
com 
a 
humanidade, 
como 
se 
no 
soubesse 
da 
existncia 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Mas 
seria 
ainda 
mais 
insidioso 
se 
voc 
se 
alinhasse 
com 
os 
feiticeiros 
antigos 
e 
manipulasse 
cinicamente 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
busca 
de 
ganhos 
pessoais. 


 
Ainda 
no 
compreendo 
qual 
 
a 
conexo 
disso 
tudo 
com 
o 
que 
experimentei 
ontem. 
 
Ontem 
voc 
esteve 
num 
mundo 
diferente. 
Mas 
se 
me 
#
perguntar 
onde 
fica 
aquele 
mundo, 
e 
se 
eu 
disser 
que 
ele 
fica 
no 
posicionamento 
de 
seu 
ponto 
de 
aglutinao, 
minha 
resposta 
no 
far 
sentido 
para 
voc. 


O 
argumento 
de 
Dom 
Juan 
era 
que 
eu 
tinha 
duas 
escolhas. 
Uma 
era 
seguir 
o 
racionalismo 
da 
humanidade 
e 
enfrentar 
uma 
situao 
difcil; 
minha 
experincia 
diria 
que 
existem 
outros 
mundos, 
mas 
minha 
razo 
diria 
que 
esses 
mundos 
no 
existem 
nem 
podem 
existir. 
A 
outra 
escolha 
era 
seguir 
o 
racionalismo 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
e 
nesse 
caso 
eu 
aceitaria 
automaticamente 
a 
existncia 
de 
outros 
mundos, 
e 
a 
cobia 
faria 
com 
que 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
mantivesse 
no 
posicionamento 
que 
criava 
esses 
mundos. 
O 
resultado 
seria 
outra 
situao 
difcil: 
a 
de 
ter 
de 
ir 
fisicamente 
para 
reinos 
visionrios, 
levado 
por 
expectativas 
de 
poder 
e 
ganho 
pessoal. 


Eu 
estava 
muito 
embotado 
para 
seguir 
sua 
argumentao, 
mas 
logo 
percebi 
que 
no 
precisava 
segui-la, 
porque 
concordava 
totalmente 
com 
ele 
 
a 
despeito 
de 
no 
ter 
uma 
imagem 
total 
daquilo 
com 
que 
estava 
concordando. 
A 
concordncia 
era 
um 
sentimento 
que 
vinha 
de 
longe; 
uma 
certeza 
antiga 
que 
eu 
perdera, 
e 
que 
agora 
encontrava 
pouco 
a 
pouco 
seu 
caminho 
de 
volta. 


Depois 
de 
meses 
ouvindo-a 
diariamente, 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho 
deixou 
de 
ser 
uma 
irritao 
ou 
um 
assombro. 
Tornou-se 
natural. 
E 
cometi 
tantos 
erros 
influenciado 
pelo 
que 
ele 
dizia 
que 
quase 
compreendi 
a 
relutncia 
de 
Dom 
Juan 
em 
lev-lo 
a 
srio. 
Um 
psicanalista 
teria 
um 
trabalho 
enorme 
interpretando 
o 
emissrio 
de 
acordo 
com 
todas 
as 
permutaes 
possveis 
da 
dinmica 
de 
minha 
personalidade. 


Dom 
Juan 
mantinha 
uma 
opinio 
fixa 
a 
respeito: 
 
uma 
fora 
impessoal 
mas 
constante, 
vinda 
da 
regio 
dos 
seres 
inorgnicos, 
e 
assim 
todo 
sonhador 
a 
experimenta 
mais 
ou 
menos 
nos 
mesmos 
termos. 
E 
se 
escolhemos 
tomar 
sua 
voz 
como 
um 
conselho, 
 
porque 
somos 
idiotas 
incurveis. 


Eu 
era 
definitivamente 
um 
deles. 
No 
havia 
como 
permanecer 
impassvel 
estando 
em 
contato 
direto 
com 
aquele 
evento 


#
extraordinrio: 
uma 
voz 
que 
me 
dizia 
clara 
e 
concisamente, 
em 
trs 
lnguas, 
coisas 
ocultas 
sobre 
tudo 
ou 
sobre 
qualquer 
pessoa 
em 
que 
eu 
concentrasse 
minha 
ateno. 
Seu 
nico 
defeito, 
que 
para 
mim 
no 
tinha 
qualquer 
conseqncia, 
 
que 
ns 
no 
estvamos 
sincronizados. 
O 
emissrio 
costumava 
me 
dizer 
coisas 
sobre 
pessoas 
e 
sobre 
eventos 
quando 
eu 
honestamente 
j 
havia 
esquecido 
que 
eles 
me 
interessavam. 


Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
essa 
esquisitice, 
e 
ele 
disse 
que 
tinha 
a 
ver 
com 
a 
rigidez 
de 
meu 
ponto 
de 
aglutinao. 
Explicou 
que 
eu 
fora 
criado 
por 
adultos 
velhos, 
e 
que 
eles 
me 
haviam 
imbudo 
das 
vises 
das 
pessoas 
idosas, 
de 
modo 
que 
eu 
era 
perigosamente 
cheio 
de 
certezas. 
Sua 
nsia 
em 
me 
dar 
plantas 
alucingenas 
era 
apenas 
um 
esforo, 
segundo 
ele, 
de 
sacudir 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
e 
permitir 
que 
eu 
tivesse 
um 
mnimo 
de 
fluidez. 


 
Se 
voc 
no 
desenvolver 
essa 
margem 
 
ele 
prosseguiu 
 
vai 
ficar 
ainda 
mais 
cheio 
de 
certezas, 
ou 
ento 
vai 
se 
tornar 
um 
feiticeiro 
histrico. 
Meu 
interesse 
em 
falar 
dos 
feiticeiros 
antigos 
no 
 
para 
caluni-los, 
mas 
para 
criar 
uma 
oposio 
entre 
vocs. 
Cedo 
ou 
tarde 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
ficar 
mais 
fluido, 
mas 
no 
o 
bastante 
para 
impedir 
sua 
facilidade 
de 
ser 
como 
eles: 
cheio 
de 
certezas 
e 
histrico. 


 
Como 
posso 
evitar 
isso, 
Dom 
Juan? 
 
S 
h 
um 
meio. 
Os 
feiticeiros 
chamam-no 
de 
compreenso 
total. 
Eu 
chamo 
de 
um 
romance 
com 
conhecimento. 
 
o 
impulso 
que 
os 
feiticeiros 
usam 
para 
conhecer, 
para 
descobrir, 
para 
se 
espantar. 
Dom 
Juan 
mudou 
de 
assunto 
e 
continuou 
a 
explicar 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Disse 
que 
ao 
ver 
os 
pontos 
de 
aglutinao 
das 
crianas 
flutuando 
constantemente, 
como 
se 
movimentados 
por 
um 
tremor, 
mudando 
de 
lugar 
com 
facilidade, 
os 
feiticeiros 
antigos 
concluram 
que 
o 
posicionamento 
habitual 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
era 
inato, 
e 
sim 
estabelecido 
a 
partir 
do 
hbito. 
Vendo 
que 
somente 
nos 
adultos 
eles 
eram 
fixados 
num 
posicionamento, 
deduziram 
que 
a 
localizao 
especfica 
do 
ponto 
de 
aglutinao 


#
permite 
um 
modo 
especfico 
de 
perceber. 
Atravs 
do 
uso, 
esse 
modo 
especfico 
de 
perceber 
torna-se 
um 
sistema 
para 
interpretar 
dados 
sensoriais. 


Dom 
Juan 
observou 
que, 
por 
nascermos 
nesse 
sistema, 
desde 


o 
instante 
do 
nascimento 
lutamos 
imperativamente 
para 
ajustar 
nossa 
percepo 
s 
exigncias 
dele; 
um 
sistema 
que 
nos 
governa 
durante 
toda 
a 
vida. 
Portanto 
os 
feiticeiros 
antigos 
estavam 
totalmente 
certos 
em 
acreditar 
que 
o 
ato 
de 
contrari-lo 
e 
perceber 
a 
energia 
diretamente 
 
o 
que 
transforma 
uma 
pessoa 
num 
feiticeiro. 
Dom 
Juan 
mostrou 
espanto 
pelo 
que 
chamou 
de 
maior 
realizao 
de 
nosso 
desenvolvimento 
humano: 
travar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
seu 
posicionamento 
habitual. 
J 
que, 
assim 
que 
ele 
se 
imobiliza 
ali, 
nossa 
percepo 
pode 
ser 
ensinada 
e 
levada 
a 
interpretar 
o 
que 
percebemos. 
Em 
outras 
palavras, 
podemos 
ser 
levados 
a 
perceber 
mais 
em 
termos 
do 
nosso 
sistema 
do 
que 
em 
termos 
de 
nossos 
sentidos. 
Ele 
garantiu 
que 
a 
percepo 
humana 
 
universalmente 
homognea 
porque 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
de 
toda 
a 
raa 
humana 
 
fixado 
no 
mesmo 
local. 


Prosseguiu 
dizendo 
que 
os 
feiticeiros 
provaram 
tudo 
isso 
a 
si 
prprios 
quando 
viram 
que, 
no 
momento 
em 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
 
deslocado 
alm 
de 
um 
certo 
limite, 
e 
novos 
filamentos 
de 
energia 
universal 
comeam 
a 
ser 
captados, 
o 
que 
percebemos 
no 
faz 
sentido. 
A 
causa 
imediata 
 
que 
os 
novos 
dados 
sensoriais 
tornaram 
nosso 
sistema 
inoperante, 
e 
ele 
no 
pode 
mais 
ser 
usado 
para 
interpretar 
o 
que 
estamos 
percebendo. 


 
Perceber 
sem 
o 
nosso 
sistema, 
claro, 
 
uma 
coisa 
catica 
, 
Dom 
Juan 
continuou. 
 
Mas, 
estranhamente, 
quando 
achamos 
que 
perdemos 
a 
cabea, 
nosso 
velho 
sistema 
vem 
nos 
resgatar 
e 
transforma 
a 
percepo 
incompreensvel 
num 
mundo 
novo 
totalmente 
compreensvel. 
Como 
aconteceu 
quando 
voc 
olhou 
as 
folhas 
da 
algarobeira. 
 
O 
que, 
exatamente, 
aconteceu 
comigo, 
Dom 
Juan? 
 
Sua 
percepo 
ficou 
catica 
por 
um 
instante; 
veio 
tudo 
ao 
#
mesmo 
tempo 
e 
seu 
sistema 
de 
interpretao 
do 
mundo 
no 
funcionou. 
Em 
seguida 
o 
caos 
se 
clareou 
e 
voc 
estava 
diante 
de 
um 
mundo 
novo. 


 
Voltamos 
ao 
mesmo 
ponto 
de 
antes, 
Dom 
Juan. 
Aquele 
mundo 
realmente 
existe 
ou 
 
apenas 
minha 
mente 
que 
o 
inventou? 
 
Realmente 
voltamos, 
e 
a 
resposta 
continua 
a 
mesma. 
Ele 
existe 
no 
posicionamento 
preciso 
em 
que 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
encontrava 
naquele 
momento. 
Para 
perceb-lo 
voc 
precisava 
de 
coeso, 
isto 
, 
voc 
precisava 
manter 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
fixo 
naquele 
posicionamento; 
e 
fez 
isso. 
O 
resultado 
foi 
perceber 
totalmente 
um 
mundo 
novo, 
durante 
algum 
tempo. 
 
Mas 
outras 
pessoas 
perceberiam 
aquele 
mesmo 
mundo? 
 
Se 
tiverem 
uniformidade 
e 
coeso, 
sim. 
Uniformidade 
 
manter 
em 
unssono 
o 
mesmo 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
chamavam 
de 
percepo 
espreitadora 
o 
ato 
de 
adquirir 
uniformidade 
e 
coeso 
fora 
do 
mundo 
normal. 
A 
arte 
de 
espreitar, 
como 
j 
disse, 
tem 
a 
ver 
com 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Atravs 
da 
prtica 
os 
feiticeiros 
antigos 
descobriram 
que 
ainda 
mais 
importante 
do 
que 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
 
fazer 
com 
que 
ele 
fique 
no 
novo 
posicionamento, 
onde 
quer 
que 
seja. 


Explicou 
que, 
se 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
ficar 
estacionrio, 
no 
h 
possibilidade 
de 
percebermos 
coerentemente. 
O 
que 
perceberamos 
seria 
um 
caleidoscpio 
de 
imagens 
desassociadas. 
Por 
isso 
os 
feiticeiros 
antigos 
punham 
tanta 
nfase 
no 
sonhar 
quanto 
na 
espreita. 
Uma 
arte 
no 
pode 
existir 
sem 
a 
outra, 
especialmente 
para 


o 
tipo 
de 
atividade 
em 
que 
eles 
estavam 
envolvidos. 
 
Quais 
eram 
essas 
atividades? 
 
Os 
feiticeiros 
antigos 
chamavam-nas 
de 
complexidades 
da 
segunda 
ateno 
e 
de 
grande 
aventura 
do 
desconhecido. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
essas 
atividades 
eram 
resultantes 
dos 
deslocamentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Os 
feiticeiros 
antigos 


#
aprenderam 
no 
somente 
a 
deslocar 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
milhares 
de 
posicionamentos 
na 
superfcie 
ou 
no 
interior 
de 
sua 
massa 
energtica, 
como 
tambm 
a 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
nessas 
posies, 
e 
assim 
manter 
indefinidamente 
a 
coeso. 


 
Qual 
 
o 
benefcio 
disso, 
Dom 
Juan? 
 
No 
podemos 
falar 
sobre 
benefcios. 
S 
podemos 
falar 
sobre 
resultados 
finais. 
Explicou 
que 
a 
coeso 
dos 
feiticeiros 
antigos 
era 
tamanha 
a 
ponto 
de 
permitir 
que 
se 
tornasse 
perceptivo 
e 
fisicamente 
tudo 
que 
fosse 
ditado 
pelo 
posicionamento 
especfico 
de 
seu 
ponto 
de 
aglutinao. 
Podiam 
transformar-se 
em 
qualquer 
coisa 
para 
a 
qual 
tivessem 
um 
inventrio 
especfico. 
Segundo 
ele 
um 
inventrio 
era 
a 
relao 
de 
todos 
os 
detalhes 
de 
percepo 
envolvidos 
em 
tornar-se, 
por 
exemplo, 
jaguares, 
pssaros, 
insetos 
etc. 
etc. 


 
Para 
mim 
 
muito 
difcil 
acreditar 
que 
isso 
possa 
ser 
possvel 
 
falei. 
 
 
possvel 
 
ele 
me 
assegurou. 
 
No 
tanto 
para 
mim 
e 
para 
voc, 
mas 
para 
eles. 
Para 
eles 
isso 
era 
nada. 
Disse 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
tinham 
uma 
fluidez 
soberba. 
Tudo 
de 
que 
precisavam 
era 
um 
deslocamento 
mnimo 
de 
seu 
ponto 
de 
aglutinao, 
uma 
minscula 
pista 
perceptiva 
vinda 
do 
sonhar, 
e 
instantaneamente 
espreitavam 
aquela 
percepo; 
rearranjavam 
sua 
coesividade 
para 
se 
ajustar 
ao 
novo 
estado 
de 
conscincia 
e 
tornar-se 
um 
animal, 
outra 
pessoa, 
um 
pssaro 
ou 
qualquer 
coisa. 


 
Mas 
no 
 
isso 
o 
que 
os 
doentes 
mentais 
fazem? 
Criar 
sua 
realidade 
enquanto 
vivem? 
 
perguntei. 
 
No, 
no 
 
o 
mesmo. 
Os 
doentes 
mentais 
imaginam 
uma 
realidade 
pessoal 
porque 
no 
tm 
nenhum 
objetivo 
preconcebido. 
Os 
loucos 
trazem 
o 
caos 
para 
dentro 
do 
caos. 
Os 
feiticeiros, 
ao 
contrrio, 
trazem 
a 
ordem 
para 
o 
caos. 
Seu 
objetivo 
preconcebido 
e 
transcendental 
 
libertar 
a 
percepo. 
Os 
feiticeiros 
no 
criam 
o 
mundo 
que 
esto 
percebendo; 
eles 
percebem 
a 
energia 
diretamente, 
e 
em 
seguida 
descobrem 
que 
o 
que 
esto 
percebendo 
 
um 
mundo 
#
novo 
e 
desconhecido, 
que 
os 
pode 
engolir 
porque 
 
to 
real 
quanto 
qualquer 
coisa 
que 
sabemos 
ser 
real. 


Em 
seguida 
Dom 
Juan 
me 
deu 
uma 
verso 
nova 
do 
que 
me 
acontecera 
enquanto 
eu 
olhava 
a 
algarobeira. 
Disse 
que 
eu 
comecei 
a 
perceber 
a 
energia 
da 
rvore. 
No 
nvel 
subjetivo, 
entretanto, 
eu 
acreditei 
que 
estava 
sonhando 
porque 
empreguei 
tcnicas 
do 
sonhar 
para 
perceber 
energia. 
Afirmou 
que 
usar 
tcnicas 
do 
sonhar 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana 
era 
uma 
das 
ferramentas 
mais 
eficazes 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Ela 
tornava 
a 
percepo 
direta 
da 
energia 
uma 
coisa 
onrica, 
em 
vez 
de 
totalmente 
catica, 
at 
um 
momento 
em 
que 
alguma 
coisa 
rearranjasse 
a 
percepo 
e 
os 
feiticeiros 
se 
vissem 
diante 
de 
um 
mundo 
novo. 
Exatamente 
o 
que 
me 
acontecera. 


Falei 
sobre 
o 
pensamento 
que 
eu 
tivera, 
e 
no 
qual 
mal 
ousava 
pensar, 
de 
que 
a 
paisagem 
que 
eu 
estava 
vendo 
no 
era 
um 
sonho; 
nem 
era 
nosso 
mundo 
cotidiano. 


 
No 
era 
 
disse 
ele. 
 
Venho 
falando 
e 
falando 
isso, 
e 
voc 
acha 
que 
estou 
meramente 
me 
repetindo. 
Sei 
como 
 
difcil 
a 
mente 
permitir 
que 
possibilidades 
irracionais 
se 
tornem 
reais. 
Mas 
existem 
mundos 
novos! 
Esto 
envoltos 
uns 
sobre 
os 
outros, 
como 
as 
camadas 
de 
uma 
cebola. 
O 
mundo 
onde 
existimos 
 
apenas 
uma 
dessas 
camadas. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
o 
objetivo 
de 
seus 
ensinamentos 
 
me 
preparar 
para 
ir 
at 
esses 
mundos? 
 
No. 
No 
quis 
dizer 
isso. 
S 
vamos 
at 
esses 
mundos 
como 
um 
exerccio. 
Essas 
jornadas 
so 
os 
antecedentes 
dos 
feiticeiros 
de 
hoje 
em 
dia. 
Fazemos 
o 
mesmo 
tipo 
de 
sonhar 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
faziam, 
mas 
num 
determinado 
momento 
nos 
desviamos 
para 
um 
novo 
terreno. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
preferiam 
os 
deslocamentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
de 
modo 
a 
estar 
sempre 
em 
terrenos 
mais 
ou 
menos 
previsveis. 
Ns 
preferimos 
os 
movimentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Os 
feiticeiros 
estavam 
atrs 
do 
desconhecido 
humano. 
Ns 
estamos 
atrs 
do 
desconhecido 
no-humano. 
 
Em 
que 
ponto, 
ento, 
eu 
vou 
comear 
a 
aprender 
o 
tipo 
de 
#
sonhar 
dos 
novos 
feiticeiros? 


 
Voc 
ainda 
tem 
um 
territrio 
enorme 
a 
percorrer. 
Anos, 
talvez. 
Mas, 
em 
seu 
caso, 
tenho 
de 
ser 
extraordinariamente 
cauteloso. 
Em 
termos 
de 
carter 
voc 
 
definitivamente 
ligado 
aos 
feiticeiros 
antigos. 
J 
falei 
isso 
antes, 
mas 
voc 
sempre 
consegue 
evitar 
minhas 
sondagens. 
Algumas 
vezes 
chego 
a 
pensar 
que 
existe 
alguma 
energia 
aliengena 
aconselhando-o, 
mas 
em 
seguida 
descarto 
a 
idia. 
Voc 
no 
 
um 
desgarrado. 
 
Do 
que 
est 
falando, 
Dom 
Juan? 
 
Voc 
fez, 
sem 
querer, 
duas 
coisas 
que 
me 
deixaram 
infernalmente 
preocupado. 
Viajou 
com 
seu 
corpo 
energtico 
para 
um 
lugar 
fora 
deste 
mundo 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
sonhou. 
E 
caminhou 
l! 
E 
voc 
viajou 
com 
seu 
corpo 
energtico 
para 
outro 
lugar 
fora 
deste 
mundo, 
mas 
separando-se 
da 
conscincia 
do 
mundo 
cotidiano. 
 
Por 
que 
isso 
o 
preocupa, 
Dom 
Juan? 
 
Sonhar 
 
muito 
fcil 
para 
voc. 
E 
se 
no 
tomarmos 
cuidado 
isso 
pode 
ser 
uma 
danao. 
Leva 
ao 
desconhecido 
humano. 
Como 
falei, 
os 
feiticeiros 
modernos 
lutam 
para 
chegar 
ao 
desconhecido 
no-humano. 
 
O 
que 
pode 
ser 
o 
no-humano? 
 
Libertar-se 
de 
ser 
humano. 
Mundos 
inconcebveis 
que 
esto 
fora 
do 
mbito 
humano, 
mas 
que 
podem 
ser 
percebidos. 
 
a 
que 
os 
feiticeiros 
modernos 
pegam 
a 
outra 
estrada. 
Eles 
preferem 
o 
que 
est 
fora 
do 
domnio 
humano. 
E 
o 
que 
est 
fora 
do 
domnio 
humano 
so 
todos 
os 
mundos, 
no 
apenas 
a 
esfera 
dos 
pssaros, 
dos 
animais 
ou 
dos 
homens, 
ainda 
que 
seja 
de 
um 
homem 
desconhecido. 
Estou 
falando 
de 
mundos 
como 
esse 
em 
que 
vivemos; 
mundos 
totais 
com 
incontveis 
esferas. 
 
Onde 
ficam 
esses 
mundos, 
Dom 
Juan? 
Em 
posicionamentos 
diferentes 
do 
ponto 
de 
aglutinao? 
 
Certo. 
Em 
posicionamentos 
diferentes 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
mas 
posicionamentos 
aos 
quais 
os 
feiticeiros 
chegam 
com 
um 
movimento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
no 
com 
um 
#
deslocamento. 
Entrar 
nesses 
mundos 
 
o 
tipo 
de 
sonhar 
que 
apenas 
os 
feiticeiros 
de 
hoje 
em 
dia 
fazem. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
ficaram 
longe 
dele, 
porque 
 
necessrio 
um 
grande 
desprendimento 
e 
nenhuma 
auto-importncia. 
Um 
preo 
que 
eles 
no 
podiam 
se 
dar 
ao 
luxo 
de 
pagar. 


Para 
os 
feiticeiros 
que 
o 
praticam 
atualmente, 
o 
sonhar 
 
a 
liberdade 
de 
perceber 
mundos 
alm 
da 
imaginao. 


 
Mas 
qual 
 
o 
sentido 
de 
perceber 
isso 
tudo? 
 
Hoje 
voc 
j 
fez 
essa 
mesma 
pergunta. 
Voc 
fala 
como 
um 
legtimo 
mercador. 
Qual 
 
o 
risco?, 
voc 
pergunta. 
Qual 
 
a 
percentagem 
de 
lucro 
para 
meu 
investimento? 
Isso 
vai 
me 
tornar 
melhor? 
No 
h 
como 
responder 
a 
isso. 
A 
mente 
mercadora 
faz 
comrcio. 
Mas 
a 
liberdade 
no 
pode 
ser 
um 
investimento. 
Liberdade 
 
uma 
aventura 
sem 
fim, 
onde 
arriscamos 
nossas 
vidas 
e 
muito 
mais 
por 
alguns 
momentos 
e 
alguma 
coisa 
alm 
dos 
mundos, 
alm 
de 
pensamentos 
ou 
sentimentos. 


 
No 
fiz 
essa 
pergunta 
com 
esse 
esprito, 
Dom 
Juan. 
O 
que 
desejo 
saber 
 
qual 
pode 
ser 
a 
fora 
capaz 
de 
impulsionar 
um 
vagabundo 
preguioso 
como 
eu 
na 
direo 
disso 
tudo. 
 
A 
busca 
da 
liberdade 
 
a 
nica 
fora 
que 
eu 
conheo. 
Liberdade 
de 
voar 
at 
aquele 
infinito 
l 
fora. 
Liberdade 
para 
se 
dissolver; 
para 
decolar; 
para 
ser 
como 
a 
chama 
de 
uma 
vela 
que, 
mesmo 
diante 
da 
luz 
de 
um 
bilho 
de 
estrelas, 
permanece 
intacta, 
porque 
jamais 
pretendeu 
ser 
mais 
do 
que 
: 
uma 
simples 
vela. 
#
5 


O 
MUNDO 
DOS 
SERES 
INORGNICOS 


C
C
umprindo 
meu 
acordo 
de 
esperar 
que 
Dom 
Juan 
iniciasse 
qualquer 
comentrio 
sobre 
o 
sonhar, 
apenas 
em 
casos 
de 
necessidade 
eu 
pedia 
conselho. 
Mas 
em 
geral 
ele 
no 
somente 
parecia 
relutante 
em 
tocar 
no 
assunto: 
parecia 
ficar 
descontente 
comigo. 
No 
meu 
entender 
a 
confirmao 
de 
que 
ele 
estava 
desaprovando 
era 
o 
fato 
de 
sempre 
minimizar 
a 
importncia 
de 
qualquer 
coisa 
que 
eu 
tivesse 
realizado. 


Para 
mim, 
naquela 
poca, 
a 
existncia 
animada 
dos 
seres 
inorgnicos 
havia-se 
tornado 
a 
parte 
mais 
crucial 
dos 
exerccios 
de 
sonhar. 
Depois 
de 
encontr-los 
nos 
sonhos, 
e 
especialmente 
depois 
de 
minha 
luta 
no 
deserto, 
nas 
proximidades 
da 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
eu 
deveria 
estar 
mais 
disposto 
a 
ver 
sua 
existncia 
como 
uma 
coisa 
sria. 
Mas 
todos 
aqueles 
acontecimentos 
tiveram 
o 
efeito 
oposto. 
Fiquei 
inflexvel 
e 
usava 
de 
subterfgios 
para 
negar 
sua 
existncia. 


Ento 
tive 
uma 
mudana 
de 
disposio 
e 
decidi 
conduzir 
uma 
pesquisa 
objetiva 
sobre 
eles. 
O 
mtodo 
dessa 
pesquisa 
exigia 
que 
eu 
primeiro 
compilasse 
um 
registro 
meticuloso 
de 
tudo 
que 
transpirasse 
em 
minhas 
sesses 
de 
sonhar 
e, 
em 
seguida, 
que 
usasse 
esse 
registro 
como 
uma 
estrutura 
para 
descobrir 
se 
meus 
sonhos 
provavam 
ou 
negavam 
alguma 
coisa 
sobre 
os 
seres 
inorgnicos. 
Cheguei 
a 
escrever 
centenas 
de 
pginas 
de 
detalhes 
meticulosos 
porm 
sem 
sentido, 
quando 
deveria 
estar 
claro 
para 
mim 
que 
existiam 
evidncias 
de 
sua 
existncia 
praticamente 
a 
partir 
do 
incio 


#
da 
pesquisa. 


Demorei 
apenas 
algumas 
sesses 
para 
descobrir 
o 
que 
pensara 
ter 
sido 
a 
recomendao 
de 
Dom 
Juan: 
o 
ato 
de 
suspender 
o 
julgamento 
e 
deixar 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
viessem 
at 
mim 
era 
o 
mesmo 
processo 
usado 
pelos 
feiticeiros 
da 
antigidade 
para 
atra-
los. 
Ao 
deixar 
que 
eu 
descobrisse 
isso 
sozinho, 
Dom 
Juan 
estava 
simplesmente 
seguindo 
seu 
treinamento 
de 
feitiaria. 
Ele 
havia 
observado 
repetidamente 
que 
era 
muito 
difcil 
para 
o 
Eu 
abrir 
mo 
de 
suas 
muralhas, 
mesmo 
atravs 
de 
treino. 
Uma 
das 
maiores 
linhas 
de 
defesa 
do 
Eu 
 
a 
racionalidade; 
e 
esta 
 
no 
apenas 
a 
linha 
de 
defesa 
mais 
durvel, 
como 
tambm 
a 
mais 
ameaada 
quando 
se 
trata 
dos 
atos 
e 
das 
explicaes 
da 
feitiaria. 
Dom 
Juan 
acreditava 
que 
a 
existncia 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
uma 
das 
maiores 
ameaas 
 
nossa 
racionalidade. 


Em 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
eu 
tinha 
um 
mtodo 
estabelecido, 
que 
seguia 
todos 
os 
dias 
sem 
qualquer 
desvio. 
Primeiro 
buscava 
observar 
cada 
item 
concebvel 
de 
meus 
sonhos, 
e 
em 
seguida 
procurava 
mud-los. 
Posso 
dizer 
sinceramente 
que 
observava 
universos 
de 
detalhes 
em 
sonhos 
aps 
sonhos. 
Normalmente 
chegava 
um 
momento 
em 
que 
minha 
ateno 
sonhadora 
comeava 
a 
se 
desvanecer, 
e 
a 
sesso 
de 
sonhar 
terminava 
com 
eu 
caindo 
no 
sono 
e 
tendo 
sonhos 
comuns, 
sem 
nenhuma 
ateno 
sonhadora, 
ou 
acordando 
e 
ficando 
sem 
qualquer 
condio 
de 
dormir. 


Mas 
de 
vez 
em 
quando, 
como 
Dom 
Juan 
havia 
descrito, 
uma 
corrente 
de 
energia 
estranha, 
um 
batedor 
 
como 
ele 
o 
chamara 
 
era 
injetado 
em 
meus 
sonhos. 
Ter 
sido 
alertado 
ajudou-me 
a 
ajustar 
minha 
ateno 
sonhadora 
e 
a 
ficar 
alerta. 
Na 
primeira 
vez 
em 
que 
percebi 
uma 
energia 
estranha, 
eu 
estava 
sonhando 
que 
fazia 
compras 
numa 
loja 
de 
departamentos. 
Ia 
de 
balco 
em 
balco 
procurando 
antigidades. 
Finalmente 
encontrei 
uma. 
A 
incongruncia 
de 
procurar 
antigidades 
numa 
loja 
de 
departamentos 
era 
to 
bvia 
que 
me 
fez 
rir, 
mas, 
assim 
que 
encontrei 
uma, 
esqueci 


#
disso. 
A 
antigidade 
era 
o 
casto 
de 
uma 
bengala. 
O 
vendedor 
disse 
quer 
era 
feito 
de 
irdio, 
e 
disse 
tambm 
que 
era 
uma 
das 
substncias 
mais 
duras 
do 
mundo. 
Era 
uma 
pea 
esculpida: 
a 
cabea 
e 
os 
ombros 
de 
um 
macaco. 
Para 
mim 
parecia 
jade. 
O 
vendedor 
mostrou-
se 
insultado 
quando 
insinuei 
que 
poderia 
ser 
jade, 
e 
para 
provar 
o 
que 
dizia 
jogou 
o 
objeto, 
com 
toda 
a 
fora, 
no 
cho 
cimentado. 
Ele 
no 
se 
quebrou, 
mas 
ricocheteou 
como 
uma 
bola 
e 
em 
seguida 
saiu 
voando 
como 
um 
disco 
de 
frisbee. 
Segui-o. 
O 
objeto 
desapareceu 
atrs 
de 
algumas 
rvores. 
Corri 
para 
procur-lo 
e 
encontrei, 
agarrado 
no 
cho. 
Havia-se 
transformado 
numa 
bengala 
inteira, 
extraordinariamente 
linda, 
negra 
e 
de 
um 
verde 
profundo. 


Desejei-a, 
e 
quis 
ficar 
com 
ela. 
Agarrei-a 
e 
lutei 
para 
arranc-la 
do 
cho 
antes 
que 
aparecesse 
outra 
pessoa. 
Mas, 
por 
mais 
que 
tentasse, 
no 
conseguia 
solt-la. 
Fiquei 
com 
medo 
de 
parti-la 
se 
tentasse 
arranc-la 
sacudindo 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro. 
Ento 
comecei 
a 
cavar 
ao 
redor 
com 
as 
mos. 
Enquanto 
eu 
cavava, 
ela 
comeou 
a 
se 
derreter, 
at 
sobrar 
apenas 
uma 
poa 
de 
gua 
esverdeada. 
Fiquei 
olhando. 
De 
sbito 
a 
gua 
pareceu 
explodir; 
transformou-se 
numa 
bolha 
branca 
e 
em 
seguida 
desapareceu. 
Meu 
sonho 
continuou 
com 
outras 
imagens 
e 
outros 
detalhes 
que 
no 
eram 
to 
notveis, 
mesmo 
sendo 
claros 
como 
cristal. 


Quando 
contei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
esse 
sonho 
ele 
disse: 


 
Voc 
isolou 
um 
batedor. 
Os 
batedores 
so 
mais 
numerosos 
quando 
nossos 
sonhos 
esto 
na 
mdia 
normal. 
Os 
sonhos 
dos 
feiticeiros 
so 
estranhamente 
livres 
de 
batedores. 
Quando 
aparecem, 
eles 
so 
identificveis 
pela 
estranheza 
e 
pela 
incongruncia. 
 
Que 
tipo 
de 
incongruncia, 
Dom 
Juan? 
 
A 
presena 
deles 
no 
faz 
nenhum 
sentido. 
 
Muito 
poucas 
coisas 
fazem 
sentido 
num 
sonho. 
 
Apenas 
nos 
sonhos 
comuns 
as 
coisas 
so 
absurdas. 
Eu 
diria 
que 
 
assim 
porque 
mais 
batedores 
so 
injetados 
neles, 
devido 
ao 
fato 
de 
as 
pessoas 
comuns 
estarem 
sujeitas 
a 
um 
maior 
ataque 
por 
parte 
do 
desconhecido. 
#
 
Sabe 
por 
que, 
Dom 
Juan? 
 
Na 
minha 
opinio 
o 
que 
acontece 
 
um 
equilbrio 
de 
foras. 
As 
pessoas 
comuns 
tm 
barreiras 
estupendamente 
fortes 
para 
proteger-se 
desses 
ataques. 
Barreiras 
como 
as 
preocupaes 
quanto 
ao 
Eu. 
Quanto 
mais 
barreiras, 
maior 
o 
ataque. 
Os 
sonhadores, 
por 
outro 
lado, 
tm 
menos 
barreiras 
e 
menos 
batedores 
em 
seus 
sonhos. 
Parece 
que 
as 
coisas 
absurdas 
desaparecem 
dos 
sonhos 
dos 
sonhadores, 
talvez 
para 
assegurar 
que 
eles 
captem 
a 
presena 
dos 
batedores. 


Dom 
Juan 
me 
aconselhou 
a 
prestar 
ateno 
e 
a 
lembrar 
cada 
detalhe 
possvel 
do 
sonho 
que 
eu 
tivera. 
Chegou 
a 
pedir 
que 
eu 
repetisse 
o 
que 
havia 
contado. 


 
Voc 
me 
desconcerta 
 
falei. 
 
Num 
momento 
no 
quer 
ouvir 
nada 
sobre 
o 
meu 
sonhar, 
no 
outro 
quer. 
Existe 
alguma 
ordem 
nas 
suas 
recusas 
e 
aceitaes? 
 
Pode 
apostar 
que 
existe 
uma 
ordem 
por 
trs 
disso 
tudo 
 
disse 
ele. 
 
 
provvel 
que 
um 
dia 
voc 
faa 
o 
mesmo 
com 
outro 
sonhador. 
Alguns 
itens 
so 
de 
importncia 
vital 
porque 
se 
associam 
ao 
esprito. 
Outros 
so 
totalmente 
sem 
importncia 
por 
estarem 
associados 
a 
nossa 
personalidade 
condescendente. 
O 
primeiro 
batedor 
que 
voc 
isola 
estar 
sempre 
presente, 
sob 
qualquer 
forma, 
at 
mesmo 
do 
irdio. 
A 
propsito, 
o 
que 
 
irdio? 


 
No 
sei 
bem 
 
falei 
com 
total 
sinceridade. 
 
Era 
s 
o 
que 
faltava! 
E 
o 
que 
voc 
vai 
dizer 
se 
descobrir 
que 
 
uma 
das 
substncias 
mais 
duras 
do 
mundo? 
Os 
olhos 
de 
Dom 
Juan 
brilhavam 
de 
prazer, 
enquanto 
eu 
ria 
nervoso 
com 
aquela 
possibilidade 
absurda 
que, 
como 
descobri 
depois, 
era 
verdadeira. 


A 
partir 
de 
ento 
comecei 
a 
perceber 
a 
presena 
de 
itens 
incongruentes 
em 
meus 
sonhos. 
Assim 
que 
aceitei 
o 
esquema 
de 
categorizao 
que 
Dom 
Juan 
fizera 
sobre 
a 
energia 
estranha 
nos 
sonhos, 
concordei 
totalmente 
com 
ele 
que 
os 
itens 
incongruentes 
eram 
invasores 
estranhos 
em 
meus 
sonhos. 
Depois 
de 
isol-los, 


#
minha 
ateno 
sonhadora 
sempre 
se 
concentrava 
neles 
com 
uma 
intensidade 
que 
no 
ocorria 
sob 
nenhuma 
outra 
circunstncia. 


Outra 
coisa 
que 
percebi 
era 
que, 
sempre 
que 
uma 
energia 
estranha 
invadia 
meus 
sonhos, 
minha 
ateno 
sonhadora 
precisava 
trabalhar 
duro 
para 
transform-la 
num 
objeto 
conhecido. 
A 
falha 
de 
minha 
ateno 
sonhadora 
era 
sua 
incapacidade 
de 
realizar 
totalmente 
essa 
transformao; 
e 
o 
resultado 
era 
um 
item 
degradado, 
praticamente 
desconhecido 
para 
mim. 
Ento 
a 
energia 
estranha 
dissipava 
facilmente; 
e 
o 
item 
degradado 
desaparecia, 
transformando-se 
numa 
bolha 
de 
luz 
que 
era 
rapidamente 
absorvida 
por 
outros 
detalhes 
prementes 
do 
sonho. 


Quando 
pedi 
que 
Dom 
Juan 
comentasse 
o 
que 
estava 
acontecendo, 
ele 
disse: 


 
Nesse 
ponto 
do 
seu 
sonhar, 
os 
batedores 
so 
espias 
mandados 
pelo 
reino 
inorgnico. 
Eles 
so 
muito 
rpidos, 
ou 
seja: 
no 
ficam 
por 
muito 
tempo. 
 
Por 
que 
diz 
que 
eles 
so 
espias, 
Dom 
Juan? 
 
Eles 
vm 
em 
busca 
de 
conscincia 
potencial. 
Eles 
tm 
conscincia 
e 
objetivo, 
ainda 
que 
incompreensveis 
para 
nossas 
mentes; 
comparveis 
talvez 
 
conscincia 
e 
ao 
objetivo 
das 
rvores. 
A 
velocidade 
interna 
das 
rvores 
e 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
incompreensvel 
para 
ns 
porque 
 
infinitamente 
mais 
lenta, 
em 
comparao 
com 
a 
nossa. 
 
O 
que 
o 
leva 
a 
dizer 
isso, 
Dom 
Juan? 
 
As 
rvores 
e 
os 
seres 
inorgnicos 
duram 
mais 
do 
que 
ns. 
So 
feitos 
para 
permanecer 
fixos. 
So 
imveis, 
e 
no 
entanto 
fazem 
tudo 
se 
mover 
ao 
seu 
redor. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
estacionrios 
como 
as 
rvores? 
 
Certamente. 
O 
que 
voc 
v 
nos 
sonhos 
como 
hastes 
brilhantes 
ou 
escuras 
so 
sua 
projeo. 
O 
que 
ouve 
como 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho 
 
igualmente 
sua 
projeo. 
O 
mesmo 
ocorre 
com 
os 
seus 
batedores. 
#
Por 
algum 
motivo 
insondvel 
senti-me 
avassalado 
por 
aquelas 
afirmaes. 
Fiquei 
subitamente 
cheio 
de 
ansiedade. 
Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
se 
as 
rvores 
tambm 
tinham 
projees 
como 
aquelas. 


 
Tm 
 
disse 
ele. 
 
Mas 
suas 
projees 
so 
ainda 
menos 
amistosas 
com 
relao 
a 
ns 
do 
que 
os 
seres 
inorgnicos. 
Os 
sonhadores 
nunca 
as 
procuram, 
a 
no 
ser 
que 
estejam 
num 
estado 
de 
profunda 
afabilidade 
com 
as 
rvores; 
um 
estado 
muito 
difcil 
de 
se 
alcanar. 
Ns 
no 
temos 
amigos 
nesta 
terra, 
voc 
sabe. 
 
Riu 
e 
em 
seguida 
acrescentou: 
 
No 
 
nenhum 
mistrio. 
 
Pode 
no 
ser 
mistrio 
para 
voc, 
Dom 
Juan, 
mas 
para 
mim 
, 
sem 
dvida. 
 
Ns 
somos 
destrutivos. 
Antagonizamos 
cada 
ser 
vivo 
nesta 
terra. 
Por 
isso 
no 
temos 
amigos. 
Senti-me 
to 
mal 
que 
desejei 
interromper 
totalmente 
a 
conversa. 
Mas 
uma 
compulso 
me 
fez 
voltar 
ao 
tema 
dos 
seres 
inorgnicos: 


 
O 
que 
voc 
acha 
que 
eu 
deveria 
fazer 
para 
seguir 
os 
batedores? 
 
Por 
que 
diabo 
voc 
iria 
querer 
segui-los? 
 
Estou 
fazendo 
uma 
pesquisa 
objetiva 
sobre 
os 
seres 
inorgnicos. 
 
Voc 
est 
brincando 
com 
a 
minha 
cara, 
no 
? 
Achei 
que 
estivesse 
irremovvel 
em 
seu 
ponto 
de 
vista 
de 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
existem. 
Seu 
tom 
de 
zombaria 
e 
sua 
gargalhada 
deixaram 
claro 
o 
que 
achava 
e 
sentia 
sobre 
minha 
pesquisa 
objetiva. 


 
Mudei 
de 
idia, 
Dom 
Juan. 
Agora 
quero 
explorar 
todas 
essas 
possibilidades. 
 
Lembre-se, 
a 
espreita 
dos 
seres 
inorgnicos 
era 
o 
campo 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Para 
chegar 
l 
eles 
fixaram 
com 
toda 
a 
tenacidade 
sua 
ateno 
sonhadora 
nos 
itens 
dos 
sonhos. 
Desse 
modo 
podiam 
isolar 
os 
batedores. 
E 
quando 
estavam 
com 
os 
batedores 
em 
foco, 
gritavam 
o 
intento 
de 
segui-los. 
No 
instante 
em 
que 
verbalizavam 
#
esse 
intento, 
eles 
iam, 
puxados 
pela 
energia 
estranha. 


 
 
simples 
assim, 
Dom 
Juan? 
Ele 
no 
respondeu. 
Somente 
riu, 
como 
se 
me 
desafiasse 
a 
faz-
lo. 
Em 
casa 
fiquei 
cansado 
de 
tanto 
buscar 
o 
que 
Dom 
Juan 
realmente 
queria 
dizer. 
Eu 
estava 
totalmente 
relutante 
em 
considerar 
que 
ele 
poderia 
ter 
descrito 
um 
procedimento 
real. 
Um 
dia, 
depois 
de 
ficar 
sem 
idias 
e 
sem 
pacincia, 
baixei 
a 
guarda. 
Num 
sonho 
tive 
a 
ateno 
desviada 
por 
um 
peixe 
que 
subitamente 
saltou 
de 
um 
lago 
junto 
ao 
qual 
eu 
andava. 
O 
peixe 
sacudiu-se 
junto 
aos 
meus 
ps 
e 
em 
seguida 
voou 
como 
um 
pssaro 
de 
asas 
coloridas 
e 
pousou 
num 
galho, 
mas 
continuava 
sendo 
um 
peixe. 
A 
cena 
era 
to 
absurda 
que 
galvanizou 
minha 
ateno 
sonhadora. 
Soube 
instantaneamente 
que 
aquilo 
era 
um 
batedor. 
Um 
segundo 
depois, 
quando 
o 
peixe-pssaro 
transformou-se 
num 
ponto 
de 
luz, 
gritei 
meu 
intento 
de 
segui-lo. 
E 
aconteceu 
exatamente 
o 
que 
Dom 
Juan 
dissera: 
sa 
para 
outro 
mundo. 


Voei 
por 
um 
tnel 
aparentemente 
escuro 
como 
se 
fosse 
um 
inseto 
sem 
peso. 
A 
sensao 
do 
tnel 
terminou 
de 
sbito. 
Era 
exatamente 
como 
se 
eu 
tivesse 
sido 
espremido 
de 
um 
tubo 
e 
o 
impulso 
me 
fizesse 
bater 
contra 
uma 
imensa 
massa 
fsica; 
eu 
estava 
quase 
tocando-a. 
No 
conseguia 
ver 
seu 
fim 
em 
qualquer 
direo 
para 
onde 
olhasse. 
A 
coisa 
lembrava 
tanto 
os 
filmes 
de 
fico 
cientfica 
que 
fiquei 
absolutamente 
convencido 
de 
ter 
construdo 
aquela 
viso, 
do 
modo 
como 
construmos 
um 
sonho. 
Por 
que 
no? 
Meu 
pensamento 
era 
que, 
afinal 
de 
contas, 
eu 
estava 
dormindo, 
sonhando. 


Parei 
para 
observar 
os 
detalhes 
do 
sonho. 
O 
que 
eu 
estava 
vendo 
parecia 
uma 
esponja 
gigantesca. 
Era 
porosa 
e 
cheia 
de 
cavernas. 
No 
conseguia 
sentir 
sua 
textura, 
mas 
parecia 
spera 
e 
fibrosa. 
Tinha 
uma 
cor 
marrom 
escura. 
Ento 
senti 
um 
choque 
de 
dvida 
sobre 
se 
aquela 
massa 
silenciosa 
era 
apenas 
um 
sonho. 
Ela 
no 
mudou 
de 
forma 
enquanto 
eu 
olhava. 
Tambm 
no 
se 
moveu. 


#
Enquanto 
eu 
olhava 
fixamente, 
tive 
a 
impresso 
completa 
de 
uma 
coisa 
real, 
mas 
estacionria. 
Estava 
plantada 
em 
algum 
lugar, 
e 
tinha 
uma 
atrao 
to 
poderosa 
que 
eu 
era 
incapaz 
de 
desviar 
a 
ateno 
sonhadora 
para 
examinar 
qualquer 
outra 
coisa, 
inclusive 
eu 
mesmo. 
Uma 
fora 
estranha, 
que 
eu 
nunca 
antes 
encontrara 
no 
sonhar, 
me 
havia 
agarrado. 


Em 
seguida 
senti 
claramente 
que 
a 
massa 
havia 
liberado 
minha 
ateno 
sonhadora; 
de 
sbito 
toda 
a 
minha 
conscincia 
concentrou-se 
no 
batedor 
que 
me 
havia 
trazido 
para 
ali. 
Parecia 
um 
vaga-lume 
na 
escurido, 
pairando 
acima 
de 
mim. 
Em 
seu 
reino 
ele 
era 
uma 
bolha 
de 
pura 
energia. 
Eu 
conseguia 
ver 
seu 
crepitar 
energtico. 
Parecia 
estar 
cnscio 
de 
minha 
presena. 
Subitamente 
ele 
mergulhou 
e 
tocou-me, 
ou 
me 
picou. 
No 
senti 
seu 
toque, 
mas 
sabia 
que 
ele 
estava 
me 
tocando. 
Era 
uma 
sensao 
espantosa 
e 
nova; 
como 
se 
uma 
parte 
minha 
que 
no 
estivesse 
ali 
houvesse 
sido 
eletrificada 
pelo 
toque; 
ondas 
de 
energia 
me 
atravessaram, 
uma 
depois 
da 
outra. 


Daquele 
momento 
em 
diante 
tudo 
em 
meu 
sonhar 
ficou 
muito 
mais 
real 
do 
que 
antes. 
Achava 
difcil 
manter 
a 
idia 
de 
que 
estava 
sonhando 
dentro 
de 
um 
sonho. 
E 
a 
essa 
dificuldade 
precisei 
acrescentar 
a 
certeza 
de 
que, 
com 
seu 
toque, 
o 
batedor 
fizera 
uma 
conexo 
energtica 
comigo. 
Eu 
sabia 
o 
que 
ele 
queria 
que 
eu 
fizesse 
no 
momento 
em 
que 
ele 
parecia 
me 
puxar 
ou 
empurrar. 


A 
primeira 
coisa 
que 
fez 
foi 
me 
empurrar 
atravs 
de 
uma 
enorme 
caverna 
ou 
abertura 
na 
massa 
fsica 
diante 
de 
mim. 
Assim 
que 
entrei 
naquela 
massa 
percebi 
que 
o 
interior 
era 
to 
homogeneamente 
poroso 
quanto 
o 
lado 
de 
fora, 
porm 
com 
uma 
aparncia 
muito 
mais 
lisa, 
como 
se 
a 
aspereza 
houvesse 
sido 
lixada. 
O 
que 
eu 
olhava 
era 
uma 
estrutura 
parecendo 
a 
imagem 
ampliada 
de 
uma 
colmia. 
Havia 
incontveis 
tneis 
geomtricos 
indo 
em 
todas 
as 
direes. 
Alguns 
subiam 
ou 
desciam 
verticalmente, 
outros 
iam 
para 
a 
direita 
ou 
a 
esquerda; 
faziam 
ngulos 
uns 
com 
os 
outros, 
ou 
subiam 
ou 
desciam 
em 
rampas 
de 
ngulos 
variados. 


#
A 
luz 
era 
fraca 
ali 
dentro, 
mas 
tudo 
era 
perfeitamente 
visvel. 
Os 
tneis 
pareciam 
vivos 
e 
conscientes; 
eles 
tremulavam. 
Eu 
olhava, 
e 
a 
percepo 
de 
que 
estava 
vendo 
me 
chocou. 
Aqueles 
eram 
tneis 
de 
energia. 
No 
instante 
dessa 
percepo 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho 
rugiu 
em 
meus 
ouvidos, 
to 
alto 
que 
no 
pude 
entender 
o 
que 
ele 
dizia. 


 
Mais 
baixo! 
 
gritei 
com 
impacincia 
incomum, 
e 
percebi 
que, 
se 
falasse, 
eu 
bloqueava 
a 
viso 
dos 
tneis 
e 
entrava 
num 
vcuo 
onde 
s 
conseguia 
escutar. 
O 
emissrio 
modulou 
sua 
voz 
e 
disse: 


 
Voc 
est 
dentro 
de 
um 
ser 
inorgnico. 
Escolha 
um 
tnel 
e 
poder 
at 
mesmo 
viver 
nele. 
 
A 
voz 
parou 
por 
um 
instante 
e 
em 
seguida 
acrescentou: 
 
Isto 
, 
se 
voc 
quiser. 
No 
consegui 
me 
obrigar 
a 
dizer 
nada. 
Estava 
com 
medo 
de 
que 
qualquer 
afirmao 
pudesse 
dizer 
o 
oposto 
do 
que 
eu 
pretendia. 


 
Existem 
vantagens 
infinitas 
para 
voc 
 
prosseguiu 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
Pode 
viver 
em 
quantos 
tneis 
quiser. 
E 
cada 
um 
deles 
ir 
ensinar 
uma 
coisa 
diferente. 
Os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
viveram 
assim 
e 
aprenderam 
coisas 
maravilhosas. 
Senti, 
sem 
qualquer 
sensao, 
que 
o 
batedor 
me 
empurrava 
por 
trs. 
Parecia 
que 
desejava 
me 
fazer 
andar. 
Peguei 
o 
primeiro 
tnel 
 
direita. 
Assim 
que 
entrei, 
alguma 
coisa 
me 
fez 
perceber 
que 
no 
estava 
andando 
naqueles 
tneis; 
estava 
pairando, 
voando. 
Eu 
era 
uma 
bolha 
de 
energia 
parecida 
com 
o 
batedor. 


A 
voz 
do 
emissrio 
soou 
em 
meus 
ouvidos 
de 
novo. 


 
Sim, 
voc 
 
apenas 
uma 
bolha 
de 
energia 
 
falou 
reafirmando 
o 
que 
eu 
j 
sabia. 
Mas 
sua 
redundncia 
me 
trouxe 
um 
alvio 
imenso. 
 
E 
est 
flutuando 
dentro 
de 
um 
ser 
inorgnico. 
E 
assim 
que 
o 
batedor 
deseja 
que 
voc 
se 
movimente 
neste 
mundo. 
Quando 
o 
tocou, 
ele 
mudou-o 
para 
sempre. 
Agora 
voc 
 
praticamente 
um 
de 
ns. 
Se 
quiser 
ficar 
aqui, 
basta 
verbalizar 
seu 
intento. 
O 
emissrio 
parou 
de 
falar 
e 
a 
viso 
do 
tnel 
retornou. 
Mas 


#
quando 
falou 
de 
novo 
alguma 
coisa 
fora 
ajustada; 
no 
perdi 
a 
viso 
daquele 
mundo 
e 
continuava 
podendo 
escutar 
a 
voz 
do 
emissrio. 


 
Os 
feiticeiros 
antigos 
aprenderam 
tudo 
que 
podiam 
sobre 
sonhar 
ficando 
aqui, 
conosco 
 
disse 
ele. 
Eu 
ia 
perguntar 
se 
eles 
aprenderam 
tudo 
que 
sabiam 
apenas 
vivendo 
naqueles 
tneis, 
mas 
antes 
de 
verbalizar 
minha 
pergunta 
o 
emissrio 
respondeu: 


 
Sim, 
eles 
aprenderam 
tudo 
apenas 
vivendo 
dentro 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Para 
viver 
dentro 
deles, 
tudo 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
precisavam 
era 
dizer 
isso; 
do 
mesmo 
modo 
que 
para 
chegar 
aqui 
bastou 
voc 
verbalizar 
o 
seu 
intento, 
alto 
e 
claro. 
O 
batedor 
me 
empurrou, 
sinalizando 
para 
que 
eu 
continuasse 
em 
movimento. 
Hesitei 
e 
ele 
fez 
alguma 
coisa 
equivalente 
a 
me 
empurrar 
com 
tanta 
fora 
que 
voei 
como 
uma 
bala 
atravs 
de 
tneis 
infinitos. 
Finalmente 
parei 
porque 
o 
batedor 
parou. 
Flutuamos 
por 
um 
instante 
e 
em 
seguida 
camos 
num 
tnel 
vertical. 
No 
senti 
a 
mudana 
drstica 
de 
direo. 
No 
que 
tangia 
 
minha 
conscincia, 
eu 
continuava 
seguindo 
paralelo 
ao 
cho. 


Mudamos 
vrias 
vezes 
de 
direo, 
com 
o 
mesmo 
efeito 
perceptivo. 
Comecei 
a 
formular 
um 
pensamento 
sobre 
minha 
incapacidade 
de 
sentir 
que 
estava 
me 
movendo 
para 
cima 
ou 
para 
baixo 
quando 
ouvi 
a 
voz 
do 
emissrio. 


 
Acho 
que 
voc 
vai 
se 
sentir 
mais 
confortvel 
se 
engatinhar, 
em 
vez 
de 
voar. 
Voc 
tambm 
pode 
se 
mover 
como 
uma 
aranha 
ou 
uma 
mosca, 
para 
cima, 
para 
baixo, 
ou 
de 
cabea 
para 
baixo. 
Parei 
instantaneamente. 
Era 
como 
se 
estivesse 
flutuando 
e 
de 
sbito 
ganhasse 
algum 
peso 
que 
me 
puxou 
para 
o 
cho. 
No 
pude 
sentir 
as 
paredes 
do 
tnel, 
mas 
o 
emissrio 
estava 
certo 
quanto 
a 
me 
sentir 
mais 
confortvel 
engatinhando. 


 
Neste 
mundo 
voc 
no 
precisa 
ficar 
preso 
pela 
gravidade 
 
ele 
disse 
o 
que, 
claro, 
eu 
estava 
em 
condies 
de 
perceber 
sozinho. 
 
Tambm 
no 
precisa 
respirar. 
E, 
s 
para 
sua 
convenincia, 
pode 
manter 
a 
viso 
e 
ver 
como 
v 
em 
seu 
mundo. 
 
O 
emissrio 
parecia 


#
estar 
decidindo 
se 
deveria 
acrescentar 
mais 
coisas. 
Tossiu, 
como 
algum 
limpando 
a 
garganta, 
e 
disse: 
 
A 
viso 
nunca 
 
prejudicada, 
de 
modo 
que 
o 
sonhador 
sempre 
fala 
sobre 
o 
sonhar 
em 
termos 
do 
que 
v. 


O 
batedor 
me 
empurrou 
para 
um 
tnel 
 
direita. 
Era 
um 
tanto 
mais 
escuro 
do 
que 
os 
outros. 
Para 
mim, 
num 
nvel 
absurdo, 
parecia 
mais 
aconchegante 
do 
que 
os 
outros, 
mais 
amigvel 
ou 
at 
mesmo 
conhecido. 
Passou 
por 
meu 
pensamento 
a 
idia 
de 
que 
eu 
era 
parecido 
com 
aquele 
tnel 
ou 
que 
o 
tnel 
era 
parecido 
comigo. 


 
Vocs 
dois 
j 
se 
encontraram 
antes 
 
disse 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
Perdo? 
 
falei. 
Eu 
tinha 
entendido 
o 
que 
ele 
dissera, 
mas 
a 
afirmao 
era 
incompreensvel. 
 
Vocs 
dois 
lutaram, 
e 
por 
causa 
disso 
agora 
um 
carrega 
a 
energia 
do 
outro. 
Pensei 
que 
a 
voz 
do 
emissrio 
guardava 
um 
toque 
de 
malcia 
ou 
de 
sarcasmo. 


 
No, 
no 
 
sarcasmo 
 
disse 
ele. 
 
Estou 
feliz 
que 
voc 
tenha 
parentes 
entre 
ns. 
 
O 
que 
quer 
dizer 
com 
parentes? 
 
perguntei. 
 
A 
energia 
compartilhada 
cria 
a 
afinidade. 
A 
energia 
 
como 
o 
sangue. 
Fiquei 
incapacitado 
de 
dizer 
qualquer 
coisa. 
Senti 
claramente 
choques 
de 
medo. 


 
Medo 
 
uma 
coisa 
ausente 
deste 
mundo 
 
disse 
o 
emissrio. 
E 
essa 
foi 
a 
nica 
afirmativa 
inverdica. 
Meu 
sonhar 
terminou 
ali. 
Fiquei 
to 
chocado 
com 
a 
nitidez 
de 
tudo, 
e 
com 
a 
impressionante 
clareza 
e 
continuidade 
das 
afirmaes 
do 
emissrio, 
que 
no 
pude 
esperar 
para 
contar 
a 
Dom 
Juan. 
Fiquei 
surpreso 
e 
perturbado 
quando 
ele 
no 
quis 
ouvir 
minha 
narrativa. 
No 
falou, 
mas 
tive 
a 
impresso 
de 
que 
ele 
acreditava 
que 
tudo 
fora 
produto 
de 
minha 
personalidade 
condescendente. 


 
Por 
que 
est 
agindo 
assim 
comigo? 
 
perguntei. 
 
Est 
#
desgostoso? 


 
No. 
No 
estou 
desgostoso 
com 
voc. 
O 
problema 
 
que 
no 
posso 
falar 
sobre 
essa 
parte 
do 
seu 
sonhar. 
Voc 
est 
completamente 
sozinho 
neste 
caso. 
Eu 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
reais. 
Voc 
est 
descobrindo 
o 
quanto 
so 
reais. 
Mas 
o 
que 
fizer 
com 
essa 
descoberta 
 
coisa 
sua, 
somente 
sua. 
Algum 
dia 
ver 
o 
motivo 
de 
minha 
distncia. 
 
Mas 
no 
existe 
alguma 
coisa 
que 
voc 
possa 
falar 
sobre 
esse 
sonho? 
 
insisti. 
 
S 
posso 
dizer 
que 
no 
foi 
um 
sonho. 
Foi 
uma 
jornada 
ao 
desconhecido. 
Uma 
jornada 
necessria, 
devo 
dizer; 
e 
ultrapessoal. 
Mudou 
de 
assunto 
e 
comeou 
a 
falar 
sobre 
outros 
aspectos 
de 
seus 
ensinamentos. 
Daquele 
dia 
em 
diante, 
a 
despeito 
de 
meu 
medo 
e 
da 
relutncia 
de 
Dom 
Juan 
em 
me 
aconselhar, 
tornei-me 
um 
viajante 
regular 
quele 
mundo 
esponjoso. 
Descobri 
de 
imediato 
que, 
quanto 
maior 
minha 
capacidade 
de 
observar 
os 
detalhes 
dos 
sonhos, 
maior 
a 
facilidade 
de 
isolar 
os 
batedores. 
Se 
eu 
escolhesse 
reconhecer 
os 
batedores 
como 
uma 
energia 
estranha, 
eles 
permaneciam 
algum 
tempo 
em 
meu 
campo 
perceptivo. 
Se 
escolhesse 
transformar 
os 
batedores 
em 
objetos 
semiconhecidos, 
eles 
ficavam 
ainda 
mais 
tempo, 
mudando 
erraticamente 
de 
forma. 
Mas 
se 
eu 
os 
seguisse, 
revelando 
em 
voz 
alta 
meu 
intento 
de 
ir, 
os 
batedores 
realmente 
transportavam 
minha 
ateno 
sonhadora 
para 
um 
mundo 
alm 
do 
que 
eu 
posso 
normalmente 
imaginar. 


Dom 
Juan 
dissera 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
esto 
sempre 
propensos 
a 
ensinar. 
Mas 
no 
tinha 
dito 
que 
eles 
esto 
propensos 
a 
ensinar 
apenas 
sobre 
o 
sonhar. 
Havia 
afirmado 
que 
o 
emissrio 
do 
sonho, 
por 
ter 
uma 
voz, 
 
a 
ponte 
perfeita 
entre 
aquele 
mundo 
e 
o 
nosso. 
Descobri 
que 
o 
emissrio 
no 
era 
apenas 
a 
voz 
de 
um 
professor, 
e 
sim 
a 
voz 
de 
um 
vendedor 
extremamente 
sutil. 
Ele 
repetia 
sempre 
e 
sempre, 
no 
momento 
adequado, 
as 
vantagens 
de 
seu 
mundo. 
Ainda 
assim 
me 
ensinava 
coisas 
valiosssimas 
sobre 
o 


#
sonhar. 
Ouvindo-o 
eu 
compreendia 
a 
preferncia 
dos 
feiticeiros 
antigos 
pelas 
prticas 
precisas. 


 
Para 
o 
sonhar 
perfeito, 
a 
primeira 
coisa 
a 
fazer 
 
calar 
todo 
o 
dilogo 
interno 
 
ele 
me 
disse 
uma 
vez. 
 
Para 
obter 
melhores 
resultados 
em 
calar 
o 
dilogo, 
ponha 
entre 
os 
dedos 
cristais 
de 
quartzo 
com 
cinco 
a 
sete 
centmetros 
de 
comprimento 
ou 
algumas 
pedras 
de 
rio 
finas 
e 
lisas. 
Dobre 
ligeiramente 
os 
dedos 
e 
aperte 
os 
cristais 
ou 
as 
pedras. 
O 
emissrio 
disse 
que 
pinos 
de 
metal, 
se 
fossem 
do 
tamanho 
e 
da 
grossura 
dos 
dedos, 
eram 
igualmente 
eficazes. 
O 
procedimento 
consistia 
em 
apertar 
pelo 
menos 
trs 
objetos 
finos 
entres 
os 
dedos 
de 
cada 
mo 
e 
criar 
uma 
presso 
quase 
dolorosa 
nas 
mos. 
Uma 
presso 
que 
tinha 
a 
estranha 
propriedade 
de 
calar 
o 
dilogo 
interno. 
A 
preferncia 
expressa 
do 
emissrio 
eram 
os 
cristais 
de 
quartzo; 
disse 
que 
eles 
davam 
o 
melhor 
resultado, 
ainda 
que, 
com 
a 
prtica, 
qualquer 
coisa 
servisse. 


 
Cair 
no 
sono 
num 
momento 
de 
silncio 
total 
garante 
uma 
entrada 
perfeita 
no 
sonhar 
 
disse 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
E 
tambm 
garante 
o 
estmulo 
da 
ateno 
sonhadora. 
 
Os 
sonhadores 
devem 
usar 
um 
anel 
de 
ouro 
 
o 
emissrio 
disse 
uma 
outra 
vez. 
 
De 
preferncia 
um 
pouquinho 
apertado. 
A 
explicao 
do 
emissrio 
foi 
que 
um 
anel 
assim 
serve 
como 
ponte 
para 
os 
sonhadores 
voltarem 
 
superfcie 
do 
mundo 
cotidiano 
ou 
para 
afundar, 
de 
nossa 
conscincia 
cotidiana, 
no 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Como 
funciona 
essa 
ponte? 
 
perguntei. 
No 
tinha 
entendido 
qual 
era 
a 
relao. 
 
O 
contato 
dos 
dedos 
com 
o 
anel 
estabelece 
a 
ponte 
 
disse 
o 
emissrio. 
 
Se 
um 
sonhador 
vem 
ao 
meu 
mundo 
usando 
um 
anel, 
esse 
anel 
atrai 
e 
prende 
a 
energia 
de 
meu 
mundo; 
e 
quando 
for 
necessrio, 
essa 
energia 
transporta 
o 
sonhador 
de 
volta 
ao 
seu 
mundo. 
Ele 
provoca 
uma 
constante 
sensao 
familiar 
em 
seu 
dedo. 
Durante 
outra 
sesso 
do 
sonhar, 
o 
emissrio 
disse 
que 
nossa 


#
pele 
 
o 
rgo 
perfeito 
para 
transportar 
ondas 
de 
energia, 
da 
modalidade 
do 
mundo 
cotidiano 
para 
a 
modalidade 
dos 
seres 
inorgnicos, 
e 
vice-versa. 
Recomendou 
manter 
a 
pele 
fresca 
e 
livre 
de 
pigmentos 
ou 
leos. 
Tambm 
recomendou 
que 
os 
sonhadores 
usassem 
um 
cinto 
apertado, 
uma 
faixa 
na 
cabea 
ou 
um 
colar, 
criando 
um 
ponto 
de 
presso 
que 
atua 
como 
um 
centro 
de 
troca 
de 
energia 
na 
pele. 
O 
emissrio 
explicou 
que 
a 
pele 
automaticamente 
filtra 
a 
energia, 
e 
o 
que 
precisvamos 
fazer 
para 
que 
a 
pele 
no 
somente 
filtrasse, 
mas 
tambm 
trocasse 
energia 
de 
uma 
modalidade 
para 
outra, 
era 
expressar 
o 
intento 
em 
voz 
alta, 
durante 
o 
sonhar. 


Um 
dia 
a 
voz 
do 
emissrio 
me 
deu 
um 
bnus 
fabuloso. 
Disse 
que, 
para 
assegurar 
a 
agudeza 
e 
a 
preciso 
de 
nossa 
ateno 
sonhadora, 
devemos 
tir-la 
de 
trs 
do 
cu 
da 
boca, 
onde 
um 
enorme 
reservatrio 
de 
ateno 
est 
localizado 
em 
todos 
os 
seres 
humanos. 
A 
sugesto 
especfica 
do 
emissrio 
era 
treinar 
e 
aprender 
a 
disciplina 
e 


o 
controle 
necessrio 
para 
apertar 
a 
ponta 
da 
lngua 
no 
cu 
da 
boca 
durante 
o 
sonhar. 
Uma 
tarefa 
to 
difcil 
e 
desgastante, 
disse 
o 
emissrio, 
quanto 
encontrar 
a 
prpria 
mo 
num 
sonho. 
Mas 
uma 
tarefa 
que, 
depois 
de 
realizada, 
dava 
os 
resultados 
mais 
espantosos, 
em 
termos 
de 
controlar 
a 
ateno 
sonhadora. 
Recebi 
uma 
profuso 
de 
instrues 
sobre 
todos 
os 
temas 
imaginveis; 
instrues 
que 
eu 
prontamente 
esquecia 
se 
no 
me 
fossem 
infinitamente 
repetidas. 
Pedi 
conselho 
a 
Dom 
Juan 
para 
resolver 
esse 
problema 
de 
esquecer. 


Seu 
comentrio 
foi 
to 
breve 
quanto 
eu 
esperava. 


 
Concentre-se 
apenas 
no 
que 
o 
emissrio 
diz 
sobre 
o 
sonhar. 
Eu 
agarrava 
com 
tremendo 
fervor 
qualquer 
coisa 
que 
o 
emissrio 
repetisse 
vezes 
suficientes. 
Fiel 
 
recomendao 
de 
Dom 
Juan, 
somente 
segui 
seus 
conselhos 
quando 
se 
referiam 
ao 
sonhar, 
e 
pessoalmente 
corroborrei 
o 
valor 
de 
sua 
instruo. 
A 
informao 
mais 
vital 
para 
mim 
foi 
que 
a 
ateno 
sonhadora 
vem 
de 
trs 
do 
cu 
da 
boca. 
Custou 
um 
esforo 
enorme 
sentir, 
enquanto 
sonhava, 
que 
estava 
apertando 
o 
cu 
da 
boca 
com 
a 
ponta 
da 
lngua. 
Assim 
que 


#
consegui, 
minha 
ateno 
sonhadora 
assumiu 
vida 
prpria 
e 
tornou-
se, 
devo 
dizer, 
mais 
aguda 
do 
que 
minha 
ateno 
normal 
do 
mundo 
cotidiano. 


No 
precisei 
de 
muito 
tempo 
para 
deduzir 
como 
deve 
ter 
sido 
profundo 
o 
envolvimento 
dos 
feiticeiros 
antigos 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
Os 
comentrios 
e 
os 
avisos 
de 
Dom 
Juan 
sobre 
o 
perigo 
desse 
envolvimento 
tornaram-se 
mais 
vitais 
do 
que 
nunca. 
Tentei 
ao 
mximo 
atender 
aos 
seus 
padres 
de 
auto-exame 
e 
nenhuma 
indulgncia. 
Assim, 
a 
voz 
do 
emissrio 
e 
o 
que 
ela 
dizia 
tornou-se 
para 
mim 
um 
enorme 
desafio. 
Precisava 
evitar, 
a 
todo 
custo, 
sucumbir 
 
tentao 
implcita 
na 
promessa 
de 
conhecimento 
dada 
pelo 
emissrio; 
e 
tive 
de 
fazer 
tudo 
sozinho, 
j 
que 
Dom 
Juan 
continuava 
se 
recusando 
a 
ouvir 
meus 
relatos. 


 
Voc 
precisa 
me 
dar 
pelo 
menos 
uma 
pista 
do 
que 
devo 
fazer 
 
insisti 
numa 
ocasio, 
quando 
tive 
coragem 
suficiente 
para 
pedir. 
 
No 
posso 
 
ele 
disse 
com 
um 
tom 
definitivo. 
 
E 
no 
pea 
outra 
vez. 
J 
disse, 
nesse 
caso 
os 
sonhadores 
devem 
ser 
deixados 
a 
ss. 
 
Mas 
voc 
nem 
mesmo 
sabe 
o 
que 
desejo 
perguntar. 
 
Ah, 
sei 
sim. 
Voc 
quer 
que 
eu 
diga 
se 
est 
certo 
viver 
num 
daqueles 
tneis; 
nem 
que 
seja 
s 
para 
saber 
o 
que 
a 
voz 
do 
emissrio 
est 
falando. 
Admiti 
que 
esse 
era 
exatamente 
o 
meu 
dilema. 
No 
mnimo 
eu 
queria 
saber 
o 
que 
estava 
implcito 
na 
afirmao 
de 
que 
algum 
poderia 
viver 
num 
daqueles 
tneis. 


 
Eu 
prprio 
passei 
pelo 
mesmo 
problema 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
E 
ningum 
pde 
me 
ajudar, 
porque 
essa 
 
uma 
deciso 
extremamente 
pessoal 
e 
definitiva, 
uma 
deciso 
definitiva 
tomada 
no 
momento 
em 
que 
voc 
verbaliza 
o 
desejo 
de 
viver 
naquele 
mundo. 
Para 
conseguir 
que 
voc 
verbalize 
esse 
desejo, 
os 
seres 
inorgnicos 
vo 
atender 
aos 
seus 
desejos 
mais 
secretos. 
 
Isso 
 
realmente 
diablico, 
Dom 
Juan. 
 
Pode 
dizer 
isso 
de 
novo. 
Mas 
no 
somente 
com 
relao 
ao 
#
que 
est 
pensando. 
Para 
voc, 
a 
parte 
diablica 
 
a 
tentao 
de 
ceder, 
especialmente 
quando 
existem 
tantas 
recompensas 
enormes 
em 
jogo. 
Para 
mim, 
a 
natureza 
diablica 
do 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
que 
ele 
pode 
muito 
bem 
ser 
o 
nico 
santurio 
que 
os 
sonhadores 
tm 
num 
universo 
hostil. 


 
Ele 
 
realmente 
um 
porto 
seguro 
para 
os 
sonhadores, 
Dom 
Juan? 
 
Ele 
 
definitivamente 
um 
porto 
seguro 
para 
alguns 
sonhadores. 
No 
para 
mim. 
No 
preciso 
de 
escoras 
nem 
de 
corrimos. 
Sei 
quem 
sou. 
Estou 
sozinho 
num 
universo 
hostil 
e 
aprendi 
a 
dizer: 
que 
seja! 
Esse 
foi 
o 
fim 
da 
conversa. 
Ele 
no 
dissera 
o 
que 
eu 
desejava 
ouvir, 
mas 
eu 
sabia 
que 
at 
mesmo 
o 
desejo 
de 
saber 
o 
que 
seria 
viver 
num 
tnel 
quase 
significava 
escolher 
aquele 
modo 
de 
vida. 
Eu 
no 
estava 
interessado 
numa 
coisa 
dessas. 
Tomei 
nesse 
momento 
a 
deciso 
de 
continuar 
os 
exerccios 
de 
sonhar, 
sem 
mais 
nenhuma 
implicao. 
Rapidamente 
contei 
a 
Dom 
Juan. 


 
No 
diga 
nada 
 
ele 
aconselhou. 
 
Mas 
compreenda 
que, 
se 
decidir 
ficar, 
sua 
deciso 
 
definitiva. 
Vai 
ficar 
aqui 
para 
sempre. 
Para 
mim 
 
impossvel 
julgar 
objetivamente 
o 
que 
aconteceu 
nas 
incontveis 
vezes 
em 
que 
sonhei 
com 
aquele 
mundo. 
Posso 
dizer 
que 
parecia 
um 
mundo 
to 
real 
quanto 
qualquer 
sonho 
pode 
ser 
real. 
Ou 
posso 
tambm 
dizer 
que 
parecia 
to 
real 
quanto 
o 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Sonhando 
com 
aquele 
mundo 
fiquei 
consciente 
do 
que 
Dom 
Juan 
me 
dissera 
muitas 
vezes: 
que 
sob 
a 
influncia 
do 
sonhar 
a 
realidade 
sofre 
uma 
metamorfose. 
Vi-me 
ento 
diante 
das 
duas 
opes 
que, 
de 
acordo 
com 
Dom 
Juan, 
so 
enfrentadas 
por 
todos 
os 
sonhadores: 
ou 
remodelamos 
cuidadosamente 
nosso 
sistema 
de 
interpretao 
dos 
dados 
sensoriais 
ou 
o 
deixamos 
completamente 
de 
lado. 


Para 
Dom 
Juan, 
remodelar 
nosso 
sistema 
de 
interpretao 
significa 
intentar 
seu 
recondicionamento. 
Significa 
tentar 
deliberada 
e 
cuidadosamente 
alargar 
suas 
capacidades. 
Vivendo 
de 
acordo 
com 


#
o 
caminho 
dos 
feiticeiros, 
os 
sonhadores 
economizam 
e 
acumulam 
a 
energia 
necessria 
para 
suspender 
o 
julgamento 
e, 
assim, 
facilitar 
essa 
remodelao 
pretendida. 
Ele 
explicou 
que, 
se 
escolhermos 
o 
recondicionamento 
de 
nossos 
sistemas 
de 
interpretao, 
a 
realidade 
se 
torna 
fluida, 
e 
o 
mbito 
do 
que 
pode 
ser 
real 
 
ampliado 
sem 
colocar 
em 
perigo 
a 
integridade 
da 
realidade. 
Sonhar, 
ento, 
abre 
de 
fato 
as 
portas 
para 
outros 
aspectos 
do 
que 
 
real. 
Se 
escolhermos 
deixar 
de 
lado 
nosso 
sistema, 
o 
mbito 
do 
que 
pode 
ser 
percebido 
sem 
interpretao 
cresce 
imensuravelmente. 
A 
expanso 
de 
nossa 
percepo 
 
to 
gigantesca 
que 
ficamos 
com 
muito 
poucas 
ferramentas 
para 
a 
interpretao 
sensorial. 
Resta-nos, 
assim, 
uma 
sensao 
de 
infinita 
realidade, 
que 
 
irreal, 
ou 
de 
infinita 
irrealidade 
que 
pode 
muito 
bem 
ser 
real, 
mas 
no 
. 


Para 
mim, 
a 
nica 
opo 
aceitvel 
era 
reconstruir 
e 
alargar 
meu 
sistema 
de 
interpretao. 
Sonhando 
no 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos 
eu 
me 
via, 
de 
sonho 
para 
sonho, 
diante 
da 
consistncia 
daquele 
mundo, 
comeando 
com 
o 
isolamento 
dos 
batedores, 
em 
seguida 
ouvindo 
a 
voz 
do 
emissrio 
e 
atravessando 
os 
tneis. 
Passava 
atravs 
deles 
sem 
sentir 
nada, 
e 
mesmo 
assim 
permanecendo 
consciente 
de 
que 
o 
espao 
e 
o 
tempo 
eram 
constantes, 
ainda 
que 
no 
em 
termos 
discernveis 
atravs 
da 
racionalidade, 
sob 
condies 
normais. 
Entretanto, 
ao 
noticiar 
a 
diferena 
ou 
a 
ausncia 
ou 
profuso 
de 
detalhes 
em 
cada 
tnel, 
ou 
ao 
perceber 
a 
sensao 
de 
distncia 
entre 
os 
tneis, 
ou 
ao 
perceber 
o 
tamanho 
ou 
a 
largura 
aparentes 
de 
cada 
tnel, 
eu 
chegava 
a 
um 
senso 
de 
observao 
objetiva. 


As 
reas 
onde 
essa 
reconstruo 
de 
meu 
sistema 
interpretativo 
tiveram 
efeito 
mais 
dramtico 
foram 
no 
conhecimento 
de 
como 
me 
relacionava 
com 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Naquele 
mundo, 
que 
era 
real 
para 
mim, 
eu 
era 
uma 
bolha 
de 
energia. 
Podia 
disparar 
pelos 
tneis 
como 
uma 
luz 
movendo-se 
rpida 
ou 
podia 
engatinhar 
pelas 
paredes, 
como 
um 
inseto. 
Se 
voasse, 
uma 
voz 
me 
dava 
informaes 
consistentes, 
no 
arbitrrias, 
sobre 
detalhes 
das 


#
paredes 
onde 
havia 
focalizado 
a 
ateno 
sonhadora. 
Esses 
detalhes 
eram 
protuberncias 
intrincadas, 
como 
o 
sistema 
braile 
de 
escrita. 
Quando 
me 
arrastava 
nas 
paredes 
podia 
ver 
os 
mesmos 
detalhes 
com 
maior 
preciso, 
e 
ouvir 
a 
voz 
dando 
descries 
mais 
complexas. 


A 
conseqncia 
inevitvel 
foi 
o 
desenvolvimento 
de 
um 
ponto 
de 
vista 
dual. 
Por 
um 
lado 
eu 
sabia 
que 
estava 
tendo 
um 
sonho; 
por 
outro, 
sabia 
que 
estava 
envolvido 
numa 
jornada 
pragmtica, 
to 
real 
quanto 
qualquer 
jornada 
no 
mundo. 
Esse 
corte 
genuno 
era 
uma 
corroborao 
do 
que 
Dom 
Juan 
dissera: 
a 
existncia 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
o 
maior 
desafio 
 
nossa 
racionalidade. 


S 
depois 
de 
realmente 
suspender 
meu 
julgamento 
senti 
algum 
alvio. 
Num 
determinado 
momento, 
quando 
a 
tenso 
de 
minha 
postura 
insustentvel 
estava 
quase 
me 
destruindo 
 
acreditando 
seriamente 
na 
existncia 
atestvel 
dos 
seres 
inorgnicos 
e 
ao 
mesmo 
tempo 
acreditando 
seriamente 
que 
tudo 
era 
apenas 
um 
sonho 
, 
alguma 
coisa 
em 
minha 
atitude 
mudou 
drasticamente, 
mas 
sem 
qualquer 
solicitao 
de 
minha 
parte. 


Dom 
Juan 
afirmou 
que 
meu 
nvel 
de 
energia, 
que 
vinha 
crescendo 
continuamente, 
chegou 
a 
um 
limite 
que 
me 
permitia 
deixar 
de 
lado 
suposies 
e 
prejulgamentos 
sobre 
a 
natureza 
do 
homem, 
da 
realidade 
e 
da 
percepo. 
Naquele 
dia 
me 
enamorei 
do 
conhecimento, 
independente 
da 
lgica 
ou 
do 
valor 
funcional 
e, 
acima 
de 
tudo, 
independente 
da 
convenincia 
pessoal. 


Quando 
minha 
pesquisa 
objetiva 
sobre 
o 
tema 
dos 
seres 
inorgnicos 
passou 
a 
no 
importar 
mais, 
o 
prprio 
Dom 
Juan 
puxou 


o 
assunto 
de 
minha 
jornada 
de 
sonho 
naquele 
mundo. 
Disse: 
 
No 
creio 
que 
voc 
esteja 
consciente 
da 
regularidade 
de 
seus 
encontros 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
Ele 
estava 
certo. 
Eu 
nunca 
me 
preocupara 
em 
pensar 
naquilo. 
Comentei 
a 
estranheza 
de 
minha 
desateno. 


 
No 
 
uma 
desateno 
 
disse 
ele. 
 
 
a 
natureza 
daquele 
reino, 
estimular 
o 
segredo. 
Os 
seres 
inorgnicos 
se 
escondem 
em 
mistrio, 
na 
escurido. 
Pense 
naquele 
mundo: 
estacionrio, 
com 
o 
#
objetivo 
fixo 
de 
atrair-nos 
como 
moscas 
em 
direo 
ao 
fogo. 


H 
uma 
coisa 
que, 
at 
agora, 
o 
emissrio 
no 
ousou 
lhe 
contar: 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
esto 
atrs 
de 
nossa 
conscincia, 
ou 
da 
conscincia 
de 
qualquer 
ser 
que 
caia 
em 
suas 
redes. 
Eles 
do 
conhecimento, 
mas 
cobram 
um 
preo: 
nosso 
ser 
total. 


 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
como 
pescadores? 
 
Exatamente. 
Em 
algum 
momento 
o 
emissrio 
vai 
lhe 
mostrar 
pessoas 
que 
ficaram 
presas 
l, 
ou 
outros 
seres 
que 
no 
so 
humanos 
e 
que 
tambm 
ficaram 
presos. 
Repulsa 
e 
medo 
devem 
ter 
sido 
minha 
resposta. 
As 
revelaes 
de 
Dom 
Juan 
me 
afetaram 
profundamente, 
mas 
no 
sentido 
de 
criar 
uma 
curiosidade 
incontida. 
Eu 
estava 
praticamente 
arquejando. 


 
Os 
seres 
inorgnicos 
no 
podem 
forar 
ningum 
a 
ficar 
com 
eles 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Viver 
no 
mundo 
deles 
 
uma 
questo 
voluntria. 
Mas 
eles 
so 
capazes 
de 
aprisionar 
qualquer 
um 
atendendo 
aos 
nossos 
desejos, 
mimando-nos 
e 
cedendo 
s 
nossas 
vontades. 
Cuidado 
com 
a 
conscincia, 
que 
 
imvel. 
Conscincias 
assim 
precisam 
buscar 
movimento, 
e 
fazem 
isso, 
como 
eu 
disse, 
criando 
projees; 
projees 
fantasmagricas, 
s 
vezes. 
Pedi 
a 
Dom 
Juan 
para 
explicar 
o 
que 
queria 
dizer 
com 
projees 
fantasmagricas. 
Ele 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
pren-
dem-se 
aos 
sentimentos 
mais 
ntimos 
dos 
sonhadores 
e 
jogam 
impiedosamente 
com 
eles. 
Criam 
fantasmas 
para 
agradar 
ou 
apavorar 
os 
sonhadores. 
Lembrou-me 
de 
que 
eu 
lutara 
com 
um 
daqueles 
fantasmas. 
Explicou 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
soberbos 
projecionistas 
que 
se 
deliciam 
em 
se 
projetar 
como 
imagens 
na 
parede. 


 
Os 
feiticeiros 
antigos 
foram 
derrubados 
por 
sua 
confiana 
vazia 
naquelas 
projees 
 
continuou. 
 
Os 
feiticeiros 
antigos 
acreditavam 
que 
seus 
aliados 
tinham 
poder. 
No 
percebiam 
que 
seus 
aliados 
eram 
energias 
tnues 
projetadas 
atravs 
de 
mundos, 
como 
num 
filme 
csmico. 
#
 
Est 
se 
contradizendo, 
Dom 
Juan. 
Voc 
mesmo 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
reais. 
Agora 
diz 
que 
so 
apenas 
imagens. 
 
Quero 
dizer 
que, 
em 
nosso 
mundo, 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
como 
imagens 
de 
cinema 
projetadas 
numa 
tela; 
e 
posso 
at 
mesmo 
acrescentar 
que 
so 
como 
imagens 
mveis 
de 
energia 
rarefeita 
projetada 
atravs 
das 
fronteiras 
de 
dois 
mundos. 
 
Mas, 
e 
quanto 
aos 
seres 
inorgnicos 
no 
mundo 
deles? 
Tambm 
so 
como 
imagens 
mveis? 
 
De 
jeito 
nenhum. 
Aquele 
mundo 
 
to 
real 
quanto 
o 
nosso. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
descreviam 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
como 
uma 
bolha 
de 
cavernas 
e 
poros 
flutuando 
num 
espao 
escuro. 
E 
descreviam 
os 
seres 
inorgnicos 
como 
tubos 
ocos 
colados 
juntos, 
como 
as 
clulas 
de 
nosso 
corpo. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
chamavam-no 
de 
cacho 
imenso, 
de 
labirinto 
de 
penumbra. 
 
Ento 
todo 
sonhador 
v 
aquele 
mundo 
do 
mesmo 
jeito, 
certo? 
 
Claro. 
Todo 
sonhador 
o 
v 
como 
ele 
. 
Voc 
pensa 
que 
 
especial? 
Confessei 
que 
alguma 
coisa 
naquele 
mundo 
me 
dava 
o 
tempo 
todo 
a 
sensao 
de 
que 
eu 
era 
especial. 
O 
que 
criava 
esse 
sentimento 
agradvel 
e 
ntido 
de 
ser 
exclusivo 
no 
era 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho, 
ou 
qualquer 
coisa 
na 
qual 
pudesse 
pensar 
conscientemente. 


 
Foi 
exatamente 
isso 
que 
derrubou 
os 
feiticeiros 
antigos 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Os 
seres 
inorgnicos 
fizeram 
com 
eles 
o 
que 
esto 
fazendo 
agora 
com 
voc; 
criaram 
o 
sentimento 
de 
que 
eram 
especiais, 
exclusivos; 
e 
um 
sentimento 
ainda 
mais 
pernicioso: 
o 
sentimento 
de 
poder. 
O 
poder 
e 
a 
sensao 
de 
ser 
especial 
so 
foras 
corruptoras 
insuportveis. 
Cuidado! 


 
Como 
foi 
que 
voc 
evitou 
o 
perigo, 
Dom 
Juan? 
 
Fui 
quele 
mundo 
algumas 
vezes 
e 
nunca 
mais 
voltei. 
Dom 
Juan 
explicou 
que, 
na 
opinio 
dos 
feiticeiros, 
o 
universo 
 
predador, 
e 
que 
os 
feiticeiros, 
melhor 
do 
que 
qualquer 
pessoa, 
precisam 
levar 
isso 
em 
conta 
em 
suas 
atividades 
dirias 
de 
feitiaria. 


#
Ele 
achava 
que 
a 
conscincia 
 
intrinsecamente 
compelida 
a 
crescer, 
e 
o 
nico 
modo 
de 
crescer 
 
atravs 
de 
lutas, 
de 
confrontaes 
de 
vida 
ou 
morte. 


 
A 
conscincia 
dos 
feiticeiros 
cresce 
enquanto 
eles 
sonham 
 
prosseguiu. 
 
E 
no 
momento 
em 
que 
ela 
cresce, 
alguma 
coisa 
l 
fora 
reconhece 
o 
crescimento, 
reconhece 
e 
faz 
uma 
oferta. 
Os 
seres 
inorgnicos 
so 
os 
compradores 
dessa 
conscincia 
nova 
e 
aumentada. 
Os 
sonhadores 
precisam 
estar 
alerta 
o 
tempo 
inteiro. 
So 
a 
presa, 
no 
momento 
em 
que 
se 
aventuram 
naquele 
universo 
predador. 


 
O 
que 
voc 
me 
sugere, 
para 
ficar 
seguro, 
Dom 
Juan? 
 
Estar 
alerta 
a 
cada 
segundo! 
No 
deixar 
que 
nada 
nem 
ningum 
decida 
por 
voc. 
S 
v 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
quando 
quiser. 
 
Honestamente, 
Dom 
Juan, 
eu 
no 
saberia 
como 
fazer 
isso. 
Assim 
que 
isolo 
um 
batedor, 
sinto 
uma 
presso 
tremenda 
para 
ir. 
No 
tenho 
a 
menor 
chance 
de 
mudar 
de 
idia. 
 
Qual 
, 
com 
quem 
voc 
acha 
que 
est 
brincando? 
Voc 
pode 
definitivamente 
parar. 
S 
no 
tentou. 
Insisti, 
srio, 
que 
para 
mim 
era 
impossvel. 
Ele 
no 
prosseguiu 
com 
o 
assunto, 
e 
agradeci 
por 
isso. 
Um 
sentimento 
perturbador 
de 
culpa 
comeara 
a 
me 
atacar. 
Por 
algum 
motivo 
desconhecido, 
o 
pensamento 
de 
interromper 
conscientemente 
o 
puxo 
dos 
batedores 
jamais 
me 
ocorrera. 


Como 
sempre, 
Dom 
Juan 
estava 
certo. 
Descobri 
que 
podia 
mudar 
o 
curso 
do 
sonhar 
intentando 
esse 
curso. 
Afinal 
de 
contas, 
eu 
realmente 
intentava 
que 
os 
batedores 
me 
levassem 
para 
o 
seu 
mundo. 
Era 
vivel 
que, 
se 
eu 
deliberadamente 
intentasse 
o 
oposto, 
meu 
sonhar 
seguisse 
o 
caminho 
oposto. 


Com 
a 
prtica, 
minha 
capacidade 
de 
intentar 
as 
jornadas 
at 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
tornou-se 
extraordinariamente 
aguada. 
Uma 
capacidade 
cada 
vez 
maior 
de 
intentar 
trouxe 
um 
controle 
cada 
vez 
maior 
sobre 
minha 
ateno 
sonhadora. 
Esse 


#
controle 
adicional 
me 
deixou 
mais 
ousado. 
Senti 
que 
podia 
viajar 
com 
impunidade, 
porque 
conseguia 
interromper 
a 
jornada 
a 
qualquer 
momento 
que 
desejasse. 


 
Sua 
confiana 
 
muito 
assustadora 
 
foi 
o 
comentrio 
de 
Dom 
Juan 
quando 
contei, 
a 
seu 
pedido, 
sobre 
o 
novo 
aspecto 
do 
controle 
da 
ateno 
sonhadora. 
 
Por 
que 
deveria 
ser 
assustadora? 
 
perguntei. 
Eu 
estava 
realmente 
convicto 
do 
valor 
prtico 
do 
que 
descobrira. 
 
Por 
que 
a 
sua 
confiana 
 
a 
confiana 
de 
um 
idiota. 
Vou 
contar 
uma 
histria 
de 
feiticeiro, 
que 
vem 
bem 
a 
propsito. 
No 
fui 
eu 
quem 
testemunhou, 
e 
sim 
o 
professor 
do 
meu 
professor, 
o 
Nagual 
Elias. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
o 
Nagual 
Elias 
e 
o 
amor 
de 
sua 
vida, 
uma 
feiticeira 
chamada 
Amlia, 
perderam-se 
na 
juventude, 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 


Nunca 
antes 
eu 
ouvira 
Dom 
Juan 
falar 
sobre 
feiticeiros 
que 
fossem 
o 
amor 
da 
vida 
de 
qualquer 
pessoa. 
Sua 
afirmao 
me 
espantou. 
Perguntei 
sobre 
essa 
inconsistncia. 


 
No 
 
uma 
inconsistncia. 
Simplesmente 
evitei 
o 
tempo 
todo 
contar 
histrias 
sobre 
a 
afeio 
dos 
feiticeiros. 
Voc 
vive 
to 
supersaturado 
com 
amor 
que 
desejei 
dar 
uma 
folga. 
Bom, 
o 
Nagual 
Elias 
e 
o 
amor 
de 
sua 
vida, 
a 
feiticeira 
Amlia, 
perderam-se 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Eles 
no 
foram 
l 
sonhando, 
e 
sim 
com 
seus 
corpos 
fsicos. 


 
Como 
isso 
aconteceu, 
Dom 
Juan? 
 
Seu 
professor, 
o 
Nagual 
Rosendo, 
tinha 
temperamento 
e 
prticas 
muito 
prximas 
s 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Ele 
pretendia 
ajudar 
Elias 
e 
Amlia, 
mas 
em 
vez 
disso 
empurrou-os 
para 
alm 
de 
algumas 
fronteiras 
mortais. 
O 
Nagual 
Rosendo 
no 
pretendia 
provocar 
essa 
passagem. 
O 
que 
desejava 
era 
colocar 
os 
dois 
discpulos 
na 
segunda 
ateno, 
mas 
o 
que 
obteve 
foi 
o 
seu 
desaparecimento. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
no 
iria 
entrar 
nos 
detalhes 
daquela 


#
histria 
longa 
e 
complicada. 
S 
iria 
contar 
como 
eles 
se 
perderam 
naquele 
mundo. 
Afirmou 
que 
o 
erro 
de 
clculo 
do 
Nagual 
Rosendo 
foi 
presumir 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
tm 
o 
menor 
interesse 
em 
mulheres. 
Seu 
raciocnio 
era 
correto 
e 
foi 
guiado 
pelo 
conhecimento 
dos 
feiticeiros 
de 
que 
o 
universo 
 
marcadamente 
feminino 
e 
que 
a 
masculinidade, 
sendo 
o 
oposto 
da 
feminilidade, 
 
bastante 
escassa 
e, 
portanto, 
desejada. 


Dom 
Juan 
fez 
uma 
digresso 
e 
comentou 
que 
talvez 
a 
escassez 
de 
elementos 
masculinos 
seja 
o 
motivo 
do 
domnio 
injustificado 
dos 
homens 
em 
nosso 
planeta. 
Desejei 
permanecer 
nesse 
tpico, 
mas 
ele 
prosseguiu 
com 
sua 
histria. 
Disse 
que 
o 
plano 
do 
Nagual 
Rosendo 
era 
dar 
instrues 
a 
Elias 
e 
a 
Amlia 
exclusivamente 
na 
segunda 
ateno. 
E 
para 
isso 
seguiu 
a 
tcnica 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Atraiu 
um 
batedor, 
durante 
o 
sonhar, 
e 
comandou 
que 
ele 
transportasse 
seus 
discpulos 
para 
a 
segunda 
ateno 
deslocando 
seus 
pontos 
de 
aglutinao 
para 
o 
posicionamento 
adequado. 


Teoricamente, 
um 
batedor 
poderoso 
poderia 
deslocar 
sem 
qualquer 
esforo 
seus 
pontos 
de 
aglutinao 
para 
o 
posicionamento 
adequado. 
O 
que 
o 
Nagual 
Rosendo 
no 
levou 
em 
considerao 
foi 
a 
velhacaria 
dos 
seres 
inorgnicos. 
O 
batedor 
deslocou 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
dos 
discpulos, 
ms 
deslocou-os 
para 
um 
posicionamento 
no 
qual 
seria 
fcil 
transport-los 
fisicamente 
para 
o 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Isso 
 
possvel, 
transportar 
fisicamente? 
 
perguntei. 
 
 
possvel 
 
ele 
me 
assegurou. 
 
Ns 
somos 
energia 
mantida 
numa 
forma 
e 
numa 
posio 
especfica 
pela 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
num 
determinado 
posicionamento. 
Se 
esse 
posicionamento 
 
modificado, 
a 
forma 
e 
a 
posio 
dessa 
energia 
ir 
mudar 
de 
acordo. 
Tudo 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
precisam 
fazer 
 
colocar 
nosso 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
exato, 
e 
l 
vamos 
ns, 
como 
uma 
bola: 
levando 
sapatos, 
chapu, 
tudo. 
 
Isso 
pode 
acontecer 
com 
qualquer 
um 
de 
ns, 
Dom 
Juan? 
 
Com 
toda 
certeza. 
Especialmente 
se 
a 
soma 
total 
de 
nossa 
#
energia 
for 
correta. 
Obviamente 
a 
soma 
total 
das 
energias 
combinadas 
de 
Elias 
e 
Amlia 
era 
uma 
coisa 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
poderiam 
desprezar. 
 
absurdo 
confiar 
nos 
seres 
inorgnicos. 
Eles 
tm 
seu 
prprio 
ritmo, 
que 
no 
 
humano. 


Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
o 
que, 
exatamente, 
o 
Nagual 
Rosendo 
fez 
para 
mandar 
os 
discpulos 
at 
aquele 
mundo. 
Sabia 
que 
era 
estupidez 
perguntar, 
que 
ele 
forosamente 
ignoraria 
a 
pergunta. 
Minha 
surpresa 
foi 
genuna 
quando 
ele 
comeou 
a 
contar. 


 
O 
processo 
 
de 
uma 
simplicidade 
total. 
Ele 
fechou 
os 
discpulos 
num 
espao 
muito 
pequeno; 
como 
um 
armrio. 
Em 
seguida 
entrou 
no 
sonhar, 
chamou 
um 
batedor 
dos 
seres 
inorgnicos 
verbalizando 
seu 
intento, 
e 
em 
seguida 
verbalizou 
o 
intento 
de 
oferecer 
os 
discpulos 
ao 
batedor. 
O 
batedor, 
naturalmente, 
aceitou 
a 
oferta 
e 
levou-os 
num 
momento 
em 
que 
eles 
estavam 
com 
a 
guarda 
baixa, 
fazendo 
amor 
dentro 
do 
cubculo. 
Quando 
o 
Nagual 
abriu 
o 
cubculo 
eles 
no 
se 
encontravam 
mais 
l. 


Dom 
Juan 
explicou 
que 
doar 
pessoas 
aos 
seres 
inorgnicos 
era 
exatamente 
o 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
costumavam 
fazer 
com 
os 
discpulos. 
O 
Nagual 
Rosendo 
no 
pretendia 
isso, 
mas 
foi 
levado 
pela 
crena 
absurda 
de 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
estavam 
sob 
seu 
controle. 


 
As 
manobras 
dos 
feiticeiros 
so 
mortais 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Insisto 
que 
voc 
seja 
extraordinariamente 
consciente. 
No 
se 
envolva 
no 
pensamento 
de 
que 
tem 
alguma 
confiana 
idiota 
em 
si 
prprio. 
 
Mas 
o 
que 
aconteceu 
finalmente 
com 
o 
Nagual 
Elias 
e 
Amlia? 
 
perguntei. 
 
O 
Nagual 
Rosendo 
precisou 
ir 
fisicamente 
quele 
mundo, 
procurar 
por 
eles. 
 
E 
encontrou? 
 
Encontrou, 
depois 
de 
lutas 
enormes. 
Mas 
no 
pde 
traz-los 
totalmente. 
De 
modo 
que 
os 
dois 
jovens 
permaneceram 
para 
sempre 
#
semiprisioneiros 
daquele 
reino. 


 
Voc 
os 
conheceu, 
Dom 
Juan? 
 
Claro, 
conheci 
e 
posso 
assegurar 
que 
eles 
eram 
bastante 
estranhos. 
#
6 


O 
MUNDO 
DAS 
SOMBRAS 


oc 
deve 
ser 
extremamente 
cuidadoso, 
porque 
est 
em 


vias 
de 
cair 
nas 
mos 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
Dom 
Juan 


V
disse 
inesperadamente, 
depois 
de 
conversarmos 
sobre 
alguma 
coisa 
sem 
qualquer 
relao 
com 
o 
sonhar. 
Sua 
afirmao 
me 
pegou 
de 
surpresa. 
Como 
sempre, 
tentei 
me 
defender. 


 
No 
precisa 
me 
alertar. 
Sou 
muito 
cuidadoso. 
 
Os 
seres 
inorgnicos 
esto 
tramando 
 
disse 
ele. 
 
Eu 
sinto 
isso, 
e 
no 
posso 
me 
consolar 
dizendo 
que 
eles 
colocam 
as 
armadilhas 
desde 
o 
incio 
e 
que, 
desse 
modo, 
os 
sonhadores 
indesejveis 
so 
efetiva 
e 
permanentemente 
descobertos. 
Seu 
tom 
de 
voz 
era 
to 
ansioso 
que 
imediatamente 
precisei 
assegurar 
que 
no 
iria 
cair 
em 
nenhuma 
armadilha. 


 
Voc 
deve 
considerar 
seriamente 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
tm 
meios 
espantosos 
 
disposio. 
Sua 
conscincia 
 
soberba. 
Em 
comparao, 
ns 
somos 
crianas; 
crianas 
com 
muita 
energia, 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
cobiam. 
Desejei 
dizer 
que, 
num 
nvel 
abstrato, 
eu 
compreendera 
sua 
posio 
e 
sua 
preocupao, 
mas 
que 
num 
plano 
concreto 
no 
via 
motivo 
para 
o 
aviso, 
porque 
estava 
no 
controle 
de 
minhas 
prticas 
de 
sonhar. 


Seguiram-se 
alguns 
minutos 
de 
silncio 
inquieto, 
antes 
de 
Dom 
Juan 
falar 
de 
novo. 
Mudou 
de 
assunto 
e 
disse 
que 
precisava 
mostrar 
um 
ponto 
muito 
importante 
de 
seu 
ensinamento 
sobre 
o 


#
sonhar: 
um 
tema 
que, 
at 
ali, 
escapara 
 
minha 
percepo. 


 
Voc 
j 
compreende 
que 
os 
portes 
do 
sonhar 
so 
obstculos 
especficos 
 
disse 
ele 
 
mas 
ainda 
no 
compreendeu 
que 
o 
exerccio 
para 
alcanar 
e 
atravessar 
um 
porto 
no 
 
o 
que 
realmente 
diz 
respeito 
a 
esse 
porto. 
 
Isso 
no 
 
nem 
um 
pouco 
claro 
para 
mim, 
Dom 
Juan. 
 
Quero 
dizer 
que 
no 
 
verdadeiro 
falar, 
por 
exemplo, 
que 
o 
segundo 
porto 
 
alcanado 
e 
atravessado 
quando 
um 
sonhador 
aprende 
a 
acordar 
em 
outro 
sonho, 
ou 
quando 
um 
sonhador 
aprende 
a 
mudar 
de 
sonhos 
sem 
acordar 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana. 
 
Por 
que 
no 
 
verdadeiro, 
Dom 
Juan? 
 
Porque 
o 
segundo 
porto 
do 
sonhar 
 
alcanado 
e 
atravessado 
somente 
quando 
o 
sonhador 
aprende 
a 
isolar 
e 
a 
seguir 
os 
batedores 
da 
energia 
estranha. 
 
Ento 
por 
que 
se 
d 
a 
idia 
de 
mudar 
de 
sonhos? 
 
Acordar 
em 
outro 
sonho 
ou 
mudar 
de 
sonho 
 
o 
exerccio 
imaginado 
pelos 
feiticeiros 
antigos 
para 
treinar 
a 
capacidade 
do 
sonhador 
isolar 
e 
seguir 
um 
batedor. 
Dom 
Juan 
afirmou 
que 
a 
capacidade 
de 
seguir 
um 
batedor 
era 
uma 
grande 
realizao, 
e 
que 
quando 
os 
sonhadores 
conseguem 
faz-lo, 
o 
segundo 
porto 
 
escancarado 
e 
o 
universo 
que 
existe 
por 
trs 
dele 
torna-se 
acessvel. 
Enfatizou 
que 
esse 
universo 
est 
l 
todo 


o 
tempo, 
mas 
que 
no 
podemos 
chegar 
a 
ele 
porque 
no 
temos 
habilidade 
energtica 
e 
que, 
em 
essncia, 
o 
segundo 
porto 
do 
sonhar 
 
a 
porta 
para 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
e 
o 
sonhar 
 
a 
chave 
que 
abre 
essa 
porta. 
 
Um 
sonhador 
pode 
isolar 
um 
batedor 
diretamente, 
sem 
precisar 
passar 
pelos 
exerccios 
de 
mudar 
sonhos? 
 
perguntei. 
 
De 
jeito 
nenhum. 
O 
exerccio 
 
essencial. 
A 
pergunta 
 
se 
esse 
 
o 
nico 
exerccio 
que 
existe. 
Ou 
se 
um 
sonhador 
pode 
fazer 
outro 
tipo 
de 
exerccio. 
Dom 
Juan 
me 
olhou 
irnico. 
Parecia 
esperar 
que 
eu 
respondesse 
 
pergunta. 


#
 
 
muito 
difcil 
inventar 
um 
exerccio 
to 
completo 
quanto 
o 
imaginado 
pelos 
feiticeiros 
antigos 
 
falei 
sem 
saber 
por 
que, 
mas 
com 
irrefutvel 
autoridade. 
Dom 
Juan 
admitiu 
que 
eu 
estava 
completamente 
certo, 
e 
disse 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
haviam 
criado 
uma 
srie 
de 
exerccios 
perfeitos 
para 
atravessar 
os 
portes 
do 
sonhar 
e 
ir 
at 
os 
mundos 
que 
existem 
atrs 
de 
cada 
um 
deles. 
Reiterou 
que 
o 
sonhar, 
sendo 
inveno 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
deve 
ser 
jogado 
segundo 
suas 
regras. 
Descreveu 
a 
regra 
do 
segundo 
porto 
como 
tendo 
trs 
etapas: 
primeiro, 
atravs 
do 
exerccio 
de 
mudar 
os 
sonhos 
os 
sonhadores 
descobrem 
os 
batedores; 
segundo, 
ao 
seguir 
os 
batedores 
eles 
entram 
em 
outro 
universo 
verdico; 
e 
terceiro, 
l, 
atravs 
de 
seus 
atos, 
os 
feiticeiros 
descobrem 
sozinhos 
as 
leis 
e 
os 
regulamentos 
daquele 
universo. 


Dom 
Juan 
disse 
que 
ao 
lidar 
com 
os 
seres 
inorgnicos 
eu 
seguira 
to 
bem 
as 
regras 
que 
ele 
temera 
conseqncias 
devastadoras. 
Pensou 
que 
a 
reao 
inevitvel 
por 
parte 
dos 
seres 
inorgnicos 
seria 
a 
tentativa 
de 
manter-me 
em 
seu 
mundo. 


 
No 
acha 
que 
est 
exagerando, 
Dom 
Juan? 
 
Eu 
no 
podia 
acreditar 
que 
o 
quadro 
fosse 
to 
negro 
quanto 
ele 
pintava. 
 
No 
estou 
exagerando 
nem 
um 
pouco 
 
disse 
ele 
num 
tom 
seco 
e 
srio. 
 
Voc 
ver, 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
abrem 
mo 
de 
ningum; 
no 
sem 
uma 
verdadeira 
luta. 
 
Mas 
o 
que 
o 
faz 
pensar 
que 
eles 
me 
querem? 
 
Eles 
j 
mostraram 
muitas 
coisas 
a 
voc. 
Realmente 
acredita 
que 
eles 
passam 
por 
tudo 
isso 
s 
para 
se 
divertir? 
Dom 
Juan 
riu 
da 
prpria 
observao. 
Eu 
no 
achei 
graa. 
Um 
medo 
estranho 
me 
fez 
perguntar 
se 
ele 
achava 
que 
eu 
deveria 
interromper 
ou 
at 
mesmo 
acabar 
totalmente 
com 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 


 
Voc 
precisa 
continuar 
at 
chegar 
ao 
universo 
que 
h 
por 
trs 
do 
segundo 
porto. 
Quero 
dizer 
que 
voc 
sozinho 
deve 
aceitar 
ou 
rejeitar 
o 
chamariz 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Por 
isso 
me 
mantenho 
#
distante 
e 
praticamente 
no 
comento 
suas 
prticas 
de 
sonhar. 


Confessei 
que 
no 
conseguia 
explicar 
por 
que 
ele 
era 
to 
generoso 
em 
elucidar 
outros 
aspectos 
de 
seu 
conhecimento 
e 
to 
avarento 
com 
o 
sonhar. 


 
Fui 
forado 
a 
ensin-lo 
a 
sonhar 
somente 
porque 
esse 
 
o 
padro 
determinado 
pelos 
feiticeiros 
antigos 
 
disse 
ele. 
 
O 
caminho 
do 
sonhar 
 
cheio 
de 
armadilhas, 
e 
evitar 
essas 
armadilhas 
ou 
cair 
nelas 
 
o 
problema 
pessoal 
e 
individual 
de 
cada 
sonhador, 
e 
devo 
acrescentar 
que 
 
um 
problema 
definitivo. 
 
E 
essas 
armadilhas 
so 
o 
resultado 
de 
sucumbir 
 
adulao 
ou 
s 
promessas 
de 
poder? 
 
No 
somente 
de 
sucumbir 
a 
isso, 
mas 
de 
sucumbir 
a 
qualquer 
coisa 
oferecida 
por 
eles, 
alm 
de 
um 
determinado 
ponto. 
 
E 
qual 
 
esse 
certo 
ponto, 
Dom 
Juan? 
 
O 
ponto 
depende 
de 
ns 
como 
indivduos. 
O 
desafio 
 
cada 
um 
de 
ns 
pegar 
apenas 
o 
que 
for 
necessrio 
naquele 
mundo, 
e 
nada 
mais. 
Saber 
o 
que 
 
necessrio 
 
a 
virtude 
dos 
feiticeiros; 
mas 
pegar 
apenas 
o 
necessrio 
 
sua 
maior 
realizao. 
Deixar 
de 
compreender 
essa 
regra 
simples 
 
o 
meio 
mais 
seguro 
de 
despencar 
numa 
armadilha. 
 
O 
que 
acontece 
quando 
se 
cai, 
Dom 
Juan? 
 
Se 
voc 
cair, 
voc 
paga 
o 
preo, 
e 
o 
preo 
depende 
das 
circunstncias 
e 
do 
tamanho 
da 
queda. 
Mas 
realmente 
no 
h 
meio 
de 
falar 
de 
uma 
eventualidade 
dessas, 
porque 
no 
estamos 
enfrentando 
um 
problema 
de 
punio. 
Aqui 
o 
que 
est 
em 
jogo 
so 
correntes 
energticas; 
correntes 
energticas 
que 
criam 
circunstncias 
mais 
apavorantes 
do 
que 
a 
morte. 
Tudo 
no 
caminho 
dos 
feiticeiros 
 
questo 
de 
vida 
ou 
morte, 
mas 
no 
caminho 
do 
sonhar 
essa 
questo 
 
multiplicada 
por 
cem. 
Garanti 
a 
Dom 
Juan 
que 
eu 
sempre 
tivera 
o 
maior 
cuidado 
em 
minhas 
prticas 
do 
sonhar, 
e 
que 
era 
extremamente 
disciplinado 
e 
consciencioso. 


 
Voc 
sabe 
que 
 
 
disse 
ele. 
 
Mas 
quero 
que 
seja 
ainda 
#
mais 
disciplinado 
e 
que 
trate 
com 
luvas 
de 
pelica 
tudo 
que 
for 
relacionado 
ao 
sonhar. 
Seja 
vigilante, 
acima 
de 
tudo. 
No 
posso 
prever 
de 
onde 
vir 
o 
ataque. 


 
Est 
vendo 
um 
perigo 
iminente 
para 
mim, 
Dom 
Juan? 
 
Eu 
vi 
perigo 
iminente 
para 
voc 
desde 
o 
dia 
em 
que 
andou 
naquela 
cidade 
misteriosa, 
na 
primeira 
vez 
em 
que 
ajudei-o 
a 
usar 
seu 
corpo 
energtico. 
 
Mas 
voc 
sabe 
especificamente 
o 
que 
eu 
deveria 
fazer 
e 
o 
que 
deveria 
evitar? 
 
No, 
no 
sei. 
S 
sei 
que 
o 
universo 
por 
trs 
do 
segundo 
porto 
 
o 
mais 
prximo 
do 
nosso; 
e 
o 
nosso 
prprio 
universo 
 
bastante 
malicioso 
e 
desprovido 
de 
sentimentos. 
De 
modo 
que 
os 
dois 
no 
podem 
ser 
to 
diferentes. 
Insisti 
em 
que 
me 
dissesse 
o 
que 
me 
aguardava. 
E 
ele 
insistiu 
que, 
como 
feiticeiro, 
sentia 
um 
estado 
de 
perigo 
geral, 
mas 
no 
poderia 
ser 
mais 
especfico. 


 
O 
universo 
dos 
seres 
inorgnicos 
est 
sempre 
pronto 
a 
atacar 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Mas 
o 
nosso 
tambm. 
Por 
isso 
voc 
precisa 
chegar 
ao 
reino 
deles 
exatamente 
como 
se 
estivesse 
entrando 
numa 
zona 
de 
guerra. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
os 
sonhadores 
devem 
estar 
sempre 
com 
medo 
daquele 
mundo? 
 
No. 
No 
quis 
dizer 
isso. 
Uma 
vez 
que 
o 
sonhador 
passar 
para 
o 
universo 
atrs 
do 
segundo 
porto, 
ou 
assim 
que 
se 
recusar 
a 
consider-lo 
uma 
opo 
vivel, 
no 
h 
mais 
dor 
de 
cabea. 
Dom 
Juan 
afirmou 
que 
somente 
ento 
os 
sonhadores 
ficam 
livres 
para 
prosseguir. 
No 
tive 
certeza 
do 
que 
ele 
queria 
dizer. 
Ele 
explicou 
que 
o 
universo 
atrs 
do 
segundo 
porto 
 
to 
agressivo 
que 
serve 
como 
filtro 
natural 
ou 
como 
um 
campo 
de 
provas 
onde 
a 
fraqueza 
dos 
sonhadores 
 
testada. 
Se 
sobreviverem 
aos 
testes, 
eles 
podem 
ir 
para 
o 
porto 
seguinte; 
caso 
contrrio, 
permanecem 
presos 
para 
sempre 
naquele 
universo. 


Fiquei 
louco 
de 
ansiedade 
mas, 
a 
despeito 
de 
toda 
a 
minha 


#
insistncia, 
isso 
foi 
tudo 
que 
ele 
disse. 
Quando 
voltei 
para 
casa 
continuei 
minhas 
jornadas 
para 
o 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos, 
tendo 
enorme 
cuidado. 
Minha 
cautela 
s 
pareceu 
aumentar 
a 
sensao 
de 
prazer 
nas 
viagens. 
Cheguei 
ao 
ponto 
em 
que 
a 
mera 
contemplao 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
bastava 
para 
criar 
um 
jbilo 
impossvel 
de 
ser 
descrito. 
Temi 
que 
meu 
prazer 
terminasse 
cedo 
ou 
tarde, 
mas 
no 
foi 
assim. 
Uma 
coisa 
inesperada 
tornou-o 
ainda 
mais 
intenso. 


Numa 
ocasio 
um 
batedor 
me 
guiou 
apressadamente 
atravs 
de 
tneis 
incontveis, 
como 
se 
procurasse 
alguma 
coisa, 
ou 
como 
se 
tentasse 
me 
retirar 
toda 
a 
energia 
e 
me 
esgotar. 
Quando 
finalmente 
parou 
eu 
sentia 
como 
se 
houvesse 
corrido 
uma 
maratona. 
Parecia 
estar 
na 
extremidade 
daquele 
mundo. 
No 
havia 
mais 
tneis. 
Apenas 
uma 
escurido 
ao 
redor. 
Ento 
alguma 
coisa 
iluminou 
a 
rea 
diante 
de 
mim; 
a 
luz 
brilhava 
de 
uma 
fonte 
indireta. 
Era 
uma 
luz 
baa 
que 
deixava 
tudo 
de 
um 
cinza 
ou 
marrom 
difuso. 
Quando 
me 
acostumei 
 
luz 
distingui 
vagamente 
algumas 
formas 
escuras 
se 
movimentando. 
Depois 
de 
um 
tempo 
parecia 
que 
focalizar 
minha 
ateno 
sonhadora 
naquelas 
formas 
mveis 
tornava-as 
mais 
substanciais. 
Percebi 
trs 
tipos 
diferentes: 
algumas 
eram 
redondas, 
como 
bolas; 
outras 
eram 
como 
sinos, 
e 
outras 
como 
gigantescas 
chamas 
ondulantes. 
Todas 
eram 
basicamente 
arredondadas 
e 
do 
mesmo 
tamanho. 
Julguei 
que 
medissem 
entre 
noventa 
centmetros 
e 
um 
metro 
e 
vinte. 
Havia 
centenas, 
ou 
at 
mesmo 
milhares 
delas. 


Soube 
que 
estava 
tendo 
uma 
viso 
estranha 
e 
sofisticada; 
e 
no 
entanto 
aquelas 
formas 
eram 
to 
reais 
que 
me 
vi 
reagindo 
com 
mal-
estar. 
Tive 
a 
sensao 
nauseante 
de 
um 
ninho 
de 
insetos 
gigantescos, 
redondos, 
marrons-acinzentados. 
Entretanto, 
de 
algum 
modo, 
sentia-me 
seguro 
pairando 
acima 
deles; 
um 
sentimento 
que 
descartei 
de 
imediato. 
Percebi 
que 
era 
idiotice 
ficar 
tranqilo, 
como 
se 
meu 
sonho 
fosse 
uma 
situao 
da 
vida 
real. 
Mas 
enquanto 
observava 
aquelas 
formas 
insetides 
se 
contorcendo, 
comecei 
a 
me 
sentir 
ainda 
mais 
perturbado 
com 
a 
idia 
de 
que 
elas 
iriam 
me 
tocar. 


#
 
Somos 
a 
unidade 
mvel 
de 
nosso 
mundo 
 
disse 
de 
sbito 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
No 
tenha 
medo. 
Somos 
energia, 
e 
certamente 
no 
pretendemos 
toc-lo. 
De 
qualquer 
modo 
seria 
impossvel. 
Estamos 
separados 
por 
fronteiras 
reais. 
Depois 
de 
uma 
longa 
pausa 
a 
voz 
acrescentou: 


 
Queremos 
que 
voc 
se 
junte 
a 
ns. 
Venha 
at 
onde 
estamos. 
E 
no 
fique 
to 
constrangido. 
Voc 
no 
fica 
constrangido 
com 
os 
batedores 
nem 
comigo. 
Os 
batedores 
e 
eu 
somos 
exatamente 
como 
os 
outros. 
Eu 
tenho 
forma 
de 
sino, 
e 
os 
batedores 
so 
como 
chamas 
de 
velas. 
A 
ltima 
afirmao 
foi 
definitivamente 
uma 
espcie 
de 
pista 
para 
o 
meu 
corpo 
energtico. 
Ao 
ouvi-la 
minha 
nusea 
e 
meu 
medo 
desapareceram. 
Desci 
at 
o 
nvel 
deles, 
e 
as 
bolas, 
os 
sinos 
e 
as 
chamas 
de 
vela 
me 
rodearam. 
Chegaram 
to 
perto 
que 
teriam 
me 
tocado, 
caso 
eu 
tivesse 
um 
corpo 
fsico. 
Em 
vez 
disso 
passamos 
uns 
atravs 
dos 
outros, 
como 
sopros 
de 
ar 
encapsulado. 


Nesse 
ponto 
tive 
uma 
sensao 
incrvel. 
Apesar 
de 
no 
sentir 
nada 
com 
meu 
corpo 
energtico 
ou 
dentro 
dele, 
estava 
sentindo 
e 
registrando 
uma 
coceira 
incomum 
em 
outro 
lugar; 
havia 
coisas 
tnues, 
parecendo 
ar, 
me 
atravessando, 
mas 
no 
ali. 
A 
sensao 
foi 
vaga 
e 
rpida, 
e 
no 
me 
deu 
tempo 
de 
capt-la 
totalmente. 
Em 
vez 
de 
focalizar 
nela 
a 
minha 
ateno 
sonhadora, 
fiquei 
totalmente 
absorvido 
em 
observar 
aqueles 
gigantescos 
insetos 
de 
energia. 


No 
nvel 
em 
que 
estvamos 
me 
parecia 
que 
talvez 
houvesse 
um 
elo 
comum 
entre 
mim 
e 
as 
entidades 
de 
sombras: 
o 
tamanho. 
Talvez 
porque 
eu 
julgasse 
que 
tinham 
o 
mesmo 
tamanho 
de 
meu 
corpo 
energtico, 
eu 
me 
sentia 
quase 
confortvel 
com 
elas. 
Ao 
examin-las, 
minha 
concluso 
foi 
de 
que 
no 
me 
importava 
com 
elas. 
Eram 
impessoais, 
frias, 
distantes; 
e 
gostei 
imensamente 
disso. 
Por 
um 
instante 
me 
perguntei 
se 
o 
fato 
de 
desgostar 
delas 
num 
minuto 
e 
gostar 
no 
outro 
fosse 
uma 
conseqncia 
natural 
do 
sonhar, 
ou 
um 
produto 
de 
alguma 
influncia 
energtica 
que 
aquelas 
entidades 
estivessem 
exercendo 
sobre 
mim. 


#
 
Elas 
so 
extremamente 
agradveis 
 
falei 
ao 
emissrio 
no 
momento 
em 
que 
me 
senti 
atravessado 
por 
uma 
onda 
de 
profunda 
amizade 
ou 
at 
mesmo 
de 
afeio 
por 
elas. 
Nem 
bem 
havia 
falado 
em 
pensamento 
quando 
as 
formas 
escuras 
se 
afastaram 
apressadas, 
como 
grandes 
porquinhos-da-
ndia, 
deixando-me 
sozinho 
na 
semi-escurido. 


 
Voc 
projetou 
sentimento 
demais 
e 
assustou-os 
 
disse 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
Sentir 
 
muito 
difcil 
para 
eles, 
ou 
para 
mim. 
 
O 
emissrio 
chegou 
dar 
um 
riso 
tmido. 
A 
sesso 
de 
sonhar 
terminou 
ali. 
Ao 
acordar, 
minha 
primeira 
reao 
foi 
fazer 
a 
mala 
para 
ir 
ao 
Mxico 
ver 
Dom 
Juan. 
Entretanto, 
um 
acontecimento 
inesperado 
em 
minha 
vida 
pessoal 
tornou 
impossvel 
que 
eu 
viajasse, 
a 
despeito 
das 
preparaes 
frenticas. 
A 
ansiedade 
resultante 
desse 
revs 
interrompeu 
totalmente 
minhas 
prticas 
do 
sonhar. 
No 
envolvi 
minha 
ateno 
consciente 
nessa 
parada; 
sem 
querer 
eu 
pusera 
tanta 
nfase 
nesse 
sonho 
especfico 
a 
ponto 
de 
simplesmente 
saber 
que, 
se 
no 
pudesse 
encontrar 
Dom 
Juan, 
no 
havia 
sentido 
em 
continuar 
a 
sonhar. 


Depois 
de 
uma 
interrupo 
que 
durou 
mais 
de 
meio 
ano, 
fiquei 
cada 
vez 
mais 
desorientado 
pelo 
que 
ocorrera. 
No 
tinha 
idia 
de 
que 
meus 
sentimentos, 
sozinhos, 
interromperiam 
a 
prtica 
do 
sonhar. 
Perguntei-me 
ento 
se 
o 
desejo 
de 
renov-la 
seria 
suficiente 
para 
recomear. 
Era! 
Assim 
que 
reformulei 
o 
pensamento 
de 
voltar 
a 
sonhar, 
meu 
treinamento 
continuou 
como 
se 
no 
tivesse 
sido 
interrompido. 
O 
batedor 
me 
pegou 
onde 
havamos 
parado 
e 
levou-me 
diretamente 
 
mesma 
viso 
que 
eu 
tivera 
na 
ltima 
sesso. 


 
Este 
 
o 
mundo 
das 
sombras 
 
disse 
a 
voz 
do 
emissrio, 
assim 
que 
cheguei. 
 
Mas, 
apesar 
de 
sermos 
sombras, 
espalhamos 
luz. 
No 
somos 
apenas 
mveis, 
mas 
somos 
a 
luz 
nos 
tneis. 
Somos 
outro 
tipo 
de 
ser 
inorgnico 
que 
existe 
aqui. 
Existem 
trs 
tipos: 
um 
 
como 
um 
tnel 
imvel, 
o 
outro 
como 
uma 
sombra 
mvel. 
Ns 
somos 
as 
sombras 
mveis. 
Os 
tneis 
nos 
do 
sua 
energia, 
e 
ns 
cumprimos 
as 
ordens 
deles. 
#
O 
emissrio 
parou 
de 
falar. 
Senti 
que 
estava 
me 
instigando 
a 
perguntar 
sobre 
o 
terceiro 
tipo 
de 
ser 
inorgnico. 
Tambm 
senti 
que, 
se 
no 
perguntasse, 
o 
emissrio 
no 
diria. 


 
Qual 
 
o 
terceiro 
tipo 
de 
ser 
inorgnico? 
 
perguntei. 
O 
emissrio 
tossiu 
e 
deu 
um 
risinho. 
Para 
mim 
ele 
pareceu 
aliviado 
com 
a 
pergunta. 


 
Ah, 
esse 
 
o 
tipo 
mais 
misterioso. 
O 
terceiro 
tipo 
s 
 
revelado 
aos 
nossos 
visitantes 
quando 
eles 
decidem 
ficar 
conosco. 
 
Por 
qu? 
 
Porque 
 
necessria 
uma 
grande 
quantidade 
de 
energia 
para 
v-los. 
E 
ns 
teramos 
de 
dar 
essa 
energia. 
Eu 
sabia 
que 
o 
emissrio 
estava 
dizendo 
a 
verdade. 
Tambm 
sabia 
que 
um 
perigo 
enorme 
espreitava; 
mesmo 
assim 
fui 
levado 
por 
uma 
curiosidade 
sem 
limites. 
Queria 
ver 
aquele 
terceiro 
tipo. 


O 
emissrio 
pareceu 
perceber 
meu 
sentimento. 


 
Gostaria 
de 
v-los? 
 
perguntou 
num 
tom 
casual. 
 
Sem 
dvida 
 
falei. 
 
Tudo 
que 
precisa 
 
dizer 
em 
voz 
alta 
que 
deseja 
ficar 
conosco 
 
o 
emissrio 
falou 
com 
uma 
entonao 
indiferente. 
 
Mas, 
se 
eu 
disser 
isso, 
terei 
de 
ficar, 
certo? 
 
Naturalmente 
 
o 
tom 
do 
emissrio 
era 
de 
uma 
convico 
definitiva. 
 
Tudo 
que 
voc 
diz 
em 
voz 
alta 
neste 
mundo 
 
para 
valer. 
No 
pude 
deixar 
de 
pensar 
que, 
se 
o 
emissrio 
quisesse 
me 
enganar 
para 
que 
eu 
ficasse, 
s 
teria 
de 
mentir. 
Eu 
no 
teria 
sabido 
a 
diferena. 


 
No 
posso 
mentir 
para 
voc 
porque 
a 
mentira 
no 
existe 
 
disse 
o 
emissrio 
intrometendo-se 
em 
meus 
pensamentos. 
 
S 
posso 
falar 
do 
que 
existe. 
Em 
meu 
mundo 
s 
existe 
o 
intento; 
uma 
mentira 
no 
tem 
intento 
por 
trs, 
portanto 
no 
existe. 


Quis 
argumentar 
que 
existe 
intento 
mesmo 
por 
trs 
das 
mentiras. 
Antes 
de 
poder 
verbalizar 
meu 
argumento 
o 
emissrio 
disse 
que 
por 
trs 
das 
mentiras 
h 
inteno, 
mas 
que 
a 
inteno 
no 


#
 
o 
intento. 


No 
pude 
manter 
a 
ateno 
sonhadora 
concentrada 
no 
argumento 
que 
o 
emissrio 
colocava. 
Ela 
deslocou-se 
para 
os 
seres 
de 
sombra. 
De 
sbito 
percebi 
que 
eles 
pareciam 
um 
rebanho 
de 
estranhos 
animais 
de 
aparncia 
infantil. 
A 
voz 
do 
emissrio 
me 
avisou 
para 
conter 
os 
sentimentos, 
j 
que 
jorros 
sbitos 
de 
sentimento 
tinham 
a 
capacidade 
de 
faz-los 
se 
dispersar, 
como 
uma 
revoada 
de 
pssaros. 


 
O 
que 
voc 
deseja 
que 
eu 
faa? 
 
perguntei. 
 
Venha 
para 
perto 
de 
ns 
e 
tente 
puxar-nos 
ou 
empurrar-nos 
 
instou 
a 
voz 
do 
emissrio. 
 
Quanto 
mais 
depressa 
aprender 
a 
fazer 
isso, 
mais 
depressa 
voc 
poder 
mover 
coisas 
em 
seu 
mundo 
apenas 
olhando 
para 
elas. 
Minha 
mente 
de 
mercador 
ficou 
frentica 
de 
expectativa. 
Instantaneamente 
eu 
estava 
entre 
eles, 
tentando 
em 
desespero 
pux-
los 
ou 
empurr-los. 
Depois 
de 
um 
tempo 
exauri 
por 
completo 
minha 
energia. 
Tive 
a 
impresso 
de 
que 
tentara 
fazer 
algo 
equivalente 
a 
levantar 
uma 
casa 
com 
a 
fora 
dos 
dentes. 


Outra 
impresso 
foi 
de 
que 
quanto 
mais 
me 
esforava, 
maior 
o 
nmero 
de 
sombras. 
Era 
como 
se 
estivessem 
vindo 
de 
todo 
canto 
para 
me 
olhar, 
ou 
para 
se 
alimentar 
de 
mim. 
No 
momento 
em 
que 
tive 
essa 
idia 
as 
sombras 
debandaram 
outra 
vez. 


 
No 
estamos 
nos 
alimentando 
de 
voc 
 
disse 
o 
emissrio. 
 
Ns 
viemos 
sentir 
sua 
energia; 
como 
voc 
faz 
com 
a 
luz 
do 
sol, 
num 
dia 
frio. 
O 
emissrio 
insistiu 
para 
que 
eu 
me 
abrisse 
com 
relao 
a 
eles 
cancelando 
os 
pensamentos 
de 
suspeita. 
Enquanto 
ouvia, 
percebi 
que 
estava 
escutando, 
sentindo 
e 
pensando 
exatamente 
como 
acontecia 
no 
mundo 
cotidiano. 
Lentamente 
girei 
para 
olhar 
ao 
redor. 
Usando 
como 
referncia 
a 
clareza 
de 
minha 
percepo, 
conclu 
que 
me 
encontrava 
num 
mundo 
real. 


A 
voz 
do 
emissrio 
soou 
em 
meus 
ouvidos. 
Disse 
que, 
para 
mim, 
a 
nica 
diferena 
entre 
perceber 
meu 
mundo 
e 
o 
deles 
era 
que 


#
perceber 
o 
mundo 
deles 
comeava 
e 
terminava 
num 
piscar 
de 
olhos; 
perceber 
o 
meu, 
no, 
porque 
minha 
percepo 
estava 
fixa 
em 
meu 
mundo 
juntamente 
com 
a 
percepo 
de 
um 
nmero 
imenso 
de 
seres 
como 
eu, 
que 
com 
o 
seu 
intento 
mantinham 
o 
meu 
mundo 
no 
lugar. 
O 
emissrio 
acrescentou 
que 
para 
os 
seres 
inorgnicos 
a 
percepo 
de 
meu 
mundo 
comeava 
e 
terminava 
do 
mesmo 
modo: 
num 
piscar 
de 
olhos, 
mas 
perceber 
o 
mundo 
deles, 
no, 
porque 
havia 
um 
nmero 
imenso 
deles 
mantendo-o 
no 
lugar 
com 
o 
seu 
intento. 


Naquele 
instante 
a 
cena 
comeou 
a 
se 
dissolver. 
Eu 
era 
como 
um 
mergulhador; 
e 
acordar 
daquele 
mundo 
era 
como 
nadar 
at 
a 
superfcie. 


Na 
sesso 
seguinte 
o 
emissrio 
comeou 
seu 
dilogo 
reafirmando 
que 
existia 
um 
relacionamento 
totalmente 
coordenado 
e 
coercitivo 
entre 
as 
sombras 
mveis 
e 
os 
tneis 
estacionrios. 
Terminou 
dizendo: 


 
No 
podemos 
existir 
uns 
sem 
os 
outros. 
 
Compreendo 
o 
que 
quer 
dizer 
 
falei. 
Houve 
um 
toque 
de 
escrnio 
na 
voz 
do 
emissrio 
quando 
ele 
retorquiu 
que 
eu 
no 
poderia 
compreender 
o 
que 
era 
ser 
relacionado 
daquele 
jeito, 
que 
era 
infinitamente 
mais 
do 
que 
ser 
dependente. 
Minha 
inteno 
era 
pedir 
ao 
emissrio 
que 
explicasse 
o 
que 
queria 
dizer 
com 
isso, 
mas 
no 
instante 
seguinte 
eu 
estava 
dentro 
do 
que 
s 
posso 
descrever 
como 
o 
prprio 
tecido 
de 
um 
tnel. 
Vi 
algumas 
protuberncias 
grotescamente 
misturadas, 
parecendo 
glndulas, 
que 
emitiam 
uma 
luz 
opaca. 
Passou 
pela 
minha 
mente 
o 
pensamento 
de 
que 
aquelas 
eram 
as 
mesmas 
protuberncias 
que 
me 
haviam 
dado 
a 
impresso 
de 
uma 
escrita 
braile. 
Considerando 
que 
eram 
bolhas 
de 
energia 
medindo 
entre 
noventa 
centmetros 
e 
um 
metro 
e 
vinte 
de 
dimetro, 
comecei 
a 
imaginar 
o 
tamanho 
real 
daqueles 
tneis. 


 
Aqui, 
o 
tamanho 
no 
 
como 
no 
seu 
mundo 
 
disse 
o 
emissrio. 
 
A 
energia 
deste 
mundo 
 
de 
um 
tipo 
diferente; 
suas 
caractersticas 
no 
coincidem 
com 
as 
caractersticas 
da 
energia 
de 
seu 
mundo. 
Mesmo 
assim 
ele 
 
to 
real 
quanto 
o 
seu. 
#
O 
emissrio 
prosseguiu 
falando 
que 
me 
dissera 
tudo 
sobre 
os 
seres 
de 
sombra 
quando 
descreveu 
e 
explicou 
as 
protuberncias 
nas 
paredes 
dos 
tneis. 
Respondi 
que 
eu 
ouvira 
as 
explicaes, 
mas 
que 
no 
prestara 
ateno 
porque 
acreditava 
que 
no 
tivessem 
relao 
direta 
com 
o 
sonhar. 


 
Tudo 
nesta 
regio 
relaciona-se 
diretamente 
com 
o 
sonhar 
 
afirmou 
o 
emissrio. 


Quis 
pensar 
sobre 
o 
motivo 
de 
meu 
julgamento 
errneo, 
mas 
minha 
mente 
ficou 
vazia. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
estava 
desvanecendo. 
Eu 
tinha 
dificuldade 
em 
concentr-la 
no 
mundo 
ao 
redor. 
Debati-me 
para 
acordar. 
O 
emissrio 
comeou 
a 
falar 
de 
novo 
e 
o 
som 
de 
sua 
voz 
me 
deu 
um 
empurro. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
reanimou-se 
consideravelmente. 


 
O 
sonhar 
 
o 
veculo 
que 
traz 
os 
sonhadores 
at 
este 
mundo 
 
disse 
o 
emissrio. 
 
E 
tudo 
que 
os 
feiticeiros 
sabem 
sobre 
o 
sonhar 
foi 
ensinado 
por 
ns. 
Nosso 
mundo 
 
conectado 
ao 
seu 
por 
uma 
porta 
chamada 
de 
sonho. 
Ns 
sabemos 
como 
atravessar 
essa 
porta, 
mas 
os 
homens 
no. 
Eles 
precisam 
aprender. 
A 
voz 
do 
emissrio 
continuou 
explicando 
o 
que 
j 
me 
explicara 
antes. 


 
As 
protuberncias 
nas 
paredes 
dos 
tneis 
so 
seres 
de 
sombra. 
Eu 
sou 
um 
deles. 
Ns 
nos 
movemos 
dentro 
dos 
tneis, 
em 
suas 
paredes, 
recarregando-nos 
com 
a 
energia 
dos 
tneis, 
que 
 
nossa 
energia. 
Um 
pensamento 
me 
cruzou 
a 
mente: 
eu 
era 
de 
fato 
incapaz 
de 
conceber 
um 
relacionamento 
simbitico 
como 
o 
que 
estava 
testemunhando. 


 
E 
se 
voc 
ficar 
conosco, 
certamente 
aprender 
a 
sentir 
o 
que 
 
estar 
conectado 
como 
estamos 
 
disse 
o 
emissrio. 
O 
emissrio 
parecia 
estar 
esperando 
que 
eu 
respondesse. 
Eu 
tinha 
a 
sensao 
de 
que 
ele 
realmente 
queria 
era 
que 
eu 
decidisse 
ficar. 


 
Quantos 
seres 
de 
sombra 
existem 
em 
cada 
tnel? 
 


#
perguntei 
para 
mudar 
o 
clima, 
e 
imediatamente 
me 
arrependi, 
porque 
o 
emissrio 
comeou 
a 
fazer 
um 
relato 
detalhado 
dos 
nmeros 
e 
das 
funes 
dos 
seres 
de 
sombra 
em 
cada 
tnel. 
Disse 
que 
cada 
tnel 
tinha 
um 
nmero 
especfico 
de 
entidades 
dependentes, 
que 
realizavam 
funes 
especficas 
que 
tinham 
a 
ver 
com 
as 
necessidades 
e 
expectativas 
dos 
tneis 
que 
as 
sustentavam. 


No 
queria 
que 
o 
emissrio 
entrasse 
em 
mais 
detalhes. 
Pensei 
que 
quanto 
menos 
eu 
soubesse 
sobre 
os 
tneis 
e 
os 
seres 
de 
sombra, 
melhor 
para 
mim. 
No 
instante 
em 
que 
formulei 
o 
pensamento 
o 
emissrio 
parou, 
e 
meu 
corpo 
de 
energia 
sacudiu-se 
como 
se 
estivesse 
preso 
a 
uma 
corda. 
No 
momento 
seguinte 
eu 
estava 
totalmente 
desperto 
em 
minha 
cama. 


Da 
em 
diante 
no 
tive 
mais 
medo 
de 
que 
meus 
exerccios 
pudessem 
ser 
interrompidos. 
Uma 
outra 
idia 
comeou 
a 
me 
guiar: 
a 
idia 
de 
que 
eu 
descobrira 
uma 
excitao 
sem 
paralelos. 
Mal 
podia 
esperar 
cada 
dia 
at 
a 
hora 
de 
sonhar 
e 
fazer 
com 
que 
o 
batedor 
me 
levasse 
ao 
mundo 
das 
sombras. 
A 
atrao 
a 
mais 
era 
que 
minhas 
vises 
do 
mundo 
das 
sombras 
ficavam 
cada 
vez 
mais 
vivas. 
Julgadas 
a 
partir 
dos 
padres 
subjetivos 
dos 
pensamentos 
ordenados, 
das 
sensaes 
visuais 
e 
auditivas 
ordenadas, 
e 
das 
respostas 
ordenadas 
de 
minha 
parte, 
minhas 
experincias 
 
enquanto 
duravam 
 
eram 
to 
reais 
quanto 
qualquer 
outra 
situao 
em 
nosso 
mundo 
cotidiano. 
Eu 
nunca 
tivera 
experincias 
perceptivas 
em 
que 
a 
nica 
diferena 
entre 
minhas 
vises 
e 
meu 
mundo 
cotidiano 
fosse 
a 
velocidade 
com 
que 
minhas 
vises 
terminavam. 
Num 
instante 
eu 
estava 
num 
mundo 
estranho 
e 
real, 
e 
no 
instante 
seguinte 
estava 
em 
minha 
cama. 


Fiquei 
louco 
pelos 
comentrios 
e 
pelas 
explicaes 
de 
Dom 
Juan, 
mas 
continuava 
preso 
em 
Los 
Angeles. 
Quanto 
mais 
consi-
derava 
minha 
situao, 
maior 
minha 
ansiedade; 
comecei 
at 
mesmo 
a 
sentir 
que 
alguma 
coisa 
no 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos 
estava 
sendo 
preparada 
com 
tremenda 
velocidade. 


Enquanto 
minha 
ansiedade 
crescia, 
meu 
corpo 
entrava 
num 
estado 
de 
medo 
profundo, 
apesar 
da 
mente 
continuar 
em 
xtase 
na 


#
contemplao 
do 
mundo 
das 
sombras. 
Para 
piorar 
as 
coisas, 
a 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonhar 
passou 
para 
minha 
conscincia 
cotidiana. 
Um 
dia, 
enquanto 
assistia 
a 
uma 
aula 
na 
universidade, 
ouvi 
a 
voz 
dizer 
repetidamente 
que 
qualquer 
tentativa 
de 
minha 
parte 
para 
interromper 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
seria 
deletria 
para 
meus 
objetivos 
totais. 
Argumentou 
que 
os 
guerreiros 
no 
se 
intimidam 
com 
desafios, 
e 
que 
eu 
no 
tinha 
um 
motivo 
vlido 
para 
interromper 
os 
exerccios. 
Concordei 
com 
o 
emissrio. 
Eu 
no 
tinha 
inteno 
de 
parar 
nada, 
e 
a 
voz 
estava 
meramente 
reafirmando 
o 
que 
eu 
sentia. 


Mas 
no 
somente 
o 
emissrio 
mudou, 
como 
tambm 
um 
novo 
batedor 
entrou 
em 
cena. 
Uma 
ocasio, 
antes 
de 
eu 
comear 
a 
examinar 
os 
itens 
de 
meu 
sonho, 
um 
batedor 
literalmente 
saltou 
em 
minha 
frente 
e 
agressivamente 
capturou 
minha 
ateno 
sonhadora. 
A 
caracterstica 
notvel 
desse 
batedor 
era 
que 
ele 
no 
precisava 
passar 
por 
qualquer 
metamorfose 
energtica; 
era 
desde 
o 
incio 
uma 
bolha 
de 
energia. 
Num 
piscar 
de 
olhos 
o 
batedor 
me 
transportou, 
sem 
que 
eu 
precisasse 
verbalizar 
o 
intento 
de 
ir 
com 
ele, 
para 
outra 
parte 
do 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos: 
o 
mundo 
dos 
tigres 
de 
dente 
de 
sabre. 


Em 
outros 
trabalhos 
j 
descrevi 
alguns 
vislumbres 
daquelas 
vises. 
Digo 
vislumbres 
porque 
na 
poca 
eu 
no 
tinha 
energia 
suficiente 
para 
tornar 
esses 
mundos 
compreensveis 
 
minha 
mente 
linear. 


Minhas 
vises 
noturnas 
dos 
tigres 
de 
dente 
de 
sabre 
ocorreram 
regularmente 
por 
um 
longo 
perodo, 
at 
uma 
noite 
em 
que 
o 
mesmo 
batedor 
agressivo 
que 
me 
levara 
pela 
primeira 
vez 
quela 
regio 
reapareceu 
de 
sbito. 
Sem 
esperar 
meu 
consentimento 
levou-me 
para 
os 
tneis. 


Ouvi 
a 
voz 
do 
emissrio. 
Imediatamente 
ele 
entrou 
no 
mais 
longo 
e 
pungente 
papo 
de 
vendedor 
que 
eu 
j 
ouvira 
at 
ento. 
Falou 
das 
vantagens 
extraordinrias 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Falou 
de 
adquirir 
conhecimentos 
que 
desconcertariam 
por 
completo 
a 
mente, 
e 
de 
adquiri-los 
com 
o 
simples 
ato 
de 
ficar 
naqueles 
tneis 


#
maravilhosos. 
Falou 
de 
uma 
mobilidade 
incrvel, 
de 
um 
tempo 
infinito 
para 
descobrir 
coisas 
e, 
acima 
de 
tudo, 
falou 
de 
ser 
mimado 
por 
serviais 
csmicos 
que 
atenderiam 
aos 
meus 
menores 
desejos. 


 
Seres 
conscientes, 
dos 
cantos 
mais 
incrveis 
do 
cosmos, 
ficam 
conosco 
 
disse 
o 
emissrio 
terminando 
o 
discurso. 
 
E 
eles 
adoram 
ficar 
conosco. 
Na 
verdade, 
ningum 
quer 
ir 
embora. 
O 
pensamento 
que 
me 
atravessou 
a 
mente 
naquele 
instante 
foi 
de 
que 
a 
servido 
era 
definitivamente 
antitica 
para 
mim. 
Eu 
nunca 
ficara 
 
vontade 
com 
serviais 
e 
com 
o 
fato 
de 
ser 
servido. 


O 
batedor 
tomou 
a 
dianteira 
e 
me 
fez 
deslizar 
atravs 
de 
muitos 
tneis. 
Parou 
num 
que 
parecia 
maior 
do 
que 
os 
outros. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
cravou-se 
no 
tamanho 
e 
na 
configurao 
daquele 
tnel; 
e 
ficaria 
grudada 
ali, 
se 
eu 
no 
me 
obrigasse 
a 
girar. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
concentrou-se 
numa 
bolha 
de 
energia 
um 
pouco 
maior 
do 
que 
as 
entidades 
de 
sombra. 
Era 
azul, 
como 
o 
azul 
no 
centro 
de 
uma 
chama 
de 
vela. 
Eu 
soube 
que 
aquela 
configurao 
de 
energia 
no 
era 
uma 
entidade 
de 
sombra, 
e 
que 
no 
pertencia 
quele 
lugar. 


Absorvi-me 
em 
senti-la. 
O 
batedor 
fez 
um 
sinal 
para 
que 
eu 
fosse 
embora, 
mas 
alguma 
coisa 
me 
deixava 
impermevel 
a 
suas 
sugestes. 
Fiquei, 
inquieto, 
onde 
estava. 
Mas 
os 
sinais 
do 
batedor 
romperam 
minha 
concentrao 
e 
perdi 
de 
vista 
a 
forma 
azul. 


De 
sbito 
uma 
fora 
considervel 
me 
fez 
girar, 
colocando-me 
direto 
na 
frente 
da 
forma 
azul. 
Enquanto 
eu 
olhava, 
ela 
transformou-
se 
na 
figura 
de 
uma 
pessoa; 
muito 
pequena, 
esguia, 
delicada, 
quase 
transparente. 
Tentei 
em 
desespero 
determinar 
se 
era 
homem 
ou 
mulher, 
mas 
no 
pude, 
por 
mais 
que 
tentasse. 


Minhas 
tentativas 
de 
perguntar 
ao 
emissrio 
fracassaram. 
Ele 
voou 
para 
longe 
abruptamente, 
deixando-me 
suspenso 
naquele 
tnel, 
encarando 
uma 
pessoa 
desconhecida. 
Tentei 
falar 
com 
aquela 
pessoa, 
do 
jeito 
que 
falava 
com 
o 
emissrio. 
No 
tive 
resposta. 
Senti 
uma 
onda 
de 
frustrao 
por 
no 
poder 
romper 
a 
barreira 
que 
nos 
separava. 
Ento 
fui 
tomado 
pelo 
medo 
de 
ficar 
sozinho 
com 
algum 


#
que 
poderia 
ser 
um 
inimigo. 


Tive 
uma 
variedade 
de 
reaes 
disparadas 
pela 
presena 
daquele 
estranho. 
Cheguei 
a 
sentir 
exaltao 
porque 
sabia 
que 
o 
batedor 
finalmente 
me 
mostrara 
outro 
ser 
humano 
preso 
naquele 
mundo. 
S 
desesperei 
com 
a 
possibilidade 
de 
no 
podermos 
nos 
comunicar, 
talvez 
porque 
o 
estranho 
fosse 
um 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade 
e 
pertencesse 
a 
um 
tempo 
diferente 
do 
meu. 


Quanto 
maior 
minha 
exaltao 
e 
minha 
curiosidade, 
mais 
pesado 
eu 
me 
tornava, 
at 
um 
momento 
em 
que 
fiquei 
to 
macio 
que 
voltei 
ao 
corpo, 
e 
ao 
mundo. 
Vi-me 
em 
Los 
Angeles, 
num 
parque 
perto 
da 
Universidade 
da 
Califrnia. 
Estava 
de 
p 
no 
gramado, 
no 
meio 
de 
um 
grupo 
de 
pessoas 
jogando 
golfe. 


A 
pessoa 
 
minha 
frente 
tambm 
se 
solidificara 
na 
mesma 
proporo. 
Olhamos 
um 
para 
o 
outro 
por 
um 
instante 
fugaz. 
Era 
uma 
menina, 
talvez 
com 
seis 
ou 
sete 
anos. 
Achei 
que 
a 
conhecia. 
Ao 
v-la, 
meu 
entusiasmo 
e 
minha 
curiosidade 
cresceram 
tanto 
que 
dispararam 
o 
efeito 
inverso. 
Perdi 
massa 
com 
tanta 
velocidade 
que 
em 
mais 
um 
instante 
era 
de 
novo 
uma 
bolha 
de 
energia 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
O 
batedor 
voltou 
e 
rapidamente 
me 
tirou 
de 
l. 


Acordei 
com 
um 
choque 
de 
medo. 
No 
processo 
de 
emergir 
no 
mundo 
cotidiano 
alguma 
coisa 
deixara 
uma 
mensagem 
escapar. 
Minha 
mente 
entrou 
num 
frenesi 
tentando 
juntar 
o 
que 
sabia 
ou 
o 
que 
pensava 
saber. 
Passei 
mais 
de 
quarenta 
e 
oito 
horas 
contnuas 
tentando 
captar 
um 
sentimento 
ou 
um 
conhecimento 
escondido 
que 
ficara 
grudado 
em 
mim. 
O 
nico 
sucesso 
que 
tive 
foi 
o 
de 
sentir 
uma 
fora, 
que 
imaginei 
ser 
externa 
 
minha 
mente 
ou 
ao 
meu 
corpo, 
que 
me 
dizia 
para 
no 
confiar 
mais 
no 
sonhar. 


Depois 
de 
alguns 
dias 
uma 
certeza 
escura 
e 
misteriosa 
comeou 
a 
me 
dominar; 
uma 
certeza 
que 
cresceu 
pouco 
a 
pouco 
at 
eu 
no 
ter 
qualquer 
dvida 
de 
sua 
autenticidade: 
estava 
certo 
de 
que 
a 
bolha 
azul 
de 
energia 
era 
um 
prisioneiro 
no 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos. 


#
Precisava 
mais 
desesperadamente 
do 
que 
nunca 
dos 
conselhos 
de 
Dom 
Juan. 
Sabia 
que 
estava 
jogando 
pela 
janela 
anos 
de 
trabalho, 
mas 
no 
pude 
evitar; 
larguei 
tudo 
que 
estava 
fazendo 
e 
corri 
para 
o 
Mxico. 


 
O 
que 
voc 
realmente 
quer? 
 
Dom 
Juan 
perguntou 
para 
conter 
minha 
algaravia 
histrica. 
No 
pude 
explicar, 
porque 
eu 
mesmo 
no 
sabia. 


 
Seu 
problema 
deve 
ser 
muito 
srio, 
para 
faz-lo 
correr 
desse 
modo 
 
Dom 
Juan 
disse 
com 
expresso 
pensativa. 
 
, 
a 
despeito 
do 
fato 
de 
eu 
no 
conseguir 
imaginar 
qual 
seja 
realmente 
o 
meu 
problema. 
Ele 
pediu 
que 
eu 
descrevesse 
minhas 
prticas 
de 
sonhar 
e 
todos 
os 
detalhes 
pertinentes. 
Contei 
sobre 
a 
viso 
da 
garotinha, 
e 
como 
ela 
me 
afetara 
ao 
nvel 
emocional. 
Ele 
instantaneamente 
me 
aconselhou 
a 
ignorar 
o 
evento 
e 
v-lo 
como 
uma 
tentativa 
espalhafatosa, 
por 
parte 
dos 
seres 
inorgnicos, 
de 
servir 
de 
instrumento 
s 
minhas 
fantasias. 
Observou 
que, 
se 
for 
superenfatizado, 
o 
sonhar 
torna-se 
o 
que 
era 
para 
os 
feiticeiros 
antigos: 
uma 
fonte 
de 
auto-entrega 
inexaurvel. 


Por 
algum 
motivo 
inexplicvel 
eu 
no 
estava 
disposto 
a 
falar 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
a 
regio 
das 
entidades 
de 
sombra. 
Somente 
quando 
ele 
descartou 
minha 
viso 
da 
garotinha 
me 
senti 
obrigado 
a 
descrever 
as 
visitas 
quele 
mundo. 
Ele 
ficou 
em 
silncio 
por 
longo 
tempo, 
como 
se 
estivesse 
acabrunhado. 


Quando 
finalmente 
falou, 
ele 
disse: 


 
Voc 
est 
mais 
sozinho 
do 
que 
eu 
pensava, 
porque 
no 
posso 
absolutamente 
discutir 
suas 
prticas 
de 
sonhar. 
Voc 
est 
na 
posio 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
E 
s 
posso 
repetir 
que 
voc 
deve 
ter 
todo 
o 
cuidado 
possvel. 
 
Por 
que 
diz 
que 
estou 
na 
posio 
dos 
feiticeiros 
antigos? 
 
J 
disse 
e 
repeti 
que 
seu 
jeito 
 
perigosamente 
parecido 
com 
o 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Eles 
eram 
seres 
muito 
capazes; 
sua 
falha 
foi 
entrar 
no 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos 
como 
um 
peixe 
na 
gua. 
Voc 
#
est 
no 
mesmo 
barco. 
Sabe 
coisas 
sobre 
ele 
que 
nenhum 
de 
ns 
sequer 
concebe. 
Por 
exemplo, 
eu 
nunca 
soube 
a 
respeito 
do 
mundo 
das 
sombras; 
nem 
o 
Nagual 
Julian 
ou 
o 
Nagual 
Elias, 
a 
despeito 
do 
fato 
dele 
ter 
passado 
um 
longo 
tempo 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Mas 
que 
diferena 
faz 
conhecer 
o 
mundo 
das 
sombras? 
 
Uma 
diferena 
enorme. 
Os 
sonhadores 
s 
so 
levados 
at 
l 
quando 
os 
seres 
inorgnicos 
tm 
certeza 
de 
que 
eles 
ficaro 
naquele 
mundo. 
Sabemos 
disso 
atravs 
das 
histrias 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
 
Posso 
assegurar, 
Dom 
Juan, 
que 
no 
tenho 
a 
menor 
inteno 
de 
ficar 
l. 
Voc 
fala 
como 
se 
eu 
estivesse 
em 
vias 
de 
ser 
atrado 
por 
promessas 
de 
serviais 
e 
de 
poder. 
No 
estou 
interessado 
em 
nenhuma 
das 
duas 
coisas; 
e 
isso 
 
tudo. 
 
No 
nvel 
atual 
a 
coisa 
no 
 
mais 
to 
simples. 
Voc 
passou 
do 
ponto 
em 
que 
podia 
simplesmente 
desistir. 
Alm 
do 
mais, 
teve 
o 
azar 
de 
ter 
sido 
escolhido 
por 
um 
ser 
inorgnico 
de 
gua. 
Lembra-se 
de 
como 
brigou 
com 
ele? 
E 
de 
como 
ele 
se 
sentiu? 
Na 
poca 
eu 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
aquosos 
so 
os 
mais 
inoportunos. 
So 
dependentes 
e 
possessivos; 
e 
depois 
de 
jogar 
os 
anzis 
eles 
no 
desistem. 
 
E 
o 
que 
isso 
significa 
em 
meu 
caso, 
Dom 
Juan? 
 
Significa 
um 
problema 
de 
fato. 
O 
ser 
inorgnico 
que 
est 
comandando 
o 
espetculo 
 
o 
mesmo 
que 
voc 
agarrou 
naquele 
dia 
fatal. 
Com 
o 
passar 
dos 
anos 
ele 
se 
familiarizou 
com 
voc. 
Ele 
o 
conhece 
intimamente. 
Observei 
com 
sinceridade 
que 
a 
simples 
idia 
de 
um 
ser 
inorgnico 
me 
conhecer 
intimamente 
me 
deixava 
nauseado. 


 
Quando 
os 
sonhadores 
percebem 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
tm 
atrativo 
 
disse 
ele 
 
geralmente 
 
tarde 
demais, 
porque 
nesse 
ponto 
os 
seres 
inorgnicos 
j 
os 
tm 
na 
palma 
da 
mo. 
Senti, 
no 
fundo, 
que 
ele 
estava 
falando 
de 
modo 
abstrato 
sobre 
perigos 
que 
poderiam 
existir 
em 
teoria, 
mas 
no 
na 
prtica. 
Secretamente 
estava 
convicto 
de 
que 
no 
havia 
qualquer 
tipo 
de 


#
perigo. 


 
No 
vou 
permitir 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
me 
seduzam, 
se 
 
isso 
que 
voc 
est 
pensando 
 
falei. 
 
Estou 
pensando 
que 
eles 
vo 
engan-lo. 
Como 
enganaram 
o 
Nagual 
Rosendo. 
Eles 
vo 
te 
agarrar, 
e 
voc 
nem 
vai 
ver 
a 
armadilha, 
no 
vai 
nem 
mesmo 
suspeitar 
de 
que 
ela 
existe. 
Eles 
trabalham 
direito. 
Chegaram 
at 
mesmo 
a 
inventar 
uma 
garotinha. 
 
Mas 
na 
minha 
mente 
no 
h 
qualquer 
dvida 
de 
que 
a 
garotinha 
existe 
 
insisti. 
 
No 
existe 
nenhuma 
garotinha 
 
ele 
respondeu 
rispidamente. 
 
Aquela 
bolha 
de 
luz 
azulada 
 
um 
batedor. 
Um 
explorador 
preso 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Eu 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
so 
como 
pescadores; 
eles 
atraem 
e 
agarram 
a 
conscincia. 
Dom 
Juan 
disse 
acreditar, 
sem 
qualquer 
dvida, 
que 
a 
bolha 
de 
energia 
azulada 
vinha 
de 
uma 
dimenso 
totalmente 
diferente 
da 
nossa; 
um 
batetor 
que 
se 
perdera 
e 
fora 
apanhado 
como 
uma 
mosca 
numa 
teia 
de 
aranha. 


No 
gostei 
da 
analogia. 
Ela 
me 
preocupou 
a 
ponto 
de 
provocar 
um 
desconforto 
fsico. 
Mencionei 
isso 
a 
Dom 
Juan, 
e 
ele 
disse 
que 
minha 
preocupao 
com 
o 
batedor 
prisioneiro 
estava 
deixando-o 
prximo 
ao 
desespero. 


 
Por 
que 
isso 
o 
incomoda? 
 
perguntei. 
 
Alguma 
coisa 
est 
sendo 
preparada 
naquele 
mundo 
amaldioado. 
E 
no 
consigo 
imaginar 
o 
que 
seja. 
Enquanto 
permaneci 
na 
companhia 
de 
Dom 
Juan 
e 
de 
seus 
companheiros 
no 
sonhei 
com 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Como 
sempre, 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
eram 
feitos 
concentrando 
a 
ateno 
sonhadora 
nos 
itens 
do 
sonho 
e 
mudando 
os 
sonhos. 
Para 
afastar 
minhas 
preocupaes, 
Dom 
Juan 
me 
fazia 
olhar 
para 
nuvens 
e 
montanhas 
distantes. 
O 
resultado 
era 
uma 
sensao 
imediata 
de 
ser 
levado 
para 
junto 
das 
nuvens, 
ou 
de 
estar 
nos 
picos 
distantes. 


 
Estou 
muito 
satisfeito, 
mas 
muito 
preocupado 
 
disse 
Dom 
#
Juan 
como 
um 
comentrio 
aos 
meus 
esforos. 
 
Voc 
est 
aprendendo 
maravilhas, 
e 
nem 
mesmo 
sabe 
disso. 
E 
no 
quero 
dizer 
que 
esteja 
aprendendo 
comigo. 


 
Est 
falando 
dos 
seres 
inorgnicos, 
certo? 
 
Sim, 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Recomendo 
que 
voc 
no 
olhe 
fixamente 
para 
nada. 
Olhar 
fixo 
era 
a 
tcnica 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Eles 
podiam 
chegar 
aos 
seus 
corpos 
energticos 
num 
piscar 
de 
olhos, 
simplesmente 
olhando 
fixo 
para 
os 
seus 
objetos 
preferidos. 
Uma 
tcnica 
muito 
impressionante, 
mas 
intil 
para 
os 
feiticeiros 
atuais. 
Ela 
no 
faz 
nada 
para 
aumentar 
nossa 
sobriedade 
ou 
nossa 
capacidade 
de 
nos 
libertarmos. 
Tudo 
o 
que 
faz 
 
nos 
prender 
 
concretude; 
um 
estado 
dos 
mais 
indesejveis. 
Dom 
Juan 
acrescentou 
que, 
a 
no 
ser 
que 
me 
mantivesse 
alerta, 
no 
momento 
em 
que 
fundisse 
a 
segunda 
ateno 
com 
a 
ateno 
de 
minha 
vida 
cotidiana 
eu 
seria 
um 
homem 
insuportvel. 
Segundo 
ele 
havia 
um 
hiato 
perigoso 
entre 
minha 
mobilidade 
na 
segunda 
ateno 
e 
minha 
insistncia 
na 
imobilidade 
em 
minha 
conscincia 
do 
mundo 
cotidiano. 
Observou 
que 
o 
hiato 
entre 
as 
duas 
coisas 
era 
to 
grande 
que 
em 
meu 
estado 
cotidiano 
eu 
era 
quase 
um 
idiota; 
e 
na 
segunda 
ateno 
era 
um 
luntico. 


Antes 
de 
voltar 
para 
casa 
tomei 
a 
liberdade 
de 
discutir 
minhas 
vises 
do 
mundo 
das 
sombras 
com 
Carol 
Tiggs, 
apesar 
de 
Dom 
Juan 
ter-me 
aconselhado 
a 
no 
discuti-las 
com 
ningum. 
Ela 
mostrou-se 
compreensiva 
e 
interessada 
demais, 
j 
que 
era 
meu 
oposto 
total. 
Dom 
Juan 
ficou 
definitivamente 
aborrecido 
comigo 
Por 
ter 
revelado 
a 
ela 
meus 
problemas. 
Senti-me 
pior 
do 
que 
nunca. 
A 
autopiedade 
tomou 
conta 
de 
mim 
e 
comecei 
a 
reclamar 
do 
fato 
de 
estar 
sempre 
fazendo 
a 
coisa 
errada. 


 
Voc 
ainda 
no 
fez 
nada 
 
Dom 
Juan 
falou 
rispidamente. 
 
Pelo 
menos 
disso 
eu 
sei. 


E 
como 
ele 
estava 
certo! 
Em 
minha 
prxima 
sesso 
de 
sonhar, 
em 
casa, 
o 
inferno 
despencou. 
Cheguei 
ao 
mundo 
das 
sombras, 
como 
fizera 
vezes 
incontveis; 
a 
diferena 
dessa 
vez 
foi 
a 
presena 
da 


#
forma 
energtica 
azul. 
Ela 
estava 
entre 
os 
outros 
seres 
de 
sombra. 
Senti 
que 
era 
possvel 
que 
a 
bolha 
de 
energia 
azul 
tivesse 
estado 
ali 
antes, 
e 
que 
eu 
no 
houvesse 
percebido. 
Assim 
que 
a 
localizei, 
minha 
ateno 
sonhadora 
foi 
inevitavelmente 
atrada 
por 
ela. 
Numa 
questo 
de 
segundos 
eu 
havia 
me 
aproximado. 
As 
outras 
sombras 
vieram 
at 
mim, 
como 
sempre, 
mas 
no 
lhes 
prestei 
nenhuma 
ateno. 


De 
sbito 
a 
forma 
azul 
e 
arredondada 
transformou-se 
na 
garotinha 
que 
eu 
vira 
antes. 
Ela 
inclinou 
o 
pescoo 
longo, 
fino 
e 
delicado 
para 
um 
lado 
e 
disse 
num 
sussurro 
quase 
inaudvel: 


 
Me 
ajude! 
No 
sei 
se 
ela 
falou 
aquilo 
ou 
se 
eu 
fantasiei. 
O 
resultado 
foi 
o 
mesmo: 
fiquei 
congelado, 
galvanizado 
por 
um 
sentimento 
de 
preocupao 
genuna. 
Experimentei 
um 
calafrio, 
mas 
no 
em 
minha 
massa 
energtica. 
Senti 
um 
calafrio 
em 
outra 
parte 
de 
mim. 
Essa 
foi 
a 
primeira 
vez 
em 
que 
tive 
total 
conscincia 
de 
estar 
completamente 
separado 
de 
minhas 
sensaes. 
Estava 
vivenciando 
o 
mundo 
das 
sombras, 
com 
todas 
as 
implicaes 
do 
que 
normalmente 
considero 
vivenciar: 
podia 
pensar, 
avaliar, 
tomar 
decises; 
tinha 
continuidade 
psicolgica. 
Em 
outras 
palavras, 
eu 
era 
eu 
mesmo. 
A 
nica 
parte 
de 
mim 
que 
estava 
faltando 
era 
meu 
Eu 
sensorial. 
No 
tinha 
sensaes 
corporais. 
Todos 
os 
dados 
vinham 
da 
viso 
e 
da 
audio. 
Minha 
racionalidade 
considerou 
ento 
um 
dilema 
estranho: 
a 
viso 
e 
a 
audio 
no 
eram 
faculdades 
fsicas, 
e 
sim 
qualidades 
das 
vises 
que 
eu 
estava 
tendo. 


 
Voc 
est 
realmente 
vendo 
e 
ouvindo 
 
disse 
a 
voz 
do 
emissrio, 
irrompendo 
em 
meus 
pensamentos. 
 
Esta 
 
a 
beleza 
daqui. 
Voc 
pode 
vivenciar 
tudo 
atravs 
da 
viso 
e 
da 
audio, 
sem 
precisar 
respirar. 
Pense 
nisso! 
Voc 
no 
precisa 
respirar! 
Pode 
ir 
a 
qualquer 
ponto 
do 
universo 
sem 
respirar. 
Uma 
onda 
de 
emoo 
tremendamente 
inquietante 
me 
atravessou, 
e 
outra 
vez 
ela 
no 
foi 
sentida 
l, 
no 
mundo 
das 
sombras. 
Senti-a 
em 
outro 
lugar. 
Fiquei 
enormemente 
agitado 
com 
a 
percepo 
bvia, 
ainda 
que 
oculta, 
de 
que 
havia 
uma 
conexo 
viva 


#
entre 
o 
Eu 
que 
estava 
vivenciando 
e 
uma 
fonte 
de 
energia; 
uma 
fonte 
de 
sensaes 
localizada 
em 
outro 
lugar. 
Ocorreu-me 
que 
esse 
outro 
lugar 
era 
meu 
corpo 
fsico, 
que 
estava 
dormindo 
em 
minha 
cama. 


No 
instante 
desse 
pensamento 
os 
seres 
de 
sombra 
se 
afastaram 
correndo, 
e 
a 
garotinha 
ficou 
s, 
em 
meu 
campo 
de 
viso. 
Olhei-a 
e 
me 
convenci 
de 
que 
a 
conhecia. 
Ela 
pareceu 
balanar, 
como 
se 
fosse 
ter 
um 
desmaio. 
Fui 
envolvido 
por 
uma 
gigantesca 
onda 
de 
afeio. 


Tentei 
falar, 
mas 
fui 
incapaz 
de 
emitir 
sons. 
Ficou 
claro 
que 
todos 
os 
meus 
dilogos 
com 
o 
emissrio 
haviam 
sido 
possibilitados 
e 
realizados 
atravs 
da 
energia 
do 
emissrio. 
Deixado 
por 
conta 
prpria, 
eu 
estava 
impotente. 
Tentei 
em 
seguida 
direcionar 
meus 
pensamentos 
para 
ela. 
Foi 
intil. 
Estvamos 
separados 
por 
uma 
membrana 
de 
energia 
que 
eu 
no 
conseguia 
romper. 


A 
garotinha 
pareceu 
compreender 
meu 
desespero 
e 
comunicou-
se 
comigo, 
diretamente 
em 
meus 
pensamentos. 
Disse, 
em 
essncia, 
o 
que 
Dom 
Juan 
j 
dissera: 
era 
um 
batedor 
preso 
nas 
teias 
daquele 
mundo. 
Em 
seguida 
acrescentou 
que 
adotara 
a 
forma 
de 
uma 
garotinha 
porque 
era 
uma 
forma 
familiar 
para 
mim 
e 
para 
ela, 
e 
que 
precisava 
de 
minha 
ajuda 
tanto 
quanto 
eu 
precisava 
da 
dela. 
Disse 
tudo 
isso 
num 
bloco 
de 
sentimento 
energtico 
que 
parecia 
formado 
por 
palavras 
que 
chegavam 
todas 
ao 
mesmo 
tempo. 
No 
tive 
qualquer 
dificuldade 
de 
compreend-la, 
apesar 
daquela 
ser 
a 
primeira 
vez 
que 
aquilo 
me 
acontecia. 


No 
sabia 
o 
que 
fazer. 
Tentei 
passar 
a 
ela 
minha 
sensao 
de 
incapacidade. 
Ela 
pareceu 
compreender 
de 
imediato. 
Silenciosamente 
apelou 
para 
mim 
com 
um 
olhar 
em 
chamas. 
Chegou 
at 
mesmo 
a 
sorrir, 
como 
se 
desejando 
que 
eu 
soubesse 
que 
deixava 
por 
minha 
conta 
a 
tarefa 
de 
libert-la 
de 
suas 
amarras. 
Quando 
respondi 
em 
pensamento 
que 
no 
possua 
qualquer 
habilidade, 
ela 
me 
deu 
a 
impresso 
de 
uma 
criana 
histrica 
presa 
nas 
garras 
do 
desespero. 


Tentei 
freneticamente 
falar 
com 
ela. 
A 
garotinha 
chorou, 
como 


#
choraria 
uma 
criana 
de 
sua 
idade, 
cheia 
de 
desespero 
e 
medo. 
No 
pude 
suportar. 
Tentei 
segur-la, 
mas 
sem 
qualquer 
resultado. 
Minha 
massa 
energtica 
atravessava-a. 
Minha 
idia 
era 
peg-la 
no 
colo 
e 
lev-la 
comigo. 


Tentei 
a 
mesma 
manobra 
repetidamente 
at 
me 
sentir 
exausto. 
Parei 
para 
avaliar 
o 
prximo 
passo. 
Estava 
com 
medo 
de 
que 
minha 
ateno 
sonhadora 
se 
desvanecesse 
e 
que 
eu 
pudesse 
perd-la 
de 
vista. 
Duvidei 
de 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
me 
trouxessem 
de 
novo 
para 
aquela 
parte 
especfica 
de 
seu 
mundo. 
Pareceu-me 
que 
aquela 
seria 
minha 
ltima 
visita: 
a 
visita 
que 
contava. 


Ento 
fiz 
uma 
coisa 
impensvel. 
Antes 
de 
minha 
ateno 
sonhadora 
se 
desvanecer, 
gritei 
alto 
e 
claro 
meu 
intento 
de 
fundir 
minha 
energia 
com 
a 
energia 
daquele 
batedor 
prisioneiro, 
e 
de 
libert-lo. 


#
7 


O 
BATEDOR 
AZUL 


E
E
u 
estava 
tendo 
um 
sonho 
completamente 
absurdo. 
Carol 
Tiggs 
estava 
ao 
meu 
lado. 
Falando 
comigo, 
apesar 
de 
eu 
no 
entender 
o 
que 
ela 
dizia. 
Dom 
Juan 
tambm 
estava 
no 
sonho, 
bem 
como 
todos 
os 
membros 
de 
seu 
grupo. 
Eles 
pareciam 
estar 
tentando 
me 
arrastar 
para 
fora 
de 
um 
mundo 
nebuloso 
e 
amarelado. 


Depois 
de 
um 
grande 
esforo, 
durante 
o 
qual 
perdia-os 
de 
vista 
e 
voltava 
a 
rev-los 
vrias 
vezes, 
eles 
puderam 
me 
desprender 
daquele 
lugar. 
Como 
eu 
no 
podia 
conceber 
o 
sentido 
de 
todo 
aquele 
empenho, 
imaginei 
enfim 
que 
estava 
tendo 
um 
sonho 
normal, 
incoerente. 


Minha 
surpresa 
foi 
estonteante 
quando 
acordei 
e 
me 
vi 
numa 
cama 
na 
casa 
de 
Dom 
Juan. 
Estava 
incapaz 
de 
me 
mover. 
No 
tinha 
nenhuma 
energia. 
No 
sabia 
o 
que 
pensar 
a 
respeito, 
apesar 
de 
sentir 
imediatamente 
a 
gravidade 
da 
situao. 
Tinha 
o 
sentimento 
vago 
de 
que 
perdera 
a 
energia 
por 
causa 
da 
fadiga 
resultante 
do 
sonhar. 


Mas 
os 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
pareciam 
extremamente 
afetados 
pelo 
que 
acontecia 
comigo. 
Ficavam 
entrando 
no 
quatro, 
um 
de 
cada 
vez. 
Permaneciam 
por 
um 
instante, 
em 
completo 
silncio, 
at 
que 
outra 
pessoa 
viesse. 
Parecia 
que 
estavam 
me 
vigiando 
em 
turnos. 
Eu 
estava 
cansado 
demais 
para 
pedir 
que 
explicassem 
seu 
comportamento. 


#
Durante 
os 
dias 
seguintes 
passei 
a 
me 
sentir 
melhor, 
e 
eles 
comearam 
a 
falar 
sobre 
o 
meu 
sonhar. 
A 
princpio 
eu 
no 
sabia 
o 
que 
eles 
queriam. 
Depois 
percebi, 
devido 
s 
perguntas, 
que 
estavam 
obcecados 
com 
os 
seres 
de 
sombra. 
Todos 
pareciam 
apavorados 
e 
diziam 
mais 
ou 
menos 
a 
mesma 
coisa. 
Insistiam 
em 
que 
nunca 
haviam 
estado 
no 
mundo 
das 
sombras. 
Alguns 
at 
mesmo 
afirmavam 
no 
saber 
de 
sua 
existncia. 
Suas 
declaraes 
e 
reaes 
aumentaram 
meu 
sentimento 
de 
espanto 
e 
medo. 


As 
perguntas 
que 
todos 
faziam 
eram: 
Quem 
o 
levou 
para 
aquele 
mundo? 
ou 
Como 
voc 
comeou 
a 
saber 
o 
modo 
de 
ir 
at 
l? 
Quando 
contei 
que 
os 
batedores 
me 
haviam 
mostrado 
aquele 
mundo, 
eles 
no 
puderam 
acreditar. 
Obviamente 
haviam 
suspeitado 
de 
que 
eu 
estivera 
l, 
mas 
como 
no 
podiam 
usar 
sua 
experincia 
pessoal 
para 
avaliar, 
eram 
incapazes 
de 
medir 
o 
que 
eu 
estava 
dizendo. 
Mas 
mesmo 
assim 
queriam 
saber 
tudo 
que 
eu 
pudesse 
contar 
sobre 
os 
seres 
de 
sombra 
e 
seu 
mundo. 
Atendi 
ao 
seu 
desejo. 
Todos 
eles, 
com 
a 
exceo 
de 
Dom 
Juan, 
sentavam-se 
 
minha 
cama, 
ligados 
em 
cada 
palavra 
que 
eu 
dizia. 
Entretanto, 
a 
cada 
vez 
que 
eu 
perguntava 
sobre 
minha 
situao, 
eles 
se 
afastavam 
apressados, 
exatamente 
como 
os 
seres 
de 
sombra. 


Outra 
reao 
perturbadora 
que 
nunca 
haviam 
mostrado 
antes 
era 
que 
evitavam 
freneticamente 
qualquer 
contato 
fsico 
comigo. 
Mantinham 
distncia, 
como 
se 
eu 
estivesse 
empesteado. 
Sua 
reao 
me 
preocupou 
tanto 
que 
me 
senti 
obrigado 
a 
perguntar 
a 
respeito. 
Eles 
negaram. 
Pareceram 
insultados 
e 
at 
mesmo 
chegaram 
a 
insistir 
em 
provar 
que 
eu 
estava 
errado. 
Ri 
cordialmente 
da 
situao 
tensa 
que 
se 
formou. 
Seus 
corpos 
ficavam 
rgidos 
a 
cada 
vez 
que 
tentavam 
me 
abraar. 


Florinda, 
a 
amiga 
mais 
ntima 
de 
Dom 
Juan, 
era 
o 
nico 
membro 
de 
seu 
grupo 
a 
me 
dar 
ateno 
fsica 
e 
a 
tentar 
explicar 
o 
que 
estava 
acontecendo. 
Disse 
que 
eu 
fora 
descarregado 
de 
energia 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
e 
em 
seguida 
recarregado, 
mas 
que 
minha 
nova 
carga 
energtica 
era 
um 
tanto 
perturbadora 
para 
a 
maioria 
deles. 


#
Florinda 
me 
punha 
na 
cama 
toda 
noite, 
como 
se 
eu 
fosse 
um 
invlido. 
At 
mesmo 
falava 
tatibitate 
comigo; 
uma 
coisa 
que 
todos 
os 
outros 
celebravam 
com 
gargalhadas. 
Mas, 
independente 
dela 
estar 
zombando 
ou 
no 
de 
mim, 
eu 
apreciava 
sua 
preocupao, 
que 
parecia 
real. 


J 
escrevi 
antes 
sobre 
Florinda, 
sobre 
quando 
a 
conheci. 
Era 
de 
longe 
a 
mulher 
mais 
linda 
que 
eu 
j 
encontrara. 
Uma 
vez 
eu 
lhe 
disse, 
a 
srio, 
que 
ela 
poderia 
ter 
sido 
manequim 
de 
revista 
de 
moda. 


 
De 
uma 
revista 
de 
mil 
novecentos 
e 
dez 
 
ela 
retrucou. 
Florinda, 
apesar 
de 
idosa, 
no 
era 
absolutamente 
velha. 
Era 
jovem 
e 
vibrante. 
Quando 
perguntei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
sua 
juventude 
incomum, 
ele 
respondeu 
que 
a 
feitiaria 
a 
mantinha 
num 
estado 
de 
vitalidade. 
A 
energia 
dos 
feiticeiros, 
observou 
ele, 
era 
vista 
pelos 
olhos 
como 
juventude 
e 
vigor. 


Depois 
de 
satisfazer 
sua 
curiosidade 
inicial 
sobre 
o 
mundo 
das 
sombras, 
os 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
no 
voltaram 
mais 
ao 
meu 
quarto, 
e 
sua 
conversa 
permaneceu 
apenas 
no 
nvel 
de 
perguntas 
casuais 
sobre 
minha 
sade. 
A 
cada 
vez 
que 
eu 
tentava 
me 
levantar, 
entretanto, 
havia 
sempre 
algum 
por 
perto 
que 
gentilmente 
me 
recolocava 
na 
cama. 
Eu 
no 
queria 
seus 
cuidados, 
mas 
parecia 
que 
precisava 
deles. 
Estava 
fraco, 
e 
aceitava. 
Mas 
o 
que 
realmente 
me 
incomodava 
era 
ningum 
explicar 
o 
que 
eu 
estava 
fazendo 
no 
Mxico, 
quando 
eu 
fora 
para 
a 
cama 
em 
Los 
Angeles. 
Eu 
perguntava 
repetidamente. 
E 
todos 
eles 
me 
davam 
a 
mesma 
resposta: 
Pergunte 
ao 
Nagual. 
Ele 
 
o 
nico 
que 
pode 
explicar. 


Finalmente 
Florinda 
quebrou 
o 
gelo. 


 
Voc 
foi 
atrado 
para 
uma 
armadilha; 
foi 
o 
que 
aconteceu. 
 
Onde 
 
que 
fui 
atrado 
para 
uma 
armadilha? 
 
No 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
claro. 
 
o 
mundo 
com 
o 
qual 
voc 
vem 
lidando 
h 
anos, 
no 
? 
 
Sem 
a 
menor 
dvida, 
Florinda. 
Mas 
voc 
pode 
dizer 
que 
tipo 
de 
armadilha 
foi? 
 
No. 
S 
posso 
dizer 
que 
voc 
perdeu 
toda 
a 
energia 
l. 
Mas 
lutou 
muito 
bem. 
#
 
Por 
que 
estou 
doente, 
Florinda? 
 
Voc 
no 
tem 
nenhuma 
doena. 
Est 
energeticamente 
ferido. 
Esteve 
em 
situao 
crtica, 
mas 
agora 
est 
apenas 
gravemente 
ferido. 
 
Como 
isso 
tudo 
aconteceu? 
 
Voc 
entrou 
em 
combate 
mortal 
com 
os 
seres 
inorgnicos, 
e 
foi 
derrotado. 
 
No 
me 
lembro 
de 
lutar 
com 
ningum, 
Florinda. 
 
 
irrelevante 
voc 
lembrar 
ou 
no. 
Voc 
lutou 
e 
foi 
derrotado. 
No 
tinha 
a 
menor 
chance 
contra 
aqueles 
manipuladores 
magistrais. 
 
Lutei 
contra 
os 
seres 
inorgnicos? 
 
Sim. 
Voc 
teve 
um 
combate 
mortal 
com 
eles. 
Realmente 
no 
sei 
como 
sobreviveu 
ao 
golpe 
mortal 
que 
eles 
lhe 
deram. 
Ela 
se 
recusou 
a 
contar 
mais 
qualquer 
coisa, 
e 
deu 
a 
entender 
que 
o 
Nagual 
viria 
me 
ver 
qualquer 
dia. 
No 
dia 
seguinte 
Dom 
Juan 
apareceu. 
Estava 
muito 
jovial 
e 
protetor. 
Anunciou 
em 
tom 
de 
brincadeira 
que 
estava 
me 
fazendo 
uma 
visita 
em 
sua 
especialidade 
de 
mdico 
de 
energia; 
me 
examinou 
olhando 
da 
cabea 
aos 
ps. 


 
Voc 
est 
quase 
curado 
 
concluiu. 
 
O 
que 
aconteceu 
comigo, 
Dom 
Juan? 
 
Voc 
caiu 
numa 
armadilha 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
haviam 
preparado. 
 
Como 
acabei 
chegando 
aqui? 
 
Este 
 
o 
grande 
mistrio, 
sem 
dvida 
 
ele 
disse 
e 
deu 
um 
sorriso 
jovial, 
obviamente 
tentando 
tornar 
leve 
um 
assunto 
srio. 
 
Os 
seres 
inorgnicos 
o 
seqestraram, 
com 
corpo 
e 
tudo. 
Primeiro 
levaram 
seu 
corpo 
energtico, 
quando 
voc 
seguiu 
um 
de 
seus 
batedores, 
e 
em 
seguida 
pegaram 
seu 
corpo 
fsico. 
Os 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
pareceram 
em 
estado 
de 
choque. 
Um 
deles 
perguntou 
se 
os 
seres 
inorgnicos 
poderiam 
raptar 
qualquer 
pessoa. 
Dom 
Juan 
respondeu 
que 
certamente 
podiam. 
Lembrou-lhes 
de 
que 
o 
Nagual 
Elias 
fora 
levado 
para 
aquele 


#
universo, 
e 
ele 
definitivamente 
no 
tivera 
o 
intento 
de 
ir 
at 
l. 


Todos 
assentiram. 
Dom 
Juan 
continuou 
falando 
com 
eles, 
referindo-se 
a 
mim 
na 
terceira 
pessoa. 
Disse 
que 
a 
conscincia 
combinada 
de 
um 
grupo 
de 
seres 
inorgnicos 
havia 
em 
primeiro 
lugar 
consumido 
meu 
corpo 
energtico 
forando-me 
a 
um 
jorro 
emocional: 
a 
vontade 
de 
libertar 
o 
batedor 
azul. 
Em 
seguida 
a 
conscincia 
combinada 
do 
mesmo 
grupo 
de 
seres 
inorgnicos 
havia 
puxado 
minha 
massa 
inerte 
para 
o 
seu 
mundo. 
Dom 
Juan 
acrescentou 
que, 
sem 
o 
corpo 
energtico, 
somos 
apenas 
um 
bocado 
de 
matria 
orgnica 
que 
pode 
ser 
facilmente 
manipulada 
pela 
conscincia. 


 
Os 
seres 
inorgnicos 
so 
colados 
entre 
si, 
como 
as 
clulas 
do 
corpo 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Quando 
renem 
suas 
conscincias, 
so 
imbatveis. 
Para 
eles 
no 
 
nada 
arrancar-nos 
de 
nossas 
amarras 
e 
fazer-nos 
mergulhar 
em 
seu 
mundo. 
Especialmente 
se 
nos 
tornamos 
visveis 
e 
disponveis, 
como 
ele 
fez. 
Os 
suspiros 
e 
os 
arquejos 
ecoaram 
nas 
paredes. 
Todos 
pareciam 
genuinamente 
apavorados 
e 
preocupados. 


Quis 
me 
queixar 
e 
recriminar 
Dom 
Juan 
por 
no 
me 
ter 
impedido, 
mas 
recordei 
como 
ele 
repetidamente 
tentara 
me 
alertar, 
me 
desviar, 
sem 
resultado. 
Dom 
Juan 
estava 
definitivamente 
consciente 
do 
que 
se 
passava 
em 
meu 
pensamento. 
Deu 
um 
sorriso 
que 
demonstrava 
isso. 


 
O 
motivo 
de 
voc 
pensar 
que 
est 
doente 
 
disse 
ele 
dirigindo-se 
a 
mim 
 
 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
descarregaram 
sua 
energia 
e 
lhe 
deram 
a 
deles. 
Isso 
deveria 
ser 
o 
bastante 
para 
matar 
qualquer 
um. 
Como 
o 
Nagual, 
voc 
tem 
energia 
extra, 
e 
sobreviveu 
por 
pouco. 
Mencionei 
a 
Dom 
Juan 
que 
lembrava 
pequenos 
trechos 
de 
um 
sonho 
bastante 
incoerente, 
no 
qual 
eu 
estava 
num 
mundo 
nebuloso 
e 
amarelo. 
Ele, 
Carol 
Tiggs 
e 
seus 
companheiros 
tentavam 
me 
arrancar 
de 
l. 


 
O 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
parece 
um 
mundo 
de 
nvoa 
amarela 
para 
o 
olho 
fsico 
 
disse 
ele. 
 
Quando 
voc 
pensou 
que 
#
estava 
tendo 
um 
sonho 
incoerente, 
estava 
na 
verdade 
olhando 
com 
os 
olhos 
fsicos, 
pela 
primeira 
vez, 
o 
universo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
E 
por 
mais 
estranho 
que 
possa 
parecer, 
tambm 
foi 
a 
primeira 
vez 
para 
ns. 
S 
sabamos 
da 
nvoa 
atravs 
das 
histrias 
dos 
feiticeiros, 
mas 
no 
atravs 
da 
experincia. 


Nada 
do 
que 
ele 
dizia 
estava 
fazendo 
sentido 
para 
mim. 
Dom 
Juan 
me 
assegurou 
que, 
devido 
 
minha 
falta 
de 
energia, 
uma 
explicao 
mais 
ampla 
seria 
impossvel. 
Disse 
que 
eu 
precisaria 
me 
satisfazer 
com 
o 
que 
ele 
estava 
dizendo 
e 
com 
o 
modo 
como 
eu 
compreendia. 


 
No 
compreendo 
nem 
um 
pouco 
 
insisti. 
 
Ento 
no 
perdeu 
nada 
 
disse 
ele. 
 
Quando 
ficar 
mais 
forte, 
voc 
mesmo 
responder 
s 
suas 
perguntas. 
Confessei 
que 
estava 
tendo 
surtos 
espordicos 
de 
calor. 
Minha 
temperatura 
aumentava 
de 
sbito 
e, 
enquanto 
eu 
estava 
quente 
e 
suarento, 
tinha 
idias 
extraordinrias, 
porm 
surpreendentes, 
sobre 
minha 
situao. 


Dom 
Juan 
examinou 
todo 
o 
meu 
corpo 
com 
seu 
olhar 
penetrante. 
Disse 
que 
eu 
estava 
num 
estado 
de 
choque 
energtico. 
A 
perda 
de 
energia 
me 
afetara 
temporariamente; 
e 
o 
que 
eu 
interpretava 
como 
surtos 
de 
calor 
eram, 
em 
essncia, 
jorros 
de 
energia, 
e 
durante 
eles 
eu 
recuperava 
por 
alguns 
momentos 
o 
controle 
de 
meu 
corpo 
energtico 
e 
ficava 
sabendo 
de 
tudo 
que 
me 
acontecera. 


 
Faa 
um 
esforo 
e 
diga-me 
voc 
mesmo 
o 
que 
lhe 
aconteceu 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
ele 
me 
ordenou. 
Falei 
que 
a 
sensao 
ntida 
que 
eu 
tinha, 
de 
vez 
em 
quando, 
era 
de 
que 
ele 
e 
seus 
companheiros 
haviam 
ido 
quele 
mundo 
com 
seus 
corpos 
fsicos 
e 
me 
arrancado 
das 
garras 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Certo! 
 
ele 
exclamou. 
 
Est 
se 
saindo 
muito 
bem. 
Agora, 
transforme 
essa 
sensao 
na 
viso 
do 
que 
aconteceu. 
Fui 
incapaz 
de 
fazer 
o 
que 
ele 
pedia, 
por 
mais 
que 
tentasse. 
O 
fracasso 
me 
fez 
sentir 
uma 
fadiga 
incomum, 
que 
pareceu 
ressecar 
o 
interior 
de 
meu 
corpo. 
Antes 
de 
Dom 
Juan 
sair 
do 
quarto 
falei 
que 
eu 


#
estava 
sofrendo 
de 
ansiedade. 


 
Isso 
no 
quer 
dizer 
nada 
 
ele 
disse 
despreocupado. 
 
Recupere 
sua 
energia 
e 
no 
se 
preocupe 
com 
absurdos. 


Mais 
de 
duas 
semanas 
se 
passaram, 
tempo 
em 
que 
pouco 
a 
pouco 
recuperei 
minha 
energia. 
Mas 
eu 
continuava 
preocupado. 
Acima 
de 
tudo 
por 
me 
desconhecer; 
especialmente 
com 
relao 
a 
uma 
frieza 
que 
eu 
no 
percebera 
antes, 
uma 
espcie 
de 
fria 
indiferena, 
um 
desligamento 
que 
eu 
a 
princpio 
atribura 
 
falta 
de 
energia, 
at 
que 
a 
recuperei. 
Ento 
percebi 
que 
era 
uma 
nova 
caracterstica 
minha; 
uma 
caracterstica 
que 
me 
mantinha 
permanentemente 
fora 
de 
sincronizao. 
Para 
ter 
os 
sentimentos 
aos 
quais 
estava 
acostumado 
eu 
precisava 
invoc-los, 
e 
at 
mesmo 
esperar 
um 
instante 
at 
que 
eles 
surgissem 
em 
minha 
mente. 


Outra 
caracterstica 
nova 
e 
desconhecida 
era 
uma 
estranha 
saudade 
que 
me 
pegava 
de 
tempos 
em 
tempos. 
Sentia 
saudade 
de 
algum 
que 
no 
conhecia; 
era 
um 
sentimento 
to 
forte 
e 
devastador 
que, 
quando 
ele 
surgia, 
eu 
precisava 
ficar 
andando 
pelo 
quarto 
para 
alivi-lo. 
A 
saudade 
permaneceu 
at 
que 
eu 
pude 
usar 
outro 
recm-
chegado 
em 
minha 
vida: 
um 
rgido 
controle 
sobre 
mim 
mesmo, 
to 
novo 
e 
poderoso 
que 
s 
fez 
acrescentar 
combustvel 
 
minha 
preocupao. 


No 
fim 
da 
quarta 
semana 
todos 
sentiram 
que 
eu 
estava 
finalmente 
curado. 
Cortaram 
drasticamente 
as 
visitas. 
Eu 
passava 
boa 
parte 
do 
tempo 
sozinho, 
dormindo. 
O 
descanso 
e 
o 
relaxamento 
eram 
to 
completos 
que 
minha 
energia 
comeou 
a 
crescer 
notavelmente. 
Sentia-me 
de 
novo 
como 
meu 
Eu 
antigo. 
Comecei 
at 
mesmo 
a 
fazer 
exerccios 
fsicos. 


Um 
dia, 
por 
volta 
do 
meio-dia, 
depois 
de 
um 
almoo 
leve, 
voltei 
ao 
quarto 
para 
tirar 
um 
cochilo. 
Logo 
antes 
de 
afundar 
num 
sono 
profundo 
estava 
me 
revirando 
na 
cama, 
tentando 
encontrar 
uma 
posio 
mais 
confortvel, 
quando 
uma 
estranha 
presso 
nas 
tmporas 
fez 
com 
que 
eu 
abrisse 
os 
olhos. 
A 
garotinha 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
estava 
sentada 
ao 
p 
da 
cama, 
fitando-me 
com 
seus 
olhos 
frios 
e 
azuis 
como 
ao. 


#
Saltei 
da 
cama 
e 
gritei 
to 
alto 
que 
trs 
dos 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
entraram 
no 
quarto 
antes 
mesmo 
de 
eu 
interromper 
o 
grito. 
Ficaram 
estupefatos. 
Olhavam 
com 
horror 
enquanto 
a 
garotinha 
vinha 
at 
mim 
e 
parava 
junto 
aos 
limites 
de 
meu 
luminoso 
Ser 
fsico. 
Olhamos 
um 
para 
o 
outro 
por 
uma 
eternidade. 
Ela 
estava 
dizendo 
alguma 
coisa, 
que 
no 
pude 
compreender 
a 
princpio, 
mas 
que 
no 
momento 
seguinte 
ficou 
claro 
como 
um 
sino. 
Disse 
que, 
para 
eu 
entender 
o 
que 
ela 
estava 
falando, 
minha 
conscincia 
teria 
de 
ser 
transferida 
do 
meu 
corpo 
fsico 
para 
meu 
corpo 
energtico. 


Naquele 
momento 
Dom 
Juan 
entrou 
no 
quarto. 
A 
garotinha 
e 
Dom 
Juan 
se 
entreolharam. 
Sem 
qualquer 
palavra, 
Dom 
Juan 
virou-
se 
e 
saiu 
do 
quarto. 
A 
garotinha 
passou 
zunindo 
pela 
porta, 
atrs 
dele. 


A 
comoo 
que 
a 
cena 
criou 
entre 
os 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
foi 
indescritvel. 
Perderam 
toda 
a 
compostura. 
Aparentemente 
todos 
tinham 
visto 
a 
garotinha 
saindo 
do 
quarto 
com 
o 
Nagual. 


Eu 
mesmo 
parecia 
em 
vias 
de 
explodir. 
Senti 
que 
desmaiaria, 
e 
precisei 
me 
sentar. 
Havia 
experimentado 
a 
presena 
da 
garotinha 
como 
um 
soco 
no 
peito. 
Ela 
tinha 
uma 
semelhana 
assombrosa 
com 
meu 
pai. 
Ondas 
de 
sentimento 
me 
assolaram. 
Fiquei 
pensando 
no 
significado 
daquilo 
at 
me 
sentir 
doente 
de 
fato. 


Quando 
Dom 
Juan 
voltou 
ao 
quarto 
eu 
havia 
recuperado 
um 
mnimo 
de 
autocontrole. 
A 
expectativa 
de 
ouvir 
o 
que 
ele 
tinha 
a 
dizer 
sobre 
a 
garotinha 
estava 
me 
causando 
dificuldade 
para 
respirar. 
Todo 
mundo 
estava 
to 
excitado 
quanto 
eu. 
Todos 
falaram 
ao 
mesmo 
tempo 
com 
Dom 
Juan, 
e 
riram 
ao 
perceber 
o 
que 
estavam 
fazendo. 
Seu 
interesse 
principal 
era 
descobrir 
se 
havia 
uma 
uniformidade 
no 
modo 
como 
haviam 
percebido 
o 
aparecimento 
do 
batedor. 
Todos 
concordaram 
que 
tinham 
visto 
uma 
garotinha 
de 
seis 
ou 
sete 
anos, 
muito 
magra, 
com 
feies 
angulares, 
lindas. 
Tambm 
concordaram 
que 
seus 
olhos 
tinham 
um 
azul 
de 
ao, 
queimando 
com 
uma 
expresso 
muda; 
seus 
olhos, 
segundo 
eles, 
expressavam 
gratido 
e 
lealdade. 


Eu 
havia 
corroborado 
cada 
detalhe 
do 
que 
descreveram 
sobre 
a 


#
garotinha. 
Seus 
olhos 
eram 
to 
brilhantes 
e 
poderosos 
que 
chegaram 
a 
me 
causar 
uma 
espcie 
de 
dor. 
Eu 
sentira 
no 
peito 
o 
peso 
de 
seu 
olhar. 


Uma 
dvida 
sria 
dos 
companheiros 
de 
Dom 
Juan, 
e 
minha 
tambm, 
era 
sobre 
as 
implicaes 
do 
evento. 
Todos 
concordaram 
que 


o 
batedor 
era 
uma 
poro 
de 
energia 
estranha 
que 
atravessara 
a 
parede 
separando 
a 
segunda 
ateno 
da 
ateno 
cotidiana. 
Concordaram 
que, 
como 
no 
estavam 
sonhando 
e 
todos 
tinham 
visto 
a 
energia 
aliengena 
projetada 
na 
figura 
de 
uma 
criana 
humana, 
aquela 
criana 
tinha 
existncia. 
Argumentaram 
que 
deveria 
ocorrer 
centenas 
ou 
milhares 
de 
casos 
em 
que 
energias 
estranhas 
atravessavam 
sem 
ser 
percebidas 
as 
barreiras 
naturais 
de 
nosso 
mundo 
humano, 
mas 
na 
histria 
de 
sua 
linhagem 
no 
havia 
qualquer 
meno 
a 
um 
evento 
dessa 
natureza. 
O 
que 
os 
preocupava 
mais 
era 
no 
haver 
qualquer 
histria 
de 
feiticeiros 
a 
respeito. 


 
Ser 
que 
essa 
 
a 
primeira 
vez 
na 
histria 
da 
humanidade 
que 
isso 
acontece? 
 
um 
deles 
perguntou 
a 
Dom 
Juan. 
 
Eu 
acho 
que 
acontece 
o 
tempo 
todo 
 
respondeu 
ele 
 
mas 
nunca 
de 
maneira 
to 
aberta, 
to 
evidente. 
 
E 
o 
que 
isso 
significa 
para 
ns? 
 
outro 
deles 
perguntou 
a 
Dom 
Juan. 
 
Para 
ns, 
nada, 
mas 
para 
ele 
tudo 
 
ele 
disse 
e 
apontou 
na 
minha 
direo. 
Ento 
ficaram 
todos 
num 
silncio 
perturbador. 
Durante 
alguns 
momentos 
Dom 
Juan 
andou 
para 
um 
lado 
e 
para 
outro 
no 
quarto. 
Depois 
parou 
na 
minha 
frente 
e 
me 
olhou 
fixo, 
dando 
todas 
as 
indicaes 
de 
algum 
que 
no 
consegue 
encontrar 
palavras 
para 
expressar 
uma 
descoberta 
avassaladora. 


 
No 
consigo 
nem 
mesmo 
comear 
avaliar 
o 
alcance 
do 
que 
voc 
fez 
 
finalmente 
falou 
num 
tom 
de 
pasmo. 
 
Voc 
caiu 
numa 
armadilha, 
mas 
no 
o 
tipo 
de 
armadilha 
que 
me 
preocupava. 
Sua 
armadilha 
foi 
projetada 
somente 
para 
voc, 
e 
foi 
mais 
mortal 
do 
que 
qualquer 
coisa 
em 
que 
eu 
poderia 
pensar. 
Eu 
estava 
preocupado 
com 
#
que 
voc 
casse 
presa 
da 
adulao 
e 
do 
prazer 
de 
ser 
servido. 
Nunca 
imaginei 
que 
os 
seres 
de 
sombra 
criassem 
uma 
armadilha 
usando 
sua 
averso 
inerente 
s 
amarras. 


Uma 
vez 
Dom 
Juan 
fizera 
uma 
sntese 
da 
sua 
reao 
e 
da 
minha 
s 
coisas 
que 
mais 
nos 
incomodavam. 
Ele 
disse, 
sem 
que 
isso 
parecesse 
uma 
reclamao, 
que, 
por 
mais 
que 
tentasse, 
nunca 
fora 
capaz 
de 
inspirar 
o 
tipo 
de 
afeio 
que 
seu 
professor, 
o 
Nagual 
Julian, 
inspirava 
nas 
pessoas. 


 
Minha 
reao 
imparcial, 
que 
estou 
colocando 
na 
mesa 
para 
voc 
examinar, 
 
poder 
dizer 
com 
sinceridade: 
no 
 
meu 
destino 
evocar 
a 
afeio 
cega 
e 
total. 
Ento, 
que 
seja! 
Sua 
reao 
imparcial 
 
prosseguiu 
ele 
 
 
no 
suportar 
amarras, 
e 
voc 
 
capaz 
de 
dar 
a 
vida 
para 
romp-las. 
Discordei 
sinceramente 
e 
disse 
que 
parecia 
exagero. 
Meu 
ponto 
de 
vista 
no 
era 
to 
claro. 


 
No 
se 
preocupe 
 
ele 
riu. 
 
Feitiaria 
 
agir. 
Quando 
chegar 
o 
tempo, 
voc 
vai 
representar 
sua 
paixo; 
assim 
como 
eu 
represento 
a 
minha. 
A 
minha 
 
ceder 
ao 
meu 
destino, 
no 
passivamente, 
como 
um 
idiota, 
mas 
ativamente 
como 
um 
guerreiro. 
A 
sua 
 
saltar 
sem 
qualquer 
capricho 
ou 
premeditao 
para 
cortar 
as 
amarras 
de 
outra 
pessoa. 
Dom 
Juan 
explicou 
que, 
depois 
de 
fundir 
minha 
energia 
com 
o 
batedor, 
eu 
deixara 
de 
existir. 
Toda 
a 
minha 
fisicalidade 
fora 
transportada 
para 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
e, 
no 
fora 
pelo 
batedor 
que 
o 
havia 
guiado 
e 
aos 
seus 
companheiros 
at 
onde 
eu 
estava, 
eu 
teria 
morrido 
ou 
continuado 
naquele 
mundo, 
inextricavelmente 
perdido. 


 
Por 
que 
o 
batedor 
guiou 
vocs 
at 
onde 
eu 
estava? 
 
perguntei. 


 
O 
batedor 
 
um 
ser 
consciente, 
vindo 
de 
outra 
dimenso. 
Agora 
 
uma 
garotinha, 
e 
como 
tal 
ela 
me 
contou 
que, 
para 
conseguir 
a 
energia 
necessria 
para 
romper 
a 
barreira 
que 
a 
tinha 
aprisionado 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
ela 
precisou 
tomar 
toda 
a 
sua. 
Esta 
 
a 
parte 
humana 
que 
ela 
tem 
agora. 
Alguma 
coisa 
semelhante 
 
#
gratido 
guiou-a 
at 
mim. 
Quando 
a 
vi, 
soube 
instantaneamente 
que 
voc 
estava 
perdido. 


 
O 
que 
voc 
fez 
ento, 
Dom 
Juan? 
 
Chamei 
todo 
mundo 
que 
pude, 
especialmente 
Carol 
Tiggs, 
e 
fomos 
at 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
 
Por 
que 
Carol 
Tiggs? 
 
Em 
primeiro 
lugar 
porque 
ela 
tem 
energia 
sem 
fim 
e, 
em 
segundo, 
porque 
ela 
precisava 
se 
familiarizar 
com 
o 
batedor. 
Todos 
ns 
ganhamos 
alguma 
coisa 
valiosssima 
com 
essa 
experincia. 
Voc 
e 
Carol 
Tiggs 
ganharam 
o 
batedor. 
E 
o 
resto 
de 
ns 
ganhou 
um 
motivo 
para 
reunir 
nossa 
fisicalidade 
e 
coloc-la 
em 
nossos 
corpos 
energticos; 
ns 
nos 
tornamos 
energia. 
 
Como 
vocs 
fizeram 
isso? 
 
Deslocamos 
nossos 
pontos 
de 
aglutinao, 
em 
unssono. 
Nosso 
intento 
impecvel 
de 
salv-lo 
fez 
o 
trabalho. 
O 
batedor 
levou-
nos, 
num 
piscar 
de 
olhos, 
at 
onde 
voc 
estava 
cado 
meio 
morto, 
e 
Carol 
arrastou-o 
para 
fora. 
Sua 
explicao 
no 
fez 
sentido 
para 
mim. 
Dom 
Juan 
riu 
quando 
tentei 
frisar 
esse 
ponto. 


 
Como 
 
que 
voc 
pode 
entender 
isso 
quando 
nem 
mesmo 
tem 
energia 
para 
se 
levantar 
da 
cama? 
Confessei 
que 
tinha 
certeza 
de 
saber 
infinitamente 
mais 
do 
que 
admitia 
racionalmente, 
mas 
que 
alguma 
coisa 
estava 
colocando 
uma 
venda 
na 
minha 
memria. 


 
A 
falta 
de 
energia 
 
que 
est 
colocando 
uma 
venda 
em 
sua 
memria 
 
disse 
ele. 
 
Quando 
tiver 
energia 
suficiente, 
sua 
memria 
vai 
funcionar 
direito. 
 
Quer 
dizer 
que 
eu 
posso 
lembrar 
tudo, 
se 
quiser? 
 
Nem 
tudo. 
Voc 
pode 
querer 
 
vontade, 
mas 
se 
seu 
nvel 
de 
energia 
no 
estiver 
de 
acordo 
com 
a 
importncia 
do 
que 
voc 
sabe, 
pode 
muito 
bem 
dar 
adeus 
ao 
conhecimento: 
ele 
nunca 
vai 
estar 
disponvel. 
 
Ento 
o 
que 
devo 
fazer? 
 
A 
energia 
tende 
a 
ser 
cumulativa; 
se 
voc 
seguir 
#
impecavelmente 
o 
caminho 
do 
guerreiro, 
chegar 
um 
momento 
em 
que 
sua 
memria 
vai 
se 
abrir. 


Confessei 
que 
ouvi-lo 
falar 
me 
dava 
a 
sensao 
absurda 
de 
que 
eu 
estava 
sentindo 
pena 
de 
mim 
mesmo, 
de 
que 
no 
havia 
nada 
de 
errado 
comigo. 


 
Voc 
no 
est 
simplesmente 
com 
pena 
de 
si 
prprio 
 
disse 
ele. 
 
Voc 
estava 
energeticamente 
morto 
h 
quatro 
semanas. 
Agora 
sente-se 
apenas 
atordoado. 
O 
atordoamento 
e 
a 
falta 
de 
energia 
 
que 
fazem 
voc 
esconder 
o 
conhecimento. 
Voc 
certamente 
sabe 
mais 
do 
que 
qualquer 
um 
de 
ns 
sobre 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Aquele 
mundo 
era 
a 
preocupao 
exclusiva 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Todos 
ns 
dissemos 
que 
somente 
atravs 
das 
histrias 
dos 
feiticeiros 
sabamos 
a 
respeito 
dele. 
Digo 
sinceramente 
que, 
para 
mim, 
 
mais 
do 
que 
estranho 
voc 
ter-se 
tornado, 
por 
direito 
prprio, 
outra 
fonte 
de 
histrias 
de 
feiticeiros. 
Reiterei 
que 
para 
mim 
era 
impossvel 
acreditar 
que 
fizera 
uma 
coisa 
que 
ele 
no 
tinha 
feito. 
Mas 
no 
podia 
acreditar 
que 
ele 
estivesse 
apenas 
sendo 
indulgente 
comigo. 


 
No 
estou 
elogiando 
nem 
sendo 
indulgente 
 
ele 
disse 
visivelmente 
aborrecido. 
 
Estou 
declarando 
um 
fato 
da 
feitiaria. 
Saber 
mais 
do 
que 
qualquer 
um 
de 
ns 
sobre 
aquele 
mundo 
no 
deveria 
ser 
motivo 
para 
sentir-se 
satisfeito. 
No 
h 
qualquer 
vantagem 
nesse 
conhecimento; 
de 
fato 
a 
despeito 
de 
tudo 
que 
sabe, 
voc 
no 
pde 
se 
salvar. 
Ns 
o 
salvamos 
porque 
o 
encontramos. 
Mas 
sem 
a 
ajuda 
do 
batedor 
no 
haveria 
sentido 
nem 
mesmo 
em 
tentar 
encontr-lo. 
Voc 
estava 
to 
infinitamente 
perdido 
naquele 
mundo 
que 
estremeo 
s 
de 
pensar. 
No 
estado 
em 
que 
me 
encontrava 
no 
achei 
nem 
um 
pouco 
estranho 
ter 
visto 
uma 
onda 
de 
emoo 
atravessar 
todos 
os 
companheiros 
e 
aprendizes 
de 
Dom 
Juan. 
A 
nica 
pessoa 
a 
permanecer 
inalterada 
foi 
Carol 
Tiggs. 
Ela 
parecia 
ter 
aceitado 
totalmente 
seu 
papel. 
Ela 
e 
eu 
ramos 
um 
s. 


 
Voc 
salvou 
o 
batedor 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan 
 
mas 
abriu 
mo 
de 
sua 
vida. 
Ou 
pior, 
abriu 
mo 
de 
sua 
liberdade. 
Os 
seres 
#
inorgnicos 
deixaram 
o 
batedor 
ir 
embora 
trocando-o 
por 
voc. 


 
Mal 
posso 
acreditar 
nisso, 
Dom 
Juan. 
No 
que 
duvide, 
claro, 
mas 
voc 
descreveu 
uma 
manobra 
to 
ardilosa 
que 
estou 
atordoado. 
 
No 
a 
considere 
ardilosa 
e 
voc 
ter 
um 
resumo 
da 
coisa 
toda. 
Os 
seres 
inorgnicos 
esto 
sempre 
em 
busca 
de 
conscincia 
e 
de 
energia. 
Se 
voc 
lhes 
der 
a 
possibilidade 
das 
duas 
coisas, 
o 
que 
acha 
que 
eles 
faro? 
Jogar 
beijinhos 
do 
outro 
lado 
da 
rua? 
Eu 
sabia 
que 
Dom 
Juan 
estava 
certo. 
Mas 
no 
conseguia 
manter 
a 
certeza 
por 
muito 
tempo; 
a 
clareza 
se 
afastava 
de 
mim. 


Os 
companheiros 
de 
Dom 
Juan 
continuaram 
a 
fazer 
perguntas. 
Queriam 
saber 
se 
ele 
tivera 
alguma 
idia 
do 
que 
fazer 
com 
o 
batedor. 


 
Tive. 
 
um 
problema 
muito 
srio 
que 
o 
Nagual 
aqui 
precisa 
resolver 
 
disse 
apontando 
para 
mim. 
 
Ele 
e 
Carol 
Tiggs 
so 
os 
nicos 
que 
podem 
libertar 
o 
batedor. 
E 
ele 
tambm 
sabe 
disso. 
Naturalmente 
fiz 
a 
nica 
pergunta 
possvel: 


 
Como 
posso 
libert-lo? 
 
Em 
vez 
de 
dizer 
como, 
h 
um 
modo 
muito 
melhor 
e 
mais 
justo 
de 
descobrir 
 
Dom 
Juan 
disse 
com 
um 
grande 
sorriso. 
 
Pergunte 
ao 
emissrio. 
Os 
seres 
inorgnicos 
no 
podem 
mentir, 
voc 
sabe. 
#
8 


O 
TERCEIRO 
PORTO 
DO 
SONHAR 


terceiro 
porto 
do 
sonhar 
 
alcanado 
quando 
voc 
se 


pega 
num 
sonho 
olhando 
para 
outra 
pessoa 
adormecida. 


O
E 
descobre 
que 
essa 
pessoa 
 
voc 
mesmo 
 
disse 
Dom 
Juan. 


Meu 
nvel 
de 
energia 
estava 
to 
alto, 
na 
poca, 
que 
passei 
a 
trabalhar 
imediatamente 
na 
terceira 
tarefa, 
apesar 
de 
ele 
no 
me 
oferecer 
mais 
nenhuma 
informao 
alm 
do 
que 
dissera. 
A 
primeira 
coisa 
que 
percebi, 
no 
treinamento 
de 
sonhar, 
foi 
que 
um 
jorro 
de 
energia 
imediatamente 
rearrumou 
o 
foco 
de 
minha 
ateno 
sonhadora. 
Ela 
estava 
direcionada 
para 
que 
eu 
acordasse 
num 
sonho 
e 
me 
visse 
dormindo; 
viajar 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
no 
estava 
mais 
em 
questo. 


Logo 
depois 
me 
encontrei 
num 
sonho, 
olhando 
para 
mim 
mesmo 
adormecido. 
Imediatamente 
informei 
a 
Dom 
Juan. 
O 
sonho 
acontecera 
enquanto 
eu 
estava 
em 
sua 
casa. 


 
Existem 
duas 
fases 
em 
cada 
porto 
do 
sonhar 
 
disse 
ele. 
 
A 
primeira, 
como 
voc 
sabe, 
 
chegar 
ao 
porto; 
a 
segunda 
 
atravess-lo. 
Sonhando 
o 
que 
sonhou, 
que 
se 
viu 
dormindo, 
voc 
chegou 
ao 
terceiro 
porto. 
A 
segunda 
fase 
 
movimentar-se 
assim 
que 
vir 
voc 
mesmo 
dormindo. 
No 
terceiro 
porto 
do 
sonhar 
 
prosseguiu 
ele 
 
voc 
comea 
deliberadamente 
a 
fundir 
sua 
realidade 
de 
sonho 
com 
a 
realidade 
do 
mundo 
cotidiano. 
Esse 
 
o 
exerccio, 
e 
os 
feiticeiros 
chamam-no 
de 


#
completar 
o 
corpo 
energtico. 
A 
fuso 
entre 
as 
duas 
realidades 
tem 
de 
ser 
to 
absoluta 
que 
voc 
precisa 
ser 
mais 
fluido 
do 
que 
nunca. 
Examine 
tudo 
no 
terceiro 
porto 
com 
grande 
cuidado 
e 
curiosidade. 


Reclamei, 
dizendo 
que 
essas 
recomendaes 
eram 
cifradas 
demais, 
e 
no 
faziam 
qualquer 
sentido 
para 
mim. 


 
O 
que 
quer 
dizer 
com 
grande 
cuidado 
e 
curiosidade? 
 
perguntei. 


 
No 
terceiro 
porto 
nossa 
tendncia 
 
ficarmos 
perdidos 
nos 
detalhes. 
Ver 
as 
coisas 
com 
grande 
cuidado 
e 
curiosidade 
significa 
resistir 
 
tentao 
quase 
irresistvel 
de 
mergulhar 
no 
detalhe. 
O 
exerccio 
no 
terceiro 
porto, 
como 
eu 
disse, 
 
consolidar 
o 
corpo 
energtico. 
Os 
sonhadores 
comeam 
a 
forjar 
o 
corpo 
energtico 
fazendo 
os 
exerccios 
do 
primeiro 
e 
do 
segundo 
porto. 
Quando 
chegam 
ao 
terceiro, 
o 
corpo 
energtico 
est 
pronto 
para 
sair, 
ou 
talvez 
seja 
melhor 
dizer 
que 
ele 
est 
pronto 
para 
agir. 
Infelizmente 
isso 
tambm 
significa 
que 
est 
pronto 
para 
ficar 
hipnotizado 
pelos 
detalhes. 


 
O 
que 
significa 
ficar 
hipnotizado 
pelos 
detalhes? 
 
O 
corpo 
energtico 
 
como 
uma 
criana 
que 
ficou 
presa 
durante 
toda 
a 
vida. 
No 
momento 
em 
que 
se 
liberta 
ela 
chafurda 
em 
tudo 
que 
pode 
encontrar, 
e 
estou 
falando 
de 
tudo, 
mesmo. 
Cada 
detalhe 
minsculo 
e 
irrelevante 
absorve 
totalmente 
o 
corpo 
energtico. 
Seguiu-se 
um 
silncio 
desajeitado. 
Eu 
no 
tinha 
idia 
do 
que 
dizer. 
Tinha 
compreendido 
perfeitamente, 
apenas 
no 
havia 
nada 
em 
minha 
experincia 
que 
pudesse 
dar 
uma 
idia 
do 
que, 
exatamente, 
aquilo 
significava. 


 
O 
detalhe 
mais 
idiota 
torna-se 
um 
mundo 
para 
o 
corpo 
energtico 
 
explicou 
Dom 
Juan. 
 
 
estonteante 
o 
esforo 
que 
os 
sonhadores 
precisam 
fazer 
para 
direcionar 
o 
corpo 
energtico. 
Sei 
que 
parece 
esquisito 
dizer 
para 
voc 
olhar 
as 
coisas 
com 
cuidado 
e 
curiosidade, 
mas 
 
o 
melhor 
modo 
de 
descrever. 
No 
terceiro 
porto 
os 
sonhadores 
precisam 
evitar 
um 
impulso 
quase 
irresistvel 
de 
#
mergulhar 
em 
tudo; 
e 
eles 
evitam-no 
sendo 
to 
curiosos, 
to 
desesperados 
para 
entrar 
em 
tudo 
que 
no 
deixam 
uma 
coisa 
em 
particular 
aprision-los. 


Dom 
Juan 
acrescentou 
que 
suas 
recomendaes 
que, 
ele 
sabia, 
me 
pareciam 
absurdas, 
visavam 
diretamente 
ao 
meu 
corpo 
energtico. 
Enfatizou 
repetidamente 
que 
meu 
corpo 
energtico 
tinha 
de 
juntar 
todos 
os 
seus 
recursos 
para 
agir. 


 
Mas 
meu 
corpo 
energtico 
no 
est 
agindo 
o 
tempo 
inteiro? 
 
perguntei. 
 
Parte 
dele, 
sim. 
De 
outra 
forma 
voc 
no 
teria 
ido 
at 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Agora 
todo 
o 
seu 
corpo 
energtico 
precisa 
ser 
posto 
em 
atividade 
para 
realizar 
o 
exerccio 
do 
terceiro 
porto. 
Portanto, 
para 
tornar 
as 
coisas 
mais 
fceis 
ao 
seu 
corpo 
energtico, 
voc 
deve 
prender 
o 
seu 
co-de-guarda 
racional. 
 
Acho 
que 
est 
jogando 
conversa 
fora 
 
falei. 
 
Sobrou 
muito 
pouca 
racionalidade 
em 
mim 
depois 
de 
todas 
as 
experincias 
que 
voc 
trouxe 
 
minha 
vida. 
 
No 
diga 
nada. 
No 
terceiro 
porto 
a 
racionalidade 
 
responsvel 
pela 
insistncia 
de 
nosso 
corpo 
energtico 
em 
se 
obcecar 
com 
detalhes 
suprfluos. 
No 
terceiro 
porto 
precisamos 
de 
fluidez 
irracional, 
de 
abandono 
irracional 
para 
contrabalanar 
essa 
insistncia. 
A 
afirmao 
que 
Dom 
Juan 
fizera, 
de 
que 
cada 
porto 
 
um 
obstculo, 
no 
poderia 
ser 
mais 
verdadeira. 
Trabalhei 
mais 
intensamente 
para 
fazer 
o 
exerccio 
do 
terceiro 
porto 
do 
que 
nas 
duas 
outras 
tarefas 
juntas. 
Dom 
Juan 
me 
pressionou 
tremendamente. 
Alm 
disso, 
uma 
outra 
coisa 
fora 
acrescentada 
 
minha 
vida: 
um 
verdadeiro 
sentido 
do 
medo. 
Eu 
tivera 
normalmente, 
e 
at 
mesmo 
excessivamente, 
medo 
de 
uma 
coisa 
ou 
outra 
durante 
toda 
a 
vida, 
mas 
em 
minha 
experincia 
no 
houvera 
nada 
comparvel 
ao 
medo 
que 
eu 
sentira 
depois 
de 
minha 
batalha 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
E 
ainda 
assim 
toda 
essa 
experincia 
estava 
inacessvel 
 
minha 
memria 
normal. 
Apenas 
na 
presena 
de 
Dom 


#
Juan 
essas 
lembranas 
estavam 
disponveis. 


Num 
dia 
em 
que 
estvamos 
no 
Museu 
Nacional 
de 
Antropologia 
na 
Cidade 
do 
Mxico 
perguntei 
sobre 
essa 
situao 
estranha. 
O 
que 
instigara 
minha 
pergunta 
foi 
que, 
naquele 
momento, 
eu 
tinha 
a 
estranha 
capacidade 
de 
lembrar 
tudo 
que 
acontecera 
durante 
toda 
a 
minha 
associao 
com 
Dom 
Juan. 
E 
isso 
me 
fez 
sentir 
to 
livre, 
to 
ousado 
e 
leve 
que 
praticamente 
sa 
danando. 


 
 
que 
a 
presena 
do 
Nagual 
induz 
um 
deslocamento 
no 
ponto 
de 
aglutinao 
 
disse 
ele. 
Ento 
me 
guiou 
a 
uma 
das 
salas 
de 
exposio 
do 
museu 
e 
disse 
que 
minha 
pergunta 
tinha 
a 
ver 
com 
o 
que 
ele 
estava 
planejando 
contar. 


 
Minha 
inteno 
era 
explicar 
que 
o 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
como 
um 
cofre 
onde 
os 
feiticeiros 
mantm 
seus 
registros 
 
disse 
ele. 
 
Fiquei 
contentssimo 
quando 
seu 
corpo 
energtico 
sentiu 
meu 
intento 
e 
voc 
perguntou 
isso. 
O 
corpo 
energtico 
sabe 
uma 
imensido 
de 
coisas. 
Deixe-me 
mostrar 
o 
quanto 
ele 
sabe. 
Disse 
para 
eu 
entrar 
na 
sala 
em 
silncio 
absoluto. 
Lembrou-me 
que 
eu 
j 
estava 
num 
estado 
de 
conscincia 
especial, 
porque 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
fora 
deslocado 
em 
sua 
presena. 
Ele 
me 
assegurou 
que 
entrar 
em 
silncio 
total 
permitiria 
que 
as 
esculturas 
naquela 
sala 
me 
fizessem 
ver 
e 
ouvir 
coisas 
inconcebveis. 
Acrescentou, 
aparentemente 
para 
aumentar 
minha 
confuso, 
que 
algumas 
peas 
arqueolgicas 
naquela 
sala 
tinham 
a 
capacidade 
de 
produzir, 
por 
si 
prprias, 
um 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
e 
que 
se 
eu 
chegasse 
a 
um 
estado 
de 
silncio 
total 
iria 
testemunhar 
cenas 
das 
vidas 
das 
pessoas 
que 
fizeram 
aquelas 
peas. 


Em 
seguida 
ele 
deu 
incio 
ao 
passeio 
mais 
estranho 
que 
j 
fiz 
atravs 
de 
um 
museu. 
Andou 
pela 
sala, 
descrevendo 
e 
interpretando 
detalhes 
espantosos 
sobre 
cada 
uma 
das 
grandes 
peas. 
De 
acordo 
com 
ele, 
cada 
pea 
arqueolgica 
daquela 
sala 
era 
um 
registro 
intencional, 
deixado 
pelas 
pessoas 
da 
antigidade; 
um 
registro 
que 


#
Dom 
Juan, 
como 
feiticeiro, 
estava 
lendo 
para 
mim 
como 
leria 
um 
livro. 


 
Cada 
pea 
aqui 
foi 
projetada 
para 
fazer 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
deslocar 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Fixe 
o 
olhar 
em 
qualquer 
uma 
delas, 
silencie 
a 
mente, 
e 
descubra 
se 
o 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
pode 
ser 
deslocado. 
 
Como 
vou 
saber 
se 
ele 
se 
deslocou? 
 
Saber 
porque 
vai 
ver 
e 
sentir 
coisas 
que 
esto 
fora 
do 
seu 
alcance 
normal. 
Olhei 
para 
as 
esculturas 
e 
vi 
e 
ouvi 
coisas 
que 
me 
deixariam 
perdido, 
caso 
tentasse 
explicar. 
No 
passado 
eu 
examinara 
todas 
aquelas 
peas 
com 
os 
preconceitos 
da 
antropologia, 
tendo 
sempre 
em 
mente 
as 
descries 
dos 
eruditos 
da 
rea. 
Suas 
descries 
da 
funo 
daquelas 
peas, 
enraizadas 
na 
cognio 
que 
o 
homem 
moderno 
tem 
do 
mundo, 
me 
pareceram 
pela 
primeira 
vez 
absolutamente 
preconceituosas, 
quando 
no 
imbecis. 
O 
que 
Dom 
Juan 
disse 
sobre 
as 
peas, 
e 
o 
que 
ouvi 
e 
vi, 
fixando 
nelas 
o 
olhar, 
foi 
a 
coisa 
mais 
distante 
possvel 
do 
que 
eu 
sempre 
lera 
a 
respeito. 


Meu 
desconforto 
foi 
to 
grande 
que 
senti 
a 
obrigao 
de 
me 
desculpar 
com 
Dom 
Juan 
pelo 
que 
pensei 
ter 
sido 
minha 
sugestibilidade. 
Ele 
no 
riu 
nem 
zombou 
de 
mim. 
Explicou 
pacientemente 
que 
os 
feiticeiros 
eram 
capazes 
de 
deixar, 
no 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
registros 
acurados 
sobre 
suas 
descobertas. 
Afirmou 
que 
quando 
se 
trata 
de 
captar 
a 
essncia 
de 
um 
registro 
escrito, 
precisamos 
usar 
nosso 
sentido 
de 
participao 
simptica 
ou 
imaginativa 
para 
ir 
alm 
da 
mera 
pgina 
escrita 
e 
chegar 
 
prpria 
experincia. 
Mas 
no 
mundo 
dos 
feiticeiros, 
como 
no 
existem 
pginas 
escritas, 
so 
deixados 
registros 
 
que 
podem 
ser 
revividos, 
em 
vez 
de 
lidos 
 
no 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 


Para 
ilustrar 
sua 
afirmativa 
Dom 
Juan 
falou 
sobre 
os 
ensinamentos 
dos 
feiticeiros 
sobre 
a 
segunda 
ateno. 
Disse 
que 
eles 
so 
dados 
quando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
do 
aprendiz 
est 
num 


#
lugar 
que 
no 
 
o 
normal. 
Assim, 
o 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
torna-se 
o 
registro 
da 
lio. 
Para 
recuperar 
a 
lio 
o 
aprendiz 
precisa 
voltar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
ao 
posicionamento 
que 
ele 
ocupava 
quando 
a 
lio 
foi 
dada. 
Dom 
Juan 
concluiu 
suas 
observaes 
reiterando 
que 
 
um 
feito 
da 
maior 
magnitude 
trazer 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
de 
volta 
a 
todos 
os 
posicionamentos 
que 
ele 
ocupou 
durante 
as 
lies. 


Durante 
quase 
um 
ano 
Dom 
Juan 
no 
perguntou 
nada 
sobre 
minha 
terceira 
tarefa 
de 
sonhar. 
Ento, 
um 
dia, 
ele 
pediu 
abruptamente 
que 
eu 
descrevesse 
todas 
as 
nuances 
de 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 


A 
primeira 
coisa 
que 
mencionei 
foi 
uma 
recorrncia 
espantosa. 
Durante 
um 
perodo 
de 
meses 
eu 
tivera 
sonhos 
em 
que 
me 
vira 
olhando 
para 
mim 
mesmo, 
dormindo 
na 
cama. 
A 
parte 
estranha 
era 
a 
regularidade 
daqueles 
sonhos; 
eles 
aconteciam 
uma 
vez 
a 
cada 
quatro 
dias, 
como 
se 
controlados 
por 
um 
relgio. 
Nos 
outros 
trs 
dias 
meu 
sonhar 
era 
o 
que 
sempre 
havia 
sido: 
eu 
examinava 
cada 
item 
possvel 
dos 
sonhos; 
mudava 
de 
sonhos 
e, 
ocasionalmente, 
levado 
por 
uma 
curiosidade 
suicida, 
seguia 
os 
batedores 
de 
energia 
estranha 
 
apesar 
de 
me 
sentir 
extremamente 
culpado 
ao 
faz-lo. 
Sugeri 
que 
talvez 
fosse 
como 
um 
vcio 
secreto. 
A 
realidade 
daquele 
mundo 
era 
uma 
coisa 
irresistvel. 


Secretamente 
eu 
me 
sentia 
de 
algum 
modo 
exonerado 
da 
responsabilidade 
total, 
porque 
o 
prprio 
Dom 
Juan 
sugerira 
que 
eu 
perguntasse 
ao 
emissrio 
do 
sonhar 
sobre 
o 
que 
fazer 
para 
libertar 
o 
batedor 
azul 
que 
estava 
preso 
entre 
ns. 
Ele 
disse 
para 
eu 
fazer 
a 
pergunta 
no 
treino 
dirio, 
mas 
eu 
alterei 
suas 
afirmativas 
para 
implicar 
que 
eu 
teria 
de 
perguntar 
ao 
emissrio 
enquanto 
estivesse 
em 
seu 
mundo. 
A 
pergunta 
que 
eu 
realmente 
queria 
fazer 
ao 
emissrio 
era 
se 
os 
seres 
inorgnicos 
tinham 
mesmo 
preparado 
uma 
armadilha 
para 
mim. 
O 
emissrio 
no 
somente 
me 
contou 
que 
era 
verdade 
tudo 
que 
Dom 
Juan 
dissera, 
como 
tambm 
me 
deu 
instrues 
sobre 
o 
que 
Carol 
Tiggs 
e 
eu 
tnhamos 
de 
fazer 
para 


#
libertar 
o 
batedor. 


 
A 
regularidade 
de 
seus 
sonhos 
 
uma 
coisa 
que 
eu 
esperava 
 
observou 
Dom 
Juan, 
depois 
de 
me 
escutar. 
 
Por 
que 
esperava 
uma 
coisa 
assim, 
Dom 
Juan? 
 
Por 
causa 
de 
seu 
relacionamento 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
 
Isso 
est 
acabado, 
Dom 
Juan 
 
menti, 
esperando 
que 
ele 
no 
prosseguisse 
com 
o 
assunto. 
 
Voc 
est 
dizendo 
isso 
para 
me 
agradar, 
no 
? 
No 
precisa, 
eu 
sei 
a 
verdade. 
Acredite, 
depois 
que 
a 
pessoa 
comea 
a 
brincai 
com 
eles, 
fica 
fisgada. 
Eles 
vo 
estar 
sempre 
atrs 
de 
voc. 
Ou, 
o 
que 
 
pior 
ainda, 
voc 
vai 
estar 
sempre 
atrs 
deles. 
Encarou-me, 
e 
minha 
culpa 
deve 
ter 
sido 
to 
bvia 
que 
ele 
riu. 


 
A 
nica 
explicao 
possvel 
para 
essa 
regularidade 
 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
esto 
outra 
vez 
bajulando 
voc 
 
falou 
num 
tom 
srio. 
Mudei 
rapidamente 
de 
assunto 
e 
disse 
que 
outra 
nuance 
de 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
que 
merecia 
ser 
mencionada 
devia-se 
ao 
fato 
de 
me 
ver 
dormindo 
a 
sono 
solto. 
Aquela 
viso 
era 
sempre 
to 
espantosa 
que 
me 
grudava 
no 
lugar 
at 
que 
o 
sonho 
mudasse, 
ou 
ento 
me 
assustava 
to 
profundamente 
a 
ponto 
de 
me 
fazer 
acordar, 
gritando 
a 
plenos 
pulmes. 
Eu 
chegara 
ao 
ponto 
de 
ter 
medo 
de 
dormir 
nos 
dias 
em 
que 
sabia 
que 
teria 
aquele 
sonho. 


 
Voc 
ainda 
no 
est 
verdadeiramente 
pronto 
para 
fundir 
sua 
realidade 
de 
sonho 
com 
sua 
realidade 
cotidiana. 
Precisa 
recapitular 
mais 
a 
sua 
vida. 
 
Mas 
eu 
j 
fiz 
toda 
a 
recapitulao 
possvel 
 
protestei. 
 
Venho 
recapitulando 
h 
anos. 
No 
h 
mais 
nada 
que 
eu 
possa 
lembrar 
sobre 
minha 
vida. 


 
Deve 
haver 
muito 
mais 
 
ele 
disse, 
inflexvel. 
 
De 
outro 
modo 
no 
acordaria 
gritando. 
No 
gostei 
da 
idia 
de 
ter 
de 
recapitular 
outra 
vez. 
Eu 
tinha 
feito 
isso, 
e 
acreditava 
que 
fizera 
to 
bem 
que 
no 
precisaria 
nunca 
mais 
tocar 
no 
assunto. 


#
 
A 
recapitulao 
de 
nossa 
vida 
nunca 
termina, 
no 
importa 
que 
tenhamos 
recapitulado 
direito 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
O 
motivo 
das 
pessoas 
comuns 
no 
terem 
vontade 
prpria 
nos 
sonhos 
 
nunca 
terem 
recapitulado, 
e 
suas 
vidas 
ficam 
cheias 
at 
a 
borda 
de 
emoes 
como 
lembranas, 
esperanas, 
medos 
etc. 
etc. 
Os 
feiticeiros, 
por 
outro 
lado, 
so 
relativamente 
livres 
de 
emoes 
pesadas 
e 
opressivas, 
por 
causa 
da 
recapitulao. 
E 
se 
alguma 
coisa 
faz 
com 
que 
eles 
fiquem 
bloqueados, 
como 
est 
acontecendo 
com 
voc, 
a 
suposio 
 
que 
ainda 
existe 
alguma 
coisa 
neles 
que 
no 
est 
suficientemente 
clara. 


 
Recapitular 
 
um 
negcio 
envolvente 
demais, 
Dom 
Juan, 
Talvez 
exista 
alguma 
outra 
coisa 
que 
eu 
possa 
fazer. 
 
No, 
no 
existe. 
Recapitular 
e 
sonhar 
andam 
lado 
a 
lado. 
 
medida 
que 
regurgitamos 
nossas 
vidas 
ns 
ficamos 
mais 
e 
mais 
leves. 
Dom 
Juan 
me 
dera 
instrues 
detalhadas 
e 
explcitas 
sobre 
a 
recapitulao. 
Consistia 
em 
reviver 
a 
totalidade 
das 
experincias 
de 
vida 
lembrando-se 
de 
cada 
detalhe 
possvel. 
Ele 
via 
a 
recapitulao 
como 
o 
fator 
essencial 
na 
redefinio 
e 
reestruturao 
da 
energia 
do 
sonhador. 


 
A 
recapitulao 
liberta 
a 
energia 
aprisionada 
dentro 
de 
ns, 
e 
sem 
essa 
energia 
liberada 
o 
sonhar 
no 
 
possvel. 
Anos 
antes 
Dom 
Juan 
me 
levara 
a 
fazer 
uma 
lista 
de 
todas 
as 
pessoas 
que 
conhecera 
na 
vida, 
comeando 
no 
presente. 
Ele 
me 
ajudou 
a 
arrumar 
a 
lista 
de 
modo 
ordenado, 
separando-a 
por 
reas 
de 
atividade, 
como 
os 
empregos 
que 
eu 
tivera, 
as 
escolas 
onde 
estudara. 
Em 
seguida 
guiou-me 
para 
ir, 
sem 
qualquer 
desvio, 
da 
primeira 
pessoa 
em 
minha 
lista 
at 
a 
ltima, 
revivendo 
cada 
uma 
das 
interaes 
que 
eu 
tivera 
com 
elas. 


Explicou 
que 
a 
recapitulao 
de 
um 
evento 
comea 
com 
a 
mente 
arrumando 
tudo 
que 
tem 
a 
ver 
com 
o 
que 
est 
sendo 
recapitulado. 
Arrumar 
significa 
reconstruir 
o 
evento, 
pea 
por 
pea, 
comeando 
pela 
lembrana 
dos 
detalhes 
fsicos 
ao 
redor, 
e 
em 


#
seguida 
passando 
 
pessoa 
com 
quem 
compartilhamos 
a 
interao, 
e 
em 
seguida 
para 
ns 
mesmos; 
para 
o 
exame 
de 
nossos 
sentimentos. 


Dom 
Juan 
me 
ensinou 
que 
a 
recapitulao 
 
realizada 
junto 
com 
uma 
respirao 
natural 
e 
rtmica. 
So 
feitas 
longas 
expiraes 
enquanto 
a 
cabea 
se 
move 
devagar 
e 
suavemente 
da 
direita 
para 
a 
esquerda; 
e 
so 
tomadas 
longas 
inalaes 
quando 
a 
cabea 
se 
move 
da 
esquerda 
para 
a 
direita. 
Ele 
chamava 
de 
arejar 
o 
evento, 
esse 
ato 
de 
mover 
a 
cabea 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro. 
A 
mente 
examina 
o 
evento 
do 
princpio 
ao 
fim, 
enquanto 
o 
corpo 
ventila 
tudo 
em 
que 
a 
mente 
se 
concentra. 


Dom 
Juan 
disse 
que 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
os 
inventores 
da 
recapitulao, 
viam 
a 
respirao 
como 
um 
ato 
mgico, 
vivificante, 
e 
usavam-na 
como 
um 
veculo 
de 
magia; 
a 
expirao 
era 
usada 
para 
ejetar 
a 
energia 
estranha 
deixada 
neles 
enquanto 
a 
interao 
era 
recapitulada, 
e 
a 
inalao 
servia 
para 
recuperar 
a 
energia 
que 
eles 
tinham 
deixado 
para 
trs 
durante 
a 
interao. 


Devido 
ao 
meus 
estudos 
acadmicos 
eu 
tomei 
a 
recapitulao 
como 
o 
processo 
de 
analisar 
a 
prpria 
vida. 
Mas 
Dom 
Juan 
insistiu 
que 
havia 
mais 
coisa 
envolvida 
do 
que 
uma 
psicanlise 
intelectual. 
Ele 
postulava 
a 
recapitulao 
como 
uma 
manobra 
dos 
feiticeiros 
para 
induzir 
um 
deslocamento 
minsculo, 
porm 
firme, 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Disse 
que, 
sob 
o 
impacto 
de 
rever 
sentimentos 
e 
aes 
do 
passado, 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
fica 
indo 
e 
voltando 
do 
posicionamento 
atual 
para 
o 
que 
ele 
ocupava 
quando 
aconteceu 
o 
evento 
que 
est 
sendo 
recapitulado. 


Dom 
Juan 
afirmava 
que 
o 
raciocnio 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
para 
explicar 
a 
recapitulao, 
era 
sua 
convico 
de 
que 
existe 
uma 
inconcebvel 
fora 
de 
dissoluo 
no 
universo, 
que 
faz 
os 
organismos 
viverem 
emprestando-lhes 
conscincia. 
A 
mesma 
fora 
tambm 
faz 
os 
organismos 
morrerem, 
para 
extrair 
deles 
a 
mesma 
conscincia 
emprestada, 
que 
os 
organismos 
aprimoraram 
atravs 
de 
suas 
experincias 
de 
vida. 
Dom 
Juan 
explicou 
o 
raciocnio 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Eles 
acreditavam 
que, 
como 
essa 
fora 
estava 
atrs 
de 
nossa 


#
experincia 
de 
vida, 
era 
de 
suprema 
importncia 
o 
fato 
de 
que 
ela 
poderia 
se 
satisfazer 
com 
um 
fac-smile 
de 
nossa 
experincia 
de 
vida: 
a 
recapitulao. 
Ao 
receber 
o 
que 
deseja, 
a 
fora 
de 
dissoluo 
deixa 
os 
feiticeiros 
livres 
para 
expandir 
sua 
capacidade 
de 
perceber 
e 
de 
chegar 
com 
ela 
aos 
confins 
do 
tempo 
e 
do 
espao. 


Quando 
comecei 
a 
recapitular 
de 
novo 
tive 
a 
grande 
surpresa 
de 
ver 
meus 
treinamentos 
de 
sonhar 
suspensos 
automaticamente. 
Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
esse 
recesso 
indesejado. 


 
O 
sonhar 
exige 
toda 
a 
energia 
disponvel 
 
respondeu 
ele. 
 
Se 
houver 
uma 
preocupao 
profunda 
em 
sua 
vida, 
no 
existe 
possibilidade 
de 
sonhar. 


 
Mas 
eu 
j 
estive 
profundamente 
preocupado 
antes, 
e 
meus 
treinamentos 
nunca 
se 
interromperam. 
 
Pode 
ser 
ento 
que, 
toda 
vez 
que 
voc 
achou 
que 
estava 
preocupado, 
estivesse 
apenas 
egomaniacamente 
perturbado 
 
ele 
disse 
rindo. 
 
Para 
os 
feiticeiros, 
estar 
preocupado 
significa 
que 
todas 
as 
nossas 
fontes 
de 
energia 
foram 
utilizadas. 
Essa 
 
a 
primeira 
vez 
que 
voc 
envolve 
a 
totalidade 
de 
suas 
fontes 
de 
energia. 
No 
resto 
do 
tempo, 
mesmo 
quando 
recapitulou 
antes, 
voc 
no 
estava 
completamente 
absorvido. 
Dessa 
vez 
Dom 
Juan 
me 
deu 
outro 
padro 
de 
recapitulao. 
Eu 
deveria 
construir 
um 
quebra-cabea 
recapitulando, 
sem 
qualquer 
ordem, 
diferentes 
fatos 
de 
minha 
vida. 


 
Mas 
vai 
ser 
uma 
confuso 
 
protestei. 
 
No, 
no 
vai 
 
ele 
assegurou. 
 
Ser 
uma 
confuso 
se 
voc 
deixar 
sua 
mesquinharia 
escolher 
os 
eventos 
a 
serem 
recapitulados. 
Em 
vez 
disso 
deixe 
o 
esprito 
decidir. 
Silencie, 
e 
em 
seguida 
v 
at 
o 
evento 
que 
o 
esprito 
escolher. 
Os 
resultados 
desse 
padro 
de 
recapitulao 
foram 
chocantes 
em 
muitos 
nveis. 
Achei 
impressionante 
descobrir 
que, 
toda 
vez 
que 
silenciava 
meus 
pensamentos, 
uma 
fora 
que 
parecia 
independente 
lanava-me 
de 
imediato 
numa 
lembrana 
detalhada 
de 
algum 
evento 
de 
minha 
vida. 
Mas 
foi 
ainda 
mais 
impressionante 
descobrir 
que 


#
daquilo 
resultava 
uma 
configurao 
bastante 
ordenada. 
O 
que 
imaginei 
que 
seria 
catico 
acabou 
mostrando-se 
extremamente 
eficaz. 


Perguntei 
a 
Dom 
Juan 
por 
que 
ele 
no 
me 
fizera 
recapitular 
daquele 
jeito 
desde 
o 
incio. 
Ele 
respondeu 
que 
existem 
dois 
ciclos 
bsicos 
para 
a 
recapitulao: 
o 
primeiro 
era 
chamado 
de 
formalidade 
e 
rigidez, 
e 
o 
segundo 
de 
fluidez. 


Eu 
no 
tinha 
a 
menor 
idia 
de 
como 
minha 
recapitulao 
seria 
diferente. 
A 
capacidade 
de 
concentrao, 
que 
eu 
adquirira 
atravs 
dos 
treinamentos 
de 
sonhar, 
permitiu-me 
examinar 
minha 
vida 
numa 
profundidade 
que 
nunca 
imaginaria 
possvel. 
Demorei 
mais 
de 
um 
ano 
para 
ver 
e 
rever 
tudo 
que 
podia 
sobre 
minhas 
experincias. 
No 
final 
precisei 
concordar 
com 
Dom 
Juan: 
eu 
tinha 
uma 
imensido 
de 
emoes 
escondidas 
to 
profundamente 
a 
ponto 
de 
se 
tornarem 
virtualmente 
inacessveis. 


O 
resultado 
de 
minha 
nova 
recapitulao 
foi 
uma 
atitude 
nova 
e 
mais 
relaxada. 
No 
primeiro 
dia 
em 
que 
voltei 
aos 
exerccios 
de 
sonhar 
eu 
sonhei 
que 
me 
vi 
dormindo. 
Virei-me 
e 
sa 
ousadamente 
do 
quarto, 
descendo 
penosamente 
um 
lance 
de 
escadas 
at 
a 
rua. 


Eu 
estava 
exaltado 
com 
o 
que 
fizera, 
e 
contei 
a 
Dom 
Juan. 
Meu 
desapontamento 
foi 
enorme 
quando 
ele 
no 
considerou 
esse 
sonho 
como 
parte 
de 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 
Argumentou 
que 
eu 
no 
fora 
para 
a 
rua 
com 
meu 
corpo 
energtico 
porque, 
se 
fosse, 
teria 
uma 
sensao 
diferente, 
no 
a 
de 
descer 
um 
lance 
de 
escadas. 


 
De 
que 
tipo 
de 
sensao 
est 
falando, 
Dom 
Juan? 
 
perguntei 
com 
curiosidade 
genuna. 


 
Voc 
precisa 
estabelecer 
uma 
diretriz 
vlida 
para 
descobrir 
se 
est 
ou 
no 
vendo 
de 
fato 
seu 
corpo 
dormindo 
na 
cama 
 
ele 
disse 
em 
vez 
de 
responder 
 
minha 
pergunta. 
 
Lembre-se, 
voc 
precisa 
se 
encontrar 
no 
quarto 
em 
que 
est 
dormindo, 
vendo 
o 
seu 
corpo 
de 
verdade. 
De 
outro 
modo, 
o 
que 
est 
tendo 
 
um 
mero 
sonho. 
Se 
for 
esse 
o 
caso, 
controle 
o 
sonho, 
observando 
os 
seus 
detalhes 
ou 
mudando-o. 
#
Insisti 
para 
que 
falasse 
mais 
sobre 
a 
diretriz 
vlida 
 
qual 
se 
referira, 
mas 
ele 
me 
interrompeu: 


 
Imagine 
um 
meio 
de 
validar 
o 
fato 
de 
que 
est 
olhando 
para 
voc 
mesmo. 
 
Voc 
tem 
alguma 
sugesto 
sobre 
o 
que 
pode 
ser 
uma 
diretriz 
vlida? 
 
insisti. 
 
Use 
seu 
prprio 
julgamento. 
Estamos 
chegando 
ao 
fim 
de 
nosso 
perodo 
juntos. 
Logo 
logo 
voc 
ter 
de 
ficar 
sozinho. 
Em 
seguida 
mudou 
de 
assunto 
e 
fui 
deixado 
com 
o 
gosto 
ntido 
de 
minha 
inpcia. 
Sentia-me 
incapaz 
de 
imaginar 
o 
que 
ele 
desejava, 
ou 
o 
que 
queria 
dizer 
com 
uma 
diretriz 
vlida. 


No 
prximo 
sonho 
em 
que 
me 
vi 
dormindo, 
em 
vez 
de 
sair 
do 
quarto 
e 
descer 
as 
escadas 
ou 
de 
acordar 
gritando, 
fiquei 
grudado 
por 
longo 
tempo 
ao 
ponto 
de 
onde 
olhava. 
Sem 
me 
queixar 
ou 
desesperar, 
observei 
os 
detalhes 
do 
sonho. 
Percebi 
ento 
que 
dormia 
usando 
uma 
camiseta 
branca 
rasgada 
no 
ombro. 
Tentei 
chegar 
mais 
perto 
e 
observar 
o 
rasgo, 
mas 
movimentar-me 
estava 
alm 
de 
minhas 
possibilidades. 
Senti 
um 
peso 
que 
parecia 
fazer 
parte 
do 
meu 
prprio 
ser. 
De 
fato, 
eu 
era 
um 
peso. 
No 
sabendo 
o 
que 
fazer 
em 
seguida, 
entrei 
instantaneamente 
numa 
confuso 
devastadora. 
Tentei 
mudar 
de 
sonho, 
mas 
alguma 
fora 
estranha 
fez 
com 
que 
eu 
continuasse 
olhando 
meu 
corpo 
adormecido. 


Em 
meio 
 
confuso, 
ouvi 
o 
emissrio 
do 
sonho 
dizer 
que 
a 
falta 
de 
controle 
para 
me 
movimentar 
estava 
me 
apavorando 
ao 
ponto 
de 
eu 
talvez 
precisar 
fazer 
outra 
recapitulao. 
A 
voz 
do 
emissrio, 
e 
o 
que 
ele 
me 
disse 
no 
me 
surpreenderam 
nem 
um 
pouco. 
Eu 
nunca 
me 
sentira 
to 
ntida 
e 
terrivelmente 
incapacitado 
de 
me 
mover. 
Mas 
no 
me 
entreguei 
ao 
terror. 
Examinei-o, 
e 
descobri 
que 
no 
era 
um 
terror 
psicolgico, 
e 
sim 
uma 
sensao 
fsica 
de 
impotncia, 
impacincia 
e 
aborrecimento. 
Eu 
estava 
imensamente 
chateado 
por 
no 
poder 
mover 
os 
membros. 
Meu 
aborrecimento 
cresceu 
na 
proporo 
em 
que 
percebia 
ter 
sido 
preso 
brutalmente 
por 
alguma 
coisa 
externa. 
O 
esforo 
que 
eu 
fazia 
para 
mover 
os 


#
braos 
ou 
as 
pernas 
era 
to 
intenso 
e 
decidido 
que 
num 
determinado 
momento 
vi 
a 
perna 
de 
meu 
corpo, 
dormindo 
na 
cama, 
subir 
como 
se 
estivesse 
chutando. 


Nesse 
momento 
minha 
conscincia 
foi 
puxada 
para 
o 
corpo 
inerte 
e 
adormecido, 
e 
acordei 
com 
tamanha 
fora 
que 
demorei 
mais 
de 
meia 
hora 
para 
ficar 
calmo. 
Meu 
corao 
batia 
quase 
que 
erraticamente. 
Eu 
tremia, 
e 
alguns 
msculos 
das 
pernas 
se 
contraam 
involuntariamente. 
Eu 
sofrera 
uma 
queda 
to 
radical 
na 
temperatura 
do 
corpo 
que 
precisei 
de 
cobertores 
e 
bolsas 
de 
gua 
quente 
para 
faz-la 
subir. 


Naturalmente 
fui 
para 
o 
Mxico 
pedir 
conselho 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
a 
sensao 
de 
paralisia, 
e 
sobre 
o 
fato 
de 
que 
eu 
realmente 
estivera 
usando 
uma 
camiseta 
rasgada, 
de 
modo 
que 
vira 
realmente 
meu 
corpo 
adormecido. 
Alm 
disso 
eu 
estava 
morto 
de 
medo 
da 
hipotermia. 
Ele 
mostrou-se 
relutante 
em 
discutir 
a 
situao. 
Tudo 
que 
obtive 
foi 
uma 
observao 
custica. 


 
Voc 
gosta 
de 
um 
drama 
 
falou 
num 
tom 
inexpressivo. 
 
Claro 
que 
voc 
se 
viu 
dormindo. 
O 
problema 
 
que 
ficou 
nervoso, 
porque 
seu 
corpo 
energtico 
nunca 
estivera 
antes 
conscientemente 
inteiro. 
Se 
ficar 
nervoso 
de 
novo, 
segure 
o 
seu 
pau. 
Isso 
vai 
restaurar 
a 
temperatura 
do 
corpo 
num 
instante 
e 
sem 
nenhuma 
confuso. 


Senti-me 
um 
tanto 
ofendido 
por 
sua 
grosseria. 
Mas 
o 
conselho 
mostrou-se 
eficaz. 
Na 
prxima 
em 
que 
me 
senti 
apavorado, 
relaxei 
e 
voltei 
ao 
normal 
em 
alguns 
minutos 
fazendo 
o 
que 
ele 
prescrevera. 
Desse 
modo 
descobri 
que, 
se 
no 
ficasse 
impaciente 
e 
mantivesse 
o 
aborrecimento 
sob 
guarda, 
no 
entrava 
em 
pnico. 
Ficar 
controlado 
no 
me 
ajudava 
a 
me 
movimentar, 
mas 
certamente 
dava 
uma 
profunda 
sensao 
de 
paz 
e 
serenidade. 


Aps 
meses 
de 
esforos 
inteis 
para 
andar, 
busquei 
outra 
vez 
os 
comentrios 
de 
Dom 
Juan, 
dessa 
vez 
no 
tanto 
em 
busca 
de 
conselho, 
mas 
porque 
desejava 
admitir 
pessoalmente 
a 
derrota. 
Encontrava-me 
diante 
de 
uma 
barreira 
intransponvel, 
e 
sabia 
com 
certeza 
absoluta 
que 
havia 
fracassado. 


#
 
Os 
sonhadores 
precisam 
ser 
imaginativos 
 
Dom 
Juan 
disse 
com 
um 
riso 
malicioso. 
 
Voc 
no 
. 
Eu 
no 
o 
avisei 
sobre 
o 
uso 
da 
imaginao 
para 
movimentar 
o 
corpo 
energtico 
porque 
desejava 
descobrir 
se 
voc 
resolveria 
sozinho 
a 
charada. 
No 
resolveu, 
e 
seus 
amigos 
tambm 
no 
o 
ajudaram. 
No 
passado 
eu 
me 
defendia 
arduamente 
sempre 
que 
ele 
me 
acusava 
de 
falta 
de 
imaginao. 
Eu 
achava 
que 
era 
uma 
pessoa 
imaginativa, 
mas 
ter 
Dom 
Juan 
como 
professor 
me 
ensinou, 
do 
modo 
mais 
difcil, 
que 
no 
era. 
Como 
no 
iria 
gastar 
energia 
numa 
autodefesa 
ftil, 
perguntei: 


 
Que 
charada 
 
essa, 
Dom 
Juan? 
 
A 
charada 
sobre 
como 
 
impossvel, 
e 
ao 
mesmo 
tempo 
fcil, 
mover 
o 
corpo 
energtico. 
Voc 
est 
tentando 
mov-lo 
como 
se 
estivesse 
no 
mundo 
cotidiano. 
Ns 
gastamos 
tanto 
tempo 
e 
esforo 
aprendendo 
a 
andar, 
que 
acreditamos 
que 
nosso 
corpo 
energtico 
tambm 
deva 
andar. 
No 
h 
motivo 
para 
isso, 
a 
no 
ser 
que 
andar 
vem 
em 
primeiro 
lugar 
na 
nossa 
mente. 
Fiquei 
maravilhado 
com 
a 
simplicidade 
da 
soluo. 
Soube 
instantaneamente 
que 
Dom 
Juan 
estava 
certo. 
Mais 
uma 
vez 
eu 
ficara 
preso 
no 
nvel 
de 
interpretao. 
Ele 
dissera 
para 
eu 
me 
mover 
assim 
que 
chegasse 
ao 
terceiro 
porto 
do 
sonhar, 
e 
me 
mover 
significava 
andar. 
Falei 
que 
havia 
compreendido 
sua 
idia. 


 
No 
 
minha 
idia 
 
ele 
respondeu 
rapidamente. 
 
 
idia 
dos 
feiticeiros. 
Os 
feiticeiros 
dizem 
que, 
no 
terceiro 
porto, 
todo 
o 
corpo 
energtico 
pode 
se 
mover 
como 
a 
energia 
se 
move: 
rpida 
e 
diretamente. 
Seu 
corpo 
energtico 
sabe 
exatamente 
como 
se 
movimentar. 
Ele 
pode 
se 
movimentar 
como 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
E 
isso 
nos 
traz 
 
prxima 
questo 
 
Dom 
Juan 
acrescentou 
pensativo. 
 
Por 
que 
os 
seus 
amigos, 
os 
seres 
inorgnicos, 
no 
o 
ajudaram? 


 
Por 
que 
os 
chama 
de 
meus 
amigos, 
Dom 
Juan? 
 
Eles 
so 
como 
os 
clssicos 
amigos 
que 
no 
so 
amveis 
ou 
#
gentis 
conosco, 
mas 
que 
tambm 
no 
so 
maus. 
O 
tipo 
de 
amigo 
que 
est 
somente 
esperando 
que 
viremos 
as 
costas, 
para 
que 
possam 
enfiar 
a 
faca. 


Compreendi 
completamente 
e 
concordei 
em 
cem 
por 
cento. 


 
O 
que 
me 
faz 
ir 
at 
l? 
Ser 
uma 
tendncia 
suicida? 
 
perguntei 
mais 
retoricamente 
do 
que 
qualquer 
coisa. 


 
Voc 
no 
tem 
nenhuma 
tendncia 
suicida. 
Tem 
uma 
descrena 
total 
de 
que 
esteve 
perto 
da 
morte. 
Como 
no 
sentiu 
dor 
fsica, 
no 
pode 
se 
convencer 
de 
que 
esteve 
em 
perigo 
mortal. 
Seu 
argumento 
era 
razovel, 
s 
que 
eu 
acreditava 
que 
um 
medo 
profundo 
e 
desconhecido 
estava 
governando 
minha 
vida 
desde 
a 
batalha 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
Dom 
Juan 
ouviu 
em 
silncio 
enquanto 
eu 
descrevia 
minha 
situao. 
Eu 
no 
podia 
descartar 
ou 
explicar 
a 
nsia 
de 
ir 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
a 
despeito 
do 
que 
sabia 
sobre 
ele. 


 
Eu 
tenho 
algum 
trao 
de 
loucura 
 
falei. 
 
O 
que 
fao 
no 
tem 
sentido. 
 
Tem 
sim. 
Os 
seres 
inorgnicos 
continuam 
atraindo-o, 
como 
um 
peixe 
fisgado 
na 
ponta 
da 
linha. 
De 
vez 
em 
quando 
eles 
mandam 
uma 
isca 
sem 
valor, 
para 
mant-lo 
assim. 
Arranjar 
os 
seus 
sonhos 
para 
que 
aconteam 
a 
cada 
quatro 
dias 
sem 
falhar 
 
uma 
isca 
sem 
valor. 
Mas 
eles 
no 
ensinaram 
como 
movimentar 
seu 
corpo 
energtico. 
 
Por 
que 
acha 
que 
eles 
no 
ensinaram? 
 
Porque 
quando 
seu 
corpo 
energtico 
aprender 
a 
se 
movimentar 
sozinho 
voc 
estar 
totalmente 
fora 
do 
alcance 
deles. 
Voc 
est 
relativamente 
livre, 
mas 
no 
completamente. 
Eles 
ainda 
esto 
fazendo 
ofertas 
pela 
sua 
conscincia. 
Senti 
um 
arrepio 
na 
espinha. 
Ele 
tocara 
num 
ponto 
sensvel. 


 
Diga-me 
o 
que 
fazer, 
Dom 
Juan, 
e 
eu 
farei. 
 
Seja 
impecvel. 
J 
falei 
isso 
dezenas 
de 
vezes. 
Ser 
impecvel 
significa 
acertar 
sua 
vida, 
objetivando 
reforar 
suas 
decises, 
e 
em 
seguida 
dar 
muito 
mais 
do 
que 
o 
mximo 
de 
si 
para 
realizar 
essas 
#
decises. 
Quando 
a 
gente 
no 
est 
decidindo 
nada, 
est 
meramente 
jogando 
roleta 
com 
a 
vida. 


Dom 
Juan 
encerrou 
a 
conversa 
insistindo 
para 
que 
eu 
ponderasse 
sobre 
o 
que 
ele 
dissera. 


Na 
primeira 
oportunidade 
segui 
a 
sugesto 
de 
Dom 
Juan, 
testando 
os 
movimentos 
de 
meu 
corpo 
energtico. 
Ao 
ver 
meu 
corpo 
dormindo, 
em 
vez 
de 
lutar 
para 
ir 
andando 
at 
ele, 
simplesmente 
desejei 
mover-me 
para 
perto 
da 
cama. 
Instantaneamente 
eu 
estava 
quase 
tocando 
meu 
corpo. 
Vi 
meu 
rosto. 
Na 
verdade 
podia 
ver 
cada 
poro 
de 
minha 
pele. 
No 
posso 
dizer 
que 
gostei. 
A 
viso 
do 
meu 
corpo 
era 
detalhada 
demais 
para 
ser 
esteticamente 
agradvel. 
Ento 
entrou 
no 
quarto 
uma 
espcie 
de 
vento, 
desarrumando 
tudo 
e 
apagando 
minha 
viso. 


Nos 
sonhos 
seguintes 
confirmei 
totalmente 
o 
fato 
de 
que 
as 
nicas 
maneiras 
do 
corpo 
inorgnico 
se 
mover 
so 
deslizando 
ou 
voando. 
Discuti 
isso 
com 
Dom 
Juan. 
Ele 
pareceu 
extraordinariamente 
satisfeito 
com 
o 
que 
eu 
fizera; 
o 
que, 
sem 
dvida, 
me 
surpreendeu. 
Eu 
estava 
acostumado 
 
sua 
reao 
fria 
a 
qualquer 
coisa 
que 
eu 
realizasse 
em 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 


 
Seu 
corpo 
energtico 
s 
est 
acostumado 
a 
se 
mover 
quando 
alguma 
coisa 
o 
puxa 
 
disse 
ele. 
 
Os 
seres 
inorgnicos 
vm 
puxando 
seu 
corpo 
energtico 
para 
a 
esquerda 
e 
para 
a 
direita, 
e 
at 
agora 
voc 
nunca 
o 
tinha 
movimentado 
por 
vontade 
prpria. 
Para 
voc 
no 
parece 
muita 
coisa 
ter-se 
movimentado 
como 
se 
movimentou, 
mas 
posso 
assegurar 
que 
eu 
estava 
seriamente 
considerando 
a 
idia 
de 
interromper 
seus 
exerccios. 
Por 
algum 
tempo 
acreditei 
que 
voc 
no 
aprenderia 
a 
se 
movimentar 
sozinho. 
 
Estava 
considerando 
a 
idia 
de 
interromper 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
porque 
sou 
lento? 
 
Voc 
no 
 
lento. 
Os 
feiticeiros 
levam 
um 
tempo 
infinito 
para 
aprender 
a 
movimentar 
o 
corpo 
energtico. 
Eu 
ia 
interromper 
seus 
exerccios 
porque 
no 
tenho 
mais 
tempo. 
Existem 
outros 
tpicos, 
mais 
prementes 
do 
que 
o 
sonhar, 
onde 
voc 
pode 
usar 
sua 
energia. 
#
 
Agora 
que 
aprendi 
como 
mover 
sozinho 
o 
corpo 
energtico, 
o 
que 
mais 
devo 
fazer, 
Dom 
Juan? 
 
Continue 
se 
movimentando. 
Mover 
seu 
corpo 
energtico 
abriu 
uma 
nova 
rea, 
uma 
rea 
de 
exploraes 
extraordinrias. 
Voltou 
a 
insistir 
que 
eu 
tivesse 
uma 
idia 
para 
validar 
a 
credibilidade 
dos 
meus 
sonhos; 
aquele 
pedido 
antigo 
no 
pareceu 
to 
estranho 
quanto 
da 
primeira 
vez 
em 
que 
ele 
o 
fizera. 


 
Como 
voc 
sabe, 
ser 
transportado 
por 
um 
batedor 
 
a 
verdadeira 
tarefa 
de 
sonho 
do 
segundo 
porto 
 
explicou 
ele. 
 
 
uma 
coisa 
muito 
sria, 
mas 
no 
to 
sria 
quanto 
forjar 
e 
movimentar 
o 
corpo 
energtico. 
Assim, 
voc 
deve 
certificar-se, 
de 
algum 
modo 
pessoal, 
de 
que 
est 
realmente 
vendo 
voc 
mesmo 
adormecido, 
ou 
se 
est 
meramente 
sonhando 
que 
est 
se 
vendo 
adormecido. 
Sua 
nova 
explorao 
extraordinria 
depende 
de 
realmente 
se 
ver 
dormindo. 
Depois 
de 
muito 
ponderar 
e 
imaginar, 
acreditei 
ter 
pensado 
no 
plano 
certo. 
O 
fato 
de 
ter 
visto 
minha 
camiseta 
rasgada 
num 
dos 
sonhos 
me 
deu 
a 
idia 
para 
uma 
diretriz 
vlida. 
Parti 
do 
pressuposto 
de 
que, 
se 
estivesse 
realmente 
me 
vendo 
dormir, 
tambm 
estaria 
observando 
se 
eu 
estava 
com 
as 
mesmas 
roupas 
com 
as 
quais 
fora 
para 
a 
cama, 
roupas 
que 
eu 
decidira 
mudar 
radicalmente 
a 
cada 
quatro 
dias. 
Confiava 
em 
que, 
nos 
sonhos, 
no 
teria 
qualquer 
dificuldade 
de 
me 
lembrar 
das 
roupas 
que 
estava 
usando 
ao 
ir 
para 
a 
cama; 
a 
disciplina 
que 
eu 
adquirira 
com 
os 
exerccios 
de 
sonhar 
faziam 
com 
que 
eu 
achasse 
ter 
a 
capacidade 
de 
registrar 
coisas 
como 
essa 
e 
record-las 
nos 
sonhos. 


Esforcei-me 
ao 
mximo 
para 
seguir 
essa 
diretriz, 
mas 
os 
resultados 
no 
aconteceram 
como 
eu 
havia 
pensado. 
Eu 
carecia 
do 
controle 
necessrio 
sobre 
a 
ateno 
sonhadora, 
e 
no 
conseguia 
recordar 
direito 
os 
detalhes 
das 
roupas 
com 
as 
quais 
dormira. 
Mesmo 
assim 
havia 
outra 
coisa 
acontecendo; 
de 
algum 
modo 
eu 
sempre 
sabia 
se 
meus 
sonhos 
eram 
apenas 
sonhos 
comuns 
ou 
no. 
A 
principal 
deduo 
dos 
sonhos, 
que 
no 
eram 
apenas 
sonhos 
comuns, 
era 
que 
meu 
corpo 
ficava 
dormindo 
na 
cama 
enquanto 


#
minha 
conscincia 
o 
observava. 


Uma 
caracterstica 
notvel 
desses 
sonhos 
era 
o 
quarto. 
Nunca 
era 
como 
o 
meu 
quarto 
no 
mundo 
cotidiano, 
mas 
um 
enorme 
cmodo 
aberto 
com 
minha 
cama 
num 
dos 
extremos. 
Eu 
costumava 
voar 
uma 
distncia 
considervel 
at 
chegar 
ao 
lado 
da 
cama 
onde 
estava 
meu 
corpo. 
No 
momento 
em 
que 
eu 
chegava 
perto, 
uma 
fora 
que 
parecia 
um 
vento 
fazia 
com 
que 
eu 
pairasse 
acima 
dele, 
como 
um 
beija-flor. 
s 
vezes 
o 
quarto 
desaparecia 
aos 
pedaos 
at 
que 
sobrassem 
apenas 
meu 
corpo 
e 
a 
cama. 
Em 
outras 
vezes 
eu 
costumava 
experimentar 
uma 
completa 
perda 
de 
autodomnio. 
Minha 
ateno 
sonhadora 
parecia 
funcionar 
independente 
de 
mim. 
Era 
completamente 
absorvida 
pelo 
primeiro 
item 
que 
encontrava 
no 
quarto 
ou 
ento 
parecia 
incapaz 
de 
decidir 
o 
que 
fazer. 
Nessas 
circunstncias 
eu 
tinha 
a 
sensao 
de 
estar 
flutuando 
impotente, 
indo 
de 
item 
em 
item. 


A 
voz 
do 
emissrio 
do 
sonho 
me 
explicou 
que 
qualquer 
elemento 
de 
meus 
sonhos, 
que 
no 
eram 
simplesmente 
sonhos 
comuns, 
eram 
na 
verdade 
configuraes 
energticas 
diferentes 
daquelas 
do 
mundo 
normal. 
A 
voz 
do 
emissrio 
observou 
que 
as 
paredes, 
por 
exemplo, 
eram 
lquidas. 
Insistiu 
em 
que 
eu 
mergulhasse 
numa 
delas. 


Sem 
pensar 
duas 
vezes, 
mergulhei 
numa 
parede 
como 
se 
ela 
fosse 
num 
lago 
imenso. 
No 
senti 
a 
parede 
aquosa; 
tambm 
no 
tive 
uma 
sensao 
fsica 
de 
mergulhar 
em 
gua; 
era 
mais 
como 
o 
pensamento 
de 
mergulhar 
e 
a 
sensao 
visual 
de 
atravessar 
matria 
lquida. 
Eu 
estava 
mergulhando 
de 
cabea 
numa 
coisa 
que 
se 
abria 
como 
a 
gua. 


A 
sensao 
de 
mergulhar 
de 
cabea 
era 
to 
real 
que 
comecei 
a 
me 
perguntar 
por 
quanto 
tempo, 
ou 
at 
que 
profundidade, 
eu 
iria. 
De 
meu 
ponto 
de 
vista, 
passei 
uma 
eternidade 
ali. 
Vi 
nuvens 
e 
massas 
rochosas 
de 
matria 
suspensa 
numa 
substncia 
aquosa. 
Havia 
alguns 
objetos 
geomtricos 
brilhantes 
que 
lembravam 
cristais; 
e 
bolhas 
das 
cores 
primrias 
mais 
profundas 
que 
eu 
j 
vira. 
Tambm 


#
havia 
zonas 
de 
luzes 
intensas 
e 
outras 
de 
escurido 
absoluta. 
Tudo 
passava 
por 
mim, 
devagar 
ou 
a 
alta 
velocidade. 
Pensei 
que 
estava 
vendo 
o 
cosmos. 
No 
instante 
desse 
pensamento 
minha 
velocidade 
aumentou 
tanto 
que 
tudo 
ficou 
borrado, 
e 
subitamente 
me 
vi 
acordado 
com 
o 
nariz 
espremido 
contra 
a 
parede 
do 
meu 
quarto. 


Um 
medo 
oculto 
fez 
com 
que 
eu 
fosse 
consultar 
Dom 
Juan. 
Ele 
ouviu, 
atento, 
cada 
palavra. 


 
Nesse 
ponto 
voc 
precisa 
fazer 
uma 
manobra 
drstica 
 
disse 
ele. 
 
O 
emissrio 
do 
sonho 
no 
tem 
nada 
que 
interferir 
em 
seus 
exerccios. 
Ou 
melhor, 
voc 
no 
deveria, 
sob 
qualquer 
condio, 
permitir 
isso. 


 
Como 
posso 
impedir? 
 
Faa 
uma 
manobra 
simples, 
porm 
difcil. 
Depois 
de 
comear 
a 
sonhar, 
verbalize 
em 
voz 
alta 
seu 
desejo 
de 
no 
contar 
mais 
com 
o 
emissrio 
do 
sonho. 
 
Isso 
significa, 
Dom 
Juan, 
que 
nunca 
mais 
vou 
ouvi-lo? 
 
Positivamente. 
Voc 
vai 
se 
livrar 
dele 
para 
sempre. 
 
Mas 
 
aconselhvel 
me 
livrar 
dele 
para 
sempre? 
 
Sem 
a 
menor 
dvida, 
na 
atual 
conjuntura. 
Com 
essas 
palavras 
ele 
me 
envolveu 
num 
dilema 
tremendamente 
perturbador. 
Eu 
no 
queria 
encerrar 
meu 
relacionamento 
com 
o 
emissrio, 
e 
ao 
mesmo 
tempo 
queria 
seguir 
o 
conselho 
de 
Dom 
Juan. 
Ele 
percebeu 
minha 
hesitao. 


 
Sei 
que 
 
uma 
coisa 
muito 
difcil. 
Mas 
se 
voc 
no 
fizer 
isso, 
os 
seres 
inorgnicos 
vo 
t-lo 
sempre 
na 
ponta 
da 
linha. 
Se 
quiser 
evitar 
isso, 
faa 
o 
que 
eu 
disse, 
e 
faa 
agora 
mesmo. 
Enquanto 
me 
preparava 
para 
expressar 
meu 
intento, 
durante 
o 
prximo 
exerccio 
de 
sonhar, 
a 
voz 
do 
emissrio 
me 
interrompeu. 
Falou: 


 
Se 
voc 
no 
fizer 
essa 
exigncia, 
eu 
prometo 
nunca 
interferir 
em 
seus 
exerccios 
de 
sonhar, 
e 
falar 
apenas 
quando 
voc 
me 
fizer 
perguntas 
diretas. 
No 
mesmo 
instante 
aceitei 
a 
proposta 
e 
sinceramente 
achei 
que 


#
era 
um 
bom 
acordo. 
Fiquei 
at 
mesmo 
aliviado 
pela 
coisa 
ter 
tomado 
esse 
rumo. 
Mas 
senti 
medo 
de 
que 
Dom 
Juan 
ficasse 
desapontado. 


 
Foi 
uma 
boa 
manobra 
 
ele 
observou 
e 
riu. 
 
Voc 
foi 
sincero: 
realmente 
pretendia 
verbalizar 
a 
exigncia. 
Tudo 
o 
que 
era 
necessrio 
era 
ser 
sincero. 
Essencialmente 
no 
havia 
necessidade 
de 
voc 
eliminar 
o 
emissrio. 
O 
importante 
era 
obrig-lo 
a 
propor 
um 
modo 
alternativo, 
conveniente 
para 
voc. 
Tenho 
certeza 
de 
que 
o 
emissrio 
no 
vai 
mais 
interferir. 
Ele 
estava 
certo. 
Continuei 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
sem 
qualquer 
interferncia 
do 
emissrio. 
A 
conseqncia 
notvel 
foi 
que 
comecei 
a 
ter 
sonhos 
onde 
o 
quarto 
era 
o 
mesmo 
quarto 
do 
mundo 
cotidiano, 
com 
uma 
diferena: 
nos 
sonhos 
meu 
quarto 
estava 
sempre 
to 
deformado, 
to 
distorcido, 
que 
parecia 
uma 
gigantesca 
pintura 
cubista; 
ngulos 
agudos 
e 
obtusos 
eram 
a 
regra, 
em 
vez 
dos 
ngulos 
retos 
normais 
nas 
paredes, 
no 
teto 
e 
no 
cho. 
Em 
meu 
quarto 
retorcido 
a 
prpria 
deformao 
criada 
pelos 
ngulos 
agudos 
e 
obtusos 
era 
um 
dispositivo 
para 
destacar 
algum 
detalhe 
absurdo, 
suprfluo, 
porm 
real. 
As 
linhas 
intrincadas 
no 
cho 
de 
madeira 
de 
lei, 
por 
exemplo, 
ou 
as 
descoloraes 
causadas 
pelo 
tempo 
na 
pintura 
das 
paredes, 
ou 
marcas 
de 
poeira 
no 
teto, 
ou 
impresses 
digitais 
na 
beirada 
de 
uma 
porta. 


Naqueles 
sonhos 
eu 
inevitavelmente 
me 
perdia 
nos 
universos 
aquticos 
do 
detalhe 
apontado 
pela 
distoro. 
Durante 
todo 
o 
exerccio 
de 
sonhar 
a 
profuso 
de 
detalhes 
no 
quarto 
era 
to 
imensa, 
e 
sua 
atrao 
to 
intensa, 
que 
instantaneamente 
me 
faziam 
mergulhar 
neles. 


No 
primeiro 
momento 
livre 
fui 
at 
a 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
consult-lo 
sobre 
isso. 


 
No 
consigo 
ultrapassar 
meu 
quarto 
 
falei 
depois 
de 
dar 
os 
detalhes 
dos 
exerccios. 
 
O 
que 
faz 
voc 
pensar 
que 
deve 
ultrapass-lo? 
 
Ele 
perguntou 
rindo. 
 
Eu 
sinto 
que 
preciso 
me 
mover 
para 
alm 
do 
quarto, 
Dom 
#
Juan. 


 
Mas 
voc 
est 
se 
movendo 
para 
alm 
do 
quarto. 
Talvez 
deva 
se 
perguntar 
se 
no 
est 
outra 
vez 
preso 
em 
interpretaes. 
O 
que 
voc 
acha 
que 
significa 
se 
movimentar, 
neste 
caso? 
Falei 
que 
ter 
andado 
do 
quarto 
at 
a 
rua 
fora 
um 
sonho 
to 
assombroso 
que 
eu 
sentia 
uma 
necessidade 
real 
de 
faz-lo 
de 
novo. 


 
Mas 
desta 
vez 
voc 
est 
fazendo 
coisas 
maiores 
do 
que 
isso 
 
protestou 
ele. 
 
Voc 
est 
indo 
para 
regies 
inacreditveis. 
O 
que 
mais 
quer? 
Tentei 
explicar 
que 
eu 
tinha 
uma 
necessidade 
fsica 
de 
me 
afastar 
da 
armadilha 
do 
detalhe. 
O 
que 
mais 
incomodava 
era 
a 
incapacidade 
de 
me 
libertar 
de 
qualquer 
coisa 
que 
me 
atrasse 
a 
ateno. 
O 
fundamental 
para 
mim 
era 
ter 
um 
mnimo 
de 
vontade 
prpria. 


Seguiu-se 
um 
longo 
silncio. 
Esperei 
ouvir 
mais 
sobre 
a 
armadilha 
do 
detalhe. 
Afinal 
de 
contas, 
ele 
me 
alertara 
sobre 
seus 
perigos. 


 
Voc 
est 
se 
saindo 
bem 
 
finalmente 
ele 
disse. 
 
Os 
sonhadores 
demoram 
muito 
para 
aperfeioar 
seus 
corpos 
energticos. 
E 
 
exatamente 
isso 
que 
est 
em 
jogo: 
aperfeioar 
seu 
corpo 
energtico. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
o 
motivo 
do 
meu 
corpo 
energtico 
ser 
compelido 
a 
examinar 
o 
detalhe 
e 
ficar 
inextricavelmente 
preso 
a 
ele 
devia-se 
 
sua 
inexperincia, 
sua 
incompletude. 
Disse 
que 
os 
feiticeiros 
passam 
a 
vida 
inteira 
completando 
o 
corpo 
energtico, 
deixando 
que 
ele 
absorva 
tudo 
que 
for 
possvel, 
como 
uma 
esponja. 


 
At 
que 
o 
corpo 
energtico 
esteja 
completo 
e 
maduro, 
ele 
 
auto-absorvido 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Ele 
no 
consegue 
se 
libertar 
da 
compulso 
de 
ser 
absorvido 
por 
tudo. 
Mas 
se 
levarmos 
isso 
em 
considerao, 
em 
vez 
de 
lutar 
contra 
o 
corpo 
energtico, 
como 
voc 
est 
fazendo, 
podemos 
ajud-lo. 
 
Como 
posso 
fazer 
isso? 
 
Direcionando 
o 
comportamento 
dele; 
isto 
, 
espreitando-o. 
#
Explicou 
que, 
como 
tudo 
que 
 
relacionado 
ao 
corpo 
energtico 
depende 
do 
posicionamento 
adequado 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
e 
como 
o 
sonhar 
nada 
mais 
 
do 
que 
um 
meio 
de 
desloc-lo, 
espreitar 


 
conseqentemente 
 
 
o 
meio 
de 
fazer 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
fixar-se 
na 
posio 
ideal; 
neste 
caso, 
a 
posio 
onde 
o 
corpo 
energtico 
pode 
ser 
consolidado, 
e 
da 
qual 
ele 
finalmente 
emerge. 
Dom 
Juan 
disse 
que, 
no 
momento 
em 
que 
o 
corpo 
energtico 
consegue 
se 
movimentar 
sozinho, 
os 
feiticeiros 
presumem 
que 
foi 
encontrado 
o 
posicionamento 
ideal 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
O 
passo 
seguinte 
 
espreit-lo, 
isto 
, 
fix-lo 
naquela 
posio 
para 
completar 


o 
corpo 
energtico. 
Observou 
que 
o 
procedimento 
 
de 
uma 
simplicidade 
total. 
Basta 
intentar 
espreit-lo. 
Silncio 
e 
olhares 
de 
expectativa 
seguiram-se 
a 
essa 
afirmao. 
Esperei 
que 
ele 
dissesse 
mais, 
e 
ele 
esperou 
que 
eu 
tivesse 
compreendido 
o 
que 
dissera. 
No 
tinha. 


 
Deixe 
seu 
corpo 
energtico 
intentar 
a 
chegada 
ao 
melhor 
posicionamento 
de 
sonhar 
 
ele 
explicou. 
 
Em 
seguida, 
deixe 
seu 
corpo 
energtico 
intentar 
a 
permanncia 
naquele 
posicionamento, 
e 
voc 
estar 
espreitando. 
Ele 
parou 
e, 
com 
os 
olhos, 
insistiu 
para 
que 
eu 
pensasse 
naquilo. 


 
Intentar 
 
o 
segredo, 
mas 
voc 
j 
sabe 
disso 
 
falou. 
 
Os 
feiticeiros 
deslocam 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
atravs 
do 
intento, 
e 
fixam-no, 
igualmente, 
atravs 
do 
intento. 
E 
no 
existe 
tcnica 
para 
intentar. 
Aprendemos 
a 
intentar 
atravs 
da 
prtica. 
Nesse 
ponto 
era 
inevitvel 
ter 
outras 
de 
minhas 
suposies 
loucas 
sobre 
meu 
valor 
como 
feiticeiro. 
Eu 
tinha 
uma 
confiana 
infinita 
de 
que 
alguma 
coisa 
me 
colocaria 
no 
trilho 
certo 
para 
intentar 
a 
fixao 
de 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
ideal. 
No 
passado 
eu 
realizara, 
sem 
saber 
como, 
todo 
tipo 
de 
manobra 
bem-sucedida. 
O 
prprio 
Dom 
Juan 
ficara 
maravilhado 
com 
minha 
habilidade 
ou 
minha 
sorte, 
e 
eu 
tinha 
certeza 
de 
que 
essa 
seria 
uma 
situao 
assim. 
Estava 
completamente 
enganado. 
No 


#
importando 
o 
que 
eu 
fizesse, 
no 
obtive 
nenhum 
xito 
em 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
qualquer 
posicionamento, 
quanto 
menos 
no 
ideal. 


Depois 
de 
meses 
de 
luta 
sria, 
porm 
infrutfera, 
desisti. 


 
Realmente 
achei 
que 
conseguiria 
 
falei 
a 
Dom 
Juan 
no 
momento 
em 
que 
cheguei 
 
sua 
casa. 
 
Acho 
que 
atualmente 
estou 
mais 
egomanaco 
do 
que 
nunca. 
 
Na 
verdade, 
no 
 
ele 
disse 
com 
um 
sorriso. 
 
O 
que 
acontece 
 
que 
voc 
est 
preso 
a 
outra 
de 
suas 
rotineiras 
interpretaes 
equivocadas 
das 
palavras. 
Voc 
deseja 
encontrar 
o 
posicionamento 
ideal 
como 
se 
estivesse 
encontrando 
as 
chaves 
do 
carro. 
Depois 
quer 
amarrar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
como 
se 
estivesse 
amarrando 
os 
sapatos. 
O 
posicionamento 
ideal 
e 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
so 
metforas. 
No 
tm 
nada 
a 
ver 
com 
as 
palavras 
usadas 
para 
descrev-las. 
Ento 
ele 
pediu 
que 
eu 
contasse 
os 
ltimos 
eventos 
de 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 
A 
primeira 
coisa 
que 
mencionei 
foi 
que 
a 
nsia 
de 
me 
absorver 
havia 
diminudo 
consideravelmente. 
Falei 
que, 
talvez 
porque 
eu 
me 
movimentasse 
compulsiva 
e 
incessantemente 
nos 
sonhos, 
o 
prprio 
movimento 
poderia 
ser 
o 
que 
me 
impedia 
de 
mergulhar 
no 
detalhe. 
Ser 
impedido 
desse 
jeito 
me 
dava 
a 
oportunidade 
de 
examinar 
a 
absoro 
pelo 
detalhe. 
Cheguei 
 
concluso 
de 
que 
a 
matria 
inanimada 
possua 
uma 
fora 
imobilizadora, 
que 
eu 
via 
como 
um 
raio 
de 
luz 
opaca 
que 
me 
mantinha 
preso. 
Por 
exemplo: 
muitas 
vezes 
alguma 
marca 
minscula 
nas 
paredes 
ou 
nos 
veios 
da 
madeira 
do 
piso 
mandava 
uma 
linha 
de 
luz 
que 
me 
transfixava; 
a 
partir 
do 
momento 
em 
que 
minha 
ateno 
sonhadora 
se 
concentrava 
na 
luz, 
todo 
o 
sonho 
girava 
ao 
redor 
daquela 
marca 
minscula. 
Eu 
a 
via 
ampliada 
talvez 
at 
o 
tamanho 
do 
cosmo. 
Essa 
viso 
costumava 
durar 
at 
que 
eu 
acordasse, 
geralmente 
com 
o 
nariz 
pressionado 
contra 
a 
parede 
ou 
o 
cho. 
Minhas 
observaes 
foram 
que, 
em 
primeiro 
lugar, 
o 
detalhe 
era 
verdadeiro. 
E, 
em 
segundo, 
que 
eu 
parecia 
ter 
estado 


#
observando-o 
enquanto 
dormia. 
Dom 
Juan 
sorriu 
e 
disse: 


 
Tudo 
isso 
est 
acontecendo 
porque 
o 
forjamento 
de 
seu 
corpo 
energtico 
foi 
completado 
no 
momento 
em 
que 
ele 
se 
moveu 
sozinho. 
Eu 
no 
falei 
isso, 
mas 
insinuei. 
Queria 
saber 
se 
voc 
era 
capaz 
de 
descobrir 
sozinho, 
o 
que, 
claro, 
voc 
conseguiu. 
No 
tive 
idia 
do 
que 
ele 
queria 
dizer. 
Dom 
Juan 
me 
escrutinizou 
de 
seu 
modo 
usual. 
Seu 
olhar 
penetrante 
fez 
uma 
varredura 
em 
meu 
corpo. 


 
O 
que, 
exatamente, 
eu 
descobri 
sozinho, 
Dom 
Juan? 
 
fui 
forado 
a 
perguntar. 
 
Descobriu 
que 
seu 
corpo 
energtico 
foi 
completado. 
 
Posso 
assegurar 
que 
no 
descobri 
nada 
disso. 
 
Descobriu 
sim. 
Isso 
comeou 
h 
algum 
tempo, 
quando 
voc 
no 
conseguiu 
encontrar 
uma 
diretriz 
que 
validasse 
a 
realidade 
de 
seus 
sonhos, 
mas 
ento 
alguma 
coisa 
entrou 
em 
ao 
e 
fez 
com 
que 
voc 
soubesse 
se 
estava 
ou 
no 
tendo 
um 
sonho 
comum. 
Essa 
coisa 
era 
o 
seu 
corpo 
energtico. 
Agora 
voc 
se 
desespera 
por 
no 
conseguir 
encontrar 
o 
posicionamento 
ideal 
onde 
fixar 
seu 
ponto 
de 
aglutinao. 
E 
eu 
digo 
que 
j 
encontrou. 
A 
prova 
 
que, 
ao 
se 
movimentar, 
seu 
corpo 
energtico 
reduziu 
a 
obsesso 
pelo 
detalhe. 
Eu 
estava 
perplexo. 
Nem 
mesmo 
conseguia 
fazer 
uma 
de 
minhas 
perguntas 
frgeis. 


 
O 
que 
vem 
em 
seguida 
para 
voc 
 
uma 
jia 
dos 
feiticeiros 
 
Dom 
Juan 
prosseguiu. 
 
Vai 
exercitar 
ver 
a 
energia 
em 
seu 
sonhar. 
Voc 
passou 
pela 
prova 
do 
terceiro 
porto 
do 
sonhar: 
movimentou 
sozinho 
o 
corpo 
energtico. 
Agora 
vai 
realizar 
a 
verdadeira 
tarefa: 
ver 
a 
energia 
com 
seu 
corpo 
energtico. 


Voc 
j 
viu 
energia 
antes 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Muitas 
vezes, 
na 
verdade. 
Mas, 
em 
todas 
essas 
vezes, 
ver 
foi 
um 
acaso. 
Agora 
ir 
faz-lo 
deliberadamente. 


Os 
sonhadores 
tm 
um 
mtodo 
emprico. 
Se 
o 
corpo 
energtico 
estiver 
completo, 
eles 
vem 
a 
energia 
toda 
vez 
que 
olham 


#
fixo 
para 
algum 
item 
no 
mundo 
cotidiano. 
Nos 
sonhos, 
se 
vem 
a 
energia 
de 
um 
item, 
eles 
sabem 
que 
esto 
lidando 
com 
um 
mundo 
real, 
no 
importa 
o 
quanto 
esse 
mundo 
possa 
parecer 
distorcido 
para 
sua 
ateno 
sonhadora. 
Se 
no 
puderem 
ver 
a 
energia 
de 
um 
determinado 
item, 
eles 
esto 
num 
sonho 
comum, 
e 
no 
em 
um 
mundo 
real. 


 
O 
que 
 
um 
mundo 
real, 
Dom 
Juan? 
 
Um 
mundo 
que 
gera 
energia; 
o 
oposto 
de 
um 
mundo 
fantasmagrico 
de 
projees, 
onde 
nada 
gera 
energia; 
como 
na 
maioria 
de 
nossos 
sonhos, 
onde 
nada 
tem 
efeito 
energtico. 
Dom 
Juan 
me 
deu 
outra 
definio 
do 
sonhar: 
 
um 
processo 
atravs 
do 
qual 
os 
sonhadores 
isolam 
condies 
de 
sonho 
em 
que 
podem 
encontrar 
elementos 
geradores 
de 
energia. 
Ele 
deve 
ter 
percebido 
meu 
espanto. 
Riu 
e 
deu 
outra 
definio 
ainda 
mais 
enrolada: 
sonhar 
 
o 
processo 
atravs 
do 
qual 
intentamos 
encontrar 
posicionamentos 
adequados 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
posicionamentos 
que 
permitem 
que 
percebamos 
itens 
geradores 
de 
energia 
em 
estados 
de 
aparncia 
onrica. 


Explicou 
que 
o 
corpo 
energtico 
tambm 
 
capaz 
de 
perceber 
energias 
muito 
diferentes 
da 
energia 
de 
nosso 
mundo. 
Como 
no 
caso 
dos 
itens 
do 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos, 
que 
o 
corpo 
energtico 
percebe 
como 
energia 
crepitante. 
Acrescentou 
que 
em 
nosso 
mundo 
nada 
crepita; 
aqui 
tudo 
ondula. 


 
De 
agora 
em 
diante 
 
falou 
 
a 
questo 
em 
seu 
sonhar 
ser 
determinar 
se 
os 
itens 
nos 
quais 
voc 
concentra 
sua 
ateno 
sonhadora 
so 
geradores 
de 
energia 
ou 
meras 
projees 
fantasmagricas, 
ou 
se 
so 
geradores 
de 
energia 
aliengena. 
Dom 
Juan 
admitiu 
que 
havia 
esperado 
que 
eu 
tivesse 
a 
idia 
de 
que 
ver 
a 
energia 
era 
o 
que 
determinava 
se 
eu 
estava 
ou 
no 
observando 
meu 
verdadeiro 
corpo 
adormecido. 
Riu 
de 
meu 
mtodo 
esprio 
de 
a 
cada 
quatro 
dias 
colocar 
roupas 
elaboradas 
para 
dormir. 
Disse 
que 
eu 
tivera 
na 
ponta 
dos 
dedos 
toda 
a 
informao 
necessria 
para 
deduzir 
qual 
era 
a 
verdadeira 
tarefa 
do 
terceiro 


#
porto 
do 
sonhar 
e 
ter 
a 
idia 
correta, 
mas 
que 
meu 
sistema 
de 
interpretao 
me 
forara 
a 
buscar 
solues 
arquitetadas 
sem 
a 
simplicidade 
e 
a 
objetividade 
da 
feitiaria. 


#
9 


A 
NOVA 
REA 
DE 
EXPLORAO 


D
D
om 
Juan 
me 
disse 
que, 
para 
ver 
durante 
o 
sonhar, 
eu 
no 
somente 
precisaria 
do 
intento 
de 
ver, 
mas 
tambm 
teria 
de 
colocar 
o 
intento 
em 
palavras 
ditas 
em 
voz 
alta. 
Por 
motivos 
que 
se 
recusou 
a 
explicar, 
insistiu 
em 
que 
eu 
teria 
de 
falar 
alto. 
Admitiu, 
entretanto, 
que 
existem 
outros 
meios 
de 
chegar 
ao 
mesmo 
resultado, 
mas 
afirmou 
que 
verbalizar 
o 
intento 
 
o 
modo 
mais 
simples 
e 
mais 
direto. 


Na 
primeira 
vez 
em 
que 
verbalizei 
meu 
intento 
de 
ver 
eu 
estava 
sonhando 
com 
um 
bazar 
de 
igreja. 
Havia 
tantos 
artigos 
que 
no 
pude 
decidir 
para 
qual 
olhar. 
Um 
vaso 
gigante 
e 
espalhafatoso 
num 
canto 
decidiu 
por 
mim. 
Olhei 
fixo 
para 
ele, 
verbalizando 
o 
intento 
de 
ver. 
O 
vaso 
permaneceu 
em 
meu 
campo 
de 
viso 
por 
um 
instante, 
e 
em 
seguida 
passou 
a 
ser 
outro 
objeto. 


Olhei 
para 
o 
mximo 
de 
coisas 
que 
pude, 
naquele 
sonho. 
Depois 
de 
verbalizar 
meu 
intento 
de 
ver, 
cada 
item 
que 
eu 
escolhera 
desaparecia 
ou 
se 
transformava 
em 
outra 
coisa, 
como 
acontecera 
todo 
o 
tempo 
durante 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 
Finalmente 
minha 
ateno 
sonhadora 
se 
exauriu 
e 
eu 
acordei 
tremendamente 
frustrado, 
quase 
com 
raiva. 


Durante 
meses 
olhei 
fixo 
para 
centenas 
de 
itens 
em 
meus 
sonhos, 
e 
centenas 
de 
vezes 
verbalizei 
deliberadamente 
meu 
intento 
de 
ver, 
mas 
nada 
aconteceu. 
Cansado 
de 
esperar, 
finalmente 
tive 
de 
perguntar 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
aquilo. 


#
 
Voc 
precisa 
ter 
pacincia. 
Est 
aprendendo 
a 
fazer 
uma 
coisa 
extraordinria 
 
ele 
observou 
quando 
contei 
meus 
fracassos. 
 
Voc 
est 
aprendendo 
o 
intento 
de 
ver 
em 
seus 
sonhos. 
Um 
dia 
no 
vai 
precisar 
mais 
verbalizar 
o 
intento, 
bastar 
desej-lo, 
em 
silncio. 
 
Acho 
que 
no 
compreendi 
a 
funo 
do 
que 
estou 
fazendo 
 
falei. 
 
Nada 
acontece 
quando 
eu 
grito 
meu 
intento 
de 
ver. 
O 
que 
isso 
significa? 
 
Significa 
que 
at 
agora 
seus 
sonhos 
foram 
sonhos 
comuns; 
foram 
projees 
fantasmagricas; 
imagens 
que 
vivem 
apenas 
em 
sua 
ateno 
sonhadora. 
Ele 
quis 
saber 
o 
que 
exatamente 
acontecera 
aos 
itens 
nos 
quais 
eu 
concentrara 
o 
olhar. 
Falei 
que 
eles 
desapareciam, 
mudavam 
de 
forma 
ou 
at 
mesmo 
produziam 
vrtices 
que 
eventualmente 
mudavam 
meus 
sonhos. 


 
Foi 
como 
em 
todos 
os 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
 
falei. 
 
A 
nica 
coisa 
extraordinria 
 
que 
estou 
aprendendo 
a 
gritar 
nos 
sonhos, 
a 
plenos 
pulmes. 


Minha 
ltima 
afirmao 
provocou 
em 
Dom 
Juan 
uma 
genuna 
gargalhada 
de 
segurar 
a 
barriga, 
que 
eu 
achei 
desconcertante. 
No 
consegui 
descobrir 
o 
humor 
do 
que 
eu 
dissera 
nem 
o 
motivo 
de 
sua 
reao. 


 
Algum 
dia 
voc 
vai 
ver 
como 
tudo 
isso 
 
engraado 
 
ele 
disse 
em 
resposta 
ao 
meu 
protesto 
silencioso. 
 
Enquanto 
isso, 
no 
desista 
nem 
se 
sinta 
desencorajado. 
Continue 
tentando. 
Cedo 
ou 
tarde 
voc 
vai 
tocar 
a 
nota 
certa. 
Como 
sempre, 
ele 
estava 
certo. 
Uns 
dois 
meses 
depois 
acertei 
no 
alvo. 
Tive 
um 
sonho 
extremamente 
incomum. 
Comeou 
com 
o 
surgimento 
de 
um 
batedor 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Os 
batedores, 
bem 
como 
o 
emissrio, 
tinham 
estado 
estranhamente 
ausentes 
de 
meus 
sonhos. 
Eu 
no 
sentia 
falta 
nem 
pensava 
em 
seu 
desaparecimento. 
Na 
verdade, 
me 
sentia 
to 
 
vontade 
sem 
eles 
que 
at 
mesmo 
esquecera 
de 
perguntar 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
sua 
ausncia. 


Naquele 
sonho 
o 
batedor 
fora 
a 
princpio 
um 
gigantesco 
topzio 


#
amarelo 
que 
eu 
encontrei 
preso 
na 
parte 
de 
trs 
de 
uma 
gaveta. 
No 
momento 
em 
que 
verbalizei 
meu 
intento 
de 
ver, 
o 
topzio 
transformou-se 
numa 
bolha 
de 
energia 
crepitante. 
Tive 
medo 
de 
ser 
compelido 
a 
segui-lo, 
de 
modo 
que 
afastei 
o 
olhar 
do 
batedor 
e 
me 
concentrei 
num 
aqurio 
com 
peixes 
tropicais. 
Verbalizei 
meu 
intento 
de 
ver 
e 
tive 
uma 
tremenda 
surpresa. 
O 
aqurio 
emitiu 
um 
brilho 
fraco 
e 
esverdeado 
e 
transformou-se 
num 
grande 
retrato 
surrealista 
de 
uma 
mulher 
cheia 
de 
jias. 
O 
retrato 
tambm 
emitiu 
o 
mesmo 
brilho 
avermelhado 
quando 
verbalizei 
meu 
intento 
de 
ver. 


Enquanto 
eu 
olhava 
aquele 
brilho, 
todo 
o 
sonho 
mudou. 
Eu 
estava 
andando 
numa 
rua 
de 
uma 
cidade 
que 
parecia 
familiar; 
talvez 
fosse 
Tucson. 
Olhei 
para 
uma 
vitrine 
de 
roupas 
femininas 
numa 
loja 
e 
falei 
em 
voz 
alta 
meu 
intento 
de 
ver. 
Instantaneamente 
um 
manequim 
negro, 
que 
estava 
em 
posio 
de 
destaque, 
comeou 
a 
brilhar. 
Olhei 
em 
seguida 
para 
uma 
vendedora 
que 
veio 
naquele 
momento 
arrumar 
a 
vitrine. 
Ela 
me 
encarou. 
Depois 
de 
verbalizar 
meu 
intento, 
vi 
a 
mulher 
brilhar. 
Foi 
uma 
coisa 
to 
estupenda 
que 
tive 
medo 
de 
que 
algum 
detalhe 
em 
seu 
brilho 
esplendoroso 
me 
prendesse, 
mas 
a 
mulher 
entrou 
na 
loja 
antes 
que 
eu 
tivesse 
tempo 
de 
focalizar 
toda 
a 
minha 
ateno. 
Quis 
segui-la, 
mas 
minha 
ateno 
sonhadora 
foi 
atrada 
por 
um 
brilho 
mvel 
que 
veio 
contra 
mim, 
cheio 
de 
dio. 
Havia 
desprezo 
e 
depravao 
naquilo. 
Pulei 
para 
trs. 
O 
brilho 
interrompeu 
seu 
ataque; 
uma 
substncia 
negra 
me 
engoliu 
e 
eu 
acordei. 


As 
imagens 
foram 
to 
ntidas 
que 
acreditei 
firmemente 
ter 
visto 
energia, 
e 
que 
meu 
sonho 
fora 
uma 
daquelas 
condies 
que 
Dom 
Juan 
chamara 
de 
geradoras 
de 
energia. 
A 
idia 
de 
que 
os 
sonhos 
podem 
acontecer 
na 
realidade 
consensual 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano 
me 
intrigou, 
do 
mesmo 
modo 
que 
me 
haviam 
intrigado 
as 
imagens 
do 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Dessa 
vez 
voc 
no 
apenas 
viu 
energia, 
mas 
atravessou 
uma 
fronteira 
perigosa 
 
Dom 
Juan 
falou 
depois 
de 
ouvir 
meu 
relato. 
Reiterou 
que 
o 
exerccio 
do 
terceiro 
porto 
do 
sonhar 
 
fazer 
o 
corpo 
energtico 
mover-se 
sozinho. 
Em 
minha 
ltima 
sesso, 


#
segundo 
ele, 
eu 
involuntariamente 
excedera 
aquele 
exerccio 
e 
entrara 
em 
outro 
mundo. 


 
Seu 
corpo 
energtico 
se 
moveu. 
Viajou 
por 
conta 
prpria. 
Esse 
tipo 
de 
viagem 
est 
alm 
das 
suas 
possibilidades 
neste 
momento, 
e 
alguma 
coisa 
o 
atacou. 
 
O 
que 
acha 
que 
foi, 
Dom 
Juan? 
 
Este 
 
um 
universo 
predatrio. 
Pode 
ter 
sido 
uma 
das 
milhares 
de 
coisas 
que 
existem 
l 
fora. 
 
Acha 
que 
aquilo 
me 
atacou 
por 
qu? 
 
Pelo 
mesmo 
motivo 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
atacaram 
voc: 
porque 
se 
tornou 
disponvel. 
 
 
simples 
assim, 
Dom 
Juan? 
 
Certamente. 
To 
simples 
quanto 
o 
que 
voc 
faria 
se 
uma 
aranha 
aparecesse 
em 
sua 
mesa 
enquanto 
voc 
est 
escrevendo. 
Voc 
iria 
esmag-la, 
por 
puro 
medo, 
em 
vez 
de 
admir-la 
ou 
examin-la. 
Eu 
estava 
perplexo, 
e 
procurei 
palavras 
para 
fazer 
a 
pergunta 
adequada. 
Queria 
perguntar 
em 
que 
lugar 
acontecera 
meu 
sonho, 
ou 
em 
que 
mundo 
eu 
estava 
naquele 
sonho. 
Mas 
essas 
perguntas 
no 
faziam 
sentido; 
eu 
mesmo 
podia 
deduzir. 
Dom 
Juan 
foi 
muito 
compreensivo. 


 
Voc 
quer 
saber 
em 
que 
sua 
ateno 
sonhadora 
estava 
concentrada, 
certo? 
 
perguntou 
com 
um 
riso. 
Era 
exatamente 
assim 
que 
eu 
queria 
fazer 
a 
pergunta. 
Observei 
que, 
no 
sonho 
em 
questo, 
eu 
devia 
estar 
olhando 
para 
algum 
objeto 
real. 
Do 
mesmo 
modo 
que 
ocorria 
quando 
eu 
observava 
nos 
sonhos 
os 
detalhes 
minsculos 
do 
cho, 
das 
paredes 
ou 
das 
portas 
de 
meu 
quarto, 
detalhes 
que 
depois 
eu 
confirmava 
existirem. 


Dom 
Juan 
disse 
que 
nos 
sonhos 
especiais, 
como 
o 
que 
eu 
tivera, 
nossa 
ateno 
sonhadora 
se 
concentra 
no 
mundo 
cotidiano, 
e 
que 
ela 
se 
move 
instantaneamente 
de 
algum 
objeto 
real 
para 
outro 
objeto 
real 
do 
mundo. 
O 
que 
torna 
possvel 
esse 
movimento 
 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
est 
na 
posio 
sonhadora 
adequada. 
A 
partir 
desse 
posicionamento 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
d 
tamanha 
fluidez 
 


#
ateno 
sonhadora 
que 
ela 
pode 
se 
mover 
num 
piscar 
de 
olhos 
atravs 
de 
distncias 
incrveis; 
e 
ao 
fazer 
isso 
produz 
uma 
percepo 
to 
rpida, 
to 
fugidia, 
que 
parece 
um 
sonho 
comum. 


Dom 
Juan 
explicou 
que 
no 
sonho 
eu 
vira 
um 
aqurio 
real, 
e 
que 
em 
seguida 
minha 
ateno 
sonhadora 
atravessara 
distncias 
para 
ver 
uma 
verdadeira 
pintura 
surrealista 
de 
uma 
mulher 
cheia 
de 
jias. 
O 
resultado, 
com 
a 
exceo 
de 
ver 
energia, 
fora 
muito 
parecido 
com 
um 
sonho 
comum 
onde, 
ao 
olharmos 
os 
itens, 
estes 
rapidamente 
se 
transformam 
em 
outra 
coisa. 


 
Sei 
como 
isso 
 
perturbador 
 
ele 
prosseguiu, 
definitivamente 
cnscio 
de 
meu 
espanto. 
 
Por 
algum 
motivo 
da 
mente, 
ver 
energia 
durante 
o 
sonhar 
 
muito 
mais 
perturbador 
do 
que 
qualquer 
coisa 
em 
que 
possamos 
pensar. 
Observei 
que 
eu 
vira 
energia 
no 
sonhar 
antes, 
mas 
que 
ela 
nunca 
me 
atacara 
desse 
jeito. 


 
Agora 
seu 
corpo 
energtico 
est 
completo 
e 
funcionando 
 
disse 
ele. 
 
Portanto 
a 
implicao 
de 
ver 
no 
sonho 
 
que 
voc 
est 
percebendo 
um 
mundo 
real, 
atravs 
do 
vu 
de 
um 
sonho. 
Essa 
 
a 
importncia 
da 
viagem 
que 
voc 
fez. 
Ela 
foi 
real. 
Envolveu 
itens 
geradores 
de 
energia 
que 
quase 
acabaram 
com 
sua 
vida. 
 
Foi 
to 
srio 
assim, 
Dom 
Juan? 
 
Pode 
apostar! 
A 
criatura 
que 
o 
atacou 
era 
feita 
de 
pura 
conscincia, 
e 
to 
mortal 
quanto 
qualquer 
coisa 
pode 
ser. 
Voc 
viu 
sua 
energia. 
Tenho 
certeza 
de 
que 
percebe 
agora 
que, 
a 
no 
ser 
que 
vejamos 
no 
sonhar, 
no 
podemos 
diferenciar 
uma 
coisa 
real, 
geradora 
de 
energia, 
de 
uma 
projeo 
fantasmagrica. 
Apesar 
de 
voc 
ter 
lutado 
contra 
os 
seres 
inorgnicos 
e 
visto 
os 
batedores 
e 
os 
tneis, 
seu 
corpo 
energtico 
no 
sabe 
com 
certeza 
se 
eles 
eram 
reais, 
ou 
seja, 
geradores 
de 
energia. 
Voc 
tem 
noventa 
e 
nove, 
mas 
no 
cem 
por 
cento 
de 
certeza. 
Dom 
Juan 
insistiu 
em 
falar 
sobre 
a 
viagem 
que 
eu 
fizera. 
Por 
motivos 
inexplicveis 
eu 
estava 
relutante 
em 
abordar 
o 
assunto. 
O 
que 
ele 
estava 
dizendo 
produzia 
uma 
reao 
instantnea. 
Vi-me 
tentando 
enfrentar 
um 
medo 
profundo 
e 
estranho; 
era 
uma 
coisa 


#
escura 
e 
obsessiva, 
incmoda. 
Visceral. 


 
Voc 
definitivamente 
passou 
para 
outra 
pele 
da 
cebola 
 
disse 
Dom 
Juan, 
terminando 
uma 
afirmativa 
 
qual 
eu 
no 
prestara 
ateno. 


 
O 
que 
 
essa 
outra 
pele 
da 
cebola, 
Dom 
Juan? 
 
O 
mundo 
 
como 
uma 
cebola. 
Tem 
muitas 
peles. 
O 
mundo 
que 
conhecemos 
 
apenas 
uma 
delas. 
Algumas 
vezes 
atravessamos 
fronteiras 
e 
entramos 
em 
outra 
pele: 
outro 
mundo, 
muito 
parecido 
com 
este, 
mas 
no 
o 
mesmo. 
E 
voc 
entrou 
em 
outro, 
sozinho. 
 
Como 
 
possvel 
essa 
viagem? 
 
Essa 
 
uma 
pergunta 
sem 
sentido, 
porque 
ningum 
pode 
responder. 
Na 
viso 
dos 
feiticeiros 
o 
universo 
 
construdo 
em 
camadas 
que 
o 
corpo 
energtico 
pode 
atravessar. 
Sabe 
onde 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
esto 
vivendo 
at 
hoje? 
Em 
outra 
camada, 
em 
outra 
pele 
da 
cebola. 
 
Para 
mim 
 
muito 
difcil 
aceitar 
a 
idia 
de 
uma 
viagem 
real, 
pragmtica, 
feita 
nos 
sonhos, 
Dom 
Juan. 
 
Ns 
j 
discutimos 
exaustivamente 
esse 
tpico. 
Eu 
estava 
convicto 
de 
que 
voc 
tinha 
compreendido 
que 
a 
viagem 
do 
corpo 
energtico 
depende 
exclusivamente 
do 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
 
Voc 
me 
contou 
isso. 
E 
eu 
venho 
pensando 
e 
repensando 
a 
respeito; 
mesmo 
assim, 
dizer 
que 
a 
viagem 
est 
no 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
no 
significa 
nada 
para 
mim. 
 
Seu 
problema 
 
o 
cinismo. 
Eu 
era 
exatamente 
igual. 
O 
cinismo 
no 
permite 
que 
faamos 
mudanas 
drsticas 
na 
compreenso 
que 
temos 
do 
mundo. 
Ele 
tambm 
nos 
fora 
a 
sentir 
que 
estamos 
sempre 
certos. 
Eu 
compreendia 
perfeitamente 
esse 
ponto, 
mas 
lembrei-lhe 
de 
minha 
luta 
contra 
aquilo 
tudo. 


 
Proponho 
que 
voc 
faa 
uma 
coisa 
absurda 
que 
pode 
mudar 
tudo 
 
disse 
ele. 
 
Repita 
incessantemente 
para 
voc 
mesmo 
que 
o 
ponto 
crucial 
da 
feitiaria 
 
o 
mistrio 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Se 
repetir 
isso 
para 
voc 
mesmo 
por 
tempo 
suficiente, 
uma 
fora 
#
invisvel 
assume 
o 
comando 
e 
faz 
as 
mudanas 
apropriadas 
em 
voc. 


Dom 
Juan 
no 
me 
deu 
nenhuma 
indicao 
de 
que 
estava 
zombando. 
Eu 
sabia 
que 
ele 
acreditava 
em 
cada 
palavra. 
O 
que 
me 
incomodou 
foi 
sua 
insistncia 
em 
que 
eu 
teria 
de 
repetir 
incessantemente 
a 
frmula 
para 
mim 
mesmo. 
Achei 
que 
aquilo 
tudo 
era 
uma 
asneira. 


 
Corte 
sua 
atitude 
cnica 
 
ele 
disse 
rspido. 
 
Repita 
isso 
de 
boa 
vontade. 
O 
mistrio 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
tudo 
na 
feitiaria. 
Ou 
melhor, 
tudo 
na 
feitiaria 
depende 
da 
manipulao 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Voc 
sabe 
disso, 
mas 
precisa 
repetir. 
Por 
um 
instante, 
enquanto 
ouvia 
suas 
observaes, 
pensei 
que 
eu 
iria 
morrer 
de 
angstia. 
Uma 
incrvel 
sensao 
de 
tristeza 
fsica 
apertou 
meu 
peito 
e 
me 
fez 
gritar 
de 
dor. 
Meu 
estmago 
e 
meu 
diafragma 
pareciam 
estar 
forando 
para 
cima, 
subindo 
para 
a 
cavidade 
do 
peito. 
O 
empurro 
foi 
to 
intenso 
que 
minha 
conscincia 
mudou 
de 
nvel 
e 
entrei 
em 
meu 
estado 
normal. 
O 
que 
quer 
que 
estivssemos 
falando 
tornou-se 
um 
vago 
pensamento 
sobre 
algo 
que 
poderia 
ter 
acontecido, 
mas 
que 
na 
verdade 
no 
ocorrera, 
de 
acordo 
com 
o 
raciocnio 
mundano 
de 
minha 
conscincia 
cotidiana. 


Na 
prxima 
vez 
em 
que 
Dom 
Juan 
e 
eu 
falamos 
sobre 
sonhar, 
discutimos 
os 
motivos 
que 
me 
tornaram 
incapaz 
de 
prosseguir 
durante 
meses 
com 
meus 
exerccios. 
Dom 
Juan 
avisou 
que 
para 
explicar 
a 
situao 
ele 
teria 
de 
usar 
um 
meio 
indireto. 
Observou, 
primeiro, 
que 
existe 
uma 
diferena 
enorme 
entre 
os 
pensamentos 
e 
os 
feitos 
dos 
homens 
da 
antigidade 
e 
os 
do 
homem 
moderno. 
E 
em 
seguida 
observou 
que 
os 
homens 
dos 
tempos 
antigos 
tinham 
uma 
viso 
muito 
realista 
da 
percepo 
e 
da 
conscincia, 
porque 
seus 
pontos 
de 
vista 
decorriam 
das 
observaes 
do 
universo 
ao 
redor. 
Os 
homens 
modernos, 
por 
outro 
lado, 
tm 
uma 
viso 
absurdamente 
irreal 
da 
percepo 
e 
da 
conscincia, 
porque 
seus 
pontos 
de 
vista 
decorrem 
de 
sua 
observao 
da 
ordem 
social, 
e 
de 
suas 
relaes 
com 
ela. 


 
Por 
que 
est 
me 
dizendo 
isso? 
 
perguntei. 
 
Porque 
voc 
 
um 
homem 
moderno 
envolvido 
com 
os 
pontos 
#
de 
vista 
e 
as 
observaes 
dos 
homens 
da 
antigidade. 
E 
nem 
essas 
vises 
nem 
as 
observaes 
so 
familiares 
para 
voc. 
Agora 
mais 
do 
que 
nunca 
voc 
precisa 
de 
sobriedade 
e 
autodomnio. 
Estou 
tentando 
fazer 
uma 
ponte 
slida, 
uma 
ponte 
que 
voc 
possa 
atravessar, 
entre 
as 
vises 
dos 
homens 
da 
antigidade 
e 
os 
homens 
modernos. 


Reiterou 
que, 
de 
todas 
as 
observaes 
transcendentais 
dos 
homens 
da 
antigidade, 
a 
nica 
com 
a 
qual 
eu 
estava 
familiarizado, 
porque 
ela 
fora 
filtrada 
at 
nossos 
dias, 
era 
a 
idia 
de 
vender 
a 
alma 
ao 
diabo 
em 
troca 
da 
imortalidade; 
uma 
idia 
que, 
ele 
admitia, 
soava 
como 
algo 
que 
vinha 
direto 
do 
relacionamento 
dos 
feiticeiros 
antigos 
com 
os 
seres 
inorgnicos. 
Lembrou-me 
de 
como 
o 
emissrio 
do 
sonho 
tentara 
me 
induzir 
a 
ficar 
em 
seu 
reino 
ao 
oferecer 
a 
possibilidade 
de 
manter 
minha 
individualidade 
e 
autoconscincia 
durante 
praticamente 
uma 
eternidade. 


 
Como 
voc 
sabe, 
sucumbir 
ao 
fascnio 
dos 
seres 
inorgnicos 
no 
 
simplesmente 
uma 
idia, 
 
real. 
Mas 
voc 
ainda 
no 
percebeu 
totalmente 
a 
implicao 
dessa 
realidade. 
O 
sonhar, 
do 
mesmo 
modo, 
 
uma 
coisa 
real; 
 
uma 
condio 
geradora 
de 
energia. 
Voc 
ouve 
minhas 
afirmaes 
e 
certamente 
entende 
o 
que 
quero 
dizer, 
mas 
sua 
conscincia 
ainda 
no 
captou 
toda 
a 
implicao 
disso. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
minha 
racionalidade 
conhecia 
a 
importncia 
de 
uma 
percepo 
dessa 
natureza, 
e 
que 
durante 
nossa 
ltima 
conversa 
ele 
forara 
minha 
conscincia 
a 
mudar 
de 
nvel; 
eu 
terminara 
em 
minha 
conscincia 
normal, 
antes 
de 
ter 
podido 
lidar 
com 
as 
nuances 
de 
meu 
sonho. 
Minha 
racionalidade 
tinha 
se 
protegido 
suspendendo 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 


 
Posso 
assegurar 
que 
estou 
totalmente 
consciente 
do 
que 
significa 
uma 
condio 
geradora 
de 
energia 
 
falei. 
 
Eu 
posso 
assegurar 
que 
no 
est 
 
ele 
retorquiu. 
 
Se 
estivesse, 
teria 
mais 
cuidado 
e 
deliberao 
no 
sonhar. 
Como 
voc 
acredita 
que 
est 
simplesmente 
sonhando, 
se 
arrisca 
cegamente. 
Seu 
raciocnio 
falho 
diz 
que, 
no 
importa 
o 
que 
acontea, 
seu 
sonho 
acabar 
num 
determinado 
momento 
e 
voc 
acordar. 
Ele 
estava 
certo. 
A 
despeito 
de 
tudo 
que 
eu 
testemunhara 
em 


#
meus 
exerccios 
de 
sonhar, 
de 
algum 
modo 
eu 
ainda 
mantinha 
a 
sensao 
geral 
de 
que 
tudo 
fora 
um 
sonho. 


 
Estou 
falando 
sobre 
os 
pontos 
de 
vista 
dos 
homens 
da 
antigidade 
e 
dos 
pontos 
de 
vista 
dos 
homens 
modernos 
 
Dom 
Juan 
prosseguiu 
 
porque 
sua 
conscincia, 
que 
 
a 
conscincia 
do 
homem 
moderno, 
prefere 
lidar 
com 
um 
conceito 
no-familiar 
como 
se 
fosse 
uma 
idia 
vazia. 
Se 
eu 
deixasse 
por 
sua 
conta, 
voc 
veria 
o 
sonhar 
como 
uma 
idia. 
Claro 
que 
tenho 
certeza 
de 
que 
voc 
leva 
o 
sonhar 
a 
srio, 
mas 
no 
acredita 
de 
fato 
na 
sua 
realidade. 
 
Compreendo 
o 
que 
est 
dizendo, 
Dom 
Juan, 
mas 
no 
entendo 
por 
que 
est 
dizendo. 
 
Estou 
dizendo 
isso 
tudo 
porque 
agora 
voc 
est, 
pela 
primeira 
vez, 
na 
posio 
adequada 
para 
entender 
que 
o 
sonhar 
 
uma 
condio 
geradora 
de 
energia. 
Pela 
primeira 
vez 
voc 
pode 
entender 
que 
os 
sonhos 
comuns 
so 
os 
dispositivos 
usados 
para 
treinar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
a 
alcanar 
o 
posicionamento 
que 
cria 
essa 
condio 
geradora 
de 
energia, 
que 
chamamos 
de 
o 
sonhar. 
Avisou-me 
que, 
como 
os 
sonhadores 
entram 
em 
mundo 
reais 


 
para 
todos 
os 
efeitos 
inclusivos 
 
eles 
devem 
ficar 
num 
estado 
de 
alerta 
contnuo 
e 
intenso; 
j 
que 
qualquer 
desvio 
do 
estado 
de 
alerta 
absoluto 
pe 
o 
sonhador 
em 
perigos 
mais 
do 
que 
apavorantes. 
Nesse 
ponto 
comecei 
de 
novo 
a 
experimentar 
um 
movimento 
na 
cavidade 
torcica, 
exatamente 
como 
sentira 
no 
dia 
em 
que 
minha 
conscincia 
mudara 
de 
nvel 
sozinha. 
Dom 
Juan 
sacudiu 
meu 
brao 
com 
fora. 


 
Veja 
o 
sonhar 
como 
uma 
coisa 
extremamente 
perigosa! 
 
ordenou. 
 
E 
comece 
isso 
agora! 
No 
venha 
com 
nenhuma 
de 
suas 
manobras 
suspeitas. 


Seu 
tom 
de 
voz 
foi 
to 
insistente 
que 
parei 
o 
que 
quer 
que 
estivesse 
inconscientemente 
fazendo. 


 
O 
que 
est 
acontecendo 
comigo, 
Dom 
Juan? 
 
O 
que 
est 
acontecendo 
 
que 
voc 
consegue 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
rpida 
e 
facilmente. 
Mas 
essa 
facilidade 
tem 
a 
tendncia 
de 
tornar 
o 
deslocamento 
errtico. 
Controle 
sua 
facilidade. 
#
E 
no 
se 
permita 
nem 
mesmo 
um 
milmetro 
de 
folga. 


Eu 
poderia 
facilmente 
argumentar 
que 
no 
sabia 
do 
que 
ele 
falava; 
mas 
sabia. 
E 
tambm 
sabia 
que 
s 
tinha 
alguns 
segundos 
para 
controlar 
a 
energia 
e 
mudar 
minha 
atitude. 
E 
fiz 
isso. 


Esse 
foi 
o 
fim 
da 
conversa 
naquele 
dia. 
Fui 
para 
casa 
e 
durante 
praticamente 
um 
ano 
repeti 
fielmente 
todos 
os 
dias 
o 
que 
Dom 
Juan 
me 
pedira 
para 
dizer. 
Os 
resultados 
de 
minha 
invocao, 
que 
parecia 
uma 
litania, 
foram 
incrveis. 
Tive 
a 
firme 
convico 
de 
que 
ela 
provocava 
o 
mesmo 
efeito 
sobre 
a 
conscincia 
que 
os 
exerccios 
provocam 
nos 
msculos 
do 
corpo. 
Meu 
ponto 
de 
aglutinao 
ficou 
mais 
gil, 
o 
que 
significava 
que 
ver 
a 
energia 
no 
sonhar 
tornou-se 
o 
nico 
objetivo 
de 
meus 
treinamentos. 
Minha 
capacidade 
de 
ter 
o 
intento 
de 
ver 
crescia 
na 
proporo 
dos 
esforos. 
Chegou 
um 
momento 
em 
que 
podia 
simplesmente 
intentar 
ver, 
sem 
dizer 
nenhuma 
palavra, 
e 
experimentar 
o 
mesmo 
resultado 
de 
quando 
verbalizava 
em 
voz 
alta 
meu 
intento 
de 
ver. 


Dom 
Juan 
me 
parabenizou 
pelo 
feito. 
Naturalmente 
presumi 
que 
estava 
zombando. 
Ele 
assegurou 
que 
falava 
srio, 
mas 
insistiu 
para 
que 
eu 
continuasse 
a 
gritar, 
pelo 
menos 
quando 
me 
sentisse 
confuso. 
Seu 
pedido 
no 
me 
pareceu 
estranho. 
Por 
conta 
prpria 
eu 
vinha 
gritando 
nos 
sonhos 
sempre 
que 
achava 
necessrio. 


Descobri 
que 
a 
energia 
de 
nosso 
mundo 
ondula. 
Cintila. 
No 
somente 
os 
seres 
vivos, 
mas 
tudo 
em 
nosso 
mundo 
brilha 
com 
uma 
luz 
interna. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
a 
energia 
de 
nosso 
mundo 
consiste 
em 
camadas 
de 
diferentes 
matizes 
brilhantes. 
A 
camada 
de 
cima 
 
esbranquiada, 
outra 
imediatamente 
adjacente 
 
verde-
amarelada, 
e 
outra 
mais 
distante 
 
mbar. 


Encontrei 
todos 
esses 
trs 
matizes, 
ou 
melhor, 
vi 
brilhos 
deles 
sempre 
que 
os 
itens 
que 
eu 
encontrava 
nos 
estados 
onricos 
mudavam 
de 
forma. 
Mas 
um 
brilho 
esbranquiado 
era 
sempre 
o 
impacto 
inicial 
de 
ver 
qualquer 
coisa 
que 
gerasse 
energia. 


 
E 
s 
existem 
trs 
matizes 
diferentes? 
 
perguntei 
a 
Dom 
Juan. 
 
Existe 
um 
nmero 
infinito. 
Mas 
para 
os 
objetivos 
de 
uma 
#
ordem 
inicial 
voc 
deve 
se 
concentrar 
nesses 
trs. 
Mais 
tarde 
pode 
ficar 
to 
sofisticado 
quanto 
quiser 
e 
isolar 
dezenas 
de 
matizes, 
se 
puder. 


A 
camada 
esbranquiada 
 
o 
matiz 
do 
posicionamento 
atual 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
da 
humanidade 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Digamos 
que 
 
um 
matiz 
moderno. 
Os 
feiticeiros 
acreditam 
que 
tudo 
que 
o 
homem 
faz 
hoje 
em 
dia 
 
pintado 
com 
esse 
matiz 
esbranquiado. 
Em 
outra 
poca 
o 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
da 
humanidade 
tornou 
verde-amarelado 
o 
matiz 
da 
energia 
dominante 
no 
mundo; 
e 
em 
outra 
poca, 
ainda 
mais 
distante, 
tornou-o 
mbar. 
A 
cor 
da 
energia 
dos 
feiticeiros 
 
mbar, 
o 
que 
significa 
que 
so 
energeticamente 
associados 
aos 
homens 
que 
existiram 
num 
passado 
distante. 


 
Voc 
acha, 
Dom 
Juan, 
que 
o 
atual 
matiz 
esbranquiado 
ir 
mudar 
algum 
dia? 
 
Se 
o 
homem 
for 
capaz 
de 
evoluir. 
A 
grande 
tarefa 
dos 
feiticeiros 
 
trazer 
a 
idia 
de 
que, 
para 
evoluir, 
o 
homem 
deve 
primeiro 
libertar 
sua 
conscincia 
das 
amarras 
da 
ordem 
social. 
Uma 
vez 
que 
a 
conscincia 
estiver 
livre, 
o 
intento 
ir 
redirecion-la 
para 
um 
novo 
caminho 
evolucionrio. 
 
Voc 
acha 
que 
os 
feiticeiros 
tero 
sucesso 
nessa 
tarefa? 
 
Eles 
j 
tiveram 
sucesso. 
Eles 
prprios 
so 
a 
prova. 
Convencer 
os 
outros 
do 
valor 
e 
da 
importncia 
de 
evoluir 
 
outra 
coisa. 
O 
outro 
tipo 
de 
energia 
que 
descobri 
presente 
em 
nosso 
mundo, 
mas 
que 
 
estranha 
a 
ele, 
foi 
a 
energia 
dos 
batedores. 
A 
energia 
que 
Dom 
Juan 
chamara 
de 
crepitante. 
Encontrei 
montes 
de 
itens 
em 
meus 
sonhos, 
itens 
que, 
uma 
vez 
que 
eu 
os 
via, 
transformavam-se 
em 
bolhas 
de 
energia 
que 
pareciam 
estar 
fritando, 
borbulhando 
com 
alguma 
energia 
interna 
que 
parecia 
calor. 


 
Tenha 
em 
mente 
que 
nem 
todo 
batedor 
que 
voc 
encontrar 
pertence 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
observou 
Dom 
Juan. 
 
At 
agora, 
todo 
batedor 
que 
voc 
encontrou, 
excetuando-se 
o 
azul, 
era 
daquele 
mundo, 
mas 
isso 
foi 
porque 
os 
seres 
inorgnicos 
o 
#
estavam 
seduzindo. 
Estavam 
comandando 
o 
espetculo. 
Agora 
voc 
est 
por 
conta 
prpria. 
Alguns 
dos 
batedores 
que 
ir 
encontrar 
no 
sero 
do 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos, 
mas 
de 
outros 
nveis 
de 
conscincia 
ainda 
mais 
distantes. 


 
Os 
batedores 
so 
conscientes 
de 
si 
prprios? 
 
perguntei. 
 
Certamente. 
 
Ento 
por 
que 
no 
fazem 
contato 
conosco 
quando 
estamos 
acordados? 
 
Eles 
fazem. 
Mas 
nosso 
grande 
azar 
 
ter 
a 
conscincia 
to 
ocupada 
que 
no 
temos 
tempo 
de 
prestar 
ateno. 
No 
sono, 
entretanto, 
abre-se 
o 
alapo: 
ns 
sonhamos. 
E 
nos 
sonhos 
fazemos 
contato. 
 
Existe 
algum 
modo 
de 
dizer 
se 
os 
batedores 
so 
de 
outro 
nvel 
alm 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos? 
 
Quanto 
maior 
o 
crepitar, 
de 
mais 
longe 
eles 
vm. 
Parece 
simplista, 
mas 
voc 
precisa 
deixar 
seu 
corpo 
energtico 
dizer 
o 
que 
 
o 
qu. 
Posso 
assegurar 
que 
ele 
vai 
fazer 
excelentes 
distines 
e 
julgamentos 
acertados 
quando 
encontrar 
energia 
estranha. 
Novamente 
ele 
estava 
certo. 
Sem 
muito 
trabalho 
meu 
corpo 
energtico 
distinguiu 
dois 
tipos 
gerais 
de 
energia 
aliengena. 
O 
primeiro 
eram 
os 
batedores 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Sua 
energia 
crepitava 
medianamente. 
No 
fazia 
qualquer 
som, 
mas 
tinha 
todas 
as 
aparncias 
de 
uma 
efervescncia, 
ou 
de 
gua 
que 
comea 
a 
ferver. 


A 
energia 
do 
segundo 
tipo 
geral 
de 
batedores 
me 
deu 
a 
impresso 
de 
um 
poder 
consideravelmente 
maior. 
Aqueles 
batedores 
pareciam 
em 
vias 
de 
queimar. 
Vibravam 
por 
dentro, 
como 
se 
estivessem 
cheios 
de 
gs 
pressurizado. 


Meus 
encontros 
com 
a 
energia 
aliengena 
eram 
sempre 
rpidos, 
porque 
eu 
prestava 
total 
ateno 
ao 
que 
Dom 
Juan 
recomendara. 
Ele 
tinha 
dito: 


 
A 
no 
ser 
que 
voc 
saiba 
exatamente 
o 
que 
est 
fazendo 
e 
o 
que 
quer 
da 
energia 
aliengena, 
deve 
se 
contentar 
com 
um 
olhar 
rpido. 
Qualquer 
coisa 
alm 
disso 
 
to 
perigosa 
e 
estpida 
quanto 
#
brincar 
com 
uma 
cascavel. 


 
Por 
que 
 
perigoso, 
Dom 
Juan? 
 
Os 
batedores 
so 
sempre 
muito 
agressivos 
e 
extremamente 
ousados. 
Precisam 
ser 
assim, 
para 
sobreviver 
s 
suas 
exploraes. 
Manter 
nossa 
ateno 
sonhadora 
neles 
 
o 
mesmo 
que 
solicitar 
que 
concentrem 
em 
ns 
sua 
conscincia. 
Assim 
que 
concentram 
sua 
conscincia 
sobre 
ns, 
somos 
compelidos 
a 
ir 
com 
eles. 
E 
esse, 
claro, 
 
o 
perigo. 
Podemos 
acabar 
em 
mundos 
alm 
de 
nossas 
possibilidades 
energticas. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
existem 
muito 
outros 
tipos 
de 
batedores 
alm 
dos 
dois 
que 
eu 
classificara, 
mas 
que 
no 
meu 
nvel 
atual 
de 
energia 
eu 
s 
podia 
me 
concentrar 
em 
trs. 
Descreveu 
os 
dois 
primeiros 
como 
os 
mais 
fceis 
de 
detectar. 
Seus 
disfarces 
em 
nossos 
sonhos 
so 
to 
exticos 
que 
imediatamente 
atraem 
nossa 
ateno 
sonhadora. 
Em 
seguida 
disse 
que 
os 
batedores 
do 
terceiro 
tipo 
so 
os 
mais 
perigosos 
em 
termos 
de 
agressividade 
e 
poder, 
e 
porque 
se 
escondem 
sob 
disfarces 
sutis. 


 
Uma 
das 
coisas 
mais 
estranhas 
que 
os 
sonhadores 
encontram, 
e 
que 
voc 
mesmo 
descobrir 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan 
 
 
esse 
terceiro 
tipo 
de 
batedor. 
At 
agora 
voc 
s 
descobriu 
exemplos 
dos 
dois 
primeiros 
tipos, 
mas 
isso 
foi 
porque 
no 
olhou 
para 
o 
lugar 
certo. 
 
E 
qual 
 
o 
lugar 
certo, 
Dom 
Juan? 
 
Mais 
uma 
vez 
voc 
caiu 
vtima 
das 
palavras; 
dessa 
vez 
a 
palavra 
culpada 
 
itens, 
que 
voc 
tomou 
apenas 
como 
coisas, 
objetos. 
Bem, 
os 
batedores 
mais 
ferozes 
se 
escondem 
atrs 
de 
pessoas, 
em 
nossos 
sonhos. 
Tive 
uma 
surpresa 
formidvel 
quando 
concentrei 
o 
olhar 
na 
imagem 
de 
minha 
me 
num 
sonho. 
Depois 
de 
verbalizar 
meu 
intento 
de 
ver, 
ela 
se 
transformou 
uma 
bolha 
feroz 
e 
amedrontadora 
de 
energia 
crepitante. 
Dom 
Juan 
fez 
uma 
pausa, 
para 
deixar 
que 
sua 
afirmao 
penetrasse. 
Senti-me 
estpido 
por 
me 
perturbar 
com 
a 
possibilidade 
de 
encontrar 
um 
batedor 
por 
trs 
da 
imagem 
de 
minha 
me 
num 
sonho. 


#
 
Uma 
coisa 
desagradvel 
 
que 
eles 
sempre 
se 
associam 
 
imagem 
de 
nossos 
pais 
ou 
de 
amigos 
ntimos 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Talvez 
porque 
nos 
sintamos 
geralmente 
 
vontade 
quando 
sonhamos 
com 
eles. 
 
Seu 
riso 
me 
deu 
a 
impresso 
de 
que 
ele 
se 
divertia 
com 
minha 
confuso. 
 
Uma 
regra 
prtica 
para 
os 
sonhadores 
 
presumir 
que 
o 
terceiro 
tipo 
de 
batedor 
est 
presente 
sempre 
que 
se 
sentem 
perturbados 
pelos 
pais 
ou 
por 
amigos 
num 
sonho. 
Um 
bom 
conselho 
 
evitar 
essas 
imagens 
de 
sonho. 
So 
puro 
veneno. 
 
Qual 
 
a 
relao 
do 
batedor 
azul 
com 
os 
outros? 
 
A 
energia 
azul 
no 
crepita 
 
ele 
respondeu. 
 
Ela 
 
como 
a 
nossa; 
ondula, 
mas 
 
azul, 
em 
vez 
de 
branca. 
A 
energia 
azul 
no 
existe 
em 
estado 
natural 
no 
nosso 
mundo. 
E 
isso 
nos 
traz 
a 
uma 
coisa 
da 
qual 
nunca 
falamos. 
De 
que 
cor 
eram 
os 
batedores 
que 
voc 
viu 
at 
agora? 


At 
o 
momento 
em 
que 
ele 
mencionou, 
eu 
nunca 
havia 
pensado 
naquilo. 
Falei 
que 
os 
batedores 
que 
eu 
vira 
eram 
rosados 
ou 
avermelhados. 
E 
ele 
disse 
que 
os 
batedores 
mortais 
do 
terceiro 
tipo 
eram 
de 
um 
laranja 
brilhante. 


Descobri 
sozinho 
que, 
de 
longe, 
o 
terceiro 
tipo 
de 
batedor 
 
absolutamente 
apavorante. 
Cada 
vez 
que 
encontrei 
um 
deles, 
foi 
por 
trs 
da 
imagem 
de 
meus 
pais, 
especialmente 
de 
minha 
me. 
V-lo 
sempre 
me 
lembrava 
da 
bolha 
de 
energia 
que 
me 
atacara 
no 
primeiro 
sonho 
em 
que 
eu 
vira 
deliberadamente. 
Cada 
vez 
que 
a 
encontrava, 
a 
energia 
aliengena 
exploradora 
parecia 
a 
ponto 
de 
saltar 
sobre 
mim. 
Meu 
corpo 
energtico 
costumava 
reagir 
com 
horror 
antes 
mesmo 
que 
eu 
a 
visse. 


Na 
prxima 
vez 
em 
que 
discutimos 
o 
sonhar 
perguntei 
a 
Dom 
Juan 
sobre 
a 
total 
ausncia 
dos 
seres 
inorgnicos 
em 
meus 
exerccios. 


 
Por 
que 
eles 
no 
aparecem 
mais? 
 
Eles 
s 
se 
mostram 
no 
incio. 
Depois 
dos 
batedores 
nos 
levarem 
ao 
seu 
mundo, 
no 
existe 
necessidade 
das 
projees 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Se 
queremos 
ver 
os 
seres 
inorgnicos, 
um 
batedor 
nos 
leva 
at 
l. 
J 
que 
ningum, 
e 
quero 
dizer 
realmente 
ningum, 
#
pode 
viajar 
sozinho 
at 
o 
mundo 
deles. 


 
Por 
que, 
Dom 
Juan? 
 
O 
mundo 
deles 
 
lacrado. 
Ningum 
pode 
entrar 
ou 
sair 
sem 
o 
consentimento 
dos 
seres 
inorgnicos. 
A 
nica 
coisa 
que 
voc 
pode 
fazer 
sozinho 
quanto 
est 
l 
dentro 
, 
claro, 
verbalizar 
seu 
intento 
de 
ficar. 
Diz-lo 
em 
voz 
alta 
significa 
colocar 
em 
ao 
correntes 
irreversveis 
de 
energia. 
Nos 
tempos 
antigos 
as 
palavras 
eram 
incrivelmente 
poderosas. 
Agora 
no 
so 
mais. 
No 
reino 
dos 
seres 
inorgnicos, 
por 
outro 
lado, 
elas 
no 
perderam 
o 
poder. 
Dom 
Juan 
riu 
e 
disse 
que 
no 
tinha 
nada 
que 
falar 
sobre 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
porque 
eu 
na 
verdade 
sabia 
mais 
do 
que 
ele 
e 
seus 
companheiros 
juntos. 


 
Existe 
uma 
ltima 
questo 
relacionada 
com 
aquele 
mundo 
e 
que 
ns 
ainda 
no 
discutimos. 
 
Ele 
fez 
uma 
pausa 
longa, 
como 
se 
procurasse 
as 
palavras 
adequadas. 
 
Em 
ltima 
anlise, 
minha 
averso 
s 
atividades 
dos 
feiticeiros 
antigos 
 
muito 
pessoal. 
Como 
um 
nagual, 
detesto 
o 
que 
eles 
fizeram. 
Eles 
buscaram 
refgio, 
covardemente, 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Argumentaram 
que, 
num 
universo 
predatrio, 
disposto 
a 
nos 
despedaar, 
o 
nico 
porto 
possvel 
para 
ns 
 
naquele 
lugar. 
 
Por 
que 
eles 
acreditavam 
nisso? 
 
Porque 
 
verdade 
 
disse 
ele. 
 
Como 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
podem 
mentir, 
a 
conversa 
de 
vendedor 
do 
emissrio 
do 
sonho 
 
totalmente 
verdadeira. 
Aquele 
mundo 
pode 
nos 
dar 
abrigo 
e 
prolongar 
nossa 
conscincia 
durante 
quase 
uma 
eternidade. 
 
A 
conversa 
de 
vendedor 
do 
emissrio, 
mesmo 
sendo 
verdade, 
no 
me 
atrai 
 
falei. 
 
Quer 
dizer 
que 
voc 
se 
arriscaria 
numa 
estrada 
que 
pode 
despeda-lo? 
 
ele 
perguntou 
com 
uma 
nota 
de 
espanto 
na 
voz. 
Assegurei 
a 
Dom 
Juan 
que 
no 
queria 
o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
no 
importa 
que 
vantagens 
ele 
oferecesse. 
Minha 
afirmao 
pareceu 
agrad-lo 
enormemente. 


 
Ento 
voc 
est 
pronto 
para 
uma 
ltima 
afirmao 
sobre 
aquele 
mundo. 
A 
afirmao 
mais 
aterrorizante 
que 
posso 
fazer 
 
ele 
#
disse 
e 
tentou 
rir, 
mas 
no 
conseguiu. 


Dom 
Juan 
buscou 
em 
meus 
olhos, 
suponho, 
um 
brilho 
de 
concordncia 
ou 
compreenso. 
Ficou 
quieto 
por 
um 
momento. 


 
A 
energia 
necessria 
para 
mover 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
dos 
feiticeiros 
vem 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
 
falou, 
como 
se 
estivesse 
horrorizado 
por 
ter 
conseguido 
declar-lo. 
Meu 
corao 
quase 
parou. 
Senti 
uma 
vertigem 
e 
precisei 
bater 
com 
os 
ps 
no 
cho 
para 
no 
desmaiar. 


 
Essa 
 
a 
verdade 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan 
 
e 
o 
legado 
dos 
feiticeiros 
antigos 
para 
ns. 
Eles 
nos 
mantm 
presos 
at 
hoje. 
Este 
 
o 
motivo 
pelo 
qual 
no 
gosto 
deles. 
Fico 
indignado 
por 
ter 
de 
mergulhar 
apenas 
numa 
fonte. 
Pessoalmente, 
me 
recuso 
a 
faz-lo. 
E 
tentei 
afast-lo 
disso. 
Mas 
no 
tive 
sucesso 
porque 
alguma 
coisa 
puxa-o 
para 
aquele 
mundo, 
como 
um 
m. 
Compreendi 
melhor 
do 
que 
poderia 
pensar. 
Viajar 
para 
aquele 
mundo 
sempre 
significara 
para 
mim, 
num 
nvel 
energtico, 
um 
reforo 
de 
energia 
escura. 
Eu 
at 
mesmo 
pensara 
nesses 
termos, 
muito 
antes 
de 
Dom 
Juan 
fazer 
sua 
declarao. 


 
O 
que 
podemos 
fazer 
a 
respeito? 
 
perguntei. 
 
No 
podemos 
fazer 
negcios 
com 
eles, 
e 
mesmo 
assim 
no 
podemos 
ficar 
longe 
deles. 
Minha 
soluo 
tem 
sido 
tomar 
a 
energia, 
mas 
no 
ceder 
 
influncia 
deles. 
Isso 
 
conhecido 
como 
a 
espreita 
definitiva. 
 
feita 
sustentando 
o 
firme 
intento 
de 
liberdade, 
ainda 
que 
nenhum 
feiticeiro 
saiba 
o 
que 
realmente 
 
liberdade. 
 
Pode 
me 
explicar, 
Dom 
Juan, 
por 
que 
os 
feiticeiros 
precisam 
pegar 
energia 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos? 
 
No 
existe 
outra 
energia 
vivel 
para 
os 
feiticeiros. 
Para 
manobrar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
do 
jeito 
que 
fazem, 
os 
feiticeiros 
precisam 
de 
uma 
quantidade 
enorme 
de 
energia. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
no 
existe 
modo 
de 
os 
feiticeiros 
terem 
acesso 
quela 
quantidade 
de 
energia 
procurando-a 
apenas 
em 
si 
prprios. 
No 
importa 
o 
quanto 
reestruturem 
sua 
energia 
bsica 
e 
natural, 
ainda 
no 
basta. 
Lembrei-o 
do 
que 
ele 
dissera: 
que 
uma 
reestruturao 
da 
energia 
era 
necessria 
pra 
o 
sonhar. 


#
 
Est 
correto 
 
ele 
respondeu. 
 
Para 
comear 
a 
sonhar 
os 
feiticeiros 
precisam 
redefinir 
suas 
premissas 
e 
economizar 
a 
energia; 
mas 
essa 
redefinio 
s 
 
vlida 
para 
a 
energia 
destinada 
ao 
incio 
do 
sonhar. 
Voar 
at 
outros 
mundos, 
ver 
energia, 
forjar 
o 
corpo 
energtico 
etc. 
etc. 
 
outra 
coisa. 
Para 
essas 
manobras 
os 
feiticeiros 
precisam 
de 
montes 
de 
energia 
escura, 
aliengena. 
 
Mas 
como 
eles 
podem 
retir-la 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos? 
 
Atravs 
do 
simples 
ato 
de 
ir 
quele 
mundo. 
Todos 
os 
feiticeiros 
de 
nossa 
linha 
precisam 
fazer 
isso. 
Entretanto 
nenhum 
de 
ns 
 
to 
idiota 
para 
fazer 
o 
que 
voc 
fez. 
Mas 
isso 
 
porque 
nenhum 
de 
ns 
tem 
suas 
tendncias. 
Dom 
Juan 
me 
mandou 
para 
casa, 
para 
pensar 
no 
que 
ele 
revelara. 
Eu 
tinha 
um 
nmero 
infinito 
de 
perguntas, 
mas 
ele 
no 
quis 
ouvi-las. 


 
Todas 
as 
perguntas 
que 
voc 
tem, 
voc 
pode 
responder 
sozinho 
 
falou 
enquanto 
acenava 
um 
adeus. 
#
10 


ESPREITANDO 
OS 
ESPREITADORES 


E
E
m 
casa 
logo 
percebi 
que 
era 
impossvel 
responder 
a 
qualquer 
de 
minhas 
perguntas, 
como 
Dom 
Juan 
havia 
assegurado. 
Na 
verdade 
eu 
nem 
mesmo 
era 
capaz 
de 
as 
formular. 
Talvez 
isso 
ocorresse 
porque 
a 
fronteira 
da 
segunda 
ateno 
comeara 
a 
se 
desmoronar 
sobre 
mim; 
foi 
nessa 
poca 
que 
conheci 
Florinda 
Donner 
e 
Carol 
Tiggs 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana. 
A 
confuso 
de 
no 
conhec-las, 
e 
de 
mesmo 
assim 
conhec-las 
intimamente 
a 
ponto 
de 
ser 
capaz 
de 
morrer 
por 
elas 
num 
piscar 
de 
olhos, 
foi 
terrvel 
para 
mim. 
Eu 
conhecia 
Taisha 
Abelar 
h 
alguns 
anos, 
e 
estava 
apenas 
comeando 
a 
me 
sentir 
acostumado 
ao 
sentimento 
confuso 
de 
conhec-la 
sem 
ter 
a 
menor 
idia 
de 
como 
isso 
acontecera. 
Acrescentar 
mais 
duas 
pessoas 
ao 
meu 
sistema 
sobrecarregado 
mostrou-se 
demais 
para 
mim. 
Fiquei 
doente 
de 
estafa 
e 
tive 
de 
procurar 
a 
ajuda 
de 
Dom 
Juan. 
Fui 
 
cidade 
do 
sul 
do 
Mxico 
onde 
viviam 
seus 
companheiros. 


Dom 
Juan 
e 
seus 
amigos 
feiticeiros 
gargalharam 
 
simples 
meno 
de 
meu 
tumulto 
interior. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
eles 
no 
estavam 
na 
verdade 
rindo 
de 
mim: 
riam 
deles 
mesmos. 
Meus 
problemas 
cognitivos 
lembravam-lhes 
os 
que 
haviam 
tido, 
na 
poca 
em 
que 
a 
fronteira 
da 
segunda 
ateno 
havia 
se 
desmoronado 
sobre 
eles, 
como 
acontecera 
comigo. 
Suas 
conscincias, 
como 
a 
minha, 
no 
estiveram 
preparadas 
para 
isso, 
disse 
ele. 


 
Todo 
feiticeiro 
passa 
pela 
mesma 
agonia 
 
prosseguiu 
Dom 
#
Juan. 
 
A 
conscincia 
 
uma 
rea 
infinita 
de 
explorao 
para 
os 
feiticeiros 
e 
para 
os 
homens 
em 
geral. 
Com 
o 
objetivo 
de 
aumentar 
a 
conscincia, 
no 
existe 
risco 
que 
no 
devamos 
correr; 
nenhum 
meio 
que 
devamos 
recusar. 
Mas 
no 
se 
esquea 
de 
que 
a 
conscincia 
s 
pode 
ser 
aumentada 
com 
a 
mente 
s. 


Dom 
Juan 
reiterou 
que 
seu 
tempo 
estava 
terminando, 
e 
que 
eu 
teria 
de 
usar 
meus 
recursos 
com 
sabedoria, 
para 
cobrir 
o 
maior 
terreno 
possvel 
antes 
que 
isso 
acontecesse. 
Esse 
tipo 
de 
conversa 
costumava 
me 
deixar 
em 
depresso 
profunda. 
Mas 
 
medida 
que 
se 
aproximava 
o 
tempo 
de 
sua 
partida 
comecei 
a 
reagir 
com 
mais 
resignao. 
No 
me 
sentia 
mais 
deprimido, 
mas 
continuava 
em 
pnico. 


Depois 
disso 
no 
se 
falou 
mais 
nada. 
No 
dia 
seguinte, 
a 
seu 
pedido, 
levei 
Dom 
Juan 
de 
carro 
 
Cidade 
do 
Mxico. 
Chegamos 
por 
volta 
do 
meio-dia 
e 
fomos 
diretamente 
ao 
hotel 
El 
Prado, 
na 
Alameda 
Paseo, 
onde 
ele 
costumava 
se 
hospedar 
quando 
ficava 
na 
cidade. 
Naquele 
dia 
Dom 
Juan 
tinha 
um 
encontro 
com 
um 
advogado, 
s 
quatro 
da 
tarde. 
Como 
tnhamos 
bastante 
tempo, 
fomos 
almoar 
no 
famoso 
Caf 
Tacuba, 
um 
restaurante 
no 
corao 
do 
centro, 
onde 
dizia-se 
que 
eram 
servidas 
refeies 
de 
verdade. 


Dom 
Juan 
no 
estava 
com 
fome. 
S 
pediu 
dois 
tamales 
doces, 
enquanto 
eu 
me 
deliciava 
com 
um 
festim 
suntuoso. 
Ele 
riu 
de 
mim 
e 
fez 
um 
sinal 
de 
desespero 
silencioso 
ao 
ver 
meu 
apetite 
saudvel. 


 
Vou 
propor 
uma 
linha 
de 
ao 
para 
voc 
 
falou 
num 
tom 
corts, 
quando 
terminamos 
o 
almoo. 
 
 
a 
ltima 
tarefa 
do 
terceiro 
porto 
do 
sonhar, 
e 
consiste 
em 
espreitar 
os 
espreitadores; 
uma 
manobra 
misteriosssima. 
Espreitar 
os 
espreitadores 
significa 
que 
voc 
deliberadamente 
retira 
energia 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
com 
o 
objetivo 
de 
realizar 
um 
ato 
de 
feitiaria. 
 
Que 
tipo 
de 
ato 
de 
feitiaria, 
Dom 
Juan? 
 
Uma 
viagem; 
uma 
viagem 
que 
usa 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento 
do 
ambiente. 
No 
mundo 
da 
vida 
cotidiana 
a 
gua 
 
um 
elemento 
do 
ambiente 
que 
usamos 
para 
viajar. 
Imagine 
a 
conscincia 
#
como 
um 
elemento 
semelhante, 
que 
pode 
ser 
usado 
para 
viajar. 
Atravs 
da 
conscincia 
batedores 
de 
todo 
o 
universo 
vm 
at 
ns. 
E 
atravs 
da 
conscincia 
os 
feiticeiros 
vo 
aos 
confins 
do 
universo. 


Havia 
alguns 
conceitos, 
dentre 
a 
enorme 
quantidade 
de 
con-
ceitos 
que 
Dom 
Juan 
me 
fizera 
conhecer 
no 
decorrer 
de 
seus 
ensinamentos, 
que 
no 
precisavam 
de 
insistncia 
para 
atrair 
meu 
interesse 
total. 
Esse 
era 
um 
deles. 


 
A 
idia 
de 
que 
a 
conscincia 
 
um 
elemento 
fsico 
 
uma 
coisa 
revolucionria 
 
falei 
espantado. 
 
No 
falei 
que 
ela 
 
um 
elemento 
fsico 
 
ele 
me 
corrigiu. 
 
E 
um 
elemento 
energtico. 
Voc 
precisa 
fazer 
essa 
distino. 
Para 
os 
feiticeiros 
que 
vem, 
a 
conscincia 
 
um 
brilho. 
Eles 
podem 
atrelar 
seu 
corpo 
energtico 
quele 
brilho 
e 
viajar 
com 
ele. 


 
Qual 
 
a 
diferena 
entre 
um 
elemento 
fsico 
e 
um 
elemento 
energtico? 
 
perguntei. 
 
A 
diferena 
 
que 
os 
elementos 
fsicos 
so 
parte 
de 
nosso 
sistema 
de 
interpretao, 
mas 
os 
elementos 
energticos 
no. 
Os 
elementos 
energticos, 
como 
a 
conscincia, 
existem 
em 
nosso 
universo. 
Mas 
ns, 
como 
pessoas 
comuns, 
s 
percebemos 
os 
elementos 
fsicos 
porque 
nos 
ensinaram 
isso. 
Os 
feiticeiros 
percebem 
os 
elementos 
energticos 
pelo 
mesmo 
motivo: 
porque 
lhes 
ensinaram 
a 
faz-lo. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
o 
uso 
da 
conscincia 
como 
um 
elemento 
energtico 
do 
universo 
era 
a 
essncia 
da 
feitiaria; 
que 
em 
termos 
prticos 
a 
trajetria 
da 
feitiaria 
era, 
primeiro, 
libertar 
a 
energia 
existente 
em 
ns 
seguindo 
implacavelmente 
o 
caminho 
dos 
feiticeiros; 
segundo, 
usar 
essa 
energia 
para 
desenvolver 
o 
corpo 
energtico 
atravs 
do 
sonhar; 
e 
terceiro, 
usar 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento 
do 
ambiente 
para 
entrar 
com 
o 
corpo 
energtico 
e 
toda 
a 
nossa 
fisicalidade 
em 
outros 
mundos. 


 
Existem 
dois 
tipos 
de 
viagem 
energtica 
para 
outros 
mundos 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Uma 
 
quando 
a 
conscincia 
pega 
o 
corpo 
energtico 
e 
leva-o 
para 
onde 
quer; 
e 
a 
outra 
 
quando 
o 
feiticeiro 
#
decide, 
com 
conscincia 
total, 
usar 
a 
avenida 
da 
conscincia 
com 
o 
objetivo 
de 
fazer 
uma 
viagem. 
Voc 
j 
fez 
o 
primeiro 
tipo 
de 
viagem. 
O 
segundo 
exige 
uma 
disciplina 
enorme. 


Depois 
de 
longo 
silncio 
Dom 
Juan 
afirmou 
que 
na 
vida 
dos 
feiticeiros 
existem 
questes 
que 
exigem 
um 
domnio 
de 
mestre, 
e 
que 
lidar 
com 
a 
conscincia, 
como 
um 
elemento 
de 
energia 
aberto 
ao 
corpo 
energtico, 
 
a 
questo 
mais 
importante, 
vital 
e 
perigosa. 


Eu 
no 
tinha 
nenhum 
comentrio. 
Estava 
cheio 
de 
dedos, 
pensando 
em 
cada 
uma 
de 
suas 
palavras. 


 
Sozinho 
voc 
no 
tem 
energia 
suficiente 
para 
realizar 
a 
ltima 
tarefa 
do 
terceiro 
porto 
do 
sonhar 
 
ele 
prosseguiu. 
 
Mas 
se 
juntar-se 
a 
Carol 
Tiggs 
vocs 
dois 
certamente 
podero 
fazer 
o 
que 
tenho 
em 
mente. 
Parou, 
deliberadamente 
me 
incitando 
com 
seu 
silncio 
a 
perguntar 
o 
que 
ele 
tinha 
em 
mente. 
Fiz 
isso. 
Seu 
riso 
apenas 
fez 
crescer 
o 
clima 
aziago. 


 
Quero 
que 
voc 
rompa 
as 
fronteiras 
do 
mundo 
normal 
e, 
usando 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento 
energtico, 
entre 
em 
outro 
 
disse 
ele. 
 
Essa 
quebra 
e 
essa 
entrada 
tm 
a 
ver 
com 
espreitar 
os 
espreitadores. 
O 
uso 
da 
conscincia 
como 
elemento 
do 
ambiente 
passa 
ao 
largo 
da 
influncia 
dos 
seres 
inorgnicos, 
mas 
mesmo 
assim 
utiliza 
sua 
energia. 
No 
quis 
me 
dar 
mais 
nenhuma 
informao, 
com 
o 
objetivo 
de 
no 
me 
influenciar, 
disse 
ele. 
Acreditava 
que, 
quanto 
menos 
eu 
soubesse 
antecipadamente, 
melhor 
seria. 
Discordei, 
mas 
ele 
assegurou 
que 
num 
instante 
meu 
corpo 
energtico 
estaria 
perfeitamente 
capaz 
de 
cuidar 
de 
si 
prprio. 


Fomos 
do 
restaurante 
para 
o 
escritrio 
do 
advogado. 
Dom 
Juan 
terminou 
rapidamente 
o 
que 
tinha 
a 
fazer 
e 
num 
instante 
estvamos 
num 
txi 
a 
caminho 
do 
aeroporto. 
Ele 
me 
informou 
que 
Carol 
Tiggs 
estava 
chegando 
num 
vo 
de 
Los 
Angeles, 
e 
que 
vinha 
para 
a 
Cidade 
do 
Mxico 
exclusivamente 
com 
o 
objetivo 
de 
realizar 
comigo 
aquela 
ltima 
tarefa. 


#
 
O 
Vale 
do 
Mxico 
 
um 
lugar 
soberbo 
para 
realizar 
o 
tipo 
de 
ato 
de 
feitiaria 
que 
voc 
deseja 
 
comentou 
ele. 
 
Voc 
ainda 
no 
me 
disse 
exatamente 
que 
passos 
devo 
dar 
 
falei. 
Ele 
no 
respondeu. 
No 
falamos 
mais, 
mas 
enquanto 
espervamos 
que 
o 
avio 
pousasse 
ele 
explicou 
o 
procedimento 
que 
eu 
deveria 
seguir. 
Tinha 
de 
ir 
ao 
quarto 
de 
Carol 
Tiggs 
no 
Regis 
Hotel, 
na 
mesma 
rua 
que 
o 
nosso; 
e 
depois 
de 
entrar 
num 
silncio 
interior 
absoluto, 
junto 
com 
ela, 
teramos 
de 
entrar 
suavemente 
no 
sonhar, 
verbalizando 
o 
intento 
de 
ir 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 


Interrompi-o 
lembrando 
que 
eu 
sempre 
tivera 
de 
esperar 
o 
surgimento 
de 
um 
batedor 
antes 
de 
poder 
manifestar 
em 
voz 
alta 
meu 
intento 
de 
ir 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 


Dom 
Juan 
deu 
um 
risinho 
e 
disse: 


 
Voc 
ainda 
no 
sonhou 
junto 
com 
Carol 
Tiggs. 
Vai 
descobrir 
que 
 
um 
deleite. 
As 
feiticeiras 
no 
precisam 
de 
nenhuma 
muleta. 
Simplesmente 
vo 
quele 
mundo 
sempre 
que 
desejam; 
para 
elas 
existe 
um 
batedor 
chamando 
permanentemente. 
No 
consegui 
acreditar 
que 
uma 
feiticeira 
seria 
capaz 
de 
fazer 
o 
que 
ele 
afirmava. 
Eu 
achava 
que 
tinha 
um 
certo 
conhecimento 
sobre 


o 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Quando 
mencionei 
o 
que 
me 
passava 
pela 
cabea 
ele 
respondeu 
que 
eu 
no 
tinha 
nenhum 
conhecimento 
quando 
se 
tratava 
do 
que 
as 
feiticeiras 
eram 
capazes. 
 
Por 
que 
voc 
acha 
que 
eu 
precisei 
de 
Carol 
Tiggs 
para 
arranc-lo 
fisicamente 
daquele 
mundo? 
Acha 
que 
fiz 
isso 
porque 
ela 
 
linda? 
 
Por 
que, 
Dom 
Juan? 
 
Porque 
eu 
no 
poderia 
fazer 
sozinho; 
e 
para 
ela 
aquilo 
era 
nada. 
Ela 
tem 
jeito 
para 
lidar 
com 
aquele 
mundo. 
 
Ela 
 
um 
caso 
excepcional, 
Dom 
Juan? 
 
As 
mulheres 
tm 
em 
geral 
uma 
tendncia 
para 
aquele 
mundo; 
as 
feiticeiras, 
claro, 
so 
as 
campes, 
mas 
Carol 
Tiggs 
 
melhor 
do 
que 
qualquer 
pessoa 
que 
conheo 
porque 
tem, 
como 
a 
#
Mulher 
Nagual, 
uma 
energia 
soberba. 


Achei 
que 
apanhara 
Dom 
Juan 
numa 
contradio 
sria. 
Ele 
havia 
me 
dito 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
tinham 
qualquer 
interesse 
nas 
mulheres. 
E 
agora 
estava 
dizendo 
o 
oposto. 


 
No. 
No 
estou 
dizendo 
o 
oposto. 
Eu 
falei 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
vo 
atrs 
das 
mulheres; 
s 
vo 
atrs 
dos 
homens, 
e 
que 
todo 
o 
universo 
 
em 
grande 
parte 
feminino. 
Ento, 
tire 
suas 
prprias 
concluses. 
Como 
eu 
no 
tinha 
como 
tirar 
qualquer 
concluso, 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
as 
feiticeiras, 
em 
teoria, 
vm 
e 
vo 
ao 
seu 
bel-prazer 
para 
aquele 
mundo 
por 
causa 
de 
sua 
conscincia 
aumentada 
e 
de 
sua 
feminilidade. 


 
Voc 
sabe 
disso 
por 
causa 
de 
algum 
fato? 
 
perguntei. 
 
As 
mulheres 
de 
meu 
grupo 
nunca 
fizeram 
isso 
 
ele 
confessou. 
 
No 
porque 
no 
possam, 
mas 
porque 
eu 
as 
dissuadi. 
As 
mulheres 
de 
seu 
grupo, 
por 
outro 
lado, 
fazem 
isso 
do 
mesmo 
jeito 
que 
trocam 
de 
saias. 
Senti 
um 
vcuo 
no 
estmago. 
Eu 
realmente 
no 
sabia 
nada 
sobre 
as 
mulheres 
do 
meu 
grupo. 
Dom 
Juan 
me 
consolou, 
dizendo 
que 
minhas 
circunstncias 
eram 
diferentes 
das 
suas, 
e 
que 
o 
mesmo 
acontecia 
com 
meu 
papel 
de 
nagual. 
Assegurou-me 
que 
no 
poderia 
dissuadir 
nenhuma 
das 
mulheres 
de 
meu 
grupo, 
nem 
plantando 
bananeira. 


Enquanto 
o 
txi 
nos 
levava 
ao 
seu 
hotel, 
Carol 
Tiggs 
nos 
deliciou 
imitando 
pessoas 
que 
conhecamos. 
Tentei 
ficar 
srio 
e 
question-la 
sobre 
nossa 
tarefa. 
Ela 
murmurou 
algumas 
desculpas 
por 
no 
conseguir 
me 
responder 
com 
a 
seriedade 
que 
eu 
merecia. 
Dom 
Juan 
soltou 
uma 
gargalhada 
quando 
ela 
imitou 
meu 
tom 
de 
voz 
solene. 


Depois 
de 
registrar 
Carol 
no 
hotel 
ns 
trs 
passeamos 
pelo 
centro 
da 
cidade, 
procurando 
lojas 
de 
livros 
usados. 
Comemos 
um 
jantar 
leve 
no 
restaurante 
Sanborns, 
no 
Palcio 
dos 
Azulejos. 
Por 
volta 
de 
dez 
horas 
andamos 
at 
o 
hotel 
Regis. 
Fomos 
direto 
para 
o 


#
elevador. 
O 
medo 
aguara 
minha 
capacidade 
de 
perceber 
detalhes. 
O 
prdio 
do 
hotel 
era 
velho 
e 
macio. 
A 
moblia 
da 
recepo 
obviamente 
j 
vira 
dias 
melhores. 
Mas 
ao 
nosso 
redor 
havia 
uma 
glria 
antiga 
que 
sobrara 
dos 
tempos 
antigos 
e 
que 
tinha 
um 
apelo 
definido. 
Eu 
podia 
facilmente 
entender 
por 
que 
Carol 
Tiggs 
gostava 
tanto 
daquele 
hotel. 


Antes 
de 
entrarmos 
no 
elevador 
minha 
ansiedade 
cresceu 
tanto 
que 
precisei 
pedir 
a 
Dom 
Juan 
instrues 
de 
ltimo 
minuto. 


 
Fale 
de 
novo 
como 
vamos 
agir 
 
implorei. 
Dom 
Juan 
puxou-nos 
at 
as 
poltronas 
antigas 
na 
recepo 
e 
pacientemente 
explicou 
que, 
assim 
que 
estivssemos 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos, 
teramos 
de 
verbalizar 
o 
intento 
de 
transferir 
nossa 
conscincia 
normal 
para 
nossos 
corpos 
energticos. 
Sugeriu 
que 
Carol 
e 
eu 
verbalizssemos 
juntos 
o 
intento, 
apesar 
disso 
no 
ser 
realmente 
importante. 
O 
importante, 
segundo 
ele, 
era 
que 
cada 
um 
de 
ns 
intentasse 
transferir 
a 
conscincia 
total 
de 
nosso 
mundo 
cotidiano 
para 
nossos 
corpos 
energticos. 


 
Como 
realizamos 
essa 
transferncia 
de 
conscincia? 
 
perguntei. 


 
Transferir 
a 
conscincia 
 
puramente 
questo 
de 
verbalizar 
o 
intento 
e 
ter 
a 
quantidade 
de 
energia 
necessria 
 
disse 
ele. 
 
Carol 
sabe 
disso. 
Ela 
j 
fez 
antes. 
Entrou 
fisicamente 
no 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos 
quando 
puxou 
voc 
de 
l, 
lembra? 
A 
energia 
dela 
far 
o 
truque. 
Isso 
vai 
fazer 
a 
balana 
pender. 
 
O 
que 
significa 
fazer 
a 
balana 
pender? 
Estou 
num 
limbo, 
Dom 
Juan. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
fazer 
a 
balana 
pender 
significava 
pegar 
nossa 
corporalidade 
e 
coloc-la 
no 
corpo 
energtico. 
Disse 
que 
usar 
a 
conscincia 
como 
um 
meio 
no 
qual 
viajar 
para 
outro 
mundo 
no 
 
o 
resultado 
de 
aplicar 
alguma 
tcnica, 
e 
sim 
o 
corolrio 
de 
intentar 
e 
ter 
energia 
suficiente. 
O 
volume 
de 
energia 
de 
Carol 
somado 
ao 
meu, 
ou 
o 
volume 
da 
minha 
energia 
somada 
 
de 
Carol 
iria 
nos 
transformar 
em 
uma 
s 
entidade, 
energeticamente 
capaz 
de 


#
puxar 
nossa 
fisicalidade 
e 
coloc-la 
no 
corpo 
energtico, 
para 
fazer 
essa 
viagem. 


 
O 
que, 
exatamente, 
temos 
de 
fazer 
para 
entrar 
nesse 
outro 
mundo? 
 
perguntou 
Carol 
Tiggs. 
Sua 
pergunta 
me 
fez 
quase 
morrer 
de 
medo; 
eu 
pensava 
que 
ela 
sabia 
o 
que 
estava 
acontecendo. 
 
Sua 
massa 
fsica 
total 
precisa 
ser 
somada 
ao 
seu 
corpo 
energtico 
 
Dom 
Juan 
respondeu 
olhando-a 
nos 
olhos. 
 
A 
grande 
dificuldade 
dessa 
manobra 
 
disciplinar 
o 
corpo 
energtico, 
uma 
coisa 
que 
vocs 
dois 
j 
fizeram. 
A 
falta 
de 
disciplina 
 
o 
nico 
motivo 
pelo 
qual 
vocs 
podem 
falhar 
na 
realizao 
desse 
ato 
de 
espreita 
definitiva. 
Algumas 
vezes, 
por 
acaso, 
uma 
pessoa 
comum 
acaba 
realizando-o 
e 
entrando 
em 
outro 
mundo. 
Mas 
isso 
 
imediatamente 
explicado 
como 
insanidade 
ou 
alucinao. 
Eu 
daria 
qualquer 
coisa 
para 
que 
Dom 
Juan 
continuasse 
falando. 
Ele 
colocou-nos 
no 
elevador 
e 
subimos 
para 
o 
segundo 
andar, 
para 
o 
quarto 
de 
Carol, 
a 
despeito 
de 
meus 
protestos 
e 
de 
minha 
necessidade 
racional 
de 
saber. 
Mas, 
no 
fundo, 
meu 
tumulto 
no 
era 
tanto 
porque 
eu 
queria 
saber. 
Sua 
base 
era 
meu 
medo. 
De 
algum 
modo, 
essa 
manobra 
dos 
feiticeiros 
me 
apavorava 
mais 
do 
que 
qualquer 
coisa 
que 
eu 
j 
havia 
feito. 


As 
palavras 
de 
despedida 
de 
Dom 
Juan 
haviam 
sido: 


 
Esqueam 
o 
Eu, 
e 
vocs 
no 
tero 
medo 
de 
nada. 
 
Seu 
riso 
e 
o 
balano 
de 
cabea 
foram 
um 
convite 
a 
que 
pensssemos 
naquela 
afirmao. 
Carol 
Tiggs 
riu 
e 
comeou 
a 
fazer 
palhaadas, 
imitando 
a 
voz 
de 
Dom 
Juan 
dando 
instrues 
crpticas. 
Sua 
voz 
ciciante 
dava 
um 
colorido 
especial 
ao 
que 
Dom 
Juan 
dissera. 
Algumas 
vezes 
eu 
achava 
aquele 
ciciar 
adorvel. 
Na 
maioria 
do 
tempo 
detestava-o. 
Felizmente, 
naquela 
noite, 
seu 
ciciar 
era 
quase 
imperceptvel. 


Fomos 
para 
o 
quarto 
dela 
e 
Sentamo-nos 
na 
beira 
da 
cama. 
Meu 
ltimo 
pensamento 
consciente 
foi 
de 
que 
a 
cama 
era 
uma 
relquia 
do 
incio 
do 
sculo. 
Antes 
de 
poder 
dizer 
uma 
palavra 
me 
vi 
deitado 
numa 
cama 
de 
aparncia 
estranha. 
Carol 
Tiggs 
estava 


#
comigo. 
Ela 
meio 
sentou-se, 
ao 
mesmo 
tempo 
que 
eu 
fazia 
o 
mesmo. 
Estvamos 
nus, 
cada 
um 
coberto 
por 
um 
lenol 
fino. 


 
O 
que 
est 
acontecendo? 
 
ela 
perguntou 
numa 
voz 
frgil. 
 
Voc 
est 
acordada? 
 
perguntei 
idiotamente. 
 
Claro 
que 
estou 
acordada 
 
disse 
ela 
com 
impacincia. 
Houve 
um 
longo 
silncio, 
enquanto 
ela 
obviamente 
tentava 
colocar 
os 
pensamentos 
em 
ordem. 


 
Acho 
que 
eu 
sou 
real, 
mas 
voc 
no 
 
falou 
enfim. 
 
Eu 
sei 
onde 
eu 
estava 
antes 
disso. 
E 
voc 
quer 
me 
enganar. 
Achei 
que 
ela 
estava 
fazendo 
a 
mesma 
coisa. 
Ela 
sabia 
o 
que 
estava 
acontecendo 
e 
me 
testava, 
ou 
zombava 
de 
mim. 
Dom 
Juan 
me 
dissera 
que 
os 
demnios 
dela 
e 
os 
meus 
eram 
a 
astcia 
e 
a 
desconfiana. 
Eu 
estava 
tendo 
um 
excelente 
exemplo 
disso. 


 
Recuso-me 
a 
fazer 
parte 
de 
qualquer 
merda 
que 
esteja 
sob 
o 
seu 
controle 
 
disse 
ela. 
Olhou-me 
com 
veneno 
nos 
olhos. 
 
Estou 
falando 
com 
voc, 
quem 
quer 
que 
voc 
seja. 
Pegou 
um 
dos 
lenis 
com 
os 
quais 
estvamos 
cobertos 
e 
enrolou-se 
nele. 


 
Vou 
ficar 
aqui 
e 
voltar 
para 
o 
lugar 
de 
onde 
vim 
 
falou 
com 
um 
ar 
definitivo. 
 
Vai 
brincar 
com 
o 
Nagual! 
 
Voc 
precisa 
parar 
com 
esse 
absurdo 
 
falei 
decidido. 
 
Ns 
estamos 
em 
outro 
mundo. 
Ela 
no 
prestou 
ateno 
e 
virou 
as 
costas 
para 
mim 
como 
uma 
criana 
mimada 
e 
irritada. 
Eu 
no 
quis 
desperdiar 
minha 
ateno 
sonhadora 
em 
discusses 
fteis 
sobre 
realidade. 
Comecei 
a 
examinar 


o 
espao 
ao 
redor. 
A 
nica 
luz 
do 
quarto 
era 
a 
lua 
brilhando 
atravs 
da 
janela 
diante 
de 
ns. 
Estvamos 
num 
quarto 
pequeno, 
numa 
cama 
alta. 
Percebi 
que 
a 
cama 
era 
construda 
de 
modo 
primitivo. 
Quatro 
pilares 
grossos 
haviam 
sido 
plantados 
no 
cho, 
e 
a 
estrutura 
da 
cama 
era 
uma 
trelia, 
feita 
de 
varas 
compridas, 
presa 
aos 
pilares. 
Tinha 
um 
colcho 
grosso, 
mais 
como 
uma 
questo 
de 
compactao 
do 
que 
propriamente 
de 
espessura. 
No 
havia 
cobertores 
ou 
travesseiros. 
Sacos 
de 
aniagem, 
cheios, 
estavam 
empilhados 
contra 
#
as 
paredes. 
Dois 
sacos, 
junto 
ao 
p 
da 
cama 
e 
postos 
um 
sobre 
o 
outro, 
serviam 
como 
escada 
para 
subir 
nela. 


Procurando 
um 
interruptor 
de 
luz, 
percebi 
que 
a 
cama 
alta 
ficava 
num 
canto, 
contra 
a 
parede. 
Nossas 
cabeas 
estavam 
em 
direo 
 
parede; 
eu 
me 
encontrava 
na 
beirada 
e 
Carol 
do 
lado 
de 
dentro. 
Quando 
sentei-me 
na 
borda 
percebi 
que 
estava, 
talvez, 
a 
um 
metro 
do 
cho. 


Carol 
Tiggs 
sentou-se 
de 
sbito, 
e 
falou 
ciciando: 


 
Isso 
 
nojento! 
O 
Nagual 
no 
tinha 
me 
dito 
que 
eu 
ia 
acabar 
assim. 
 
Eu 
tambm 
no 
sabia 
 
falei. 
Queria 
dizer 
mais 
alguma 
coisa 
e 
comear 
uma 
conversa, 
mas 
minha 
ansiedade 
crescera 
numa 
proporo 
extravagante. 
 
Fica 
quieto! 
 
ela 
gritou 
com 
a 
voz 
spera 
de 
raiva. 
 
Voc 
no 
existe. 
 
um 
fantasma. 
Desaparea! 
Desaparea! 
Seu 
ciciar 
era 
lindo, 
e 
me 
distraiu 
do 
medo 
obsessivo. 
Sacudi-a 
pelos 
ombros. 
Ela 
gritou, 
no 
tanto 
de 
dor 
quanto 
de 
surpresa 
ou 
desagrado. 


 
Eu 
no 
sou 
um 
fantasma 
 
falei. 
 
Ns 
fizemos 
a 
viagem 
porque 
juntamos 
nossa 
energia. 
Carol 
Tiggs 
era 
famosa 
entre 
ns 
pela 
velocidade 
em 
se 
adaptar 
a 
qualquer 
situao. 
De 
imediato 
se 
convenceu 
da 
realidade 
de 
nosso 
apuro 
e 
comeou 
a 
procurar 
as 
roupas 
na 
semi-escurido. 
Fiquei 
maravilhado 
com 
o 
fato 
dela 
no 
ter 
medo. 
Ficou 
agitada, 
raciocinando 
em 
voz 
alta 
onde 
poderia 
ter 
colocado 
as 
roupas, 
se 
tivesse 
ido 
para 
a 
cama 
naquele 
quarto. 


 
Est 
vendo 
alguma 
cadeira? 
 
perguntou. 
Vislumbrei 
uma 
pilha 
de 
trs 
sacos, 
que 
poderia 
ter 
servido 
como 
mesa 
ou 
banco 
alto. 
Ela 
saiu 
da 
cama, 
foi 
at 
l, 
e 
descobriu 
nossas 
roupas 
cuidadosamente 
dobradas, 
do 
modo 
como 
ela 
sempre 
tratava 
as 
vestimentas. 
Entregou-me 
as 
minhas. 
Eram 
minhas 
roupas, 
mas 
no 
as 
que 
eu 
estivera 
usando 
h 
alguns 
minutos, 
no 
quarto 
de 
Carol 
no 
hotel 
Regis. 


#
 
Essas 
no 
so 
minhas 
roupas 
 
ela 
ciciou. 
 
Mas 
ainda 
assim 
so 
minhas. 
Que 
coisa 
estranha! 
Vestimo-nos 
em 
silncio. 
Eu 
quis 
dizer 
que 
estava 
em 
vias 
de 
explodir 
de 
ansiedade. 
Tambm 
desejei 
comentar 
a 
velocidade 
de 
nossa 
viagem, 
mas, 
no 
tempo 
que 
levei 
para 
me 
vestir, 
o 
pensamento 
da 
viagem 
tinha-se 
tornado 
muito 
vago. 
Mal 
podia 
recordar 
onde 
havamos 
estado 
antes 
de 
acordar 
naquele 
quarto. 
Fiz 
um 
esforo 
supremo 
para 
lembrar, 
para 
afastar 
a 
incerteza 
que 
comeara 
a 
me 
envolver. 
Consegui 
afastar 
a 
nvoa, 
mas 
esse 
ato 
exauriu 
toda 
a 
minha 
energia. 
Acabei 
ofegante 
e 
suando. 


 
Alguma 
coisa 
quase 
me 
pegou 
 
disse 
Carol. 
Olhei 
para 
ela. 
Estava 
como 
eu, 
coberta 
de 
suor. 
 
E 
quase 
pegou 
voc 
tambm. 
O 
que 
voc 
acha 
que 
? 
 
O 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
falei 
com 
certeza 
absoluta. 
Ela 
no 
concordou 
comigo. 


 
So 
os 
seres 
inorgnicos 
cobrando 
suas 
dvidas 
 
falou 
estremecendo. 
 
O 
Nagual 
me 
disse 
que 
ia 
ser 
horrvel, 
mas 
nunca 
imaginei 
nada 
to 
horrvel. 
Eu 
concordava 
totalmente 
com 
ela; 
estvamos 
numa 
confuso 
horrenda, 
e 
mesmo 
assim 
eu 
no 
conseguia 
conceber 
qual 
era 
o 
horror 
da 
situao. 
Carol 
e 
eu 
no 
ramos 
marinheiros 
de 
primeira 
viagem. 
Tnhamos 
visto 
e 
feito 
coisas 
sem 
fim; 
algumas 
delas 
absolutamente 
aterrorizantes. 
Mas 
havia 
alguma 
coisa 
naquele 
quarto 
de 
sonho 
que 
me 
fazia 
arrepiar 
alm 
do 
que 
eu 
acreditava. 


 
Estamos 
sonhando, 
no 
estamos? 
 
Carol 
perguntou. 
Sem 
hesitar, 
tranqilizei-a, 
dizendo 
que 
estvamos; 
mas 
eu 
daria 
tudo 
para 
ter 
Dom 
Juan 
ali, 
tranqilizando-me 
do 
mesmo 
modo. 
 
Por 
que 
 
que 
estou 
to 
apavorada? 
 
ela 
perguntou 
como 
se 
eu 
fosse 
capaz 
de 
explicar 
racionalmente 
seu 
medo. 
Antes 
que 
eu 
pudesse 
formular 
qualquer 
pensamento 
a 
respeito, 
ela 
mesma 
respondeu 
 
pergunta. 
Disse 
que 
o 
que 
a 
apavorava 
era 
perceber, 
a 
um 
nvel 
corporal, 
que 
a 
percepo 


#
tornava-se 
um 
ato 
totalmente 
inclusivo 
quando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
era 
imobilizado 
num 
posicionamento. 
Lembrou-me 
de 
Dom 
Juan 
dizendo 
que 
o 
poder 
que 
o 
mundo 
cotidiano 
tem 
sobre 
ns 
deve-se 
ao 
fato 
de 
nosso 
ponto 
de 
aglutinao 
estar 
imobilizado 
em 
seu 
posicionamento 
habitual. 
 
essa 
imobilidade 
que 
torna 
nossa 
percepo 
do 
mundo 
to 
envolvente 
e 
poderosa 
a 
ponto 
de 
no 
podermos 
escapar 
dele. 
Carol 
tambm 
me 
lembrou 
de 
outra 
coisa 
que 
o 
Nagual 
dissera: 
se 
quisermos 
romper 
essa 
fora 
totalmente 
inclusiva 
tudo 
que 
precisamos 
fazer 
 
afastar 
a 
nvoa; 
isto 
, 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
intentando 
seu 
deslocamento. 


Eu 
nunca 
entendera 
de 
fato 
o 
que 
Dom 
Juan 
queria 
dizer, 
at 


o 
momento 
em 
que 
precisei 
levar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
outro 
posicionamento, 
para 
afastar 
a 
nvoa 
daquele 
mundo 
que 
comeara 
a 
me 
engolir. 
Sem 
dizer 
qualquer 
palavra, 
Carol 
e 
eu 
fomos 
at 
a 
janela 
e 
olhamos 
para 
fora. 
Estvamos 
no 
campo. 
A 
luz 
da 
lua 
revelava 
as 
formas 
de 
algumas 
casas 
baixas 
e 
escuras. 
Por 
todas 
as 
indicaes 
estvamos 
no 
quarto 
de 
ferramentas 
ou 
de 
suprimentos 
de 
uma 
grande 
casa 
de 
fazenda. 


 
Voc 
se 
lembra 
de 
ter 
vindo 
para 
a 
cama 
aqui? 
 
Carol 
perguntou. 
 
Quase 
consigo 
lembrar 
 
falei 
srio. 
Disse 
que 
precisava 
lutar 
para 
manter 
na 
mente 
a 
imagem 
de 
seu 
quarto 
de 
hotel, 
como 
um 
ponto 
de 
referncia. 
 
Eu 
preciso 
fazer 
o 
mesmo 
 
ela 
disse 
num 
sussurro 
apavorado. 
 
Sei 
que 
se 
deixarmos 
essa 
memria 
se 
apagar 
teremos 
ido 
embora 
para 
sempre. 
Ento 
ela 
perguntou 
se 
eu 
queria 
que 
sassemos 
daquele 
cmodo 
e 
nos 
aventurssemos 
do 
lado 
de 
fora. 
No 
queria. 
Minha 
apreenso 
era 
to 
aguda 
que 
eu 
estava 
incapaz 
de 
verbalizar 
as 
palavras. 
S 
podia 
fazer 
um 
sinal 
de 
cabea. 


 
Voc 
est 
muito 
certo 
em 
no 
querer 
sair 
 
disse 
ela. 
 
Tenho 
a 
sensao 
de 
que, 
se 
sairmos 
desse 
cmodo, 
nunca 


#
voltaremos. 


Eu 
ia 
abrir 
a 
porta 
e 
dar 
uma 
olhada 
para 
fora, 
mas 
ela 
me 
impediu. 


 
No 
faa 
isso. 
Voc 
pode 
deixar 
o 
que 
est 
l 
fora 
entrar. 
O 
pensamento 
que 
tive 
naquele 
momento 
foi 
o 
de 
que 
havamos 
sido 
postos 
dentro 
de 
uma 
gaiola 
frgil. 
Qualquer 
coisa, 
como 
abrir 
a 
porta, 
poderia 
perturbar 
o 
equilbrio 
precrio 
da 
gaiola. 
No 
momento 
em 
que 
tive 
esse 
pensamento 
ns 
dois 
sentimos 
a 
mesma 
nsia. 
Tiramos 
as 
roupas, 
como 
se 
nossas 
vidas 
dependessem 
disso; 
em 
seguida 
saltamos 
na 
cama 
alta, 
sem 
usar 
os 
dois 
degraus 
de 
sacos, 
somente 
para 
pular 
dela 
de 
novo, 
no 
instante 
seguinte. 


Era 
evidente 
que 
Carol 
e 
eu 
havamos 
tido 
a 
mesma 
idia 
ao 
mesmo 
tempo. 
Ela 
confirmou 
minha 
suposio 
quando 
disse: 


 
Qualquer 
coisa 
que 
usarmos, 
pertencente 
a 
esse 
mundo, 
s 
ir 
nos 
enfraquecer. 
Ficando 
aqui, 
nua 
e 
longe 
da 
cama 
e 
da 
janela, 
no 
tenho 
qualquer 
problema 
em 
lembrar 
de 
onde 
vim. 
Mas 
se 
eu 
ficar 
deitada 
na 
cama 
ou 
usar 
aquelas 
roupas 
ou 
olhar 
pela 
janela, 
estou 
perdida. 
Ficamos 
de 
p 
no 
centro 
do 
quarto 
por 
longo 
tempo, 
abraados. 
Uma 
suspeita 
estranha 
comeou 
a 
infestar 
minha 
mente. 


 
Como 
vamos 
voltar 
ao 
nosso 
mundo? 
 
perguntei 
esperando 
que 
ela 
soubesse. 
 
A 
reentrada 
em 
nosso 
mundo 
 
automtica, 
se 
no 
deixarmos 
a 
nvoa 
tomar 
conta 
 
ela 
disse 
com 
o 
ar 
de 
autoridade 
absoluta 
que 
era 
sua 
marca 
registrada. 
E 
estava 
certa. 
Carol 
e 
eu 
acordamos 
ao 
mesmo 
tempo 
na 
cama 
de 
seu 
quarto 
no 
hotel 
Regis. 
Era 
to 
bvio 
que 
estvamos 
de 
volta 
ao 
mundo 
da 
vida 
cotidiana 
que 
no 
fizemos 
perguntas 
nem 
comentrios. 
A 
luz 
do 
sol 
era 
quase 
cegante. 


 
Como 
foi 
que 
voltamos? 
 
Carol 
perguntou. 
 
Ou 
melhor, 
quando 
foi 
que 
voltamos? 
Eu 
no 
tinha 
nenhuma 
idia 
do 
que 
pensar 
ou 
dizer. 
Estava 
atordoado 
demais 
para 
especular; 
porque 
isso 
era 
tudo 
que 
eu 


#
poderia 
ter 
feito. 


 
Voc 
acha 
que 
ns 
acabamos 
de 
voltar? 
 
Carol 
insistiu. 
 
Ou 
ser 
que 
dormimos 
a 
noite 
toda? 
Olha! 
Ns 
estamos 
nus. 
Quando 
foi 
que 
tiramos 
as 
roupas? 


 
Ns 
as 
tiramos 
naquele 
outro 
mundo 
 
falei 
e 
me 
surpreendi 
com 
o 
som 
de 
minha 
voz. 
Minha 
resposta 
pareceu 
confundir 
Carol. 
Ela 
me 
olhou 
sem 
compreender, 
e 
em 
seguida 
olhou 
para 
o 
seu 
prprio 
corpo 
nu. 
Ficamos 
ali, 
sentados 
e 
imveis, 
por 
um 
tempo 
enorme. 
Parecamos 
desprovidos 
de 
vontade 
prpria. 
Mas 
ento, 
abruptamente, 
tivemos 
o 
mesmo 
pensamento 
exatamente 
no 
mesmo 
instante. 
Vestimo-nos 
em 
tempo 
recorde, 
samos 
correndo 
do 
quarto, 
descemos 
dois 
lances 
de 
escadas, 
fomos 
para 
a 
rua 
e 
corremos 
at 
o 
hotel 
de 
Dom 
Juan. 


Inexplicvel 
e 
excessivamente 
sem 
flego, 
j 
que 
no 
nos 
havamos 
cansado 
fisicamente, 
revezamo-nos 
explicando 
o 
que 
tnhamos 
feito. 


Ele 
confirmou 
nossas 
conjecturas. 


 
O 
que 
vocs 
fizeram 
foi 
praticamente 
a 
coisa 
mais 
perigosa 
que 
se 
pode 
imaginar. 
Virou-se 
para 
Carol 
e 
disse 
que 
nossa 
tentativa 
fora, 
ao 
mesmo 
tempo, 
um 
sucesso 
total 
e 
um 
fiasco. 
Tnhamos 
conseguido 
transferir 
a 
conscincia 
do 
mundo 
cotidiano 
para 
nossos 
corpos 
energticos, 
fazendo 
assim 
a 
viagem 
com 
toda 
a 
nossa 
fisicalidade, 
mas 
havamos 
falhado 
em 
evitar 
a 
influncia 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Falou 
que 
comumente 
os 
sonhadores 
experimentam 
toda 
a 
manobra 
como 
uma 
srie 
de 
transies 
lentas, 
e 
que 
precisam 
verbalizar 
o 
intento 
de 
usar 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento. 
Em 
nosso 
caso 
todas 
essas 
etapas 
foram 
dispensadas. 
Devido 
 
interveno 
dos 
seres 
inorgnicos 
ns 
dois 
havamos 
sido 
lanados 
num 
mundo 
mortal, 
a 
uma 
velocidade 
aterrorizante. 


 
No 
foi 
a 
energia 
combinada 
de 
vocs 
dois 
que 
tornou 
possvel 
a 
viagem 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Foi 
outra 
coisa. 
Que 
at 
#
mesmo 
escolheu 
roupas 
adequadas 
para 
vocs. 


 
Quer 
dizer, 
Nagual, 
que 
as 
roupas 
e 
a 
cama 
e 
o 
quarto 
s 
aconteceram 
porque 
fomos 
comandados 
pelos 
seres 
inorgnicos? 
 
Carol 
perguntou. 
 
Pode 
apostar. 
Em 
geral 
os 
sonhadores 
so 
meramente 
voyeurs. 
Do 
jeito 
que 
a 
viagem 
de 
vocs 
aconteceu, 
vocs 
dois 
pegaram 
o 
lugar 
do 
carona 
e 
viveram 
a 
danao 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
O 
que 
aconteceu 
com 
eles 
foi 
precisamente 
o 
que 
aconteceu 
com 
vocs. 
Os 
seres 
inorgnicos 
levaram-nos 
para 
mundos 
de 
onde 
no 
puderam 
retornar. 
Eu 
devia 
ter 
sabido, 
mas 
nem 
me 
passou 
pela 
cabea 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
iriam 
assumir 
o 
controle 
e 
tentar 
lanar 
a 
mesma 
armadilha 
contra 
vocs. 
 
Quer 
dizer 
que 
eles 
queriam 
nos 
manter 
l? 
 
Carol 
perguntou. 
 
Se 
vocs 
tivessem 
sado 
daquele 
cmodo, 
estariam 
agora 
vagando 
naquele 
mundo 
sem 
qualquer 
esperana. 
Explicou 
que, 
como 
entramos 
naquele 
mundo 
com 
toda 
a 
nossa 
fisicalidade, 
a 
fixao 
de 
nossos 
pontos 
de 
aglutinao 
no 
posicionamento 
escolhido 
pelos 
seres 
inorgnicos 
era 
to 
poderosa 
que 
criava 
uma 
espcie 
de 
nvoa 
obliterando 
qualquer 
lembrana 
do 
mundo 
de 
onde 
tnhamos 
vindo. 
Acrescentou 
que 
a 
conseqncia 
natural 
dessa 
imobilizao, 
como 
no 
caso 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
 
que 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
do 
sonhador 
no 
pode 
voltar 
ao 
seu 
posicionamento 
habitual. 


 
Pensem 
nisso 
 
ele 
insistiu. 
 
Talvez 
seja 
exatamente 
isso 
que 
acontea 
com 
todos 
ns 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana. 
Estamos 
aqui, 
e 
a 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
to 
poderosa 
que 
nos 
fez 
esquecer 
de 
onde 
viemos, 
e 
qual 
 
o 
objetivo 
de 
estarmos 
aqui. 
Dom 
Juan 
no 
quis 
falar 
mais 
sobre 
nossa 
viagem. 
Senti 
que 
estava 
nos 
poupando 
mais 
medo 
e 
desconforto. 
Levou-nos 
para 
um 
almoo 
tardio. 
Quando 
chegamos 
ao 
restaurante, 
a 
dois 
quarteires 
da 
Avenida 
Francisco 
Madero, 
eram 
seis 
da 
tarde. 
Carol 
e 
eu 
havamos 
dormido 
 
se 
foi 
isso 
que 
fizemos 
 
cerca 
de 
dezoito 


#
horas. 


Somente 
Dom 
Juan 
tinha 
fome. 
Carol 
observou, 
com 
um 
toque 
de 
raiva, 
que 
ele 
estava 
comendo 
como 
um 
porco. 
Vrias 
cabeas 
viraram-se 
em 
nossa 
direo 
ouvindo 
o 
riso 
de 
Dom 
Juan. 


Era 
uma 
noite 
quente, 
de 
cu 
claro. 
Havia 
uma 
brisa 
suave 
e 
despreocupada 
quando 
nos 
sentamos 
num 
banco 
da 
Alameda 
Paseo. 


 
H 
uma 
pergunta 
que 
est 
me 
queimando 
por 
dentro 
 
Carol 
Tiggs 
falou. 
 
Ns 
no 
usamos 
a 
conscincia 
como 
um 
meio 
para 
viajar, 
certo? 
 
Certo 
 
Dom 
Juan 
disse 
e 
emitiu 
um 
suspiro 
profundo. 
 
A 
tarefa 
era 
surrupiar 
energia 
dos 
seres 
inorgnicos, 
e 
no 
ser 
comandados 
por 
eles. 
 
O 
que 
vai 
acontecer 
agora? 
 
ela 
perguntou. 
 
Vocs 
vo 
adiar 
a 
tarefa 
de 
espreitar 
o 
espreitador 
at 
ficarem 
mais 
fortes. 
Ou 
talvez 
nunca 
consigam. 
Na 
verdade 
no 
importa; 
se 
uma 
coisa 
no 
funciona, 
outra 
funciona. 
A 
feitiaria 
 
um 
desafio 
infinito. 
Explicou 
de 
novo, 
como 
se 
tentasse 
fazer 
a 
explicao 
se 
fixar 
em 
nossas 
mentes, 
que 
para 
usar 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento 
do 
ambiente 
os 
feiticeiros 
precisam 
fazer 
primeiro 
uma 
viagem 
ao 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Em 
seguida 
precisam 
usar 
essa 
viagem 
como 
um 
trampolim 
e, 
enquanto 
estiverem 
de 
posse 
da 
energia 
escura 
necessria, 
devem 
intentar 
ser 
lanados, 
atravs 
do 
meio 
da 
conscincia, 
at 
outro 
mundo. 


 
O 
fracasso 
da 
viagem 
de 
vocs 
 
que 
no 
tiveram 
tempo 
de 
usar 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento 
para 
viajar 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Antes 
mesmo 
de 
chegarem 
 
esfera 
dos 
seres 
inorgnicos 
vocs 
j 
estavam 
em 
outro 
mundo. 
 
O 
que 
recomenda 
que 
faamos? 
 
Carol 
perguntou. 
 
Recomendo 
que 
se 
encontrem 
o 
mnimo 
possvel. 
Estou 
certo 
de 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
no 
vo 
deixar 
passar 
a 
oportunidade 
de 
pegar 
os 
dois, 
especialmente 
se 
vocs 
unirem 
as 
foras. 
#
A 
partir 
da 
Carol 
e 
eu 
ficamos 
deliberadamente 
longe 
um 
do 
outro. 
A 
perspectiva 
de 
inadvertidamente 
entrarmos 
em 
outra 
jornada 
semelhante 
era 
um 
risco 
grande 
demais. 
Dom 
Juan 
encorajou 
nossa 
deciso 
dizendo 
repetidamente 
que 
tnhamos 
bastante 
energia 
combinada 
para 
tentar 
os 
seres 
inorgnicos 
a 
nos 
atrair 
de 
novo. 


Dom 
Juan 
me 
trouxe 
de 
volta 
aos 
exerccios 
de 
sonhar 
destinados 
a 
ver 
energia 
em 
estados 
onricos 
geradores 
de 
energia. 
Com 
o 
correr 
do 
tempo 
eu 
via 
tudo 
que 
se 
apresentava 
a 
mim. 
Desse 
modo 
entrei 
num 
estado 
muito 
peculiar: 
tornei-me 
incapaz 
de 
avaliar 
inteligentemente 
o 
que 
via. 
Minha 
sensao 
era 
de 
sempre 
chegar 
a 
estados 
de 
percepo 
para 
os 
quais 
no 
possua 
vocabulrio. 


Dom 
Juan 
explicou 
minhas 
vises 
incompreensveis 
e 
indescritveis 
como 
meu 
corpo 
energtico 
usando 
a 
conscincia 
como 
um 
elemento. 
No 
para 
viajar, 
porque 
eu 
nunca 
tinha 
energia 
suficiente, 
mas 
para 
entrar 
nos 
campos 
energticos 
da 
matria 
inanimada, 
ou 
dos 
seres 
vivos. 


#
11 


O 
INQUILINO 


P
P
ara 
mim 
no 
houve 
mais 
exerccios 
de 
sonhar 
como 
os 
que 
eu 
estava 
acostumado 
a 
ter. 
Na 
prxima 
vez 
em 
que 
vi 
Dom 
Juan 
ele 
me 
ps 
sob 
a 
orientao 
de 
duas 
mulheres 
de 
seu 
grupo: 
Florinda 
e 
Zuleica, 
suas 
companheiras 
mais 
prximas. 
As 
instrues 
que 
elas 
davam 
no 
eram 
sobre 
os 
portes 
do 
sonhar, 
mas 
sobre 
maneiras 
diferentes 
de 
usar 
o 
corpo 
energtico; 
e 
isso 
no 
durou 
o 
bastante 
para 
ser 
uma 
coisa 
influente. 
Elas 
me 
deram 
a 
impresso 
de 
que 
estavam 
mais 
interessadas 
em 
me 
avaliar 
do 
que 
em 
me 
ensinar 
qualquer 
coisa. 


 
No 
existe 
mais 
nada 
que 
eu 
possa 
lhe 
ensinar 
sobre 
o 
sonhar 
 
disse 
Dom 
Juan 
quando 
questionei-o 
sobre 
esse 
estado 
de 
coisas. 
 
Meu 
tempo 
nesta 
terra 
est 
acabando. 
Mas 
Florinda 
vai 
ficar. 
Ela 
 
que 
vai 
dirigir, 
no 
somente 
voc, 
como 
tambm 
todos 
os 
meus 
outros 
aprendizes. 
 
Ela 
vai 
continuar 
meus 
exerccios 
de 
sonhar? 
 
No 
sei, 
e 
nem 
ela 
sabe. 
Tudo 
depende 
do 
esprito. 
O 
verdadeiro 
jogador. 
Ns 
no 
somos 
jogadores. 
Somos 
meros 
pees 
em 
suas 
mos. 
Seguindo 
as 
ordens 
do 
esprito, 
tenho 
de 
lhe 
dizer 
o 
que 
 
o 
quarto 
porto 
do 
sonhar, 
apesar 
de 
no 
poder 
mais 
gui-lo. 
 
Qual 
 
o 
sentido 
de 
aguar 
meu 
apetite? 
Eu 
preferiria 
no 
saber. 
 
O 
esprito 
no 
est 
deixando 
isso 
por 
minha 
conta 
ou 
pela 
sua. 
De 
modo 
que 
tenho 
de 
delinear 
para 
voc 
o 
quarto 
porto 
do 
#
sonhar, 
querendo 
ou 
no. 


Dom 
Juan 
explicou 
que, 
no 
quarto 
porto 
do 
sonhar, 
o 
corpo 
viaja 
a 
lugares 
concretos 
e 
especficos, 
e 
que 
existem 
trs 
modos 
de 
usar 
o 
quarto 
porto. 
Um 
 
viajar 
a 
lugares 
concretos 
neste 
mundo; 
dois, 
viajar 
a 
lugares 
concretos 
fora 
deste 
mundo, 
e 
trs, 
viajar 
a 
lugares 
que 
existem 
apenas 
no 
intento 
dos 
outros. 
Afirmou 
que 
o 
ltimo 
dos 
trs 
 
o 
mais 
difcil 
e 
perigoso 
e 
que 
era, 
de 
longe, 
o 
preferido 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade. 


 
O 
que 
quer 
que 
eu 
faa 
com 
esse 
conhecimento? 
 
perguntei. 


 
Por 
enquanto, 
nada. 
Guarde-o 
at 
precisar. 
 
Quer 
dizer 
que 
eu 
posso 
atravessar 
sozinho 
o 
quarto 
porto, 
sem 
ajuda? 
 
Se 
voc 
pode 
ou 
no, 
s 
quem 
sabe 
 
o 
esprito. 
Abruptamente 
encerrou 
o 
assunto, 
mas 
no 
me 
deixou 
com 
a 
sensao 
de 
que 
deveria 
tentar 
alcanar 
e 
atravessar 
sozinho 
o 
quarto 
porto. 


Em 
seguida 
Dom 
Juan 
marcou 
um 
ltimo 
encontro 
comigo 
para 
dar, 
pelo 
que 
disse, 
um 
pontap 
final: 
o 
toque 
conclusivo 
de 
meus 
exerccios 
de 
sonhar. 
Disse 
para 
eu 
encontr-lo 
na 
pequena 
cidade 
no 
sul 
do 
Mxico 
onde 
ele 
e 
seus 
amigos 
feiticeiros 
viviam. 


Cheguei 
l 
no 
final 
da 
tarde. 
Dom 
Juan 
sentou-se 
comigo 
no 
ptio 
de 
sua 
casa, 
em 
desconfortveis 
cadeiras 
de 
vime 
arrumadas 
com 
almofadas 
grandes. 
Riu 
e 
piscou 
para 
mim. 
As 
cadeiras 
eram 
presente 
de 
uma 
das 
mulheres 
de 
seu 
grupo, 
e 
simplesmente 
tnhamos 
de 
sentar 
nelas 
como 
se 
nada 
nos 
incomodasse, 
ele 
principalmente. 
Tinham 
sido 
compradas 
nos 
Estados 
Unidos, 
em 
Phoenix, 
Arizona, 
e 
penosamente 
trazidas 
para 
o 
Mxico. 


Dom 
Juan 
pediu 
que 
eu 
lesse 
um 
poema 
de 
Dylan 
Thomas 
que, 
disse 
ele, 
tinha 
o 
significado 
mais 
pertinente 
para 
mim 
naquele 
momento. 


I 
have 
longed 
to 
move 
away 


#
From 
the 
hissing 
of 
the 
spent 
lie 
And 
the 
old 
terrors 
continual 
cry 
Growing 
more 
terrible 
as 
the 
day 
Goes 
over 
the 
hill 
into 
the 
deep 
sea... 


I 
have 
longed 
to 
move 
away 
but 
I 
am 
afraid; 
Some 
life, 
yet 
unspent, 
might 
explode 
Out 
of 
the 
old 
lie 
burning 
on 
the 
ground, 
And, 
crackling 
into 
the 
air, 
leave 
me 
half 
blind. 


I 
have 
longed 
to 
move 
away 
but 
I 
am 
afraid...* 


Dom 
Juan 
levantou-se 
de 
sua 
cadeira 
e 
disse 
que 
ia 
dar 
uma 
volta 
na 
plaza, 
no 
centro 
da 
cidade. 
Pediu 
que 
eu 
fosse 
junto. 
De 
imediato 
presumi 
que 
o 
poema 
tinha 
evocado 
uma 
reao 
negativa, 
que 
ele 
precisava 
espairecer. 


Chegamos 
 
praa 
quadrada 
sem 
dizer 
qualquer 
palavra. 
Demos 
umas 
duas 
voltas 
ao 
redor, 
ainda 
sem 
falar. 
Havia 
bastante 
gente 
junto 
s 
lojas 
das 
ruas 
voltadas 
para 
os 
lados 
norte 
e 
leste 
do 
parque. 
Todas 
as 
ruas 
ao 
redor 
da 
plaza 
tinham 
calamento 
irregular. 
As 
casas 
eram 
atarracadas, 
construes 
de 
adobe 
com 
apenas 
um 
andar, 
cobertas 
de 
telhas, 
com 
paredes 
caiadas 
e 
portas 
pintadas 
de 
azul 
ou 
marrom. 
Numa 
rua 
secundria, 
a 
um 
quarteiro 
da 
plaza, 
as 
paredes 
altas 
da 
enorme 
igreja 
colonial, 
parecendo 
uma 
mesquita 
mourisca, 
pairavam 
sinistras 
acima 
do 
teto 
do 
nico 
hotel 
da 
cidade. 
Do 
lado 
sul 
havia 
dois 
restaurantes 
que 
inexplicavelmente 
coexistiam 
lado 
a 
lado, 
fazendo 
bons 
negcios, 
servindo 
praticamente 


* 
Traduo 
aproximada: 
Quis 
ir 
para 
bem 
longe 
Da 
mentira 
gasta 
e 
sibilante 
E 
do 
grito 
contnuo 
do 
terror 
antigo 
Que 
fica 
mais 
terrvel 
enquanto 
o 
dia 
Atravessa 
o 
morro 
e 
mergulha 
no 
mar... 
Quis 
ir 
para 
bem 
longe, 
mas 
lenho 
medo; 
Alguma 
vida 
nova 
pode 
explodir 
Da 
velha 
mentira 
que 
arde 
no 
cho, 
E, 
estalando 
no 
ar, 
me 
deixar 
meio 
cego. 


Quis 
ir 
para 
bem 
longe, 
mas 
tenho 
medo... 


#
o 
mesmo 
menu 
aos 
mesmos 
preos. 
Rompi 
o 
silncio 
e 
perguntei 
a 
Dom 
Juan 
se 
ele 
tambm 
achava 
estranho 
que 
os 
dois 
restaurantes 
fossem 
praticamente 
iguais. 


 
Tudo 
 
possvel 
nesta 
cidade 
 
respondeu 
ele. 
A 
maneira 
como 
falou 
deixou-me 
inquieto. 
 
Por 
que 
est 
to 
nervoso? 
 
ele 
perguntou 
com 
expresso 
sria. 
 
Sabe 
de 
alguma 
coisa 
que 
ainda 
no 
me 
contou? 
 
Por 
que 
estou 
nervoso? 
Isso 
 
uma 
piada. 
Eu 
fico 
sempre 
nervoso 
junto 
de 
voc, 
Dom 
Juan. 
Algumas 
vezes 
mais 
do 
que 
outras. 
Ele 
parecia 
estar 
fazendo 
um 
esforo 
srio 
para 
no 
rir. 


 
Os 
naguais 
no 
so 
exatamente 
os 
seres 
mais 
amigveis 
da 
terra 
 
disse 
ele 
em 
tom 
de 
desculpa. 
 
Aprendi 
isso 
do 
modo 
mais 
difcil; 
tendo 
sido 
exposto 
ao 
terrvel 
Nagual 
Julian. 
Sua 
simples 
presena 
costumava 
me 
deixar 
apavorado. 
E 
quando 
ele 
brigava 
comigo 
eu 
sempre 
pensava 
que 
minha 
vida 
no 
valia 
um 
tosto 
furado. 
 
Sem 
a 
menor 
dvida, 
Dom 
Juan, 
voc 
provoca 
o 
mesmo 
efeito 
em 
mim. 
Ele 
gargalhou. 


 
No. 
No. 
Voc 
est 
definitivamente 
exagerando. 
Em 
comparao 
com 
ele 
eu 
sou 
um 
anjo. 
 
Pode 
ser 
um 
anjo 
em 
comparao, 
s 
que 
no 
tenho 
o 
Nagual 
Julian 
para 
comparar 
com 
voc. 
Ele 
riu 
por 
um 
instante, 
e 
depois 
ficou 
novamente 
srio. 


 
No 
sei 
por 
que, 
mas 
realmente 
me 
sinto 
apavorado 
 
expliquei. 
 
Voc 
acha 
que 
tem 
motivos 
para 
estar 
apavorado? 
 
ele 
perguntou, 
parou 
de 
andar 
e 
olhou 
para 
mim. 
Seu 
tom 
de 
voz 
e 
as 
sobrancelhas 
levantadas 
deram 
a 
impresso 
de 
que 
ele 
suspeitava 
de 
que 
eu 
sabia 
alguma 
coisa 
que 
no 
estava 
revelando. 
Ele 
estava 
claramente 
esperando 
que 
eu 


#
fizesse 
uma 
revelao. 


 
Sua 
insistncia 
me 
deixa 
espantado 
 
falei. 
 
Tem 
certeza 
de 
que 
no 
 
voc 
que 
tem 
alguma 
coisa 
escondida 
na 
manga? 
 
Eu 
tenho 
uma 
coisa 
na 
manga 
 
ele 
admitiu 
e 
riu. 
 
Mas 
essa 
no 
 
a 
questo. 
A 
questo 
 
que 
existe 
uma 
coisa 
nessa 
cidade 
esperando 
por 
voc. 
E 
voc 
no 
sabe 
direito 
o 
que 
, 
ou 
sabe, 
mas 
no 
ousa 
dizer, 
ou 
no 
sabe 
absolutamente 
nada. 
 
O 
que 
me 
espera 
aqui? 
Em 
vez 
de 
responder, 
Dom 
Juan 
voltou 
rapidamente 
a 
andar, 
e 
continuamos 
rodeando 
a 
praa 
em 
completo 
silncio. 
Circulamos 
vrias 
vezes, 
procurando 
um 
lugar 
onde 
sentar. 
Ento 
um 
grupo 
de 
mulheres 
jovens 
se 
levantou 
de 
um 
banco 
e 
foi 
embora. 


 
J 
h 
vrios 
anos 
venho 
descrevendo 
para 
voc 
as 
prticas 
aberrantes 
dos 
feiticeiros 
do 
Mxico 
antigo 
 
disse 
Dom 
Juan 
enquanto 
se 
sentava 
no 
banco 
e 
fazia 
um 
gesto 
para 
que 
eu 
me 
sentasse 
junto. 
Com 
o 
fervor 
de 
algum 
que 
nunca 
dissera 
aquilo 
antes, 
ele 
comeou 
a 
contar 
de 
novo 
o 
que 
contara 
muitas 
vezes, 
que 
aqueles 
feiticeiros, 
guiados 
por 
interesses 
extremamente 
egostas, 
puseram 
todo 
o 
seu 
empenho 
em 
aperfeioar 
prticas 
que 
os 
afastaram 
cada 
vez 
mais 
da 
sobriedade 
ou 
do 
equilbrio 
mental; 
e 
que 
foram 
finalmente 
exterminados 
quando 
seus 
complexos 
edifcios 
de 
crenas 
e 
prticas 
ficaram 
to 
pesados 
que 
eles 
no 
puderam 
mais 
suport-
lo. 


 
Os 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
claro, 
viveram 
e 
proliferaram 
nesta 
rea 
 
disse 
ele, 
observando 
minha 
reao. 
 
Aqui, 
nesta 
cidade. 
Esta 
cidade 
foi 
construda 
sobre 
as 
fundaes 
de 
uma 
de 
suas 
cidades. 
Nesta 
rea 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
realizaram 
todos 
os 
seus 
feitos. 
 
Tem 
certeza 
disso, 
Dom 
Juan? 
 
E 
voc 
tambm 
vai 
ter, 
logo 
logo. 
A 
ansiedade 
crescente 
me 
forou 
a 
fazer 
algo 
que 
eu 
detestava: 
concentrar-me 
em 
mim 
mesmo. 
Sentindo 
minha 
frustrao, 
Dom 


#
Juan 
me 
instigou. 


 
Logo 
logo 
voc 
saber 
se 
realmente 
 
como 
os 
feiticeiros 
antigos 
ou 
como 
os 
novos 
 
disse 
ele. 
 
Est 
me 
deixando 
doido 
com 
toda 
essa 
conversa 
estranha 
e 
sinistra 
 
protestei. 
O 
fato 
de 
conviver 
h 
treze 
anos 
com 
Dom 
Juan 
havia 
me 
condicionado, 
acima 
de 
tudo, 
a 
conceber 
o 
pnico 
como 
alguma 
coisa 
que 
estava 
o 
tempo 
todo 
logo 
atrs 
da 
esquina, 
pronto 
para 
ser 
libertado. 


Dom 
Juan 
parecia 
vacilante. 
Percebi 
seus 
olhares 
furtivos 
na 
direo 
da 
igreja. 
Estava 
at 
mesmo 
distrado. 
Quando 
falei, 
ele 
no 
ouviu, 
e 
tive 
de 
repetir 
a 
pergunta: 


 
Est 
esperando 
algum? 
 
Sim, 
estou. 
Sem 
a 
menor 
dvida. 
Estava 
apenas 
sentindo 
o 
ambiente. 
Voc 
me 
pegou 
enquanto 
eu 
examinava 
a 
rea 
com 
meu 
corpo 
energtico. 
 
O 
que 
foi 
que 
sentiu, 
Dom 
Juan? 
 
Meu 
corpo 
energtico 
sente 
que 
tudo 
est 
no 
lugar. 
A 
pea 
vai 
acontecer 
hoje. 
Voc 
 
o 
ator 
principal. 
Eu 
sou 
um 
ator 
com 
um 
papel 
pequeno 
porm 
muito 
significativo. 
Participo 
do 
primeiro 
ato. 
 
Afinal 
de 
contas, 
voc 
est 
falando 
de 
qu? 
Ele 
no 
respondeu. 
Sorriu 
astucioso. 
 
Estou 
preparando 
o 
terreno. 
Aquecendo 
voc, 
por 
assim 
dizer, 
repisando 
a 
idia 
de 
que 
os 
feiticeiros 
modernos 
aprenderam 
uma 
lio 
dura. 
Perceberam 
que 
somente 
ficando 
totalmente 
desprendidos 
podem 
ter 
a 
energia 
para 
serem 
livres. 
Esse 
 
um 
tipo 
de 
desprendimento 
peculiar, 
que 
no 
nasce 
do 
medo 
ou 
da 
indolncia, 
mas 
da 
convico. 
Dom 
Juan 
parou 
e 
levantou-se, 
esticou 
os 
braos 
para 
a 
frente, 
para 
os 
lados 
e 
depois 
para 
as 
costas. 


 
Faa 
o 
mesmo 
 
me 
aconselhou. 
 
Isso 
relaxa 
o 
corpo, 
e 
voc 
precisa 
estar 
muito 
relaxado 
para 
enfrentar 
o 
que 
vai 
chegar 
esta 
noite. 
 
Deu 
um 
sorriso 
largo. 
 
Para 
voc, 
esta 
noite, 
vai 
#
chegar 
o 
desprendimento 
total 
ou 
a 
entrega 
absoluta. 
 
uma 
escolha 
que 
todo 
nagual 
de 
minha 
linha 
tem 
de 
fazer. 
 
Sentou-se 
de 
novo 
e 
respirou 
fundo. 
O 
que 
ele 
dissera 
pareceu 
ter 
consumido 
toda 
a 
sua 
energia. 


 
Acho 
que 
consigo 
entender 
o 
desprendimento 
e 
a 
entrega 
 
prosseguiu 
ele 
 
porque 
tive 
o 
privilgio 
de 
conhecer 
dois 
naguais: 
meu 
benfeitor, 
o 
Nagual 
Julian, 
e 
o 
benfeitor 
dele, 
o 
Nagual 
Elias. 
Testemunhei 
a 
diferena 
entre 
os 
dois. 
O 
Nagual 
Elias 
era 
desprendido 
a 
ponto 
de 
abrir 
mo 
de 
um 
dom 
de 
poder. 
O 
Nagual 
Julian 
tambm 
era 
desprendido, 
mas 
no 
o 
bastante 
para 
abrir 
mo 
de 
um 
desses 
dons. 


 
Julgando 
pelo 
modo 
como 
est 
falando, 
eu 
diria 
que 
voc 
vai 
fazer 
algum 
tipo 
de 
teste 
comigo 
esta 
noite. 
 
isso? 
 
Eu 
no 
tenho 
o 
poder 
de 
fazer 
qualquer 
tipo 
de 
teste 
com 
voc, 
mas 
o 
esprito 
tem 
 
ele 
disse 
com 
um 
riso, 
e 
em 
seguida 
acrescentou: 
 
Eu 
sou 
meramente 
um 
agente 
dele. 
 
O 
que 
o 
esprito 
vai 
fazer 
comigo, 
Dom 
Juan? 
 
S 
posso 
dizer 
que 
esta 
noite 
voc 
vai 
ter 
uma 
lio 
no 
sonhar, 
do 
modo 
como 
costumam 
ser 
as 
lies 
no 
sonhar, 
mas 
voc 
no 
vai 
receber 
de 
mim 
essa 
lio. 
Outra 
pessoa 
ser 
seu 
professor 
e 
seu 
guia 
esta 
noite. 
 
Quem 
vai 
ser 
meu 
professor 
e 
meu 
guia? 
 
Um 
visitante, 
que 
para 
voc 
pode 
ser 
uma 
surpresa 
horrenda 
ou 
ento 
surpresa 
nenhuma. 
 
E 
que 
lio 
eu 
vou 
receber? 
 
 
uma 
lio 
sobre 
o 
quarto 
porto 
do 
sonhar. 
E 
 
dada 
em 
duas 
partes. 
A 
primeira 
parte 
explicarei 
agora. 
A 
segunda, 
ningum 
pode 
explicar, 
porque 
 
uma 
coisa 
que 
diz 
respeito 
somente 
a 
voc. 
Todos 
os 
naguais 
de 
minha 
linha 
tiveram 
essa 
lio 
de 
duas 
partes, 
mas 
no 
houve 
duas 
iguais; 
elas 
foram 
criadas 
para 
atender 
s 
tendncias 
pessoais 
do 
carter 
desses 
naguais. 
 
Sua 
explicao 
no 
me 
ajuda 
nem 
um 
pouco, 
Dom 
Juan. 
Estou 
ficando 
cada 
vez 
mais 
nervoso. 
#
Ficamos 
quietos 
por 
um 
longo 
tempo. 
Eu 
estava 
abalado 
e 
agitado, 
e 
no 
sabia 
o 
que 
dizer 
sem 
resmungar. 


 
Como 
voc 
j 
sabe, 
perceber 
diretamente 
a 
energia, 
para 
os 
feiticeiros 
modernos, 
 
uma 
realizao 
pessoal 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Ns 
manobramos 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
atravs 
da 
autodisciplina. 
Para 
os 
feiticeiros 
antigos 
o 
deslocamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
era 
conseqncia 
de 
sua 
submisso 
a 
outros: 
seus 
professores, 
que 
realizavam 
esses 
deslocamentos 
atravs 
de 
operaes 
obscuras 
e 
os 
ofereciam 
aos 
discpulos 
como 
dons 
de 
poder. 
Para 
algum 
que 
tenha 
mais 
energia 
do 
que 
ns 
 
possvel 
fazer 
qualquer 
coisa 
conosco 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Por 
exemplo, 
o 
Nagual 
Julian 
poderia 
ter-me 
transformado 
em 
qualquer 
coisa 
que 
quisesse, 
um 
criminoso 
ou 
um 
santo. 
Mas 
era 
um 
Nagual 
impecvel 
e 
deixou 
que 
eu 
fosse 
eu 
mesmo. 
Os 
feiticeiros 
antigos 
no 
eram 
to 
impecveis, 
e 
atravs 
dos 
esforos 
incessantes 
para 
obter 
controle 
sobre 
os 
outros 
eles 
criavam 
uma 
situao 
de 
escurido 
e 
terror 
que 
passava 
de 
professor 
para 
discpulo. 


Levantou-se 
e 
examinou 
com 
o 
olhar 
o 
ambiente 
ao 
redor. 


 
Como 
voc 
pode 
ver, 
essa 
cidade 
no 
 
grande 
coisa, 
mas 
tem 
um 
fascnio 
nico 
para 
os 
guerreiros 
de 
minha 
linha. 
Aqui 
est 
a 
fonte 
do 
que 
somos 
e 
a 
fonte 
do 
que 
no 
queremos 
ser. 
Como 
estou 
no 
fim 
do 
meu 
tempo, 
devo 
passar 
algumas 
idias 
para 
voc; 
contar 
algumas 
histrias; 
coloc-lo 
em 
contato 
com 
determinados 
seres, 
aqui 
nesta 
cidade, 
exatamente 
como 
meu 
benfeitor 
fez 
comigo. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
estava 
reiterando 
uma 
coisa 
com 
a 
qual 
eu 
j 
era 
familiar: 
tudo 
que 
ele 
era 
e 
tudo 
que 
ele 
sabia 
tinha 
sido 
legado 
por 
seu 
professor, 
o 
Nagual 
Julian. 
Este, 
por 
sua 
vez, 
herdara 
tudo 
de 
seu 
professor, 
o 
Nagual 
Elias. 
O 
Nagual 
Elias 
do 
Nagual 
Rosendo; 
este 
do 
Nagual 
Lujan; 
o 
Nagual 
Lujan 
do 
Nagual 
Santisteban; 
e 
o 
Nagual 
Santisteban 
do 
Nagual 
Sebastian. 


Disse 
de 
novo, 
num 
tom 
muito 
formal, 
algo 
que 
me 
explicara 
muitas 
vezes 
antes: 
que 
tinham 
existido 
oito 
naguais 
antes 
do 
Nagual 
Sebastian, 
mas 
que 
eles 
eram 
muito 
diferentes. 
Tinham 
uma 


#
atitude 
diferente 
com 
relao 
 
feitiaria; 
um 
conceito 
diferente, 
apesar 
de 
continuarem 
diretamente 
ligados 
 
sua 
linhagem 
de 
feitiaria. 


 
Agora 
voc 
deve 
lembrar, 
e 
repetir 
para 
mim, 
tudo 
que 
contei 
sobre 
o 
Nagual 
Sebastian 
 
exigiu 
ele. 
Seu 
pedido 
me 
pareceu 
estranho, 
mas 
repeti 
tudo 
que 
ouvira 
dele 
e 
dos 
seus 
companheiros 
sobre 
o 
Nagual 
Sebastian 
e 
sobre 
o 
mtico 
feiticeiro 
antigo, 
o 
desafiador 
da 
morte, 
conhecido 
por 
eles 
como 
o 
inquilino. 


 
Voc 
sabe 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
nos 
oferece 
dons 
de 
poder 
a 
cada 
gerao 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
E 
foi 
a 
natureza 
especfica 
desses 
dons 
de 
poder 
que 
mudou 
o 
curso 
de 
nossa 
linhagem. 
Explicou 
que, 
sendo 
um 
feiticeiro 
dos 
tempos 
antigos, 
o 
inquilino 
aprendera 
de 
seus 
professores 
todas 
as 
complexidades 
de 
mudar 
seu 
ponto 
de 
aglutinao. 
Como 
tinha, 
talvez, 
milhares 
de 
anos 
de 
uma 
vida 
e 
uma 
conscincia 
estranha 
 
tempo 
suficiente 
para 
aperfeioar 
qualquer 
coisa 
 
ele 
agora 
sabia 
como 
alcanar 
e 
manter 
centenas, 
se 
no 
milhares, 
de 
posicionamentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
Seus 
dons 
eram 
como 
mapas 
para 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
locais 
especficos 
e 
como 
manuais 
sobre 
como 
imobiliz-los 
em 
qualquer 
desses 
posicionamentos, 
e 
com 
isso 
adquirir 
coeso. 


Dom 
Juan 
estava 
no 
auge 
de 
sua 
forma 
como 
contador 
de 
histrias. 
Eu 
nunca 
o 
vira 
mais 
dramtico. 
Estava 
convicto 
de 
que, 
se 
no 
o 
conhecesse 
melhor, 
poderia 
ter 
jurado 
que 
sua 
voz 
tinha 
a 
inflexo 
profunda 
e 
inquieta 
de 
algum 
que 
estivesse 
presa 
do 
medo 
e 
da 
preocupao. 
Seus 
gestos 
me 
davam 
a 
impresso 
de 
um 
bom 
ator, 
representando 
com 
perfeio 
o 
nervosismo 
e 
a 
ansiedade. 


Dom 
Juan 
me 
olhou, 
e 
num 
tom 
que 
sugeria 
uma 
revelao 
dolorosa, 
disse 
que, 
por 
exemplo, 
o 
Nagual 
Lujan 
recebera 
do 
inquilino 
um 
dom 
de 
cinqenta 
posicionamentos. 
Balanou 
a 
cabea 
ritmicamente, 
como 
se 
pedisse 
silenciosamente 
que 
eu 
considerasse 


#
o 
que 
ele 
dissera. 
Fiquei 
quieto. 
 
Cinqenta 
posicionamentos! 
 
exclamou 
pasmo. 
 
Como 
um 
dom, 
um 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
ou 
no 
mximo 
dois, 
deveria 
ser 
mais 
do 
que 
adequado. 
Encolheu 
os 
ombros 
num 
gesto 
de 
espanto. 


 
Haviam 
me 
dito 
que 
o 
inquilino 
gostava 
imensamente 
do 
Nagual 
Lujan 
 
prosseguiu. 
 
Tinham 
uma 
amizade 
to 
grande 
que 
eram 
praticamente 
inseparveis. 
Me 
disseram 
que 
o 
Nagual 
Lujan 
e 
o 
inquilino 
costumavam 
ir 
toda 
manh 
 
igreja, 
ali 
adiante, 
para 
a 
missa. 
 
Aqui, 
nesta 
cidade? 
 
perguntei 
em 
total 
surpresa. 
 
Aqui 
mesmo 
 
ele 
respondeu. 
 
Possivelmente 
sentaram-se 
neste 
lugar, 
em 
outro 
banco, 
h 
mais 
de 
cem 
anos. 
 
O 
Nagual 
Lujan 
e 
o 
inquilino 
realmente 
andaram 
nesta 
plaza? 
 
perguntei 
de 
novo, 
incapaz 
de 
superar 
a 
surpresa. 
 
Pode 
apostar! 
 
ele 
exclamou. 
 
Eu 
o 
trouxe 
aqui 
esta 
noite 
porque 
o 
poema 
que 
voc 
estava 
lendo 
me 
deu 
uma 
pista 
de 
que 
era 
tempo 
de 
conhecer 
o 
inquilino. 
O 
pnico 
me 
assolou 
com 
a 
velocidade 
de 
um 
furaco. 
Precisei 
respirar 
pela 
boca 
durante 
um 
momento. 


 
Ns 
estivemos 
discutindo 
as 
estranhas 
realizaes 
dos 
feiticeiros 
da 
antigidade 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan. 
 
Mas 
 
sempre 
difcil 
quando 
precisamos 
falar 
exclusivamente 
em 
idias, 
sem 
o 
conhecimento 
em 
primeira 
mo. 
Posso 
repetir 
de 
hoje 
at 
o 
dia 
do 
juzo 
alguma 
coisa 
que 
para 
mim 
 
clara 
como 
cristal, 
mas 
que 
para 
voc 
 
impossvel 
de 
entender 
ou 
acreditar, 
porque 
voc 
no 
tem 
o 
conhecimento 
prtico 
sobre 
ela. 
Levantou-se 
e 
me 
olhou 
da 
cabea 
aos 
ps. 


 
Vamos 
 
igreja 
 
falou. 
 
O 
inquilino 
gosta 
da 
igreja 
e 
das 
redondezas. 
Estou 
certo 
de 
que 
este 
 
o 
momento 
de 
ir 
l. 
Poucas 
vezes, 
no 
decorrer 
de 
minha 
associao 
com 
Dom 
Juan, 
fiquei 
to 
apreensivo. 
Estava 
atordoado. 
Todo 
meu 
corpo 
tremia 
quando 
levantei. 
Meu 
estmago 
estava 
cheio 
de 
ns, 
e 
mesmo 


#
assim 
segui-o 
sem 
dizer 
uma 
palavra 
quando 
ele 
foi 
em 
direo 
 
igreja, 
meus 
joelhos 
vacilando 
e 
bamboleando 
involuntariamente 
toda 
vez 
em 
que 
eu 
dava 
um 
passo. 
Quando 
percorremos 
o 
curto 
quarteiro 
da 
plaza 
at 
os 
degraus 
de 
pedra 
calcria 
do 
trio 
da 
igreja 
eu 
estava 
em 
vias 
de 
desmaiar. 
Dom 
Juan 
ps 
o 
brao 
ao 
redor 
de 
meus 
ombros 
para 
me 
dar 
apoio. 


 
L 
est 
o 
inquilino 
 
falou 
to 
casualmente 
como 
se 
tivesse 
visto 
um 
velho 
amigo. 
Olhei 
na 
direo 
que 
ele 
apontava 
e 
vi 
um 
grupo 
de 
cinco 
mulheres 
e 
trs 
homens 
no 
extremo 
oposto 
do 
trio. 
Meu 
olhar 
rpido 
e 
cheio 
de 
pnico 
no 
revelou 
nada 
sobre 
aquelas 
pessoas. 
Nem 
mesmo 
pude 
dizer 
se 
estavam 
entrando 
na 
igreja 
ou 
saindo 
dela. 
Mas 
percebi 
que 
pareciam 
estar 
reunidos 
ali 
acidentalmente. 
No 
estavam 
juntos. 


Quando 
Dom 
Juan 
e 
eu 
chegamos 
 
pequena 
porta 
recortada 
nos 
imensos 
portais 
de 
madeira 
da 
igreja, 
trs 
mulheres 
j 
tinham 
entrado. 
Os 
trs 
homens 
e 
as 
outras 
duas 
mulheres 
estavam 
se 
afastando. 
Experimentei 
um 
momento 
de 
confuso 
e 
olhei 
para 
Dom 
Juan, 
em 
busca 
de 
orientao. 
Ele 
apontou 
com 
um 
gesto 
do 
queixo 
para 
a 
pia 
de 
gua 
benta. 


 
Devemos 
observar 
as 
regras 
e 
nos 
benzer 
 
sussurrou. 
 
Onde 
est 
o 
inquilino? 
 
perguntei 
tambm 
num 
sussurro. 
Dom 
Juan 
mergulhou 
a 
ponta 
dos 
dedos 
na 
pia 
e 
fez 
o 
sinal-
da-cruz. 
Com 
um 
gesto 
imperativo 
do 
queixo 
me 
instou 
a 
fazer 
o 
mesmo. 


 
O 
inquilino 
era 
um 
dos 
trs 
homens 
que 
saram? 
 
sussurrei 
quase 
em 
seu 
ouvido. 


 
No 
 
ele 
sussurrou 
de 
volta. 
 
O 
inquilino 
 
uma 
das 
trs 
mulheres 
que 
ficaram. 
A 
que 
est 
na 
fila 
de 
trs. 
Naquele 
momento 
uma 
mulher 
na 
fila 
de 
trs 
virou 
a 
cabea 
na 
minha 
direo, 
sorriu 
e 
assentiu 
para 
mim. 
Cheguei 
 
porta 
num 
salto 
e 
corri 
para 
fora. 
Dom 
Juan 
correu 
atrs 
de 
mim. 
Com 
incrvel 
agilidade 
me 


#
alcanou 
e 
segurou-me 
pelo 
brao. 


 
Aonde 
est 
indo? 
 
perguntou 
com 
o 
rosto 
e 
o 
corpo 
se 
contorcendo 
de 
riso. 
Agarrou-me 
firmemente 
pelo 
brao 
enquanto 
eu 
respirava 
em 
grandes 
haustos. 
Eu 
estava 
realmente 
sufocando. 
Uma 
gargalhada 
estridente 
saa 
dele 
como 
ondas 
do 
oceano. 
Puxei 
o 
brao 
com 
fora 
e 
fui 
andando 
em 
direo 
 
praa. 
Ele 
me 
seguiu. 


 
Nunca 
achei 
que 
voc 
fosse 
ficar 
to 
transtornado 
 
ele 
disse 
enquanto 
novas 
ondas 
de 
riso 
lhe 
sacudiam 
o 
corpo. 
 
Por 
que 
no 
me 
disse 
que 
o 
inquilino 
 
uma 
mulher? 
 
Aquele 
feiticeiro 
 
o 
desafiador 
da 
morte 
 
falou 
em 
tom 
solene. 
 
Para 
um 
feiticeiro 
assim, 
to 
versado 
nos 
deslocamentos 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
ser 
homem 
ou 
mulher 
 
questo 
de 
escolha 
ou 
convenincia. 
Esta 
 
a 
primeira 
parte 
da 
lio 
sobre 
o 
sonhar, 
que 
eu 
disse 
que 
voc 
receberia. 
E 
o 
desafiador 
da 
morte 
 
o 
visitante 
misterioso 
que 
vai 
gui-lo 
atravs 
dele. 
Ele 
segurou 
a 
cintura 
quando 
o 
riso 
fez 
com 
que 
tossisse. 
Eu 
estava 
sem 
voz. 
Ento 
uma 
sbita 
fria 
me 
possuiu. 
Eu 
no 
estava 
com 
raiva 
de 
Dom 
Juan, 
ou 
de 
mim 
ou 
de 
algum 
em 
particular. 
Era 
uma 
fria 
glida, 
sem 
estar 
direcionada 
a 
qualquer 
pessoa, 
que 
me 
fez 
sentir 
como 
se 
o 
peito 
e 
todos 
os 
msculos 
do 
pescoo 
fossem 
explodir. 


 
Vamos 
voltar 
 
igreja 
 
gritei 
e 
no 
reconheci 
minha 
voz. 
 
Calma, 
calma 
 
ele 
disse 
em 
voz 
suave. 
 
Voc 
no 
precisa 
saltar 
para 
dentro 
do 
fogo 
assim. 
Pense. 
Delibere. 
Mea 
as 
coisas. 
Esfrie 
a 
cabea. 
Nunca 
em 
sua 
vida 
voc 
foi 
posto 
num 
teste 
desses. 
Agora 
precisa 
de 
calma. 
No 
posso 
lhe 
dizer 
o 
que 
fazer 
 
prosseguiu 
ele. 
 
S 
posso, 
como 
qualquer 
outro 
nagual, 
coloc-lo 
diante 
de 
seu 
desafio 
depois 
de 
dizer, 
em 
termos 
bastante 
oblquos, 
tudo 
que 
 
pertinente. 
Esta 
 
outra 
das 
manobras 
do 
nagual: 
dizer 
tudo 
sem 
dizer, 
ou 
perguntar 
sem 
perguntar. 


Quis 
acabar 
rapidamente 
com 
aquilo. 
Mas 
Dom 
Juan 
disse 
que 


#
uma 
pequena 
pausa 
restauraria 
o 
que 
sobrava 
de 
meu 
autocontrole. 
Meus 
joelhos 
estavam 
em 
vias 
de 
ceder. 
Solicitamente 
Dom 
Juan 
me 
fez 
sentar 
no 
meio-fio. 
Sentou-se 
ao 
meu 
lado. 


 
A 
primeira 
parte 
desta 
lio 
do 
sonhar 
 
que 
a 
masculinidade 
e 
a 
feminilidade 
no 
so 
estados 
definitivos, 
e 
sim 
o 
resultado 
de 
um 
ato 
especfico 
de 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 
E 
esse 
ato 
de 
rearrumar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
, 
naturalmente, 
questo 
de 
vontade 
e 
treinamento. 
Como 
era 
um 
tema 
caro 
aos 
feiticeiros 
da 
antigidade, 
apenas 
eles 
podem 
lanar 
alguma 
luz 
sobre 
isso. 
Talvez 
porque 
fosse 
a 
nica 
coisa 
racional 
a 
fazer, 
comecei 
a 
discutir 
com 
Dom 
Juan. 


 
No 
posso 
aceitar 
nem 
acreditar 
no 
que 
est 
dizendo 
 
falei 
sentindo 
o 
calor 
me 
subir 
ao 
rosto. 
 
Mas 
voc 
viu 
a 
mulher 
 
respondeu 
Dom 
Juan. 
 
Acha 
que 
tudo 
isso 
 
um 
truque? 
 
No 
sei 
o 
que 
pensar. 
-Aquele 
ser 
na 
igreja 
 
uma 
mulher 
verdadeira 
 
ele 
disse 
num 
tom 
decidido. 
 
Por 
que 
isso 
deveria 
perturb-lo 
tanto? 
O 
fato 
dela 
ter 
nascido 
como 
homem 
somente 
atesta 
o 
poder 
das 
maquinaes 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Isso 
no 
deveria 
surpreend-lo. 
Voc 
j 
incorporou 
todos 
os 
princpios 
da 
feitiaria. 


Minhas 
entranhas 
estavam 
em 
vias 
de 
explodir 
de 
tenso. 
Num 
tom 
acusatrio 
Dom 
Juan 
disse 
que 
eu 
s 
estava 
querendo 
discutir. 
Com 
pacincia 
forada 
e 
pomposidade 
real 
expliquei 
a 
ele 
o 
fundamento 
biolgico 
do 
masculino 
e 
do 
feminino. 


 
Eu 
compreendo 
tudo 
isso 
 
ele 
disse. 
 
E 
voc 
est 
certo 
no 
que 
est 
falando. 
Sua 
falha 
 
tentar 
universalizar 
suas 
avaliaes. 
 
Ns 
estamos 
falando 
 
de 
princpios 
bsicos 
 
gritei. 
 
Eles 
sero 
pertinentes 
para 
o 
homem 
aqui 
ou 
em 
qualquer 
outro 
lugar 
do 
universo. 
 
Certo, 
certo 
 
ele 
disse 
em 
voz 
baixa. 
 
Tudo 
que 
voc 
est 
dizendo 
 
verdade 
enquanto 
nosso 
ponto 
de 
aglutinao 
permanecer 
#
em 
seu 
posicionamento 
habitual. 
Mas 
no 
momento 
em 
que 
ele 
se 
desloca 
para 
alm 
de 
certas 
fronteiras, 
e 
nosso 
mundo 
cotidiano 
no 
funciona 
mais, 
nenhum 
dos 
princpios 
que 
voc 
nutre 
com 
carinho 
tem 
esse 
valor 
absoluto 
do 
qual 
est 
falando. 


Seu 
erro 
 
esquecer 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
transcendeu 
essas 
fronteiras 
milhares 
e 
milhares 
de 
vezes. 
No 
 
preciso 
ser 
gnio 
para 
perceber 
que 
o 
inquilino 
no 
est 
mais 
preso 
s 
mesmas 
foras 
que 
atualmente 
governam 
voc. 


Falei 
que 
a 
minha 
pendncia, 
se 
 
que 
poderia 
ser 
chamada 
de 
uma 
pendncia, 
no 
era 
com 
ele, 
mas 
com 
a 
aceitao 
do 
lado 
prtico 
da 
feitiaria 
que, 
at 
aquele 
momento, 
era 
uma 
coisa 
to 
disparatada 
que 
nunca 
apresentara 
um 
problema 
real 
para 
mim. 
Reiterei 
que, 
como 
sonhador, 
tinha 
experincia 
de 
que 
tudo 
no 
sonhar 
 
possvel. 
Lembrei-o 
de 
que 
ele 
prprio 
patrocinara 
e 
cultivara 
essa 
convico, 
junto 
com 
uma 
necessidade 
definitiva 
de 
manter 
a 
mente 
s. 
O 
que 
ele 
estava 
propondo 
no 
caso 
do 
inquilino 
no 
era 
uma 
coisa 
s. 
Era 
um 
tema 
apenas 
para 
o 
sonhar; 
decerto 
que 
no 
era 
para 
o 
mundo 
cotidiano. 
Declarei 
que, 
para 
mim, 
aquilo 
era 
uma 
proposio 
absurda 
e 
insustentvel. 


 
Por 
que 
essa 
reao 
violenta? 
 
ele 
perguntou 
com 
um 
sorriso. 
Sua 
pergunta 
me 
pegou 
desguarnecido. 
Senti-me 
embaraado. 


 
Acho 
que 
isso 
me 
ameaa 
l 
no 
fundo 
 
admiti. 
E 
estava 
falando 
srio. 
Pensar 
que 
aquela 
mulher 
na 
igreja 
era 
um 
homem 
me 
deixava 
nauseado. 
Um 
pensamento 
de 
alvio 
entrou 
em 
minha 
mente: 
talvez 
o 
inquilino 
fosse 
um 
travesti. 
Perguntei 
a 
Dom 
Juan, 
a 
srio, 
sobre 
essa 
possibilidade. 
Ele 
riu 
tanto 
que 
parecia 
em 
vias 
de 
um 
ataque. 


 
Essa 
 
uma 
possibilidade 
mundana 
demais 
 
falou. 
 
Talvez 
seus 
amigos 
antigos 
fizessem 
uma 
coisa 
dessas. 
Os 
novos 
tm 
mais 
recursos 
e 
so 
menos 
masturbatrios. 
Repito: 
aquele 
ser 
na 
igreja 
 
uma 
mulher. 
 
ela. 
E 
ela 
tem 
todos 
os 
rgos 
e 
atributos 
de 
uma 
mulher. 
 
Sorriu 
malicioso. 
 
Voc 
sempre 
se 
sentiu 
atrado 


#
pelas 
mulheres, 
no 
? 
Parece 
que 
essa 
situao 
foi 
preparada 
especialmente. 


Seu 
jbilo 
era 
to 
intenso 
e 
infantil 
a 
ponto 
de 
contagiar. 
Rimos 
os 
dois. 
Ele 
com 
total 
abandono. 
Eu 
com 
apreenso 
total. 


E 
cheguei 
a 
uma 
deciso. 
Levantei-me 
e 
disse 
em 
voz 
alta 
que 
no 
tinha 
qualquer 
desejo 
de 
lidar 
com 
o 
inquilino 
sob 
qualquer 
forma 
ou 
aparncia. 
Minha 
escolha 
era 
deixar 
isso 
tudo 
de 
lado 
e 
voltar 
logo 
para 
a 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
e 
de 
l 
para 
a 
minha. 


Dom 
Juan 
disse 
que, 
para 
ele, 
a 
minha 
deciso 
estava 
bem, 
e 
comeamos 
a 
voltar 
para 
sua 
casa. 
Meus 
pensamentos 
corriam 
loucamente. 
Ser 
que 
estou 
fazendo 
a 
coisa 
certa? 
Ser 
que 
estou 
fugindo 
de 
medo? 
Perguntei 
a 
mim 
mesmo 
e, 
claro, 
imediatamente 
racionalizei 
a 
deciso 
como 
a 
coisa 
certa 
e 
inevitvel. 
Afinal 
de 
contas 


 
busquei 
me 
tranqilizar 
 
eu 
no 
estava 
interessado 
em 
aquisies, 
e 
os 
dons 
do 
inquilino 
eram 
como 
adquirir 
propriedade. 
Nesse 
momento 
a 
dvida 
e 
a 
curiosidade 
me 
assaltaram. 
Havia 
um 
monte 
de 
perguntas 
que 
eu 
poderia 
fazer 
ao 
desafiador 
da 
morte. 
Meu 
corao 
comeou 
a 
bater 
to 
intensamente 
que 
o 
senti 
chocando-se 
contra 
o 
estmago. 
As 
batidas 
subitamente 
se 
transformaram 
na 
voz 
do 
emissrio. 
Ele 
quebrou 
a 
promessa 
de 
no 
interferir 
e 
disse 
que 
uma 
fora 
incrvel 
estava 
acelerando 
as 
batidas 
de 
meu 
corao 
com 
o 
intuito 
de 
me 
levar 
de 
volta 
 
igreja; 
ir 
em 
direo 
 
casa 
de 
Dom 
Juan 
era 
ir 
na 
direo 
da 
morte. 


Parei 
de 
andar 
e 
rapidamente 
confrontei 
Dom 
Juan 
com 
as 
palavras 
do 
emissrio. 


 
Isso 
 
verdade? 
 
perguntei. 
 
Temo 
que 
sim 
 
ele 
admitiu 
envergonhado. 
 
Por 
que 
no 
me 
disse, 
Dom 
Juan? 
Ia 
me 
deixar 
morrer 
porque 
acha 
que 
eu 
sou 
um 
covarde? 
 
perguntei 
furioso. 
 
Voc 
no 
ia 
morrer 
assim. 
Seu 
corpo 
energtico 
tem 
recursos 
infinitos. 
E 
nunca 
me 
ocorreu 
pensar 
que 
voc 
fosse 
um 
covarde. 
Respeito 
suas 
decises 
e 
no 
estou 
nem 
a 
para 
os 
motivos 
delas. 
#
Voc 
tambm 
est 
no 
fim 
da 
estrada, 
como 
eu. 
Ento 
seja 
um 
verdadeiro 
nagual. 
No 
se 
envergonhe 
do 
que 
. 
Se 
voc 
fosse 
um 
covarde, 
acho 
que 
teria 
morrido 
de 
medo 
h 
anos. 
Mas 
se 
estiver 
com 
muito 
medo 
de 
encontrar 
o 
desafiador 
da 
morte, 
morra 
e 
no 
se 
encontre 
com 
ele. 
No 
existe 
vergonha 
nisso. 


 
Vamos 
voltar 
 
igreja 
 
falei 
o 
mais 
calmo 
que 
pude. 
 
Agora 
estamos 
chegando 
ao 
ponto 
crucial! 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Mas, 
primeiro, 
vamos 
voltar 
ao 
parque, 
sentar 
num 
banco 
e 
avaliar 
cuidadosamente 
suas 
opes. 
Ns 
temos 
tempo; 
 
cedo 
demais 
para 
o 
que 
deve 
ser 
feito. 
Voltamos 
ao 
parque. 
Imediatamente 
encontramos 
um 
banco 
vazio 
e 
nos 
sentamos. 


 
 
preciso 
entender 
que 
somente 
voc 
pode 
tomar 
a 
deciso 
de 
encontrar 
ou 
no 
encontrar 
o 
inquilino, 
e 
de 
aceitar 
ou 
rejeitar 
seus 
dons 
de 
poder 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Mas 
sua 
deciso 
precisa 
ser 
verbalizada 
para 
a 
mulher 
na 
igreja, 
cara 
a 
cara 
e 
a 
ss; 
de 
outro 
modo 
no 
ser 
vlida. 
Dom 
Juan 
disse 
que 
os 
dons 
do 
inquilino 
eram 
extraordinrios, 
mas 
que 
o 
preo 
por 
eles 
era 
tremendo. 
E 
que 
ele 
no 
aprovava 
nem 
os 
dons 
nem 
o 
preo. 


 
Antes 
de 
tomar 
sua 
verdadeira 
deciso 
 
prosseguiu 
 
voc 
precisa 
conhecer 
todos 
os 
detalhes 
de 
nossas 
transaes 
com 
aquele 
feiticeiro. 
 
Preferiria 
no 
ouvir 
mais 
sobre 
isso, 
Dom 
Juan. 
 
 
seu 
dever 
saber. 
De 
outro 
modo, 
como 
vai 
se 
decidir? 
 
No 
acha 
que, 
quanto 
menos 
eu 
souber 
sobre 
o 
inquilino, 
melhor 
eu 
me 
safo? 
 
No. 
Isso 
no 
 
uma 
questo 
de 
se 
esconder 
at 
que 
o 
perigo 
passe. 
Este 
 
o 
momento 
da 
verdade. 
Tudo 
que 
voc 
j 
fez 
e 
experimentou 
no 
mundo 
dos 
feiticeiros 
canalizou-o 
para 
este 
ponto. 
Eu 
no 
queria 
dizer, 
porque 
sabia 
que 
seu 
corpo 
energtico 
iria 
contar, 
mas 
no 
h 
como 
sair 
deste 
compromisso. 
Nem 
mesmo 
morrendo. 
Compreende? 
 
Sacudiu-me 
pelos 
ombros. 
 
#
Compreende? 


Compreendi 
to 
bem 
que 
perguntei 
se 
poderia 
fazer 
com 
que 
eu 
mudasse 
de 
nvel 
de 
conscincia, 
para 
aliviar 
o 
medo 
e 
o 
desconforto. 
Ele 
quase 
me 
fez 
saltar 
com 
a 
exploso 
de 
seu 
no. 


 
Voc 
deve 
enfrentar 
o 
desafiador 
da 
morte 
a 
frio, 
e 
com 
premeditao 
absoluta. 
E 
no 
pode 
fazer 
isso 
por 
procurao. 
Calmamente 
comeou 
a 
repetir 
tudo 
que 
j 
me 
contara 
sobre 
o 
desafiador 
da 
morte. 
Enquanto 
ele 
falava, 
percebi 
que 
parte 
da 
minha 
confuso 
era 
resultado 
do 
uso 
que 
ele 
fazia 
das 
palavras. 
Em 
espanhol, 
o 
desafiador 
da 
morte 
e 
o 
inquilino 
denotam 
automaticamente 
um 
homem 
 
coisa 
que 
no 
acontece 
em 
ingls 
 
mas 
ao 
descrever 
o 
relacionamento 
entre 
o 
inquilino 
e 
os 
naguais 
de 
sua 
linha, 
Dom 
Juan 
ficava 
misturando 
denotaes 
masculinas 
e 
femininas 
da 
lngua 
espanhola, 
criando 
uma 
grande 
confuso 
para 
mim. 


Disse 
que 
o 
inquilino 
deveria 
pagar 
pela 
energia 
que 
ele 
tomava 
dos 
naguais 
de 
nossa 
linhagem, 
mas 
que 
o 
pagamento 
dele 
havia 
ligado 
aqueles 
feiticeiros 
durante 
geraes. 
Como 
pagamento 
pela 
tomada 
de 
energia 
de 
todos 
aqueles 
naguais 
a 
mulher 
na 
igreja 
dizia-
lhes 
exatamente 
o 
que 
fazer 
para 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
algum 
posicionamento 
que 
ela 
prpria 
escolhera. 
Em 
outras 
palavras, 
ela 
unira 
cada 
um 
daqueles 
homens 
com 
um 
dom 
de 
poder 
que 
consistia 
num 
posicionamento 
especfico 
e 
pr-selecionado 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
juntamente 
com 
todas 
as 
suas 
implicaes. 


 
O 
que 
quer 
dizer 
com 
todas 
as 
suas 
implicaes, 
Dom 
Juan? 
 
Falo 
dos 
resultados 
negativos 
desses 
dons. 
A 
mulher 
na 
igreja 
s 
sabe 
de 
entrega 
total. 
Naquela 
mulher 
no 
existe 
frugalidade, 
temperana. 
Por 
exemplo, 
ela 
ensinou 
ao 
Nagual 
Julian 
como 
arrumar 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
ser, 
como 
ela, 
uma 
mulher. 
Ensinar 
isso 
para 
meu 
benfeitor, 
que 
era 
um 
incurvel 
voluptuoso, 
era 
como 
dar 
bebida 
para 
um 
alcolatra. 
 
Mas 
cada 
um 
de 
ns 
no 
 
responsvel 
pelo 
que 
faz? 
 
Sim, 
de 
fato. 
Mas 
alguns 
de 
ns 
tem 
mais 
dificuldade 
do 
que 
#
outros 
em 
ser 
responsveis. 
Aumentar 
essa 
dificuldade 
deliberadamente, 
como 
faz 
aquela 
mulher, 
 
colocar 
presso 
desnecessria 
sobre 
ns. 


 
Como 
sabe 
que 
a 
mulher 
na 
igreja 
faz 
isso 
deliberadamente? 
 
Ela 
fez 
isso 
com 
cada 
um 
dos 
naguais 
de 
minha 
linha. 
Se 
olharmos 
para 
ns 
mesmos 
com 
iseno, 
temos 
de 
admitir 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
nos 
transformou, 
com 
seus 
dons, 
numa 
linha 
de 
feiticeiros 
muito 
indulgentes, 
muito 
dependentes. 
No 
pude 
mais 
deixar 
de 
lado 
sua 
inconsistncia 
de 
linguagem, 
e 
reclamei: 


 
Voc 
precisa 
falar 
sobre 
aquele 
feiticeiro 
como 
homem 
ou 
como 
mulher, 
no 
como 
as 
duas 
coisas 
 
falei 
asperamente. 
 
Estou 
muito 
tenso, 
e 
seu 
uso 
arbitrrio 
dos 
gneros 
me 
deixa 
ainda 
mais 
inquieto. 
 
Eu 
prprio 
estou 
muito 
inquieto 
 
ele 
confessou. 
 
Mas 
a 
verdade 
 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
 
as 
duas 
coisas: 
homem 
e 
mulher. 
Eu 
nunca 
fui 
capaz 
de 
observar 
com 
tranqilidade 
a 
mudana 
daquele 
feiticeiro. 
Tinha 
certeza 
de 
que 
voc 
acharia 
o 
mesmo, 
tendo-o 
visto 
primeiro 
como 
um 
homem. 
Dom 
Juan 
lembrou-me 
de 
uma 
vez, 
anos 
antes, 
quando 
tinha 
me 
levado 
para 
conhecer 
o 
desafiador 
da 
morte 
e 
eu 
encontrei 
um 
homem; 
um 
ndio 
estranho, 
que 
no 
era 
velho 
nem 
novo; 
de 
compleio 
muito 
franzina. 
Lembro-me 
principalmente 
de 
seu 
sotaque 
estranho, 
e 
do 
uso 
que 
fizera 
de 
uma 
metfora 
antiga 
ao 
descrever 
o 
que 
supostamente 
vira. 
Ele 
disse: 
mis 
ojos 
se 
pasearon... 
meus 
olhos 
passearam... 
Por 
exemplo, 
ele 
disse 
meus 
olhos 
passearam 
pelos 
capacetes 
dos 
conquistadores 
espanhis. 


Para 
mim 
o 
evento 
fora 
to 
rpido 
que 
eu 
sempre 
pensara 
no 
encontro 
como 
se 
tivesse 
durado 
alguns 
minutos. 
Mais 
tarde 
Dom 
Juan 
disse 
que 
eu 
ficara 
um 
dia 
inteiro 
com 
o 
desafiador 
da 
morte; 
um 
dia 
do 
qual 
no 
tive 
nenhuma 
conscincia. 


 
O 
motivo 
pelo 
qual 
eu 
estava 
tentando 
descobrir, 
antes, 
se 
voc 
sabia 
ou 
no 
o 
que 
estava 
acontecendo 
 
prosseguiu 
Dom 
Juan 
#
 
foi 
porque 
pensei 
que 
h 
anos 
voc 
tinha 
marcado 
um 
compromisso 
com 
o 
desafiador 
da 
morte. 
 
Est 
me 
dando 
um 
crdito 
indevido, 
Dom 
Juan. 
Neste 
momento 
eu 
nem 
sei 
se 
estou 
indo 
ou 
vindo. 
Mas 
o 
que 
lhe 
deu 
a 
idia 
de 
que 
eu 
sabia? 
 
Parece 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
gostou 
de 
voc. 
E 
isso 
significa, 
para 
mim, 
que 
ele 
pode 
j 
ter-lhe 
dado 
um 
dom 
de 
poder, 
apesar 
de 
voc 
no 
se 
lembrar. 
Ou 
pode 
ter 
marcado 
um 
compromisso 
com 
ele, 
na 
forma 
de 
uma 
mulher. 
Eu 
at 
mesmo 
suspeitava 
de 
que 
ele 
houvesse 
dado 
indicaes 
precisas. 
Dom 
Juan 
observou 
que 
o 
desafiador 
da 
morte, 
sendo 
definitivamente 
uma 
criatura 
de 
hbitos 
rituais, 
sempre 
encontra 
os 
naguais 
de 
sua 
linha 
primeiro 
como 
homem, 
como 
aconteceu 
com 
o 
Nagual 
Sebastian, 
e 
depois 
como 
mulher. 


 
Por 
que 
chama 
os 
dons 
do 
desafiador 
da 
morte 
de 
dons 
de 
poder? 
E 
por 
que 
o 
mistrio? 
 
perguntei. 
 
Voc 
mesmo 
pode 
deslocar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
onde 
quiser, 
no 
? 
 
So 
chamados 
de 
dons 
de 
poder 
porque 
so 
produtos 
do 
conhecimento 
especializado 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
O 
mistrio 
sobre 
os 
dons 
 
que 
ningum 
na 
terra, 
com 
a 
exceo 
do 
desafiador 
da 
morte, 
pode 
nos 
dar 
uma 
amostra 
desse 
conhecimento. 
E, 
claro, 
eu 
posso 
deslocar 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
para 
onde 
quiser, 
dentro 
ou 
fora 
da 
forma 
energtica 
humana. 
Mas 
o 
que 
no 
consigo, 
e 
somente 
o 
desafiador 
da 
morte 
consegue, 
 
saber 
o 
que 
fazer 
com 
meu 
corpo 
energtico 
em 
cada 
um 
desses 
pontos, 
com 
o 
objetivo 
de 
obter 
uma 
percepo 
total, 
uma 
coeso 
total. 
Explicou 
ento 
que 
os 
feiticeiros 
modernos 
no 
conhecem 
os 
detalhes 
dos 
milhares 
e 
milhares 
de 
posicionamentos 
possveis 
do 
ponto 
de 
aglutinao. 


 
O 
que 
quer 
dizer 
com 
detalhes? 
 
Maneiras 
particulares 
de 
tratar 
o 
corpo 
energtico 
para 
manter 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
fixo 
em 
posies 
especficas. 
Tomou 
o 
seu 
prprio 
caso 
como 
exemplo. 
Disse 
que 
o 
dom 
de 


#
poder 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
lhe 
dera 
fora 
o 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
de 
um 
corvo, 
e 
os 
procedimentos 
para 
manipular 
seu 
corpo 
energtico 
para 
obter 
a 
percepo 
total 
de 
um 
corvo. 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
a 
percepo 
total, 
a 
coeso 
total, 
era 
o 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
buscavam 
a 
todo 
custo; 
e 
que 
no 
caso 
de 
seu 
dom 
de 
poder, 
a 
percepo 
total 
vinha 
atravs 
de 
um 
processo 
deliberado 
que 
ele 
precisou 
aprender, 
passo 
a 
passo, 
como 
aprendemos 
a 
operar 
uma 
mquina 
muito 
complexa. 


Dom 
Juan 
explicou 
ainda 
que 
a 
maioria 
dos 
deslocamentos 
experimentados 
pelos 
feiticeiros 
modernos 
so 
deslocamentos 
intermedirios 
dentro 
de 
um 
feixe 
de 
filamentos 
de 
energia 
luminosa 
no 
interior 
do 
ovo 
luminoso, 
um 
feixe 
chamado 
de 
faixa 
do 
homem, 
ou 
o 
aspecto 
puramente 
humano 
da 
energia 
do 
universo. 
Para 
alm 
dessa 
faixa, 
mas 
ainda 
dentro 
do 
ovo 
luminoso, 
est 
o 
mbito 
dos 
grandes 
deslocamentos. 
Quando 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
se 
desloca 
para 
qualquer 
ponto 
daquela 
rea 
a 
percepo 
continua 
sendo 
compreensvel 
para 
ns, 
mas 
so 
necessrios 
procedimentos 
extremamente 
detalhados 
para 
que 
a 
percepo 
no 
seja 
apenas 
compreensvel, 
mas 
total. 


 
Os 
seres 
inorgnicos 
enganaram 
voc 
e 
Carol 
Tiggs, 
em 
sua 
ltima 
viagem, 
ajudando 
vocs 
a 
obter 
a 
coeso 
total 
num 
grande 
deslocamento. 
Eles 
deslocaram 
seus 
pontos 
de 
aglutinao 
para 
o 
lugar 
mais 
distante 
possvel, 
e 
em 
seguida 
ajudaram-nos 
a 
perceber 
aquele 
lugar 
como 
se 
estivessem 
no 
mundo 
cotidiano. 
Uma 
coisa 
quase 
impossvel. 
Para 
ter 
esse 
tipo 
de 
percepo 
um 
feiticeiro 
precisa 
de 
conhecimento 
pragmtico, 
ou 
de 
amigos 
influentes. 
No 
final 
seus 
amigos 
o 
trairiam, 
e 
deixariam 
voc 
e 
Carol 
cuidando 
de 
si 
prprios 
e 
tentando 
descobrir 
medidas 
pragmticas 
de 
sobreviver 
naquele 
mundo. 
Vocs 
dois 
terminariam 
completamente 
cheios 
de 
procedimentos 
pragmticos, 
exatamente 
como 
os 
feiticeiros 
antigos 
mais 
cheios 
de 
conhecimento. 


Cada 
grande 
deslocamento 
tem 
um 
funcionamento 
interno 
diferente, 
que 
os 
feiticeiros 
modernos 
poderiam 
aprender 
se 


#
soubessem 
como 
fixar 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
por 
tempo 
suficiente 
em 
qualquer 
deslocamento 
grande 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Somente 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
tinham 
o 
conhecimento 
especfico 
necessrio 
para 
fazer 
isso. 


Dom 
Juan 
prosseguiu 
dizendo 
que 
o 
conhecimento 
dos 
processos 
especficos 
envolvidos 
nos 
deslocamentos 
no 
estava 
disponvel 
aos 
oito 
naguais 
que 
precederam 
o 
Nagual 
Sebastian, 
e 
que 
o 
inquilino 
mostrou 
ao 
Nagual 
Sebastian 
como 
alcanar 
a 
percepo 
total 
em 
dez 
novos 
posicionamentos 
do 
ponto 
de 
aglu-
tinao. 
O 
Nagual 
Santisteban 
recebeu 
sete, 
o 
Nagual 
Lujan 
cinqenta, 
o 
Nagual 
Rosendo 
seis, 
o 
Nagual 
Elias 
dois, 
o 
Nagual 
Julian 
dezesseis, 
e 
ele 
ficou 
conhecendo 
dois; 
um 
total 
de 
noventa 
e 
cinco 
posicionamentos 
especficos 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
que 
sua 
linhagem 
ficou 
conhecendo. 
Disse 
que, 
se 
eu 
lhe 
perguntasse 
se 
ele 
considerava 
isso 
uma 
vantagem 
para 
sua 
linhagem, 
ele 
diria 
que 
no, 
porque 
o 
peso 
desses 
dons 
colocava-os 
mais 
prximos 
da 
disposio 
dos 
feiticeiros 
antigos. 


 
Isso 
 
terrivelmente 
srio. 
 
nauseante. 
 
Simpatizo 
sinceramente 
com 
voc 
 
ele 
respondeu 
com 
expresso 
sria. 
 
Sei 
que 
no 
serve 
como 
consolo 
eu 
dizer 
que 
este 
 
o 
maior 
desafio 
de 
um 
nagual 
moderno. 
Enfrentar 
uma 
coisa 
to 
antiga 
e 
misteriosa 
como 
o 
inquilino 
no 
 
de 
causar 
espanto, 
e 
sim 
revolta. 
Pelo 
menos 
foi 
para 
mim, 
e 
ainda 
. 
 
Por 
que 
eu 
tenho 
de 
continuar 
com 
isso, 
Dom 
Juan? 
 
Porque, 
sem 
saber, 
voc 
aceitou 
o 
repto 
do 
desafiador 
da 
morte. 
Eu 
obtive 
uma 
aceitao 
sua 
durante 
seu 
aprendizado, 
do 
mesmo 
modo 
que 
meu 
professor 
obteve 
de 
mim, 
sub-repticiamente. 
Eu 
passei 
pelo 
mesmo 
horror, 
apenas 
de 
maneira 
um 
pouco 
mais 
brutal 
do 
que 
voc 
 
comeou 
a 
rir. 
 
O 
Nagual 
Julian 
gostava 
de 
pregar 
peas 
horrveis. 
Ele 
me 
disse 
que 
havia 
uma 
viva 
muito 
linda 
e 
apaixonada, 
que 
estava 
louca 
por 
mim. 
O 
Nagual 
costumava 
me 
levar 
freqentemente 
 
igreja, 
e 
eu 
vira 
a 
mulher 
me 
encarando. 
Achei 
que 
era 
bonita. 
E 
eu 
era 
um 
jovem 
fogoso. 
Quando 
o 
Nagual 


#
disse 
que 
ela 
gostava 
de 
mim, 
fui 
com 
tudo. 
Meu 
despertar 
foi 
bastante 
rude. 


Tive 
de 
lutar 
para 
no 
rir 
do 
gesto 
de 
inocncia 
perdida 
que 
Dom 
Juan 
fez. 
Ento 
a 
idia 
do 
apuro 
de 
Dom 
Juan 
me 
assaltou 
no 
como 
sendo 
engraado, 
mas 
como 
chocante. 


 
Tem 
certeza, 
Dom 
Juan, 
que 
aquela 
mulher 
 
o 
inquilino? 
 
perguntei 
esperando, 
talvez, 
que 
fosse 
um 
engano 
ou 
uma 
piada 
ruim. 


 
Tenho. 
Muita 
certeza. 
E 
mesmo 
se 
eu 
fosse 
to 
idiota 
para 
me 
esquecer 
do 
inquilino, 
minha 
viso 
no 
me 
enganaria. 
 
Quer 
dizer, 
Dom 
Juan, 
que 
o 
inquilino 
tem 
um 
tipo 
diferente 
de 
energia? 
 
No, 
no 
um 
tipo 
diferente 
de 
energia, 
mas 
tem 
certamente 
caractersticas 
energticas 
diferentes 
das 
de 
uma 
pessoa 
normal. 
 
Tem 
certeza 
absoluta, 
Dom 
Juan, 
de 
que 
aquela 
mulher 
e 
o 
inquilino? 
 
insisti 
levado 
por 
estranha 
repulsa 
e 
medo. 
 
Aquela 
mulher 
 
o 
inquilino! 
 
Dom 
Juan 
exclamou 
numa 
voz 
que 
no 
admitia 
dvidas. 
Ficamos 
quietos. 
Esperei 
pelo 
prximo 
movimento, 
no 
meio 
de 
um 
pnico 
alm 
de 
qualquer 
descrio. 


 
J 
falei 
que 
ser 
um 
homem 
natural 
ou 
uma 
mulher 
natural 
 
questo 
do 
posicionamento 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
 
disse 
Dom 
Juan. 
 
Por 
natural 
quero 
dizer 
algum 
que 
nasceu 
homem 
ou 
mulher. 
Para 
quem 
v, 
a 
parte 
mais 
brilhante 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
no 
caso 
das 
mulheres, 
 
virada 
para 
fora, 
e 
para 
dentro 
no 
caso 
dos 
homens. 
O 
ponto 
de 
aglutinao 
do 
inquilino 
era 
originalmente 
virado 
para 
dentro, 
mas 
ele 
mudou-o, 
girando-o 
e 
fazendo 
sua 
energia 
em 
forma 
de 
ovo 
parecer 
uma 
concha 
que 
se 
enrolou. 
#
12 


A 
MULHER 
NA 
IGREJA 


D
D
om 
Juan 
e 
eu 
permanecemos 
sentados 
em 
silncio. 
Fiquei 
sem 
perguntas 
e 
ele 
parecia 
ter 
dito 
tudo 
que 
era 
pertinente. 
No 
podiam 
ser 
mais 
de 
seis 
horas, 
mas 
a 
plaza 
estava 
incomumente 
deserta. 
Era 
uma 
noite 
quente. 
Naquela 
cidade 
as 
pessoas 
costumavam 
passear 
ao 
redor 
da 
plaza 
todas 
as 
noites 
at 
dez 
ou 
onze 
horas. 


Aproveitei 
um 
momento 
para 
reconsiderar 
o 
que 
estava 
acontecendo 
comigo. 
Meu 
tempo 
com 
Dom 
Juan 
estava 
terminando. 
Ele 
e 
seu 
grupo 
iriam 
realizar 
o 
sonho 
dos 
feiticeiros: 
deixar 
este 
mundo 
e 
entrar 
em 
dimenses 
inconcebveis. 
Baseando-me 
em 
meu 
limitado 
sucesso 
no 
sonhar, 
eu 
acreditava 
que 
suas 
afirmaes 
no 
eram 
ilusrias. 
Eram 
extremamente 
sbrias, 
ainda 
que 
contrrias 
 
razo. 
Eles 
buscavam 
a 
percepo 
do 
desconhecido, 
e 
conseguiram. 


Dom 
Juan 
estava 
certo 
em 
dizer 
que, 
ao 
induzir 
um 
deslocamento 
sistemtico 
do 
ponto 
de 
aglutinao, 
o 
sonhar 
libera 
a 
percepo, 
alargando 
o 
mbito 
do 
que 
pode 
ser 
percebido. 
Para 
os 
feiticeiros 
de 
seu 
grupo 
o 
sonhar 
no 
apenas 
abrira 
as 
portas 
de 
outros 
mundos 
perceptveis, 
mas 
havia-os 
preparado 
para 
entrar 
nessas 
esferas 
com 
total 
conscincia. 
Para 
eles 
o 
sonhar 
tornara-se 
inefvel, 
sem 
precedentes; 
algo 
a 
cuja 
natureza 
e 
cujo 
mbito 
s 
se 
poderia 
aludir, 
como 
quando 
Dom 
Juan 
dizia 
que 
o 
sonhar 
era 
o 
portal 
para 
a 
luz 
e 
a 
escurido 
do 
universo. 


S 
havia 
uma 
coisa 
pendente 
para 
eles: 
meu 
encontro 
com 
o 


#
desafiador 
da 
morte. 
Eu 
lamentava 
que 
Dom 
Juan 
no 
tivesse 
me 
avisado 
para 
me 
preparar 
melhor. 
Mas 
ele 
era 
um 
nagual 
que 
fazia 
todas 
as 
coisas 
importantes 
impulsivamente, 
e 
sem 
qualquer 
aviso. 


Por 
um 
momento 
eu 
parecia 
estar 
bem, 
sentado 
com 
Dom 
Juan 
no 
parque, 
esperando 
que 
as 
coisas 
acontecessem; 
mas 
ento 
minha 
estabilidade 
emocional 
sofreu 
uma 
queda, 
e 
num 
piscar 
de 
olhos 
eu 
me 
vi 
em 
meio 
a 
um 
negro 
desespero. 
Fui 
assaltado 
por 
consideraes 
mesquinhas 
sobre 
minha 
segurana, 
meus 
objetivos, 
minhas 
esperanas 
no 
mundo, 
minhas 
preocupaes. 
Depois 
de 
algum 
exame, 
entretanto, 
tive 
de 
admitir 
que 
talvez 
minha 
nica 
preocupao 
real 
fosse 
com 
minhas 
quatro 
companheiras 
no 
mundo 
de 
Dom 
Juan. 
Ainda 
que, 
se 
eu 
pensasse 
bem, 
nem 
mesmo 
isso 
era 
verdadeiro 
para 
mim. 
Dom 
Juan 
havia-as 
ensinado 
a 
ser 
o 
tipo 
de 
feiticeiras 
que 
sempre 
sabiam 
o 
que 
fazer; 
e, 
mais 
importante 
ainda, 
ele 
as 
havia 
preparado 
para 
sempre 
saber 
o 
que 
fazer 
com 
o 
que 
sabiam. 


Tendo 
h 
muito 
afastado 
todos 
os 
motivos 
possveis 
para 
minha 
angstia, 
o 
que 
restou 
foi 
a 
preocupao 
comigo 
mesmo. 
E 
me 
entreguei 
a 
ela 
sem 
qualquer 
vergonha. 
Uma 
ltima 
indulgncia 
para 
a 
estrada: 
o 
medo 
de 
morrer 
nas 
mos 
do 
desafiador 
da 
morte. 
Fiquei 
com 
tanto 
medo 
que 
senti 
o 
estmago 
enjoado. 
Tentei 
me 
desculpar, 
mas 
Dom 
Juan 
riu. 


 
Voc 
no 
 
a 
nica 
pessoa 
a 
ter 
dor 
de 
barriga 
por 
causa 
do 
medo 
 
falou. 
 
Quando 
encontrei 
o 
desafiador 
da 
morte 
eu 
molhei 
as 
calas. 
Pode 
acreditar. 
Esperei 
em 
silncio 
durante 
um 
momento 
longo 
e 
insuportvel. 


 
Est 
preparado? 
 
ele 
perguntou. 
Falei 
que 
sim, 
e 
ele 
acrescentou, 
levantando-se: 
 
Vamos 
ento 
descobrir 
como 
voc 
vai 
se 
portar 
na 
linha 
de 
tiro. 
Foi 
na 
frente 
em 
direo 
 
igreja. 
E 
por 
mais 
que 
eu 
tente, 
tudo 
que 
lembro 
hoje 
em 
dia 
daquela 
caminhada 
 
que 
ele 
teve 
de 
me 
arrastar 
por 
todo 
o 
caminho. 
Mas 
no 
me 
lembro 
de 
chegar 
 
igreja 


#
ou 
de 
entrar 
nela. 
A 
prxima 
coisa 
que 
soube 
 
que 
estava 
ajoelhado 
num 
banco 
de 
madeira, 
longo 
e 
desgastado, 
junto 
da 
mulher 
que 
eu 
vira 
antes. 
Ela 
sorria 
para 
mim. 
Olhei 
desesperado 
ao 
redor, 
tentando 
localizar 
Dom 
Juan, 
mas 
ele 
no 
estava 
 
vista. 
Eu 
teria 
voado 
como 
um 
morcego 
fugindo 
do 
inferno 
se 
a 
mulher 
no 
me 
impedisse, 
agarrando 
meu 
brao. 


 
Por 
que 
voc 
deveria 
estar 
com 
tanto 
medo 
da 
pobrezinha 
de 
mim? 
 
ela 
me 
perguntou 
em 
ingls. 
Fiquei 
grudado 
no 
lugar 
onde 
me 
ajoelhara. 
O 
que 
me 
envolveu 
total 
e 
imediatamente 
foi 
sua 
voz. 
No 
consigo 
descrever 
o 
que, 
no 
som 
rouco 
de 
sua 
voz, 
tocava 
minhas 
lembranas 
mais 
recnditas. 
Era 
como 
se 
eu 
sempre 
conhecesse 
aquela 
voz. 


Fiquei 
ali, 
imvel, 
hipnotizado 
pelo 
som. 
Ela 
me 
perguntou 
outra 
coisa 
em 
ingls, 
mas 
no 
consegui 
entender. 
Ela 
sorriu, 
compreensiva. 


 
Tudo 
bem 
 
sussurrou 
em 
espanhol. 
Estava 
ajoelhada 
ao 
meu 
lado. 
 
Eu 
compreendo 
o 
verdadeiro 
medo. 
Vivo 
com 
ele. 
Eu 
ia 
falar 
quando 
ouvi 
a 
voz 
do 
emissrio 
em 
meu 
ouvido: 


 
 
a 
voz 
de 
Hermelinda, 
sua 
ama-de-leite. 
A 
nica 
coisa 
que 
eu 
sabia 
sobre 
Hermelinda 
era 
a 
histria 
que 
me 
contaram, 
que 
ela 
fora 
acidentalmente 
morta 
por 
um 
caminho 
desgovernado. 
Era 
uma 
coisa 
chocante, 
para 
mim, 
a 
voz 
da 
mulher 
remexer 
lembranas 
to 
profundas 
e 
antigas. 
Por 
um 
momento 
experimentei 
uma 
ansiedade 
agonizante. 


 
Eu 
sou 
a 
sua 
ama-de-leite! 
 
a 
mulher 
exclamou 
em 
tom 
suave. 
 
Que 
extraordinrio! 
Quer 
o 
meu 
peito? 
 
O 
riso 
sacudiu-
lhe 
o 
corpo. 
Fiz 
um 
esforo 
supremo 
para 
permanecer 
calmo, 
mas 
sabia 
que 
estava 
rapidamente 
perdendo 
terreno 
e 
que 
a 
qualquer 
momento 
iria 
abandonar 
os 
sentidos. 


 
No 
ligue 
para 
minha 
brincadeira 
 
disse 
ela 
em 
voz 
baixa. 
 
A 
verdade 
 
que 
eu 
gosto 
muito 
de 
voc. 
Voc 
est 
borbulhando 
de 
energia. 
E 
ns 
vamos 
nos 
dar 
muito 
bem. 
#
Dois 
homens 
mais 
velhos 
se 
ajoelharam 
na 
nossa 
frente. 
Um 
deles 
virou-se 
curiosamente 
para 
nos 
olhar. 
Ela 
no 
prestou 
ateno 
e 
continuou 
sussurrando 
em 
meu 
ouvido. 


 
Deixe-me 
segurar 
sua 
mo 
 
pediu. 
Mas 
seu 
pedido 
parecia 
uma 
ordem. 
Entreguei 
minha 
mo, 
incapaz 
de 
negar. 
 
Obrigada. 
Obrigada 
pela 
confiana 
e 
por 
acreditar 
em 
mim 
 
ela 
sussurrou. 
O 
som 
de 
sua 
voz 
estava 
me 
deixando 
louco. 
Sua 
rouquido 
era 
to 
extica, 
to 
absolutamente 
feminina! 
Em 
nenhuma 
situao 
eu 
a 
tomaria 
pela 
voz 
de 
um 
homem 
buscando 
soar 
feminino. 
Era 
uma 
voz 
rouca, 
mas 
no 
gutural 
ou 
spera. 
Era 
mais 
como 
o 
som 
de 
ps 
descalos 
andando 
suavemente 
sobre 
cascalho. 


Fiz 
um 
esforo 
tremendo 
para 
romper 
um 
lenol 
invisvel 
de 
energia 
que 
parecia 
ter-me 
envolvido. 
Achei 
que 
conseguira. 
Levantei-me, 
pronto 
para 
ir 
embora; 
e 
teria 
ido, 
se 
a 
mulher 
tambm 
no 
houvesse 
levantado 
e 
sussurrado 
em 
meu 
ouvido: 


 
No 
fuja. 
Tenho 
muita 
coisa 
para 
lhe 
contar. 
Sentei-me 
automaticamente, 
preso 
pela 
curiosidade. 
Estranhamente, 
minha 
ansiedade 
se 
fora 
de 
sbito 
e 
meu 
medo 
tambm. 
Cheguei 
a 
ter 
presena 
bastante 
para 
perguntar: 


 
Voc 
 
realmente 
uma 
mulher? 
Ela 
riu 
baixinho, 
como 
uma 
garotinha. 
Em 
seguida 
falou 
uma 
frase 
tortuosa: 


 
Se 
voc 
ousa 
pensar 
que 
eu 
me 
transformaria 
num 
homem 
terrvel 
e 
lhe 
causaria 
mal, 
est 
gravemente 
enganado 
 
falou 
acentuando 
ainda 
mais 
aquela 
voz 
estranha 
e 
hipnotizante. 
 
Voc 
 
meu 
benfeitor, 
e 
eu 
sou 
sua 
serva, 
como 
fui 
de 
todos 
os 
naguais 
que 
o 
precederam. 
Reunindo 
toda 
a 
fora 
que 
pude, 
abri-lhe 
minha 
mente. 
 
Voc 
 
bem-vinda 
 
minha 
energia 
 
falei. 
 
 
minha 
doao 
para 
voc, 
mas 
no 
quero 
que 
me 
d 
qualquer 
dom 
de 
poder. 
E 
realmente 
estou 
falando 
srio. 
 
No 
posso 
tomar 
sua 
energia 
de 
graa 
 
ela 
sussurrou. 
 
Eu 
pago 
pelo 
que 
recebo, 
este 
 
o 
acordo. 
 
idiotice 
dar 
sua 
energia 


#
de 
graa. 


 
Eu 
fui 
um 
idiota 
toda 
a 
minha 
vida. 
Pode 
acreditar. 
Certamente 
posso 
me 
dar 
ao 
luxo 
de 
lhe 
fazer 
uma 
doao. 
No 
tenho 
problema 
com 
isso. 
Voc 
precisa 
da 
energia, 
tome-a. 
Mas 
eu 
no 
preciso 
ser 
atrelado 
com 
coisas 
desnecessrias. 
No 
tenho 
nada, 
e 
adoro 
isso. 
 
Talvez 
 
ela 
disse 
pensativa. 
Agressivamente 
perguntei 
se 
ela 
estava 
querendo 
dizer 
que 
talvez 
tomaria 
minha 
energia 
ou 
que 
no 
acreditava 
que 
eu 
no 
tinha 
nada 
e 
adorava 
isso. 


Ela 
riu 
deliciada, 
e 
disse 
que 
poderia 
tomar 
minha 
energia, 
j 
que 
eu 
estava 
oferecendo-a 
to 
generosamente. 
Mas 
que 
tinha 
de 
fazer 
um 
pagamento. 
Tinha 
de 
me 
dar 
uma 
coisa 
de 
valor 
semelhante. 


Enquanto 
a 
ouvia 
falar, 
percebi 
que 
era 
um 
espanhol 
com 
um 
sotaque 
estrangeiro 
muito 
extravagante. 
Ela 
consistentemente 
acrescentava 
fonemas 
extras 
 
slaba 
do 
meio 
de 
cada 
palavra. 
Nunca 
na 
vida 
eu 
ouvira 
algum 
falar 
assim. 


 
Seu 
sotaque 
 
extraordinrio 
 
falei. 
 
De 
onde 
? 
 
De 
quase 
a 
eternidade 
 
ela 
disse 
e 
suspirou. 
Havamos 
comeado 
a 
fazer 
contato. 
Entendi 
por 
que 
suspirou. 
Ela 
era 
a 
coisa 
mais 
prxima 
da 
permanncia, 
enquanto 
eu 
era 
temporrio. 
Essa 
era 
a 
minha 
vantagem. 
O 
desafiador 
da 
morte 
tinha 
se 
metido 
num 
canto 
apertado, 
e 
eu 
estava 
livre. 


Examinei-a 
atentamente. 
Ela 
parecia 
estar 
entre 
trinta 
e 
cinco 
e 
quarenta 
anos 
de 
idade. 
Era 
uma 
mulher 
morena, 
completamente 
ndia; 
quase 
robusta, 
mas 
no 
gorda 
nem 
mesmo 
pesada. 
Eu 
podia 
ver 
que 
a 
pele 
de 
seus 
braos 
e 
de 
suas 
mos 
era 
lisa; 
os 
msculos 
firmes 
e 
jovens. 
Avaliei 
que 
tivesse 
um 
metro 
e 
sessenta 
e 
sete, 
um 
metro 
e 
setenta, 
de 
altura. 
Usava 
um 
vestido 
comprido, 
um 
xale 
preto 
e 
guaraches. 
Em 
sua 
posio 
ajoelhada 
eu 
podia 
ver 
os 
calcanhares 
lisos 
e 
parte 
das 
pernas 
fortes. 
A 
cintura 
era 
fina. 
Tinha 
seios 
grandes 
que 
no 
podia 
ou 
no 
queria 
esconder 
sob 
o 
xale. 
O 


#
cabelo 
era 
negrssimo 
e 
preso 
numa 
trana 
longa. 
No 
era 
bonita, 
tampouco 
sem 
graa. 
Suas 
feies 
no 
eram 
nem 
um 
pouco 
notveis. 
Eu 
sentia 
que 
ela 
no 
atrairia 
a 
ateno 
de 
ningum, 
exceto 
pelos 
olhos, 
que 
mantinha 
baixos, 
ocultos 
sob 
os 
clios. 
Seus 
olhos 
eram 
magnficos, 
claros, 
pacficos. 
Afora 
os 
de 
Dom 
Juan, 
eu 
nunca 
vira 
olhos 
mais 
brilhantes, 
mais 
vivos. 


Seus 
olhos 
me 
deixaram 
completamente 
 
vontade. 
Olhos 
como 
aqueles 
no 
podiam 
ser 
malvolos. 
Tive 
uma 
onda 
de 
confiana 
e 
otimismo, 
e 
o 
sentimento 
de 
que 
a 
conhecera 
por 
toda 
a 
vida. 
Mas 
tambm 
estava 
muito 
cnscio 
de 
outra 
coisa: 
minha 
instabilidade 
emocional. 
Ela 
sempre 
me 
assolara 
no 
mundo 
de 
Dom 
Juan, 
forando-me 
a 
agir 
como 
um 
ioi. 
Tinha 
momentos 
de 
total 
confiana 
e 
discernimento 
seguidos 
por 
dvidas 
e 
desconfianas 
abjetas. 
Esse 
caso 
no 
iria 
ser 
diferente. 
Minha 
mente 
suspeitosa 
veio 
de 
sbito 
com 
o 
aviso 
de 
que 
eu 
estava 
caindo 
no 
feitio 
da 
mulher. 


 
Voc 
aprendeu 
espanhol 
tarde 
na 
vida, 
no 
foi? 
 
falei 
s 
para 
sair 
de 
meus 
pensamentos 
e 
evitar 
que 
ela 
os 
lesse. 
 
Somente 
ontem 
 
ela 
respondeu 
e 
soltou 
um 
riso 
cristalino. 
Seus 
dentes 
pequenos, 
estranhamente 
brancos, 
brilhavam 
como 
uma 
fieira 
de 
prolas. 
As 
pessoas 
se 
viraram 
para 
nos 
olhar. 
Baixei 
a 
cabea 
como 
se 
estivesse 
rezando 
profundamente. 
A 
mulher 
chegou 
mais 
perto 
de 
mim. 


 
Existe 
algum 
lugar 
onde 
possamos 
conversar? 
 
perguntei. 
 
Estamos 
conversando 
aqui 
 
ela 
disse. 
 
Conversei 
aqui 
com 
todos 
os 
naguais 
de 
sua 
linha. 
Se 
voc 
sussurrar 
ningum 
vai 
saber 
que 
estamos 
conversando. 
Eu 
estava 
morrendo 
de 
vontade 
de 
perguntar 
sobre 
sua 
idade. 
Mas 
uma 
lembrana 
ajuizada 
veio 
me 
salvar. 
Lembrei-me 
de 
um 
amigo 
que, 
durante 
anos, 
vinha 
colocando 
todo 
tipo 
de 
armadilha 
para 
que 
eu 
confessasse 
minha 
idade. 
Eu 
detestava 
seus 
interesses 
mesquinhos, 
e 
agora 
estava 
quase 
entrando 
no 
mesmo 
comportamento. 
Abandonei-o 
instantaneamente. 


#
Quis 
falar 
com 
ela 
sobre 
isso, 
s 
para 
manter 
a 
conversa. 
Ela 
parecia 
saber 
o 
que 
se 
passava 
em 
meu 
pensamento. 
Balanou 
meu 
brao 
num 
gesto 
amigvel, 
como 
se 
dissesse 
que 
tnhamos 
compartilhado 
um 
pensamento. 


 
Em 
vez 
de 
me 
dar 
um 
dom, 
voc 
pode 
me 
contar 
uma 
coisa 
que 
me 
ajude 
em 
meu 
caminho? 
 
perguntei. 
Ela 
balanou 
a 
cabea 
negativamente. 


 
No. 
Ns 
somos 
extremamente 
diferentes. 
Mais 
diferentes 
do 
que 
eu 
acreditava 
ser 
possvel. 
Levantou-se 
e 
deslizou 
de 
lado 
para 
fora 
do 
banco. 
Ajoelhou-se 
destramente 
ao 
passar 
diante 
do 
altar 
principal. 
Persignou-se 
e 
fez 
um 
sinal 
para 
que 
eu 
a 
acompanhasse 
at 
um 
grande 
altar 
lateral, 
 
nossa 
esquerda. 


Ajoelhamo-nos 
diante 
de 
um 
crucifixo 
de 
tamanho 
real. 
Antes 
de 
eu 
ter 
tempo 
de 
dizer 
qualquer 
coisa, 
ela 
falou: 


 
Eu 
vivo 
h 
muito, 
muito 
tempo. 
O 
motivo 
de 
ter 
essa 
vida 
to 
longa 
 
que 
controlo 
os 
deslocamentos 
e 
os 
movimentos 
de 
meu 
ponto 
de 
aglutinao. 
Alm 
disso 
no 
fico 
aqui 
em 
seu 
mundo 
por 
muito 
tempo. 
Preciso 
economizar 
a 
energia 
que 
consigo 
com 
os 
naguais 
de 
sua 
linha. 
 
Como 
 
existir 
em 
outros 
mundos? 
 
perguntei. 
 
 
como 
em 
seu 
sonhar, 
s 
que 
tenho 
mais 
mobilidade. 
E 
posso 
ficar 
por 
mais 
tempo 
onde 
quiser. 
Do 
mesmo 
modo 
que 
voc 
poderia 
ficar 
o 
quanto 
quisesse 
em 
qualquer 
um 
de 
seus 
sonhos. 
 
Quando 
voc 
est 
neste 
mundo, 
fica 
presa 
somente 
a 
esta 
rea? 
 
No. 
Eu 
vou 
aonde 
quero. 
 
E 
sempre 
vai 
como 
uma 
mulher? 
 
Eu 
j 
fui 
mulher 
por 
mais 
tempo 
do 
que 
homem. 
Definitivamente, 
eu 
gosto 
muito 
mais. 
Acho 
que 
quase 
me 
esqueci 
de 
como 
 
ser 
homem. 
Sou 
completamente 
mulher! 
Pegou 
minha 
mo 
e 
me 
fez 
tocar 
entre 
suas 
pernas. 
Meu 
corao 
batia 
na 
garganta. 
Era 
realmente 
uma 
mulher. 


#
 
Eu 
simplesmente 
no 
posso 
pegar 
sua 
energia 
 
disse 
ela 
mudando 
de 
assunto. 
 
Precisamos 
fazer 
outro 
tipo 
de 
acordo. 
Nesse 
momento 
outra 
onda 
de 
raciocnio 
mundano 
me 
assolou. 
Quis 
perguntar 
onde 
ela 
vivia 
quando 
estava 
neste 
mundo. 
No 
precisei 
verbalizar 
a 
pergunta 
para 
obter 
resposta. 


 
Voc 
 
muito, 
muito 
mais 
jovem 
do 
que 
eu 
 
falou. 
 
E 
j 
tem 
dificuldade 
para 
contar 
s 
pessoas 
onde 
vive. 
E 
mesmo 
que 
as 
levasse 
 
casa 
que 
voc 
possui 
ou 
pela 
qual 
paga 
aluguel, 
isso 
no 
 
onde 
voc 
vive. 
 
H 
tantas 
coisas 
que 
eu 
queria 
lhe 
perguntar, 
mas 
s 
consigo 
ter 
pensamentos 
estpidos 
 
falei. 
Eu 
no 
apenas 
tinha 
pensamentos 
estpidos, 
mas 
me 
encontrava 
num 
estado 
de 
tamanha 
sugestionabilidade 
que 
nem 
bem 
ela 
terminou 
de 
dizer 
que 
eu 
sabia 
o 
que 
ela 
sabia, 
e 
senti 
que 
sabia 
tudo, 
e 
que 
no 
precisava 
fazer 
mais 
nenhuma 
pergunta. 
Rindo, 
falei 
a 
ela 
de 
minha 
credulidade. 


 
Voc 
no 
 
crdulo 
 
ela 
me 
assegurou 
com 
autoridade. 
 
Voc 
sabe 
tudo 
porque 
agora 
est 
totalmente 
na 
segunda 
ateno. 
Olhe 
ao 
redor! 


Por 
um 
instante 
no 
pude 
focalizar 
a 
vista. 
Era 
exatamente 
como 
se 
estivesse 
com 
gua 
nos 
olhos. 
Quando 
organizei 
a 
viso, 
percebi 
que 
havia 
ocorrido 
algo 
portentoso. 
A 
igreja 
era 
diferente, 
mais 
escura, 
mais 
soturna 
e, 
de 
algum 
modo, 
mais 
dura. 
Levantei-
me 
e 
dei 
dois 
passos 
em 
direo 
 
nave. 
O 
que 
me 
atraiu 
os 
olhos 
foram 
os 
bancos; 
no 
eram 
feitos 
de 
tbuas, 
mas 
de 
troncos 
finos 
e 
retorcidos. 
Eram 
bancos 
feitos 
a 
mo, 
colocados 
dentro 
de 
um 
magnfico 
edifcio 
de 
pedras. 
Tambm 
a 
luz 
da 
igreja 
era 
diferente. 
Era 
amarelada, 
e 
seu 
brilho 
fraco 
lanava 
as 
sombras 
mais 
negras 
que 
eu 
j 
vira. 
Vinha 
das 
velas 
dos 
muitos 
altares 
da 
igreja. 
Tive 
uma 
noo 
de 
como 
a 
luz 
das 
velas 
se 
adequava 
bem 
s 
paredes 
macias 
de 
pedra 
e 
aos 
ornamentos 
de 
uma 
igreja 
colonial. 


A 
mulher 
me 
encarava, 
e 
o 
brilho 
de 
seus 
olhos 
era 
ainda 
mais 
notvel. 
Eu 
soube 
ento 
que 
estava 
sonhando, 
e 
que 
ela 
dirigia 
o 


#
sonho. 
Mas 
no 
tive 
medo 
dela 
nem 
do 
sonho. 


Afastei-me 
do 
altar 
lateral 
e 
olhei 
de 
novo 
para 
a 
nave 
da 
igreja. 
Havia 
pessoas 
ajoelhadas 
em 
orao. 
Muitas 
pessoas; 
estranhamente 
pequenas, 
morenas, 
duras. 
Pude 
ver 
suas 
cabeas 
baixas 
ocupando 
todo 
o 
espao, 
desde 
o 
altar 
principal. 
As 
de 
perto 
me 
olhavam, 
obviamente, 
com 
ar 
desaprovador. 
Eu 
estava 
boquiaberto 
com 
elas 
e 
com 
todo 
o 
resto. 
Mas 
no 
conseguia 
ouvir 
qualquer 
rudo. 
As 
pessoas 
se 
movimentavam, 
mas 
no 
havia 
nenhum 
som. 


 
No 
consigo 
ouvir 
nada 
 
falei 
para 
a 
mulher; 
e 
minha 
voz 
soou, 
ecoando 
como 
se 
a 
igreja 
fosse 
uma 
concha 
vazia. 
Praticamente 
todas 
as 
cabeas 
viraram 
em 
minha 
direo. 
A 
mulher 
me 
puxou 
de 
volta 
para 
a 
escurido 
do 
altar 
lateral. 
 
Voc 
ouvir, 
se 
no 
escutar 
com 
os 
ouvidos 
 
disse 
ela. 
 
Oua 
com 
sua 
ateno 
sonhadora. 
Parecia 
que 
eu 
s 
precisava 
de 
sua 
insinuao. 
Fui 
subitamente 
envolto 
pelo 
zumbido 
de 
uma 
multido 
rezando. 
Num 
instante 
me 
senti 
arrebatado. 
Descobri 
que 
aquele 
era 
o 
som 
mais 
extico 
que 
eu 
j 
ouvira. 
Quis 
falar 
sobre 
isso 
com 
a 
mulher, 
mas 
ela 
no 
estava 
ao 
meu 
lado. 
Procurei-a. 
Ela 
praticamente 
chegara 
 
porta. 
Virou-se 
sinalizando 
para 
que 
eu 
a 
seguisse. 
Alcancei-a 
no 
trio. 
As 
luzes 
da 
rua 
haviam 
desaparecido. 
A 
nica 
iluminao 
era 
a 
luz 
da 
lua. 
A 
fachada 
da 
igreja 
tambm 
era 
diferente; 
inacabada. 
Blocos 
quadrados 
de 
pedra 
calcria 
estavam 
espalhados. 
No 
havia 
casas 
ou 
prdios 
em 
volta 
da 
igreja. 
 
luz 
da 
lua 
a 
cena 
era 
fantasmagrica. 


 
Aonde 
vamos? 
 
perguntei. 
 
A 
lugar 
nenhum. 
Simplesmente 
viemos 
aqui 
para 
ter 
mais 
espao, 
mais 
privacidade. 
Aqui 
podemos 
falar 
at 
cansar. 
Pediu 
que 
eu 
sentasse 
num 
pedao 
de 
pedra 
calcria 
meio 
cinzelada. 


 
A 
segunda 
ateno 
tem 
tesouros 
infinitos 
para 
ser 
descobertos 
 
comeou. 
 
O 
posicionamento 
inicial 
em 
que 
o 
sonhador 
coloca 
seu 
corpo 
 
de 
importncia 
vital. 
E 
exatamente 
#
nisso 
est 
o 
segredo 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
que 
j 
eram 
antigos 
na 
minha 
poca. 
Pense 
nisso. 


Ela 
sentou-se 
to 
perto 
que 
senti 
o 
calor 
de 
seu 
corpo. 
Colocou 
um 
brao 
ao 
redor 
de 
meu 
ombro 
e 
me 
apertou 
contra 
o 
peito. 
Seu 
corpo 
tinha 
uma 
fragrncia 
extremamente 
peculiar; 
lembrava-me 
rvores 
ou 
artemsia. 
No 
que 
ela 
estivesse 
usando 
perfume; 
todo 
o 
corpo 
parecia 
exalar 
aquele 
odor 
caracterstico 
de 
florestas 
de 
pinheiros. 
Alm 
disso 
o 
calor 
de 
seu 
corpo 
no 
era 
como 
o 
meu 
ou 
como 
o 
de 
qualquer 
outra 
pessoa 
que 
eu 
conhecesse. 
Era 
um 
calor 
suave, 
mentolado, 
at 
mesmo 
equilibrado. 
O 
pensamento 
que 
me 
veio 
foi 
que 
seu 
calor 
pressionaria 
continuamente, 
mas 
sem 
pressa. 


Ento 
ela 
comeou 
a 
sussurrar 
em 
meu 
ouvido 
esquerdo. 
Disse 
que 
os 
dons 
que 
proporcionara 
aos 
naguais 
de 
minha 
linhagem 
tinham 
a 
ver 
com 
o 
que 
os 
feiticeiros 
antigos 
chamavam 
de 
posies 
gmeas. 
Isto 
, 
a 
posio 
inicial 
em 
que 
o 
sonhador 
coloca 
o 
corpo 
para 
comear 
a 
sonhar 
 
espelhada 
pela 
posio 
em 
que 
ele 
coloca 
o 
corpo 
energtico, 
nos 
sonhos, 
para 
fixar 
seu 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
qualquer 
local 
de 
sua 
escolha. 
As 
duas 
posies 
formam 
uma 
unidade, 
disse 
ela, 
e 
os 
feiticeiros 
antigos 
levaram 
milhares 
de 
anos 
para 
descobrir 
o 
relacionamento 
perfeito 
entre 
duas 
posies 
quaisquer. 
Comentou, 
com 
um 
risinho, 
que 
os 
feiticeiros 
de 
hoje 
em 
dia 
nunca 
tero 
tempo 
nem 
disposio 
para 
fazer 
todo 
esse 
trabalho, 
e 
que 
os 
homens 
e 
as 
mulheres 
de 
minha 
linha 
eram 
felizardos 
por 
terem-na 
para 
dar 
esses 
dons. 
Seu 
riso 
teve 
um 
som 
notvel, 
cristalino. 


Eu 
no 
entendera 
direito 
sua 
explicao 
sobre 
as 
posies 
gmeas. 
Falei, 
cheio 
de 
audcia, 
que 
no 
queria 
praticar 
esse 
tipo 
de 
coisa, 
mas 
apenas 
saber 
delas 
como 
possibilidades 
intelectuais. 


 
O 
que, 
exatamente, 
voc 
quer 
saber? 
 
ela 
perguntou 
em 
voz 
suave. 
 
Explique 
o 
que 
quer 
dizer 
com 
posies 
gmeas, 
ou 
com 
a 
posio 
inicial 
em 
que 
o 
sonhador 
coloca 
seu 
corpo 
para 
comear 
a 
sonhar. 
#
 
Como 
voc 
se 
deita 
para 
comear 
seu 
sonhar? 
 
De 
qualquer 
jeito. 
No 
tenho 
um 
padro. 
Dom 
Juan 
nunca 
enfatizou 
esse 
ponto. 
Ela 
mudou 
de 
posio. 
Sentou-se 
 
minha 
direita 
e 
sussurrou 
em 
meu 
outro 
ouvido 
que, 
de 
acordo 
com 
o 
que 
ela 
sabia, 
a 
posio 
em 
que 
colocamos 
o 
corpo 
 
de 
importncia 
fundamental. 
Props 
um 
meio 
muito 
fcil 
de 
testar 
isso 
realizando 
um 
exerccio 
extremamente 
delicado, 
porm 
simples. 


 
Comece 
o 
seu 
sonhar 
deitando 
sobre 
o 
lado 
direito, 
com 
os 
joelhos 
um 
pouco 
dobrados. 
A 
disciplina 
 
manter 
essa 
posio 
e 
cair 
no 
sono 
estando 
nela. 
No 
sonhar, 
ento, 
o 
exerccio 
 
sonhar 
que 
est 
deitado 
exatamente 
na 
mesma 
posio 
e 
cair 
no 
sono 
de 
novo. 
 
O 
que 
isso 
faz? 
 
perguntei. 
 
Faz 
o 
ponto 
de 
aglutinao 
ficar 
fixo, 
e 
estou 
querendo 
dizer 
realmente 
fixo, 
em 
qualquer 
posicionamento 
em 
que 
ele 
estiver 
no 
instante 
em 
que 
voc 
cair 
no 
sono 
pela 
segunda 
vez. 
 
Quais 
so 
os 
resultados 
desse 
exerccio? 
 
A 
percepo 
total. 
Tenho 
certeza 
de 
que 
seus 
professores 
j 
lhe 
disseram 
que 
meus 
presentes 
so 
dons 
de 
percepo 
total, 
no 
disseram? 
 
Disseram. 
Mas 
acho 
que, 
para 
mim, 
no 
est 
claro 
o 
que 
seja 
a 
percepo 
total. 
Ela 
me 
ignorou 
e 
prosseguiu, 
dizendo 
que 
as 
quatro 
variaes 
do 
exerccio 
eram: 
cair 
no 
sono 
deitado 
sobre 
o 
lado 
direito, 
sobre 
o 
esquerdo, 
as 
costas 
e 
o 
estmago. 
E, 
no 
sonhar, 
o 
exerccio 
era 
sonhar 
que 
estava 
caindo 
no 
sono 
uma 
segunda 
vez 
na 
mesma 
posio 
em 
que 
o 
sonhar 
comeara. 
Prometeu 
resultados 
extraordinrios 
que, 
segundo 
ela, 
no 
se 
poderia 
prever. 


Mudou 
abruptamente 
de 
assunto 
e 
me 
perguntou: 


 
Qual 
 
o 
dom 
que 
voc 
deseja? 
 
Nada 
de 
dom 
para 
mim. 
J 
falei. 
 
Eu 
insisto. 
Eu 
preciso 
oferecer 
um 
dom 
e 
voc 
precisa 
aceitar. 
Esse 
 
o 
nosso 
acordo. 
#
 
Nosso 
acordo 
 
eu 
lhe 
dar 
energia. 
Ento 
pegue. 
Isso 
 
por 
minha 
conta. 
Meu 
presente 
para 
voc. 
A 
mulher 
pareceu 
aturdida. 
E 
persisti 
dizendo 
que 
no 
tinha 
problema 
que 
ela 
tomasse 
minha 
energia. 
At 
mesmo 
disse 
que 
gostava 
imensamente 
dela. 
Naturalmente 
estava 
falando 
a 
srio. 
Havia 
nela 
alguma 
coisa 
extremamente 
triste 
e, 
ao 
mesmo 
tempo, 
muito 
atraente. 


 
Vamos 
voltar 
para 
a 
igreja 
 
ela 
murmurou. 
 
Se 
quer 
de 
fato 
me 
dar 
um 
presente 
 
falei 
 
me 
leve 
para 
um 
passeio 
nesta 
cidade, 
 
luz 
da 
lua. 
Ela 
balanou 
a 
cabea 
afirmativamente. 


 
Desde 
que 
voc 
no 
diga 
nem 
uma 
palavra. 
 
Por 
que 
no? 
 
perguntei, 
mas 
j 
sabia 
a 
resposta. 
 
Porque 
estamos 
sonhando. 
Isso 
far 
voc 
entrar 
mais 
fundo 
em 
meu 
sonho. 
Explicou 
que, 
enquanto 
ficssemos 
na 
igreja, 
eu 
teria 
energia 
suficiente 
para 
pensar 
e 
conversar, 
mas 
que 
alm 
das 
fronteiras 
da 
igreja 
era 
outra 
situao. 


 
Por 
que 
isso? 
 
perguntei 
ousado. 
Num 
tom 
extremamente 
srio, 
que 
no 
somente 
aumentou 
sua 
estranheza 
mas 
me 
aterrorizou, 
a 
mulher 
disse: 


 
Porque 
no 
existe 
l 
fora. 
Isto 
 
um 
sonho. 
Voc 
est 
no 
quarto 
porto 
do 
sonhar, 
sonhando 
meu 
sonho. 
Falou 
que 
sua 
arte 
era 
ser 
capaz 
de 
projetar 
seu 
intento, 
e 
que 
tudo 
que 
eu 
via 
ao 
redor 
era 
seu 
intento. 
Disse 
num 
sussurro 
que 
a 
igreja 
e 
a 
cidade 
eram 
resultados 
de 
seu 
intento; 
elas 
no 
existiam, 
mas 
existiam. 
Acrescentou, 
olhando 
em 
meus 
olhos, 
que 
esse 
 
um 
dos 
mistrios 
de 
intentar 
na 
segunda 
ateno 
as 
posies 
gmeas 
do 
sonhar. 
Pode 
ser 
feito, 
mas 
no 
pode 
ser 
explicado 
ou 
compreendido. 


Contou 
ento 
que 
veio 
de 
uma 
linha 
de 
feiticeiros 
que 
sabiam 
como 
se 
movimentar 
na 
segunda 
ateno 
projetando 
seu 
intento. 
Os 
feiticeiros 
de 
sua 
linha 
praticavam 
a 
arte 
de 
projetar 
seus 
pensamentos 
no 
sonhar, 
com 
o 
objetivo 
de 
realizar 
a 
reproduo 
fiel 


#
de 
qualquer 
objeto, 
estrutura, 
paisagem 
ou 
cenrio 
de 
sua 
escolha. 


Disse 
que 
os 
feiticeiros 
de 
sua 
linha 
costumavam 
comear 
olhando 
para 
um 
objeto 
simples, 
memorizando 
cada 
detalhe. 
Em 
seguida 
fechavam 
os 
olhos, 
visualizavam 
o 
objeto 
e 
corrigiam 
sua 
visualizao 
comparando 
com 
o 
objeto 
real, 
at 
que 
podiam 
v-lo 
em 
sua 
totalidade, 
com 
os 
olhos 
fechados. 


A 
etapa 
seguinte 
em 
seu 
esquema 
de 
desenvolvimento 
era 
sonhar 
com 
o 
objeto 
e 
criar 
no 
sonho, 
do 
ponto 
de 
vista 
de 
sua 
percepo, 
uma 
materializao 
total 
do 
objeto. 
Esse 
ato, 
segundo 
a 
mulher, 
era 
chamado 
de 
primeiro 
passo 
para 
a 
percepo 
total. 


A 
partir 
de 
um 
objeto 
simples, 
aqueles 
feiticeiros 
passavam 
a 
usar 
itens 
cada 
vez 
mais 
complexos. 
Seu 
objetivo 
final 
era 
todos 
juntos 
visualizarem 
um 
mundo 
inteiro; 
em 
seguida 
sonhar 
esse 
mundo 
e, 
assim, 
recriar 
um 
lugar 
totalmente 
verdico 
onde 
poderiam 
existir. 


 
Quando 
algum 
dos 
feiticeiros 
de 
minha 
linha 
conseguia 
fazer 
isso 
 
prosseguiu 
a 
mulher 
 
ele 
podia 
colocar 
qualquer 
pessoa 
em 
seu 
intento, 
em 
seu 
sonho. 
 
isso 
que 
estou 
fazendo 
agora 
com 
voc, 
e 
o 
que 
fiz 
com 
todos 
os 
naguais 
de 
sua 
linha. 
Ela 
deu 
um 
risinho. 


 
 
melhor 
acreditar. 
Populaes 
inteiras 
desapareceram, 
sonhando 
assim. 
 
por 
isso 
que 
eu 
disse 
que 
esta 
igreja 
e 
esta 
cidade 
so 
um 
dos 
mistrios 
de 
intentar 
na 
segunda 
ateno. 
 
Disse 
que 
populaes 
inteiras 
desapareceram 
assim. 
Como 
 
possvel? 
 
Eles 
visualizavam 
e 
em 
seguida 
recriavam 
nos 
sonhos 
o 
mesmo 
cenrio 
 
ela 
respondeu. 
 
Voc 
nunca 
visualizou 
nada, 
de 
modo 
que 
para 
voc 
 
muito 
perigoso 
entrar 
em 
meu 
sonho. 
Avisou 
que 
 
perigoso 
atravessar 
o 
quarto 
porto 
e 
viajar 
para 
lugares 
que 
s 
existem 
no 
intento 
de 
outra 
pessoa, 
j 
que 
cada 
item 
de 
um 
sonho 
desses 
 
um 
item 
absolutamente 
pessoal. 


 
Ainda 
quer 
ir? 
 
perguntou. 
Falei 
que 
sim. 
E 
ela 
me 
contou 
mais 
sobre 
as 
posies 
gmeas. 
#
A 
essncia 
de 
sua 
explicao 
foi 
a 
seguinte: 
se 
eu 
estivesse, 
por 
exemplo, 
sonhando 
com 
minha 
cidade 
natal 
e 
se 
meu 
sonho 
tivesse 
comeado 
quando 
eu 
estava 
deitado 
sobre 
o 
lado 
direito, 
eu 
poderia 
facilmente 
ficar 
na 
cidade 
do 
sonho, 
se 
deitasse 
do 
lado 
direito, 
naquele 
sonho, 
e 
sonhasse 
que 
havia 
cado 
no 
sono. 
O 
segundo 
sonho 
no 
seria 
necessariamente 
com 
minha 
cidade 
natal, 
mas 
seria 


o 
sonho 
mais 
concreto 
que 
se 
possa 
imaginar. 
Ela 
acreditava 
que, 
em 
meus 
treinamentos 
de 
sonhar, 
eu 
devia 
ter 
tido 
incontveis 
sonhos 
de 
grande 
concretude, 
mas 
assegurou-me 
que 
todos 
eles 
eram 
forosamente 
falsos. 
Porque 
o 
nico 
meio 
de 
ter 
controle 
absoluto 
sobre 
os 
sonhos 
era 
usando 
a 
tcnica 
das 
posies 
gmeas. 


 
E 
no 
me 
pergunte 
por 
qu 
 
acrescentou. 
 
Simplesmente 
 
assim. 
Como 
tudo. 
Fez 
com 
que 
eu 
me 
levantasse, 
e 
de 
novo 
me 
alertou 
para 
no 
falar 
nem 
me 
afastar 
dela. 
Tomou 
gentilmente 
minha 
mo, 
como 
se 
eu 
fosse 
uma 
criana, 
e 
foi 
na 
direo 
de 
um 
agrupamento 
de 
silhuetas 
escuras 
de 
casas. 
Estvamos 
numa 
rua 
calada 
com 
pedras. 
Pedras 
de 
rio 
que 
haviam 
sido 
socadas 
no 
cho. 
A 
presso 
desigual 
criara 
superfcies 
desiguais. 
Parecia 
que 
quem 
fizera 
o 
calamento 
havia 
seguido 
os 
contornos 
do 
solo 
sem 
se 
preocupar 
em 
nivel-lo. 


As 
casas 
eram 
grandes, 
caiadas 
de 
branco. 
Construes 
de 
um 
andar, 
empoeiradas 
e 
cobertas 
de 
telhas. 
Havia 
pessoas 
andando 
em 
silncio. 
Sombras 
escuras 
dentro 
das 
casas 
davam 
a 
sensao 
de 
vizinhos 
curiosos 
porm 
assustados 
fofocando 
por 
trs 
das 
portas. 
Eu 
podia 
ver 
tambm 
as 
montanhas 
baixas 
atrs 
da 
cidade. 


Contrariamente 
ao 
que 
acontecera 
o 
tempo 
todo 
em 
meu 
sonhar, 
meus 
processos 
mentais 
no 
estavam 
alterados. 
Os 
pensamentos 
no 
eram 
empurrados 
pela 
fora 
dos 
eventos 
do 
sonho. 
E 
os 
clculos 
mentais 
diziam 
que 
eu 
me 
encontrava 
na 
verso 
de 
sonho 
da 
mesma 
cidade 
onde 
Dom 
Juan 
vivia, 
mas 
numa 
poca 
diferente. 
Minha 
curiosidade 
estava 
no 
auge. 
Eu 
me 
encontrava 
de 


#
fato 
com 
o 
desafiador 
da 
morte, 
dentro 
de 
seu 
sonho. 
Quis 
observar 
tudo, 
ficar 
superalerta. 
Queria 
testar 
tudo 
vendo 
energia. 
Fiquei 
embaraado, 
mas 
a 
mulher 
apertou 
minha 
mo 
como 
um 
sinal 
de 
que 
concordava. 


Ainda 
me 
sentindo 
absurdamente 
tmido, 
verbalizei 
em 
voz 
alta 
meu 
intento 
de 
ver. 
Em 
meus 
exerccios 
de 
sonhar 
eu 
vinha 
usando 
sempre 
a 
frase: 
Quero 
ver 
energia. 
Algumas 
vezes 
eu 
precisava 
repetir 
e 
repetir 
at 
obter 
resultado. 
Dessa 
vez, 
na 
cidade 
de 
sonho 
da 
mulher, 
assim 
que 
comecei 
a 
repetir 
do 
modo 
usual 
ela 
comeou 
a 
rir. 
Seu 
riso 
era 
como 
o 
de 
Dom 
Juan: 
um 
riso 
profundo 
e 
abandonado, 
de 
sacudir 
a 
barriga. 


 
O 
que 
 
to 
engraado? 
 
perguntei 
meio 
contagiado 
por 
sua 
alegria. 
 
Juan 
Matus 
no 
gosta 
dos 
feiticeiros 
antigos 
em 
geral, 
e 
de 
mim 
em 
particular 
 
ela 
disse 
entre 
jorros 
de 
riso. 
 
Tudo 
que 
precisamos 
fazer, 
para 
ver 
nos 
sonhos, 
 
apontar 
o 
dedo 
mindinho 
para 
o 
item 
que 
desejamos 
ver. 
Fazer 
voc 
gritar 
assim 
em 
meu 
sonho 
 
o 
modo 
dele 
me 
mandar 
sua 
mensagem. 
 
preciso 
admitir 
que 
ele 
 
realmente 
esperto. 
 
Parou 
por 
um 
instante 
e 
em 
seguida 
disse 
em 
tom 
de 
revelao: 
 
Claro 
que 
gritar 
feito 
um 
idiota 
tambm 
funciona. 
O 
senso 
de 
humor 
dos 
feiticeiros 
me 
espantava 
alm 
da 
conta. 
Ela 
parecia 
incapaz 
de 
continuar 
conversando, 
de 
tanto 
que 
ria. 
Senti-me 
estpido. 
Quando 
ela 
se 
acalmou 
e 
ficou 
de 
novo 
perfeitamente 
controlada, 
disse 
educadamente 
que 
eu 
poderia 
apontar 
para 
qualquer 
coisa 
que 
quisesse 
em 
seu 
sonho, 
inclusive 
para 
ela 
mesma. 


Apontei 
com 
o 
dedo 
mnimo 
da 
mo 
esquerda 
para 
uma 
casa. 
No 
havia 
energia 
nela. 
Era 
como 
qualquer 
outro 
item 
de 
um 
sonho 
comum. 
Apontei 
para 
tudo 
ao 
redor, 
com 
o 
mesmo 
resultado. 


 
Aponte 
para 
mim 
 
ela 
insistiu. 
 
Voc 
deve 
confirmar 
que 
este 
 
o 
mtodo 
que 
os 
sonhadores 
usam 
para 
ver. 
Ela 
estava 
absolutamente 
certa. 
Aquele 
era 
o 
mtodo. 
No 


#
instante 
em 
que 
apontei 
o 
dedo 
mnimo 
ela 
virou 
uma 
bolha 
de 
energia. 
Uma 
bolha 
de 
energia 
muito 
peculiar, 
devo 
dizer. 
Sua 
forma 
energtica 
era 
exatamente 
como 
Dom 
Juan 
descrevera: 
parecia 
uma 
enorme 
concha 
do 
mar, 
enrolada 
para 
dentro 
ao 
longo 
de 
uma 
fenda 
que 
corria 
por 
toda 
a 
sua 
extenso. 


 
Sou 
o 
nico 
ser 
gerador 
de 
energia 
neste 
sonho 
 
falou. 
 
Ento, 
a 
coisa 
certa 
para 
voc 
fazer 
 
simplesmente 
observar 
tudo. 


Naquele 
momento 
fui 
golpeado, 
pela 
primeira 
vez, 
pela 
imensido 
da 
piada 
de 
Dom 
Juan. 
Ele 
me 
fizera 
aprender 
a 
gritar 
no 
sonho 
de 
modo 
que 
eu 
pudesse 
gritar 
na 
privacidade 
do 
sonho 
do 
desafiador 
da 
morte. 
Achei 
esse 
toque 
to 
engraado 
que 
o 
riso 
saiu 
de 
mim 
em 
ondas 
sufocantes. 


 
Vamos 
continuar 
o 
passeio 
 
a 
mulher 
disse 
em 
voz 
baixa 
quando 
meu 
riso 
se 
esgotou. 
S 
havia 
duas 
ruas, 
que 
se 
cruzavam. 
Cada 
uma 
tinha 
trs 
quarteires 
de 
casas. 
Andamos 
toda 
a 
extenso 
das 
duas 
ruas, 
no 
uma, 
mas 
quatro 
vezes. 
Olhei 
para 
tudo, 
e 
com 
minha 
ateno 
sonhadora 
prestei 
ateno 
a 
todo 
tipo 
de 
rudo. 
Havia 
muito 
pouco, 
apenas 
ces 
latindo 
a 
distncia, 
ou 
pessoas 
falando 
em 
sussurros 
enquanto 
passvamos. 


Os 
ces 
latindo 
me 
provocaram 
uma 
saudade 
estranha 
e 
profunda. 
Precisei 
parar 
de 
andar. 
Busquei 
alvio 
encostando 
o 
ombro 
numa 
parede. 
O 
contato 
foi 
chocante. 
No 
porque 
a 
parede 
fosse 
incomum, 
mas 
porque 
aquilo 
em 
que 
eu 
me 
encostava 
era 
uma 
parede 
slida, 
como 
qualquer 
outra 
parede 
que 
eu 
j 
tocara. 
Senti-a 
com 
a 
mo 
que 
estava 
livre. 
Corri 
os 
dedos 
pela 
superfcie 
spera. 
Era 
mesmo 
uma 
parede. 


Sua 
realidade 
atordoante 
ps 
um 
fim 
imediato 
em 
minha 
saudade 
e 
renovou 
o 
interesse 
em 
observar 
tudo. 
Eu 
estava 
procurando, 
especificamente, 
caractersticas 
que 
podiam 
estar 
relacionadas 
com 
a 
cidade 
de 
meus 
dias. 
Entretanto, 
no 
importando 


o 
quo 
atentamente 
eu 
observasse, 
no 
obtinha 
qualquer 
sucesso. 
Havia 
uma 
plaza 
naquela 
cidade, 
mas 
ficava 
na 
frente 
da 
igreja, 
#
diante 
do 
trio. 


 
luz 
da 
lua, 
as 
montanhas 
ao 
redor 
da 
cidade 
eram 
claramente 
visveis 
e 
quase 
reconhecveis. 
Tentei 
me 
orientar, 
observando 
a 
lua 
e 
as 
estrelas, 
como 
se 
estivesse 
na 
realidade 
consensual 
da 
vida 
cotidiana. 
Era 
uma 
lua 
minguante, 
talvez 
um 
dia 
depois 
da 
crescente. 
Estava 
bem 
alta 
acima 
do 
horizonte. 
Pude 
ver 
rion 
 
direita 
da 
lua; 
suas 
duas 
estrelas 
principais, 
Betelgeuse 
e 
Rigel, 
formavam 
uma 
horizontal 
com 
a 
lua. 
Avaliei 
que 
fosse 
incio 
de 
dezembro. 
Meu 
tempo 
era 
maio. 
Em 
maio, 
naquela 
poca, 
rion 
no 
estava 
 
vista. 
Olhei 
para 
a 
lua 
o 
quanto 
pude. 
Nada 
mudou. 
At 
onde 
eu 
poderia 
dizer, 
era 
a 
lua 
mesmo. 
A 
disparidade 
de 
tempo 
me 
deixou 
muito 
agitado. 


Enquanto 
examinava 
o 
horizonte 
sul, 
pensei 
que 
podia 
distinguir 
o 
mesmo 
pico 
em 
forma 
de 
sino 
que 
era 
visvel 
do 
quintal 
de 
Dom 
Juan. 
Tentei 
em 
seguida 
descobrir 
onde 
sua 
casa 
poderia 
ter 
estado. 
Por 
um 
instante 
pensei 
ter 
descoberto. 
Instantaneamente 
fui 
possudo 
por 
uma 
tremenda 
ansiedade. 
Soube 
que 
precisava 
voltar 
 
igreja 
porque, 
se 
no 
o 
fizesse, 
cairia 
morto 
ali. 
Virei-me 
e 
fui 
na 
direo 
da 
igreja. 
A 
mulher 
rapidamente 
me 
agarrou 
a 
mo 
e 
foi 
atrs. 


Enquanto 
nos 
aproximvamos 
quase 
correndo, 
percebi 
que 
a 
cidade 
naquele 
sonho 
estava 
atrs 
da 
igreja. 
Se 
eu 
tivesse 
levado 
isso 
em 
considerao, 
talvez 
pudesse 
me 
orientar. 
Do 
jeito 
que 
a 
coisa 
ia, 
eu 
no 
tinha 
mais 
ateno 
sonhadora. 
Concentrei-a 
toda 
nos 
detalhes 
arquitetnicos 
e 
ornamentais 
da 
parte 
de 
trs 
da 
igreja. 
Eu 
nunca 
vira 
aquela 
parte 
do 
prdio 
no 
mundo 
da 
vida 
cotidiana, 
e 
achei 
que, 
se 
pudesse 
gravar 
suas 
caractersticas 
na 
memria, 
talvez 
pudesse 
comparar 
mais 
tarde 
com 
os 
detalhes 
da 
igreja 
real. 


Esse 
foi 
o 
plano 
que 
imaginei 
no 
calor 
do 
momento. 
Mas 
alguma 
coisa 
dentro 
de 
mim 
zombou 
de 
meus 
esforos 
de 
confirmao. 
Durante 
todo 
o 
meu 
aprendizado 
eu 
me 
atormentara 
com 
a 
necessidade 
de 
objetividade 
que 
me 
forara 
a 
conferir 
e 
reconferir 
tudo 
que 
havia 
no 
mundo 
de 
Dom 
Juan. 
Entretanto 
no 


#
era 
a 
confirmao 
que 
estava 
em 
jogo, 
mas 
a 
necessidade 
de 
usar 
esse 
impulso 
de 
objetividade 
como 
uma 
bengala 
que 
me 
protegesse 
nos 
momentos 
de 
distrbio 
cognitivo 
mais 
intenso; 
depois, 
quando 
chegava 
a 
hora 
de 
checar 
o 
que 
eu 
verificara, 
eu 
nunca 
o 
fazia. 


Dentro 
da 
igreja 
a 
mulher 
e 
eu 
nos 
ajoelhamos 
no 
pequeno 
altar 
da 
esquerda, 
onde 
havamos 
estado, 
e 
no 
instante 
seguinte 
acordei 
na 
igreja 
iluminada 
de 
minha 
poca. 


A 
mulher 
persignou-se 
e 
se 
levantou. 
Fiz 
o 
mesmo 
automaticamente. 
Ela 
pegou 
meu 
brao 
e 
comeou 
a 
andar 
em 
direo 
 
porta. 


 
Espere, 
espere! 
 
falei, 
surpreso 
de 
ainda 
poder 
falar. 
No 
conseguia 
pensar 
claramente, 
mas 
queria 
fazer 
uma 
pergunta 
difcil. 
O 
que 
eu 
queria 
saber 
 
como 
algum 
poderia 
ter 
energia 
para 
visualizar 
cada 
detalhe 
de 
uma 
cidade 
inteira. 
Sorrindo, 
a 
mulher 
respondeu 
minha 
pergunta 
no-
verbalizada: 
disse 
que 
era 
muito 
boa 
em 
visualizar, 
porque 
depois 
de 
toda 
uma 
vida 
fazendo 
isso, 
ela 
tivera 
o 
tempo 
de 
muitas, 
muitas 
vidas 
para 
aperfeio-lo. 
Acrescentou 
que 
a 
cidade 
que 
eu 
visitara 
e 
a 
igreja 
onde 
havamos 
conversado 
eram 
exemplos 
de 
suas 
visualizaes 
recentes. 
A 
igreja 
era 
a 
mesma 
onde 
Sebastian 
fora 
sacristo. 
Ela 
se 
propusera 
a 
tarefa 
de 
memorizar 
cada 
detalhe 
de 
cada 
canto 
daquela 
igreja 
e 
da 
cidade 
devido 
 
necessidade 
de 
sobreviver. 


Terminou 
a 
fala 
com 
uma 
observao 
perturbadora. 


 
Como 
voc 
sabe 
um 
bocado 
sobre 
essa 
cidade, 
mesmo 
nunca 
tendo 
tentado 
visualiz-la, 
est 
me 
ajudando 
a 
intent-la. 
Aposto 
que 
voc 
no 
acreditar 
se 
eu 
disser 
que 
esta 
cidade 
para 
a 
qual 
est 
olhando 
no 
existe 
realmente 
fora 
de 
seu 
intento 
e 
do 
meu. 
Encarou-me 
e 
riu 
de 
meu 
sentimento 
de 
horror, 
j 
que 
eu 
acabara 
de 
perceber 
totalmente 
o 
que 
ela 
dizia. 


 
Ainda 
estamos 
sonhando? 
 
perguntei 
atnito. 
 
Estamos 
 
falou. 
 
Mas 
este 
sonhar 
 
mais 
real 
do 
que 
o 
outro, 
porque 
voc 
est 
me 
ajudando. 
No 
 
possvel 
explicar 
isso, 
#
alm 
de 
dizer 
que 
est 
acontecendo. 
Como 
tudo 
o 
mais. 
 
Ela 
apontou 
ao 
redor. 
 
No 
 
possvel 
dizer 
como 
isso 
acontece, 
mas 
acontece. 
Lembre-se 
sempre 
do 
que 
eu 
disse: 
este 
 
o 
mistrio 
de 
intentar 
na 
segunda 
ateno. 


Puxou-me 
suavemente 
para 
perto. 


 
Vamos 
passear 
at 
a 
plaza 
deste 
sonho. 
Mas 
talvez 
eu 
deva 
me 
arrumar 
um 
pouquinho, 
para 
voc 
ficar 
mais 
 
vontade. 
Olhei 
sem 
compreender 
enquanto 
ela, 
com 
enorme 
destreza, 
mudava 
de 
aparncia. 
Fez 
isso 
com 
manobras 
muito 
simples, 
comuns. 
Tirou 
a 
saia 
comprida, 
revelando 
a 
saia 
de 
comprimento 
mdio 
que 
estava 
usando 
por 
baixo. 
Em 
seguida 
enrolou 
a 
trana 
comprida 
num 
coque; 
trocou 
os 
guaraches 
por 
sapatos 
com 
trs 
centmetros 
de 
salto, 
que 
tirou 
de 
uma 
pequena 
bolsa 
de 
pano. 
Virou 
pelo 
avesso 
o 
xale 
reversvel 
e 
ficou 
com 
uma 
estola 
bege. 
Parecia 
uma 
tpica 
mulher 
mexicana 
de 
classe 
mdia, 
vindo 
da 
cidade 
grande, 
talvez 
numa 
visita 
quele 
lugarejo. 


Pegou 
meu 
brao 
com 
uma 
segurana 
feminina 
e 
guiou-me 
em 
direo 
 
plaza. 


 
O 
que 
aconteceu 
com 
sua 
lngua? 
 
falou 
em 
ingls. 
 
O 
gato 
comeu? 
Eu 
estava 
totalmente 
absorto 
com 
a 
possibilidade 
impensvel 
de 
que 
ainda 
continuava 
num 
sonho; 
e 
o 
que 
 
mais, 
estava 
comeando 
a 
acreditar 
que, 
se 
fosse 
verdade, 
eu 
corria 
o 
risco 
de 
nunca 
acordar. 


Num 
tom 
indiferente, 
que 
no 
consegui 
reconhecer 
como 
meu, 
falei: 


 
At 
agora 
eu 
no 
tinha 
me 
conscientizado 
de 
que 
voc 
havia 
falado 
antes 
em 
ingls. 
Onde 
aprendeu? 
 
No 
mundo. 
Eu 
falo 
muitas 
lnguas. 
 
Parou 
e 
me 
examinou. 
 
Tive 
tempo 
suficiente 
para 
aprender. 
Como 
vamos 
passar 
muito 
tempo 
juntos, 
algum 
dia 
vou 
ensinar 
minha 
lngua 
a 
voc 
 
ela 
riu, 
sem 
dvida 
de 
meu 
ar 
desesperado. 
Parei 
de 
andar. 


#
 
Vamos 
passar 
muito 
tempo 
juntos? 
 
perguntei 
traindo 
meus 
sentimentos. 
 
Claro 
 
ela 
respondeu 
num 
tom 
alegre. 
 
Voc 
vai, 
e 
devo 
dizer 
que 
muito 
generosamente, 
me 
dar 
sua 
energia 
de 
graa. 
Voc 
mesmo 
disse 
isso, 
no 
foi? 
Eu 
estava 
pasmo. 


 
Qual 
 
o 
problema? 
 
a 
mulher 
perguntou, 
voltando 
para 
o 
espanhol. 
 
No 
diga 
que 
se 
arrependeu 
da 
deciso. 
Ns 
somos 
feiticeiros. 
 
tarde 
demais 
para 
mudar 
de 
idia. 
No 
est 
com 
medo, 
est? 
Eu 
estava 
mais 
do 
que 
aterrorizado, 
mas 
se 
me 
pedissem 
para 
descrever 
na 
hora 
o 
que 
me 
aterrorizava, 
eu 
no 
saberia. 
Certamente 
no 
estava 
com 
medo 
de 
me 
encontrar 
em 
outro 
sonho 
com 
o 
desafiador 
da 
morte, 
ou 
de 
perder 
a 
mente 
ou 
mesmo 
a 
vida. 
Estaria 
com 
medo 
do 
mal? 
 
perguntei-me. 
Mas 
o 
pensamento 
do 
mal 
no 
suportaria 
um 
exame. 
Em 
resultado 
de 
todos 
aqueles 
anos 
no 
caminho 
dos 
feiticeiros, 
eu 
sabia 
sem 
sombra 
de 
dvida 
que 
no 
universo 
s 
existe 
energia; 
o 
mal 
 
simplesmente 
uma 
concatenao 
da 
mente 
humana, 
esmagada 
pela 
fixao 
do 
ponto 
de 
aglutinao 
em 
seu 
posicionamento 
habitual. 
Em 
termos 
lgicos 
no 
havia 
nada 
de 
que 
eu 
pudesse 
ter 
medo. 
Sabia 
disso, 
mas 
tambm 
sabia 
que 
minha 
fraqueza 
real 
era 
no 
ter 
fluidez 
para 
fixar 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
instantaneamente 
em 
qualquer 
posicionamento 
novo 
para 
o 
qual 
ele 
fosse 
deslocado. 
O 
contato 
com 
o 
desafiador 
da 
morte 
estava 
deslocando 
meu 
ponto 
de 
aglutinao 
numa 
taxa 
tremenda, 
e 
eu 
no 
tinha 
a 
capacidade 
para 
me 
adaptar 
ao 
empuxo. 
O 
resultado 
era 
uma 
vaga 
pseudo-sensao 
de 
medo 
de 
que 
eu 
no 
pudesse 
acordar. 


 
No 
h 
problema 
 
falei. 
 
Vamos 
continuar 
nosso 
passeio 
no 
sonho. 
Ela 
grudou 
o 
brao 
ao 
meu 
e 
chegamos 
em 
silncio 
ao 
parque. 
No 
era 
em 
absoluto 
um 
silncio 
forado. 
Mas 
minha 
mente 
corria 
em 
crculos. 
Que 
estranho, 
pensei; 
h 
pouqussimo 
tempo 
eu 
tinha 


#
andado 
com 
Dom 
Juan 
do 
parque 
at 
a 
igreja, 
no 
meio 
do 
medo 
normal 
mais 
aterrorizante. 
Agora 
estava 
voltando 
da 
igreja 
ao 
parque 
com 
o 
objeto 
de 
meu 
medo, 
e 
estava 
mais 
aterrorizado 
do 
que 
nunca, 
mas 
de 
um 
modo 
diferente, 
mais 
maduro, 
mais 
mortal. 


Para 
aliviar 
minhas 
preocupaes, 
comecei 
a 
olhar 
ao 
redor. 
Se 
isso 
era 
um 
sonho, 
como 
eu 
acreditava, 
havia 
um 
meio 
de 
provar 
ou 
neg-lo. 
Apontei 
o 
dedo 
para 
as 
casas, 
para 
a 
igreja, 
para 
o 
calamento 
da 
rua. 
Apontei 
para 
pessoas, 
a 
quem 
eu 
parecia 
assustar 
consideravelmente. 
Senti 
sua 
massa. 
Eram 
to 
reais 
quanto 
qualquer 
coisa 
que 
considero 
real, 
s 
que 
no 
geravam 
energia. 
Nada 
naquela 
cidade 
gerava 
energia. 
Tudo 
parecia 
verdadeiro 
e 
normal, 
e 
mesmo 
assim 
era 
um 
sonho. 


Virei-me 
para 
a 
mulher, 
que 
estava 
agarrada 
ao 
meu 
brao, 
e 
questionei-a 
a 
respeito. 


 
Ns 
estamos 
sonhando 
 
ela 
disse 
em 
sua 
voz 
rouca, 
e 
deu 
um 
risinho. 
 
Como 
as 
pessoas 
ao 
nosso 
redor 
podem 
ser 
to 
reais, 
to 
tridimensionais? 
 
 
o 
mistrio 
de 
intentar 
na 
segunda 
ateno! 
 
ela 
exclamou 
reverente. 
 
Essas 
pessoas 
a 
so 
to 
reais 
que 
tm 
at 
pensamentos. 
Aquele 
foi 
o 
golpe 
final. 
No 
quis 
questionar 
mais 
nada. 
Quis 
me 
abandonar 
quele 
sonho. 
Um 
repelo 
forte 
em 
meu 
brao 
me 
trouxe 
de 
volta 
ao 
momento. 
Havamos 
chegado 
 
plaza. 
A 
mulher 
parara 
de 
andar 
e 
estava 
me 
puxando 
para 
que 
eu 
sentasse 
num 
banco. 
Eu 
soube 
que 
estava 
com 
problema 
quando 
no 
senti 
o 
banco. 
Comecei 
a 
girar. 
Estou 
subindo, 
pensei. 
Captei 
um 
vislumbre 
rapidssimo 
do 
parque 
como 
se 
estivesse 
olhando 
de 
cima. 


 
 
agora! 
 
gritei. 
Achei 
que 
estava 
morrendo. 
A 
subida 
em 
giros 
transformou-se 
numa 
descida 
em 
redemoinho, 
indo 
para 
a 
escurido. 
#
13 


VOANDO 
NAS 
ASAS 
DO 
INTENTO 


aa 
um 
esforo, 
Nagual 
 
uma 
voz 
de 
mulher 
insistiu 


comigo. 
 
No 
afunde. 
Venha 
 
superfcie. 
Use 
suas 


F
tcnicas 
de 
sonhar! 


Minha 
mente 
comeou 
a 
entrar 
em 
funcionamento. 
Achei 
que 
fosse 
a 
voz 
de 
algum 
que 
falasse 
ingls, 
e 
tambm 
pensei 
que, 
se 
fosse 
usar 
tcnicas 
de 
sonhar, 
teria 
de 
descobrir 
um 
ponto 
de 
partida 
para 
me 
energizar. 


 
Abra 
os 
olhos 
 
disse 
a 
voz. 
 
Abra 
agora. 
Use 
como 
ponto 
de 
partida 
a 
primeira 
coisa 
que 
enxergar. 
Fiz 
um 
esforo 
supremo 
e 
abri 
os 
olhos. 
Vi 
rvores 
e 
cu 
azul. 
Era 
dia! 
Um 
rosto 
desfocado 
me 
examinava. 
Mas 
eu 
no 
conseguia 
focalizar 
os 
olhos. 
Achei 
que 
fosse 
a 
mulher 
da 
igreja 
olhando 
para 
mim. 


 
Use 
meu 
rosto 
 
disse 
a 
voz. 
Era 
uma 
voz 
familiar, 
mas 
eu 
no 
pude 
identific-la. 
 
Transforme 
meu 
rosto 
em 
sua 
base 
de 
apoio; 
depois 
olhe 
para 
tudo. 
Meus 
ouvidos 
estavam 
clareando, 
e 
meus 
olhos 
tambm. 
Fixei 


o 
rosto 
da 
mulher, 
e 
em 
seguida 
as 
rvores 
do 
parque, 
o 
banco 
de 
ferro 
batido, 
as 
pessoas 
andando, 
e 
de 
volta 
o 
seu 
rosto. 
A 
despeito 
de 
seu 
rosto 
mudar 
a 
cada 
vez 
que 
eu 
o 
olhava, 
comecei 
a 
experimentar 
um 
mnimo 
de 
controle. 
Quando 
recuperei 
um 
pouco 
das 
minhas 
faculdades, 
percebi 
que 
havia 
uma 
mulher 
sentada 
no 
banco, 
segurando 
minha 
cabea 
no 
colo. 
E 
no 
era 
a 


#
mulher 
da 
igreja; 
era 
Carol 
Tiggs. 


 
O 
que 
est 
fazendo 
aqui? 
 
falei 
com 
voz 
entrecortada. 
Meu 
pavor 
e 
minha 
surpresa 
eram 
to 
intensos 
que 
desejei 
saltar 
e 
sair 
correndo, 
mas 
meu 
corpo 
no 
seguia 
o 
comando 
da 
conscincia 
mental. 
Seguiram-se 
momentos 
angustiantes, 
em 
que 
tentei 
desesperada 
e 
inutilmente 
me 
levantar. 
O 
mundo 
ao 
redor 
era 
claro 
demais 
para 
que 
eu 
acreditasse 
ainda 
estar 
dormindo, 
mas 
meu 
controle 
motor 
alterado 
fez-me 
suspeitar 
de 
que 
era 
realmente 
um 
sonho. 
Entretanto 
a 
presena 
de 
Carol 
Tiggs 
fora 
abrupta 
demais, 
no 
havia 
antecedentes 
para 
justific-la. 


Cautelosamente 
tentei 
forar-me 
a 
ficar 
de 
p, 
como 
fizera 
centenas 
de 
vezes 
no 
sonhar, 
mas 
nada 
aconteceu. 
Se 
em 
algum 
momento 
eu 
j 
precisara 
ser 
objetivo, 
essa 
era 
a 
hora. 
Comecei 
a 
olhar 
o 
mais 
cuidadosamente 
que 
pude, 
primeiro 
com 
um 
olho, 
para 
tudo 
em 
meu 
campo 
de 
viso. 
Repeti 
o 
processo 
com 
o 
outro. 
Tomei 
a 
coerncia 
entre 
as 
imagens 
dos 
dois 
olhos 
como 
uma 
indicao 
de 
que 
estava 
na 
realidade 
consensual 
da 
vida 
cotidiana. 


Em 
seguida 
passei 
a 
examinar 
Carol 
Tiggs. 
Percebi 
que 
em 
certos 
momentos 
eu 
podia 
mover 
os 
braos. 
Apenas 
a 
parte 
inferior 
do 
corpo 
estava 
verdadeiramente 
paralisada. 
Toquei 
o 
rosto 
e 
as 
mos 
de 
Carol; 
abracei-a. 
Ela 
era 
slida 
e, 
acreditei, 
a 
verdadeira 
Carol 
Tiggs. 
Meu 
alvio 
foi 
enorme, 
porque 
por 
um 
momento 
eu 
tivera 
a 
negra 
suspeita 
de 
que 
ela 
fosse 
o 
desafiador 
da 
morte 
mascarado 
de 
Carol. 


Com 
cuidado 
supremo, 
Carol 
ajudou-me 
a 
sentar 
no 
banco. 
Eu 
estivera 
esparramado 
de 
costas, 
meio 
no 
banco 
e 
meio 
no 
cho. 
Percebi 
ento 
algo 
totalmente 
fora 
do 
normal. 
Eu 
usava 
uma 
cala 
Levis 
desbotada 
e 
botas 
marrons 
gastas. 
Tambm 
estava 
com 
uma 
jaqueta 
Levis 
e 
uma 
camisa 
de 
brim. 


 
Espere 
um 
minuto 
 
falei 
com 
Carol. 
 
Olhe 
para 
mim! 
Essas 
so 
as 
minhas 
roupas? 
Eu 
sou 
eu 
mesmo? 
Carol 
riu 
e 
me 
sacudiu 
pelos 
ombros, 
do 
jeito 
que 
ela 
sempre 
fazia 
para 
denotar 
camaradagem, 
virilidade, 
como 
se 
fosse 
um 
garoto 


#
da 
turma. 


 
Estou 
olhando 
para 
a 
sua 
linda 
figura 
 
ela 
disse 
com 
seu 
divertido 
falsete 
exagerado. 
 
Ah, 
cara, 
quem 
mais 
poderia 
ser? 
 
Como 
 
que 
eu 
posso 
estar 
usando 
calas 
Levis 
e 
botas? 
 
insisti. 
 
Eu 
no 
tenho 
nenhuma. 


 
Essas 
so 
as 
roupas 
que 
voc 
est 
usando. 
Eu 
o 
encontrei 
nu! 
 
Onde? 
Quando? 
 
Perto 
da 
igreja, 
h 
cerca 
de 
uma 
hora. 
Vim 
 
plaza 
procur-
lo. 
O 
Nagual 
me 
mandou 
ver 
se 
conseguia 
encontrar 
voc 
Trouxe 
as 
roupas, 
s 
para 
o 
caso 
de 
precisar. 
Falei 
que 
me 
sentia 
terrivelmente 
vulnervel 
e 
envergonhado 
por 
ter 
andado 
por 
a 
sem 
roupas. 


 
O 
estranho 
 
que 
no 
havia 
ningum 
por 
perto 
 
ela 
me 
assegurou, 
mas 
senti 
que 
estava 
dizendo 
isso 
s 
para 
aliviar 
meu 
desconforto. 
Seu 
sorriso 
divertido 
deu 
a 
entender 
isso. 
 
Devo 
ter 
ficado 
a 
noite 
inteira 
com 
o 
desafiador 
da 
morte; 
talvez 
por 
mais 
tempo 
ainda 
 
falei. 
 
Que 
dia 
 
hoje? 
 
No 
se 
preocupe 
com 
datas 
 
ela 
disse 
rindo. 
 
Quando 
estiver 
mais 
centrado, 
voc 
mesmo 
vai 
contar 
os 
dias. 
 
No 
brinque 
comigo, 
Carol 
Tiggs. 
Que 
dia 
 
hoje? 
 
Minha 
voz 
estava 
totalmente 
rouca, 
uma 
voz 
absurda 
que 
parecia 
no 
me 
pertencer. 
 
 
o 
dia 
depois 
da 
grande 
fiesta 
 
ela 
disse 
e 
bateu 
suavemente 
em 
meu 
ombro. 
 
Estamos 
todos 
procurando 
por 
voc 
desde 
a 
noite 
passada. 
 
Mas 
o 
que 
estou 
fazendo 
aqui? 
 
Eu 
o 
levei 
para 
o 
hotel 
do 
outro 
lado 
da 
plaza. 
No 
pude 
carreg-lo 
at 
a 
casa 
do 
Nagual; 
voc 
saiu 
correndo 
do 
quarto 
h 
alguns 
minutos 
e 
ns 
paramos 
aqui. 
 
Por 
que 
no 
pediu 
ajuda 
ao 
Nagual? 
 
Porque 
esse 
 
um 
caso 
que 
s 
tem 
a 
ver 
com 
voc 
e 
comigo. 
Devemos 
resolv-lo 
juntos. 
#
Isso 
me 
fez 
calar. 
Ela 
estava 
sendo 
totalmente 
lgica 
para 
mim. 
Fiz 
mais 
uma 
pergunta 
incmoda: 


 
O 
que 
eu 
falei 
quando 
voc 
me 
encontrou? 
 
Voc 
disse 
que 
tinha 
estado 
to 
profundamente 
na 
segunda 
ateno, 
e 
por 
tanto 
tempo, 
que 
ainda 
no 
se 
sentia 
muito 
racional. 
Tudo 
que 
queria 
era 
cair 
no 
sono. 
 
Quando 
foi 
que 
perdi 
meu 
controle 
motor? 
 
S 
h 
um 
instante. 
Voc 
vai 
recuper-lo. 
Voc 
mesmo 
sabe 
que, 
quando 
entra 
na 
segunda 
ateno 
e 
recebe 
um 
choque 
considervel 
de 
energia, 
 
bastante 
normal 
perder 
o 
controle 
da 
fala 
ou 
dos 
membros. 
 
E 
quando 
foi 
que 
voc 
perdeu 
a 
sua 
fala 
ciciante, 
Carol? 
Peguei-a 
totalmente 
de 
surpresa. 
Ela 
me 
encarou 
e 
irrompeu 
num 
riso 
sincero. 


 
Venho 
trabalhando 
nisso 
h 
bastante 
tempo 
 
confessou. 
 
Acho 
que 
 
terrivelmente 
chato 
ouvir 
uma 
mulher 
crescida 
ciciando. 
Alm 
disso, 
voc 
odeia. 
No 
foi 
difcil 
admitir 
que 
eu 
sempre 
detestara 
aquela 
fala 
ciciante. 
Dom 
Juan 
e 
eu 
tnhamos 
tentado 
cur-la, 
mas 
conclumos 
que 
Carol 
no 
estava 
interessada. 
Seu 
ciciar 
tornava-a 
extremamente 
graciosa 
para 
todo 
mundo, 
e 
Dom 
Juan 
achava 
que 
ela 
adorava 
isso, 
e 
que 
no 
iria 
abrir 
mo. 
Ouvi-la 
falando 
sem 
ciciar 
foi 
uma 
coisa 
tremendamente 
recompensadora 
e 
excitante. 
Provava 
que 
ela 
era 
capaz 
de 
mudanas 
radicais, 
uma 
coisa 
que 
nem 
Dom 
Juan 
nem 
eu 
tnhamos 
certeza 
de 
ser 
possvel. 


 
Que 
outra 
coisa 
o 
Nagual 
disse 
quando 
mandou 
voc 
me 
procurar? 
 
Disse 
que 
voc 
estava 
tendo 
uma 
contenda 
com 
o 
desafiador 
da 
morte. 
Num 
tom 
confidencial, 
revelei 
a 
Carol 
Tiggs 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
era 
uma 
mulher. 
Ela 
falou, 
num 
tom 
indiferente, 
que 
j 
sabia. 


 
Como 
voc 
pode 
saber? 
 
gritei. 
 
Ningum 
sabia 
disso, 
a 
no 
ser 
Dom 
Juan. 
Ele 
mesmo 
falou 
com 
voc? 
#
 
Claro 
que 
falou 
 
ela 
respondeu, 
sem 
se 
perturbar 
com 
meu 
grite. 
 
O 
que 
voc 
no 
percebeu 
foi 
que 
eu 
tambm 
encontrei 
a 
mulher 
na 
igreja. 
Antes 
de 
voc. 
Ns 
batemos 
um 
papo 
amigvel 
na 
igreja 
durante 
um 
bom 
tempo. 
Acreditei 
que 
Carol 
falava 
a 
verdade. 
O 
que 
ela 
estava 
descrevendo 
era 
bem 
o 
tipo 
de 
coisa 
que 
Dom 
Juan 
faria. 
Era 
bem 
provvel 
que 
ele 
mandasse 
Carol 
como 
um 
batedor, 
para 
tirar 
concluses. 


 
Quando 
voc 
viu 
o 
desafiador 
da 
morte? 
 
perguntei. 
 
H 
uns 
dois 
dias 
 
ela 
respondeu 
num 
tom 
casual. 
 
No 
foi 
um 
grande 
acontecimento 
para 
mim. 
Eu 
no 
tinha 
energia 
para 
dar 
a 
ela 
ou 
pelo 
menos 
no 
a 
energia 
que 
aquela 
mulher 
deseja. 
 
Ento 
por 
que 
se 
encontrou 
com 
ela? 
Encontrar-se 
com 
a 
mulher 
nagual 
tambm 
faz 
parte 
do 
acordo 
do 
desafiador 
da 
morte 
com 
os 
feiticeiros? 
 
Eu 
a 
vi 
porque 
o 
Nagual 
disse 
que 
voc 
e 
eu 
somos 
intercambiveis, 
s 
isso. 
Nossos 
corpos 
energticos 
j 
se 
fundiram 
vrias 
vezes. 
No 
lembra? 
A 
mulher 
e 
eu 
falamos 
sobre 
a 
facilidade 
com 
que 
ns 
nos 
fundimos. 
Fiquei 
com 
ela 
durante 
umas 
trs 
ou 
quatro 
horas 
at 
que 
o 
Nagual 
chegou 
e 
me 
levou 
embora. 
 
Voc 
ficou 
na 
igreja 
durante 
todo 
esse 
tempo? 
 
perguntei 
porque 
mal 
podia 
acreditar 
que 
elas 
haviam 
permanecido 
ajoelhadas 
durante 
trs 
ou 
quatro 
horas 
apenas 
falando 
sobre 
a 
fuso 
de 
nossos 
corpos 
energticos. 
 
Ela 
me 
mostrou 
outra 
face 
de 
seu 
intento 
 
Carol 
admitiu 
depois 
de 
pensar 
um 
instante. 
 
Ela 
me 
fez 
ver 
como 
escapou 
de 
seus 
captores 
Carol 
Tiggs 
relatou 
ento 
uma 
histria 
intrigante. 
Disse 
que, 
de 
acordo 
com 
o 
que 
a 
mulher 
na 
igreja 
a 
fez 
ver, 
todos 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
caram, 
inescapavelmente, 
presa 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Depois 
de 
captur-los, 
os 
seres 
inorgnicos 
lhes 
deram 
o 
poder 
de 
intermediar 
entre 
o 
nosso 
mundo 
e 
o 
deles; 
um 
mundo 
que 
as 
pessoas 
chamavam 
de 
reino 
dos 
mortos. 
O 
desafiador 
da 
morte 
fora 


#
preso 
nas 
redes 
dos 
seres 
inorgnicos. 
Carol 
avaliou 
que 
ele 
teria 
passado, 
talvez, 
milhares 
de 
anos 
cativo, 
at 
o 
momento 
em 
que 
foi 
capaz 
de 
se 
transformar 
numa 
mulher. 
Ele 
vira 
isso 
como 
um 
meio 
de 
sair 
daquele 
mundo 
ao 
descobrir 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
vem 
o 
princpio 
feminino 
como 
indestrutvel. 
Eles 
acreditam 
que 
o 
princpio 
feminino 
possui 
tamanha 
flexibilidade, 
e 
que 
seu 
mbito 
 
to 
vasto, 
que 
seus 
membros 
so 
imunes 
s 
armadilhas 
e 
ao 
controle, 
e 
dificilmente 
podem 
ser 
mantidos 
presos. 
A 
transformao 
do 
desafiador 
da 
morte 
foi 
to 
completa 
e 
to 
detalhada 
que 
ela 
viu-se 
instantaneamente 
cuspida 
do 
mundo 
dos 
seres 
inorgnicos. 


 
Ela 
disse 
que 
os 
seres 
inorgnicos 
ainda 
esto 
atrs 
dela? 
 
perguntei. 


 
Naturalmente 
que 
esto 
 
Carol 
me 
assegurou. 
 
A 
mulher 
falou 
que 
precisa 
recha-los 
a 
cada 
momento 
de 
sua 
vida. 
 
O 
que 
eles 
podem 
fazer 
com 
ela? 
 
Podem 
perceber 
que 
ela 
era 
um 
homem 
e 
lev-la 
de 
volta 
para 
o 
cativeiro, 
acho. 
Creio 
que 
ela 
tem 
medo 
deles, 
mais 
do 
que 
voc 
acha 
possvel 
temer 
alguma 
coisa. 
Carol 
disse 
num 
tom 
indiferente 
que 
a 
mulher 
na 
igreja 
tinha 
total 
conscincia 
de 
meu 
embate 
com 
os 
seres 
inorgnicos; 
e 
que 
tambm 
sabia 
do 
batedor 
azul. 


 
Ela 
sabe 
tudo 
sobre 
voc 
e 
sobre 
mim 
 
prosseguiu. 
 
E 
no 
porque 
eu 
tenha 
contado 
qualquer 
coisa, 
mas 
porque 
ela 
faz 
parte 
de 
nossas 
vidas 
e 
de 
nossa 
linhagem. 
Ela 
mencionou 
que 
sempre 
nos 
seguiu, 
voc 
e 
eu 
em 
particular. 
Carol 
relatou 
as 
situaes 
que 
a 
mulher 
conhecia, 
situaes 
em 
que 
ns 
dois 
havamos 
atuado 
juntos. 
Enquanto 
ela 
falava, 
comecei 
a 
experimentar 
uma 
nostalgia 
especial 
pela 
pessoa 
que 
estava 
diante 
de 
mim: 
Carol 
Tiggs. 
Desejei 
desesperadamente 
abra-la. 
Estendi 
os 
braos, 
mas 
perdi 
o 
equilbrio 
e 
ca 
do 
banco. 


Carol 
me 
ajudou 
a 
levantar 
do 
cho, 
e 
ansiosamente 
examinou 
minhas 
pernas 
e 
as 
pupilas 
de 
meus 
olhos, 
meu 
pescoo 
e 
minhas 
costas. 
Disse 
que 
eu 
ainda 
estava 
sofrendo 
de 
choque 
energtico. 


#
Apoiou 
minha 
cabea 
em 
seu 
peito 
e 
fez 
carinho 
como 
se 
eu 
fosse 
uma 
criana 
fingindo 
doena. 


Depois 
de 
algum 
tempo 
me 
senti 
melhor; 
comecei 
at 
mesmo 
a 
recuperar 
meu 
controle 
motor 


 
O 
que 
voc 
acha 
das 
roupas 
que 
estou 
usando? 
 
Carol 
perguntou 
de 
sbito. 
 
Estou 
arrumada 
demais 
para 
a 
ocasio? 
Estou 
parecendo 
bem 
para 
voc7 
Carol 
Tiggs 
sempre 
se 
vestia 
de 
modo 
apurado. 
Se 
houvesse 
alguma 
coisa 
certa 
com 
ela, 
era 
seu 
gosto 
impecvel 
com 
relao 
a 
roupas. 
De 
fato, 
desde 
que 
eu 
a 
conhecera, 
a 
piada 
comum 
entre 
Dom 
Juan 
e 
o 
resto 
de 
ns 
era 
que 
sua 
nica 
virtude 
era 
a 
especialidade 
em 
comprar 
roupas 
lindas 
e 
us-las 
com 
graa 
e 
estilo. 


Achei 
sua 
pergunta 
muito 
estranha 
e 
fiz 
um 
comentrio: 


 
Por 
que 
voc 
estaria 
insegura 
com 
sua 
aparncia? 
Isso 
nunca 
a 
incomodou 
antes. 
Est 
tentando 
impressionar 
algum? 
 
Estou 
tentando 
impressionar 
voc, 
claro. 
 
Mas 
esse 
no 
 
o 
momento 
 
protestei. 
 
O 
que 
est 
acontecendo 
com 
o 
desafiador 
da 
morte 
 
o 
assunto 
importante, 
e 
no 
sua 
aparncia. 
 
Voc 
vai 
ficar 
surpreso 
com 
a 
importncia 
de 
minha 
aparncia 
 
ela 
riu. 
 
Minha 
aparncia 
 
questo 
de 
vida 
ou 
morte 
para 
ns 
dois. 
 
De 
que 
est 
falando? 
Voc 
me 
faz 
lembrar 
do 
Nagual 
programando 
meu 
encontro 
com 
o 
desafiador 
da 
morte. 
Ele 
quase 
me 
deixou 
doido 
com 
sua 
conversa 
misteriosa. 
 
A 
conversa 
misteriosa 
dele 
tinha 
justificativa? 
 
Carol 
perguntou 
com 
uma 
expresso 
mortalmente 
sria. 
 
Sem 
a 
menor 
dvida 
 
admiti. 
 
O 
mesmo 
acontece 
com 
minha 
aparncia. 
V, 
me 
anime. 
Como 
est 
me 
achando? 
Atraente, 
sem 
atrativos, 
mediana, 
desagradvel, 
poderosa, 
com 
ar 
de 
chefe? 
Pensei 
por 
um 
instante 
e 
fiz 
minha 
avaliao. 
Achei 
Carol 
muito 
atraente. 
Isso 
era 
bastante 
estranho 
para 
mim. 
Eu 
nunca 


#
pensara 
conscientemente 
em 
sua 
atratividade. 


 
Acho 
que 
voc 
est 
divinamente 
linda 
 
falei. 
 
Na 
verdade, 
voc 
est 
estonteante. 
 
Ento 
essa 
deve 
ser 
a 
aparncia 
certa 
 
ela 
suspirou. 
Eu 
estava 
tentando 
descobrir 
o 
significado 
daquilo. 
Ao 
falar 
de 
novo, 
ela 
perguntou: 


 
Como 
foi 
o 
tempo 
que 
voc 
passou 
com 
o 
desafiador 
da 
morte? 
Contei 
sucintamente 
minha 
experincia; 
principalmente 
o 
primeiro 
sonho. 
Falei 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
me 
fizera 
ver 
aquela 
cidade, 
mas 
numa 
outra 
poca, 
no 
passado. 


 
Mas 
isso 
no 
 
possvel 
 
ela 
falou 
abruptamente. 
 
No 
existe 
passado 
nem 
futuro 
no 
universo. 
S 
existe 
o 
momento. 
 
Eu 
sei 
que 
era 
o 
passado 
 
falei. 
 
Era 
a 
mesma 
igreja, 
mas 
a 
cidade 
era 
diferente. 
 
Pense 
por 
um 
momento 
 
ela 
insistiu. 
 
No 
universo 
s 
existe 
energia, 
e 
a 
energia 
s 
tem 
um 
aqui 
e 
agora, 
um 
aqui 
e 
agora 
infinito 
e 
eternamente 
presente. 
 
Ento 
o 
que 
voc 
acha 
que 
me 
aconteceu, 
Carol? 
 
Com 
a 
ajuda 
do 
desafiador 
da 
morte 
voc 
atravessou 
o 
quarto 
porto 
do 
sonhar. 
A 
mulher 
na 
igreja 
levou-o 
para 
o 
sonho 
dela, 
para 
o 
seu 
intento. 
Levou-o 
para 
a 
sua 
visualizao 
desta 
cidade. 
Obviamente 
ela 
visualizou-a 
no 
passado, 
e 
essa 
visualizao 
ainda 
est 
intacta 
nela. 
Como 
tambm 
deve 
estar 
l 
a 
visualizao 
presente 
que 
ela 
tem 
desta 
cidade. 
Depois 
de 
longo 
silncio 
ela 
me 
fez 
outra 
pergunta: 


 
O 
que 
mais 
a 
mulher 
fez 
com 
voc? 
Contei 
o 
segundo 
sonho. 
O 
sonho 
da 
cidade 
como 
ela 
existe 
hoje. 


 
A 
est 
 
disse 
ela. 
 
A 
mulher 
no 
somente 
levou-o 
para 
o 
seu 
intento 
passado, 
mas 
alm 
disso 
ajudou-o 
a 
atravessar 
o 
quarto 
porto, 
fazendo 
seu 
corpo 
energtico 
viajar 
para 
outro 
lugar 
que 
existe 
hoje 
em 
dia 
somente 
no 
intento 
dela. 
#
Carol 
fez 
uma 
pausa 
e 
perguntou 
se 
a 
mulher 
da 
igreja 
me 
explicara 
o 
que 
significa 
intentar 
na 
segunda 
ateno. 


Eu 
me 
recordava 
de 
ela 
ter 
mencionado, 
mas 
no 
de 
ter 
realmente 
explicado 
o 
que 
significava. 
Carol 
estava 
abordando 
conceitos 
sobre 
os 
quais 
Dom 
Juan 
nunca 
falara. 


 
Onde 
voc 
arranjou 
todas 
essas 
novas 
idias? 
 
perguntei 
verdadeiramente 
maravilhado 
com 
sua 
lucidez. 
Num 
tom 
descomprometido 
Carol 
me 
assegurou 
de 
que 
a 
mulher 
da 
igreja 
lhe 
explicara 
um 
bocado 
de 
coisas 
sobre 
essas 
complexidades. 


 
Agora 
estamos 
intentando 
na 
segunda 
ateno 
 
ela 
prosseguiu. 
 
A 
mulher 
da 
igreja 
fez 
ns 
dois 
cairmos 
no 
sono; 
voc, 
aqui, 
e 
eu 
em 
Tucson. 
E 
em 
seguida 
camos 
no 
sono 
de 
novo 
em 
nosso 
sonho. 
Voc 
no 
se 
lembra 
dessa 
parte, 
mas 
eu 
sim. 
O 
segredo 
das 
posies 
gmeas. 
Lembre-se 
do 
que 
a 
mulher 
contou; 
o 
segundo 
sonho 
 
o 
intentar 
na 
segunda 
ateno: 
o 
nico 
meio 
de 
atravessar 
o 
quarto 
porto 
do 
sonhar. 
Depois 
de 
longa 
pausa, 
durante 
a 
qual 
no 
articulei 
uma 
palavra, 
ela 
falou: 


 
Acho 
que 
a 
mulher 
da 
igreja 
lhe 
concedeu 
um 
dom, 
mesmo 
voc 
no 
querendo. 
Seu 
dom 
foi 
somar 
sua 
energia 
 
nossa, 
com 
o 
objetivo 
de 
se 
movimentar 
para 
trs 
e 
para 
a 
frente 
no 
aqui 
e 
agora 
da 
energia 
do 
universo. 
Fiquei 
extremamente 
excitado. 
As 
palavras 
de 
Carol 
eram 
precisas, 
pertinentes. 
Ela 
definira 
para 
mim 
uma 
coisa 
que 
eu 
considerava 
indefinvel, 
mesmo 
eu 
no 
sabendo 
o 
que 
ela 
definira. 
Se 
pudesse 
me 
mover, 
teria 
saltado 
para 
abra-la. 
Ela 
sorriu 
beatifcamente, 
enquanto 
eu 
continuava 
arengando 
nervoso 
sobre 
o 
sentido 
que 
suas 
palavras 
faziam 
para 
mim. 
Comentei 
retoricamente 
que 
Dom 
Juan 
nunca 
me 
dissera 
nada 
semelhante. 


 
Talvez 
ele 
no 
saiba 
 
Carol 
disse 
no 
de 
modo 
ofensivo, 
e 
sim 
conciliatrio. 
No 
discuti 
com 
ela. 
Permaneci 
quieto, 
por 
um 
instante, 


#
estranhamente 
vazio 
de 
pensamentos. 
Ento 
meus 
pensamentos 
e 
minhas 
idias 
irromperam 
como 
um 
vulco. 
Pessoas 
andavam 
pela 
plaza, 
olhando-nos 
de 
vez 
em 
quando 
ou 
parando 
em 
nossa 
frente 
para 
nos 
encarar. 
E 
devamos 
estar 
uma 
coisa 
digna 
de 
se 
ver; 
Carol 
Tiggs 
beijando 
meu 
rosto 
e 
me 
fazendo 
carinho, 
enquanto 
eu 
falava 
sem 
parar 
sobre 
sua 
lucidez 
e 
sobre 
meu 
encontro 
com 
o 
desafiador 
da 
morte. 


Quando 
pude 
andar, 
ela 
me 
guiou 
atravs 
da 
plaza 
at 
o 
nico 
hotel 
da 
cidade. 
Assegurou-me 
que 
eu 
ainda 
no 
tinha 
energia 
para 
ir 
at 
a 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
mas 
que 
todo 
mundo 
l 
sabia 
de 
nosso 
paradeiro. 


 
Como 
eles 
saberiam 
de 
nosso 
paradeiro? 
 
perguntei. 
 
O 
Nagual 
 
um 
velho 
feiticeiro 
muito 
ardiloso 
 
ela 
respondeu 
rindo. 
 
Foi 
ele 
quem 
me 
disse 
que 
se, 
eu 
o 
encontrasse 
energeticamente 
estropiado, 
deveria 
coloc-lo 
no 
hotel, 
em 
vez 
de 
me 
arriscar 
a 
atravessar 
a 
cidade 
com 
voc 
a 
reboque. 
Suas 
palavras 
e, 
especialmente, 
seu 
sorriso, 
me 
fizeram 
sentir 
tamanho 
alvio 
que 
continuei 
andando 
num 
estado 
de 
beatitude. 
Dobramos 
a 
esquina 
para 
chegar 
 
porta 
do 
hotel, 
meio 
quarteiro 
adiante, 
na 
frente 
da 
igreja. 
Atravessamos 
a 
portaria 
deserta 
e 
subimos 
a 
escada 
de 
cimento 
para 
o 
segundo 
andar, 
entrando 
diretamente 
num 
quarto 
inamistoso 
que 
eu 
nunca 
vira 
antes. 
Carol 
dissera 
que 
eu 
j 
tinha 
estado 
l, 
mas 
eu 
no 
tinha 
qualquer 
lembrana 
do 
hotel 
ou 
do 
quarto. 
Estava 
to 
cansado 
que 
no 
quis 
pensar 
a 
respeito. 
Simplesmente 
afundei 
na 
cama 
com 
o 
rosto 
para 
baixo. 
Tudo 
que 
eu 
queria 
era 
dormir, 
mas 
estava 
ligado 
demais. 
Havia 
muitas 
pontas 
soltas, 
apesar 
de 
tudo 
parecer 
to 
organizado. 
Tive 
uma 
sbita 
agitao 
nervosa 
e 
me 
sentei. 


 
Eu 
no 
contei 
que 
no 
tinha 
aceitado 
o 
dom 
do 
desafiador 
da 
morte 
 
falei 
encarando 
Carol. 
 
Como 
voc 
sabia? 
 
Ah, 
mas 
voc 
mesmo 
me 
contou 
 
ela 
protestou 
enquanto 
sentava-se 
ao 
meu 
lado. 
 
Voc 
estava 
to 
orgulhoso 
disso. 
Foi 
a 
primeira 
coisa 
que 
disse 
quando 
eu 
o 
descobri. 
#
Essa 
foi 
a 
nica 
resposta, 
at 
ento, 
que 
no 
me 
satisfez. 
O 
que 
ela 
estava 
relatando 
no 
parecia 
coisa 
minha. 


 
Acho 
que 
voc 
me 
entendeu 
mal 
 
falei. 
 
Eu 
simplesmente 
no 
queria 
nada 
que 
me 
desviasse 
de 
meu 
objetivo. 
 
Quer 
dizer 
que 
no 
se 
sentiu 
orgulhoso 
em 
recusar? 
 
No. 
No 
senti 
nada. 
No 
sou 
mais 
capaz 
de 
sentir 
nada, 
a 
no 
ser 
medo. 
Estiquei 
as 
pernas 
e 
coloquei 
a 
cabea 
no 
travesseiro. 
Senti 
que, 
se 
fechasse 
os 
olhos 
ou 
no 
ficasse 
falando, 
dormiria 
num 
instante. 
Contei 
a 
Carol 
Tiggs 
como, 
no 
incio 
de 
minha 
associao 
com 
Dom 
Juan, 
eu 
discutira 
com 
ele 
sobre 
seu 
motivo 
confesso 
de 
permanecer 
no 
caminho 
do 
guerreiro. 
Ele 
dissera 
que 
o 
medo 
o 
impedira 
de 
seguir 
uma 
linha 
reta, 
e 
que 
o 
que 
ele 
mais 
temia 
era 
perder 
o 
nagual, 
o 
abstrato, 
o 
esprito. 


 
Comparada 
 
perda 
do 
nagual, 
a 
morte 
no 
 
nada 
 
ele 
dissera 
com 
um 
tom 
de 
paixo 
verdadeira 
na 
voz. 
 
Meu 
medo 
de 
perder 
o 
nagual 
 
a 
nica 
coisa 
real 
que 
tenho, 
porque 
sem 
ele 
eu 
estaria 
pior 
do 
que 
morto. 
Falei 
que 
tinha 
discordado 
imediatamente 
de 
Dom 
Juan, 
e 
que 
me 
gabara 
de 
que, 
por 
ser 
imune 
ao 
medo, 
a 
fora 
motriz 
para 
mim 
teria 
de 
ser 
o 
amor, 
se 
tivesse 
de 
ficar 
dentro 
dos 
limites 
de 
um 
caminho 
especfico. 


Dom 
Juan 
respondera 
que 
o 
medo 
 
a 
nica 
condio 
valiosa 
para 
um 
guerreiro, 
quando 
vem 
o 
empurro 
de 
fato. 
Secretamente 
me 
ressenti 
dele, 
pelo 
que 
pensei 
ter 
sido 
sua 
disfarada 
estreiteza 
de 
pensamento. 


 
A 
roda 
deu 
uma 
volta 
completa 
 
falei 
com 
Carol. 
 
E 
olhe 
para 
mim 
agora. 
Posso 
jurar 
que 
a 
nica 
coisa 
que 
me 
mantm 
 
o 
medo 
de 
perder 
o 
nagual. 
Carol 
fixou-me 
com 
um 
olhar 
estranho, 
que 
eu 
nunca 
vira. 


 
Ouso 
discordar 
 
falou 
em 
voz 
baixa. 
 
O 
medo 
no 
 
nada 
comparado 
 
afeio. 
O 
medo 
faz 
voc 
correr 
feito 
um 
louco. 
O 
amor 
faz 
voc 
se 
movimentar 
inteligentemente. 
#
 
O 
que 
est 
dizendo, 
Carol 
Tiggs? 
Os 
feiticeiros 
so 
pessoas 
apaixonadas, 
agora? 
Ela 
no 
respondeu. 
Ficou 
deitada 
ao 
meu 
lado 
e 
colocou 
a 
cabea 
em 
meu 
ombro. 
Ficamos 
ali 
parados, 
naquele 
quarto 
estranho 
e 
inamistoso, 
por 
longo 
tempo 
e 
em 
silncio 
total. 


 
Eu 
sinto 
o 
que 
voc 
sente 
 
Carol 
disse 
de 
modo 
abrupto. 
 
Agora, 
tente 
sentir 
o 
que 
eu 
sinto. 
Voc 
pode 
fazer 
isso, 
mas 
vamos 
fazer 
no 
escuro. 


Carol 
esticou 
o 
brao 
e 
desligou 
a 
lmpada 
acima 
da 
cama. 
Sentei-me 
num 
nico 
movimento. 
Um 
choque 
de 
pavor 
me 
atravessara 
como 
eletricidade. 
Assim 
que 
Carol 
desligara 
a 
luz, 
passou 
a 
ser 
noite 
dentro 
do 
quarto. 
Em 
meio 
a 
grande 
agitao 
perguntei-lhe 
sobre 
aquilo 


 
Voc 
ainda 
no 
est 
totalmente 
reintegrado 
 
disse 
ela 
para 
me 
confortar. 
 
Teve 
um 
embate 
de 
propores 
monumentais. 
Entrar 
to 
profundamente 
na 
segunda 
ateno 
deixou-o 
um 
pouco 
estropiado, 
por 
assim 
dizer. 
Claro 
que 
 
dia, 
mas 
seus 
olhos 
no 
conseguem 
se 
ajustar 
direito 
 
luz 
fraca 
dentro 
do 
quarto. 
Mais 
ou 
menos 
convencido, 
deitei-me 
de 
novo. 
Carol 
continuou 
falando, 
mas 
eu 
no 
ouvia. 
Sentia 
os 
lenis. 
Eram 
lenis 
de 
verdade. 
Passei 
as 
mos 
pela 
cama. 
Era 
uma 
cama! 
Curvei-me 
e 
corri 
as 
palmas 
das 
mos 
pelos 
ladrilhos 
frios 
do 
cho. 
Sa 
da 
cama 
e 
chequei 
cada 
item 
do 
quarto 
e 
do 
banheiro. 
Tudo 
estava 
perfeitamente 
normal, 
perfeitamente 
real. 
Falei 
com 
Carol 
que, 
quando 
ela 
desligou 
a 
luz, 
tive 
a 
clara 
sensao 
de 
estar 
sonhando. 


 
D 
um 
tempo 
a 
voc 
mesmo 
 
disse 
ela. 
 
Pare 
com 
esse 
absurdo 
investigatrio 
e 
venha 
para 
a 
cama 
descansar. 
Abri 
as 
cortinas 
da 
janela. 
Do 
lado 
de 
fora 
era 
dia, 
mas 
no 
momento 
em 
que 
as 
fechei 
passou 
a 
ser 
noite 
do 
lado 
de 
dentro. 
Carol 
implorou 
que 
eu 
voltasse 
 
cama. 
Temia 
que 
eu 
pudesse 
sair 
correndo 
para 
a 
rua, 
como 
fizera 
antes. 
Isso 
fazia 
sentido. 
Voltei 
para 
a 
cama 
sem 
perceber 
que 
em 
nenhum 
momento 
me 
passara 
pela 
cabea 
apontar 
para 
as 
coisas. 
Era 
como 
se 
esse 
conhecimento 


#
tivesse 
sido 
apagado 
de 
minha 
lembrana. 


A 
escurido 
daquele 
quarto 
de 
hotel 
era 
extraordinria. 
Trouxe-
me 
uma 
deliciosa 
sensao 
de 
paz 
e 
harmonia. 
Tambm 
me 
trouxe 
uma 
tristeza 
profunda; 
um 
desejo 
de 
calor 
humano, 
de 
companheirismo. 
Senti-me 
extremamente 
perplexo. 
Nunca 
me 
acontecera 
nada 
assim. 
Fiquei 
na 
cama, 
tentando 
lembrar 
se 
aquele 
desejo 
era 
alguma 
coisa 
que 
eu 
conhecia. 
No 
era. 
Os 
desejos 
que 
eu 
tinha 
no 
eram 
de 
companhia 
humana; 
eram 
abstratos; 
eram 
mais 
uma 
espcie 
de 
saudade 
por 
no 
conseguir 
alguma 
coisa 
indefinida. 


 
Estou 
desmoronando 
 
falei 
para 
Carol. 
 
Estou 
 
beira 
de 
chorar 
pelas 
pessoas. 
Pensei 
que 
ela 
acharia 
minha 
declarao 
uma 
coisa 
engraada. 
Falei 
como 
se 
fosse 
uma 
piada. 
Ela 
nada 
disse; 
parecia 
concordar 
comigo. 
Suspirou. 
Como 
me 
encontrava 
numa 
situao 
instvel, 
tendi 
imediatamente 
para 
a 
emocionalidade. 
Encarei-a 
na 
escurido 
e 
murmurei 
uma 
coisa 
que, 
num 
momento 
mais 
lcido, 
teria 
sido 
bastante 
irracional 
para 
mim: 


 
Eu 
te 
adoro 
completamente. 
Esse 
tipo 
de 
conversa 
seria 
impensvel 
entre 
os 
feiticeiros 
da 
linha 
de 
Dom 
Juan. 
Carol 
Tiggs 
era 
a 
mulher 
nagual. 
Entre 
ns 
dois 
no 
havia 
necessidade 
de 
demonstrar 
afeio. 
Na 
verdade, 
ns 
nem 
mesmo 
sabamos 
o 
que 
sentamos 
um 
pelo 
outro. 
Havamos 
sido 
ensinados, 
por 
Dom 
Juan, 
que 
entre 
os 
feiticeiros 
no 
havia 
necessidade 
nem 
tempo 
para 
esses 
sentimentos. 


Carol 
sorriu 
e 
me 
abraou. 
E 
fui 
preenchido 
com 
uma 
afeio 
to 
consumidora 
que 
comecei 
a 
chorar 
involuntariamente. 


 
Seu 
corpo 
energtico 
est 
se 
movendo 
nos 
filamentos 
luminosos 
de 
energia 
do 
universo 
 
ela 
sussurrou 
em 
meu 
ouvido. 
 
Estamos 
sendo 
levados 
pelo 
dom 
do 
intento 
do 
desafiador 
da 
morte. 
Eu 
tinha 
energia 
bastante 
para 
entender 
o 
que 
ela 
dizia. 
Cheguei 
mesmo 
a 
perguntar 
se 
ela 
compreendia 
o 
que 
tudo 
aquilo 
significava. 
Ela 
me 
acalmou 
e 
sussurrou 
em 
meu 
ouvido: 


#
 
Compreendo; 
o 
dom 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
lhe 
concedeu 
foi 
as 
asas 
do 
intento. 
E 
com 
elas 
ns 
dois 
estamos 
sonhando 
conosco, 
em 
outro 
tempo. 
Um 
tempo 
que 
ainda 
est 
por 
vir. 
Empurrei-a 
e 
me 
sentei. 
Era 
inquietante 
a 
maneira 
como 
Carol 
verbalizava 
aqueles 
complexos 
pensamentos 
de 
feiticeiros. 
Ela 
no 
era 
dada 
a 
levar 
a 
srio 
os 
pensamentos 
conceituais. 
Vivamos 
fazendo 
piada 
entre 
ns, 
dizendo 
que 
ela 
no 
tinha 
uma 
mente 
filosfica. 


 
Qual 
 
o 
problema 
com 
voc? 
 
perguntei. 
 
Isso 
agora 
 
novidade 
para 
mim: 
Carol, 
a 
feiticeira-filsofa. 
Voc 
est 
falando 
como 
Dom 
Juan. 
 
Ainda 
no 
 
ela 
riu. 
 
Mas 
isso 
est 
chegando. 
A 
coisa 
est 
em 
movimento, 
e 
quando 
finalmente 
me 
alcanar, 
vai 
ser 
a 
coisa 
mais 
fcil 
do 
mundo, 
para 
mim, 
ser 
uma 
feiticeira-filsofa. 
Voc 
vai 
ver. 
E 
ningum 
poder 
explicar, 
porque 
simplesmente 
vai 
acontecer. 
Uma 
campainha 
de 
alarme 
soou 
em 
minha 
cabea: 


 
Voc 
no 
 
Carol 
 
gritei. 
 
 
o 
desafiador 
da 
morte 
mascarado 
de 
Carol. 
Eu 
sabia! 
Carol 
Tiggs 
riu, 
imperturbvel 
com 
minha 
acusao. 


 
No 
seja 
absurdo. 
Vai 
acabar 
perdendo 
a 
lio. 
Eu 
sabia 
que, 
cedo 
ou 
tarde, 
voc 
iria 
ceder 
 
sua 
indulgncia. 
Acredite, 
eu 
sou 
Carol. 
Mas 
estamos 
fazendo 
uma 
coisa 
que 
nunca 
fizemos 
antes: 
estamos 
intentando 
na 
segunda 
ateno, 
como 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade 
costumavam 
fazer. 
Eu 
no 
estava 
convencido, 
mas 
no 
tinha 
mais 
energia 
para 
prosseguir 
com 
o 
argumento. 
Uma 
coisa 
parecida 
com 
os 
grandes 
redemoinhos 
do 
meu 
sonhar 
estava 
comeando 
a 
me 
atrair. 
Ouvi 
fracamente 
a 
voz 
de 
Carol, 
dizendo 
em 
meu 
ouvido: 


 
Ns 
estamos 
sonhando 
conosco 
mesmos. 
Sonhe 
o 
intento 
que 
voc 
tem 
de 
mim. 
Me 
intente 
para 
longe, 
me 
intente 
para 
longe! 
Com 
grande 
esforo 
verbalizei 
meu 
pensamento 
mais 
ntimo: 


 
Fique 
aqui 
comigo 
para 
sempre! 
 
falei 
com 
a 
lentido 
de 
um 
gravador 
sendo 
desligado. 
Ela 
respondeu 
com 
alguma 
coisa 
#
incompreensvel. 
Tentei 
rir 
de 
minha 
voz, 
mas 
o 
redemoinho 
me 
engoliu. 


Quando 
acordei 
eu 
estava 
sozinho 
no 
quarto 
de 
hotel. 
No 
tinha 
idia 
de 
quanto 
tempo 
dormira. 
Sentia-me 
extremamente 
desapontado 
por 
no 
encontrar 
Carol 
perto 
de 
mim. 
Vesti-me 
apressadamente 
e 
desci 
 
portaria 
para 
procur-la. 
Alm 
disso 
queria 
afastar 
um 
pouco 
da 
estranha 
sonolncia 
que 
continuava 
grudada 
em 
mim. 


No 
balco, 
o 
gerente 
falou 
que 
a 
mulher 
americana 
que 
alugara 


o 
quarto 
sara 
h 
um 
instante. 
Corri 
para 
a 
rua, 
esperando 
alcan-
la, 
mas 
no 
havia 
qualquer 
sinal. 
Era 
meio-dia, 
o 
sol 
brilhava 
num 
cu 
sem 
nuvens. 
Estava 
um 
pouco 
quente. 
Andei 
at 
a 
igreja. 
Minha 
surpresa 
foi 
genuna, 
mas 
aptica, 
ao 
descobrir 
que 
naquele 
sonho 
eu 
realmente 
vira 
os 
detalhes 
de 
sua 
estrutura 
arquitetnica. 
Desinteressadamente 
banquei 
meu 
prprio 
advogado 
do 
diabo 
e 
me 
dei 
o 
benefcio 
da 
dvida. 
Talvez 
Dom 
Juan 
e 
eu 
tivssemos 
examinado 
a 
parte 
de 
trs 
da 
igreja, 
e 
eu 
no 
estivesse 
lembrando 
disso. 
Pensei 
a 
respeito. 
No 
importava. 
Meu 
esquema 
de 
confirmao 
no 
tinha 
qualquer 
significado. 
Eu 
estava 
com 
muito 
sono 
para 
me 
preocupar. 


Dali 
fui 
andando 
devagar 
at 
a 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
ainda 
procurando 
Carol. 
Tinha 
certeza 
de 
que 
iria 
encontr-la 
esperando 
por 
mim. 
Dom 
Juan 
me 
recebeu 
como 
se 
eu 
tivesse 
voltado 
do 
mundo 
dos 
mortos. 
Ele 
e 
seus 
companheiros 
estavam 
numa 
tremenda 
agitao 
enquanto 
me 
examinavam 
com 
curiosidade 
indisfarada. 


 
Onde 
voc 
esteve? 
 
Dom 
Juan 
perguntou. 
No 
consegui 
compreender 
o 
motivo 
da 
confuso. 
Falei 
que 
tinha 
passado 
a 
noite 
com 
Carol 
no 
hotel 
da 
plaza, 
porque 
no 
tinha 
energia 
para 
voltar 
da 
igreja 
at 
a 
casa 
dele, 
mas 
que 
ele 
j 
sabia 
disso. 


 
Ns 
no 
sabamos 
de 
nada 
 
ele 
quase 
gritou. 
 
Carol 
no 
disse 
que 
estava 
comigo? 
 
perguntei 
em 
meio 
a 
#
uma 
suspeita 
lerda 
que, 
se 
eu 
no 
estivesse 
exausto, 
seria 
alarmante. 


Ningum 
respondeu. 
Olharam 
uns 
para 
os 
outros, 
inquisitivos. 
Encarei 
Dom 
Juan 
e 
disse 
que 
achava 
que 
ele 
tinha 
mandado 
Carol 
me 
encontrar. 
Dom 
Juan 
andou 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro 
da 
sala 
sem 
dizer 
nada. 


 
Carol 
Tiggs 
no 
esteve 
conosco 
 
falou. 
 
E 
voc 
sumiu 
h 
nove 
dias. 
Minha 
fadiga 
me 
impediu 
de 
ser 
vaporizado 
por 
aquela 
afirmao. 
Seu 
tom 
de 
voz 
e 
a 
preocupao 
dos 
outros 
eram 
prova 
suficiente 
de 
que 
estavam 
falando 
srio. 
Mas 
eu 
estava 
to 
entorpecido 
que 
no 
tinha 
nada 
a 
dizer. 


Ento 
Dom 
Juan 
pediu 
que 
eu 
contasse, 
com 
todos 
os 
detalhes 
possveis, 
o 
que 
acontecera 
entre 
mim 
e 
o 
desafiador 
da 
morte. 
Fiquei 
chocado 
por 
conseguir 
lembrar 
tanta 
coisa, 
e 
de 
poder 
contar 
tudo, 
a 
despeito 
da 
exausto. 
Um 
momento 
de 
leveza 
rompeu 
a 
tenso 
quando 
contei 
o 
quanto 
a 
mulher 
rira 
quando 
gritei 
idiotamente, 
em 
seu 
sonho, 
meu 
intento 
de 
ver. 


 
Apontar 
o 
mindinho 
funciona 
melhor 
 
falei 
para 
Dom 
Juan, 
mas 
sem 
qualquer 
sentimento 
de 
recriminao. 
Dom 
Juan 
perguntou 
se 
a 
mulher 
teve 
alguma 
outra 
reao 
ao 
meu 
grito, 
alm 
de 
rir. 
Eu 
no 
lembrava 
de 
qualquer 
outra 
reao, 
a 
no 
ser 
sua 
hilaridade 
e 
o 
fato 
dela 
comentar 
o 
quanto 
ele 
desgostava 
dela. 


 
Eu 
no 
desgosto 
dela 
 
Dom 
Juan 
protestou. 
 
S 
no 
gosto 
da 
coero 
dos 
feiticeiros 
antigos. 
Falando 
para 
todos 
eu 
disse 
que 
gostara 
daquela 
mulher 
imensamente 
e 
sem 
restries. 
E 
que 
tinha 
amado 
Carol 
Tiggs 
como 
nunca 
pensei 
que 
poderia 
amar 
algum. 
Eles 
no 
pareceram 
apreciar 


o 
que 
eu 
dizia. 
Olharam 
uns 
para 
os 
outros 
como 
se 
eu 
tivesse 
ficado 
subitamente 
louco. 
Desejei 
falar 
mais; 
me 
explicar. 
Mas 
Dom 
Juan 
 
acho 
que 
s 
para 
me 
impedir 
de 
dizer 
idiotices 
 
praticamente 
me 
arrastou 
da 
casa, 
levando-me 
de 
volta 
ao 
hotel. 
#
O 
mesmo 
gerente 
com 
quem 
eu 
falara 
antes 
ouviu 
atento 
a 
nossa 
descrio 
de 
Carol 
Tiggs, 
mas 
negou 
claramente 
t-la 
visto, 
ou 
a 
mim, 
antes. 
Chegou 
a 
chamar 
as 
arrumadeiras 
do 
hotel; 
elas 
confirmaram 
suas 
declaraes. 


 
Qual 
pode 
ser 
o 
significado 
disso 
tudo? 
 
Dom 
Juan 
perguntou 
em 
voz 
alta. 
Parecia 
uma 
pergunta 
feita 
a 
ele 
mesmo. 
Gentilmente 
empurrou-me 
para 
fora 
do 
hotel. 
 
Vamos 
sair 
desse 
lugar 
maldito. 
Quando 
chegamos 
do 
lado 
de 
fora, 
ele 
ordenou 
que 
eu 
no 
me 
virasse 
para 
olhar 
o 
hotel 
ou 
a 
igreja 
do 
outro 
lado 
da 
rua. 
Pediu 
que 
eu 
mantivesse 
a 
cabea 
baixa. 
Olhei 
para 
os 
meus 
sapatos 
e 
instantaneamente 
percebi 
que 
no 
estava 
mais 
usando 
as 
roupas 
de 
Carol, 
e 
sim 
as 
minhas. 
Mas 
no 
conseguia 
me 
lembrar, 
por 
mais 
que 
tentasse, 
de 
quando 
havia 
trocado 
de 
roupa. 
Imaginei 
que 
tivesse 
sido 
quando 
acordei 
no 
quarto 
do 
hotel. 
Devo 
ter 
colocado 
minhas 
roupas 
naquele 
momento, 
se 
bem 
que 
a 
minha 
lembrana 
estivesse 
vazia. 


Mas 
ento 
chegamos 
 
plaza. 
Antes 
de 
a 
atravessarmos 
para 
ir 
em 
direo 
 
casa 
de 
Dom 
Juan, 
falei-lhe 
sobre 
minhas 
roupas. 
Ele 
balanou 
a 
cabea 
ritmicamente, 
ouvindo 
cada 
palavra. 
Em 
seguida 
sentou-se 
num 
banco, 
e 
numa 
voz 
que 
mostrava 
preocupao 
genuna, 
disse 
que, 
no 
momento, 
no 
tinha 
como 
saber 
o 
que 
se 
passara 
na 
segunda 
ateno 
entre 
a 
mulher 
da 
igreja 
e 
meu 
corpo 
energtico. 
Minha 
interao 
com 
Carol 
Tiggs 
no 
hotel 
fora 
apenas 
a 
ponta 
do 
iceberg. 


 
 
horrendo 
pensar 
que 
voc 
ficou 
na 
segunda 
ateno 
durante 
nove 
dias 
 
prosseguiu 
ele. 
 
Nove 
dias 
 
apenas 
um 
segundo 
para 
o 
desafiador 
da 
morte, 
mas 
uma 
eternidade 
para 
ns. 
 
Antes 
que 
eu 
pudesse 
protestar, 
explicar 
ou 
dizer 
alguma 
coisa, 
ele 
me 
impediu 
com 
um 
comentrio: 
 
Pense 
nisso: 
se 
voc 
ainda 
no 
consegue 
lembrar 
de 
todas 
as 
coisas 
que 
eu 
lhe 
ensinei 
e 
fiz 
com 
voc 
na 
segunda 
ateno, 
imagine 
o 
quanto 
mais 
difcil 
deve 
ser 
lembrar 
o 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
lhe 
ensinou 
e 
fez 
com 
voc. 
#
Eu 
s 
o 
fiz 
mudar 
de 
nvel 
de 
conscincia. 
O 
desafiador 
da 
morte 
fez 
voc 
mudar 
de 
universos. 


Senti-me 
humilde 
e 
derrotado. 
Dom 
Juan 
e 
seus 
dois 
companheiros 
insistiram 
para 
que 
eu 
fizesse 
um 
esforo 
titnico 
e 
tentasse 
me 
lembrar 
de 
quando 
trocara 
de 
roupas. 
No 
consegui. 
No 
havia 
nada 
em 
minha 
mente; 
nenhum 
sentimento, 
nenhuma 
lembrana. 
De 
algum 
modo, 
eu 
no 
estava 
totalmente 
ali, 
com 
eles. 


A 
agitao 
nervosa 
de 
Dom 
Juan 
e 
de 
seus 
dois 
companheiros 
chegou 
ao 
auge. 
Eu 
nunca 
os 
vira 
to 
perturbados. 
Sempre 
houvera 
um 
toque 
de 
alegria, 
de 
no 
se 
levar 
muito 
a 
srio, 
em 
tudo 
que 
ele 
fazia 
ou 
dizia. 
Mas 
no 
dessa 
vez. 


Novamente 
tentei 
pensar, 
trazer 
alguma 
lembrana 
que 
lanasse 
luz 
sobre 
aquilo, 
e 
novamente 
fracassei, 
mas 
no 
me 
sentia 
derrotado; 
uma 
onda 
improvvel 
de 
otimismo 
me 
envolveu. 
Senti 
que 
tudo 
estava 
acontecendo 
como 
deveria. 


A 
preocupao 
de 
Dom 
Juan 
era 
que 
ele 
no 
sabia 
nada 
sobre 


o 
tipo 
de 
sonhar 
que 
eu 
tivera 
com 
a 
mulher 
da 
igreja. 
Criar 
um 
hotel 
de 
sonho, 
uma 
cidade 
de 
sonho, 
uma 
Carol 
Tiggs 
de 
sonho, 
era 
para 
ele 
apenas 
uma 
amostragem 
da 
capacidade 
sonhadora 
dos 
feiticeiros 
antigos, 
cujo 
mbito 
total 
desafiava 
a 
imaginao 
humana. 
Dom 
Juan 
abriu 
os 
braos, 
expansivo, 
e 
finalmente 
sorriu 
com 
seu 
deleite 
usual. 


 
S 
podemos 
deduzir 
que 
a 
mulher 
da 
igreja 
mostrou 
a 
voc 
como 
fazer 
isso 
 
falou 
em 
seu 
tom 
deliberado. 
 
Vai 
ser 
uma 
tarefa 
gigantesca 
para 
voc 
tornar 
compreensvel 
uma 
manobra 
incompreensvel. 
Foi 
uma 
jogada 
de 
mestre, 
feita 
pelo 
desafiador 
da 
morte 
na 
forma 
da 
mulher 
da 
igreja. 
Ela 
usou 
o 
corpo 
energtico 
de 
Carol 
e 
o 
seu 
para 
se 
libertar, 
para 
romper 
suas 
amarras. 
Ela 
aproveitou 
sua 
oferta 
de 
energia 
gratuita. 
O 
que 
ele 
dizia 
no 
estava 
fazendo 
sentido 
para 
mim; 
aparentemente 
significava 
muito 
para 
seus 
dois 
companheiros 
de 
feitiaria. 
Eles 
ficaram 
imensamente 
agitados. 
Dirigindo-se 
a 
eles, 
Dom 
Juan 
explicou 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
e 
a 
mulher 
na 
igreja 


#
eram 
expresses 
diferentes 
da 
mesma 
energia; 
a 
mulher 
na 
igreja 
era 
a 
mais 
poderosa 
e 
complexa 
das 
duas. 
Depois 
de 
assumir 
o 
controle, 
ela 
usou 
o 
corpo 
energtico 
de 
Carol 
Tiggs, 
de 
algum 
modo 
obscuro 
e 
sinistro 
 
coerente 
com 
as 
maquinaes 
dos 
feiticeiros 
antigos 
 
e 
criou 
a 
Carol 
Tiggs 
do 
hotel; 
uma 
Carol 
Tiggs 
de 
puro 
intento. 
Dom 
Juan 
acrescentou 
que 
Carol 
e 
a 
mulher 
devem 
ter 
chegado 
a 
algum 
tipo 
de 
acordo 
energtico 
durante 
o 
seu 
encontro. 


Nesse 
instante 
um 
pensamento 
pareceu 
encontrar 
caminho 
at 
a 
mente 
de 
Dom 
Juan. 
Ele 
encarou 
os 
dois 
companheiros, 
incrdulo. 
Os 
olhos 
deles 
dardejaram, 
indo 
de 
um 
para 
o 
outro. 
Eu 
tinha 
certeza 
de 
que 
no 
estavam 
apenas 
buscando 
concordncia, 
j 
que 
pareciam 
ter 
percebido 
algo 
ao 
mesmo 
tempo. 


 
Todas 
as 
nossas 
especulaes 
so 
inteis 
 
Dom 
Juan 
disse 
em 
voz 
baixa 
e 
calma. 
 
Acho 
que 
no 
existe 
mais 
nenhuma 
Carol 
Tiggs. 
E 
que 
tambm 
no 
existe 
mais 
nenhuma 
mulher 
da 
igreja; 
as 
duas 
se 
fundiram 
e 
voaram 
nas 
asas 
do 
intento, 
creio 
que 
para 
longe. 
 
O 
motivo 
da 
Carol 
Tiggs 
do 
hotel 
estar 
to 
preocupada 
com 
sua 
aparncia 
 
porque 
ela 
era 
a 
mulher 
da 
igreja, 
fazendo 
voc 
sonhar 
um 
outro 
tipo 
de 
Carol 
Tiggs; 
uma 
Carol 
Tiggs 
infinitamente 
mais 
poderosa. 
No 
se 
lembra 
do 
que 
ela 
disse? 
Sonhe 
o 
intento 
que 
voc 
tem 
de 
mim. 
Me 
intente 
para 
longe. 
 
O 
que 
isso 
significa, 
Dom 
Juan? 
 
perguntei 
atordoado. 
 
Significa 
que 
o 
desafiador 
da 
morte 
viu 
um 
caminho 
de 
fuga 
total. 
Ela 
pegou 
carona 
com 
voc. 
Seu 
destino 
 
o 
destino 
dela. 
 
O 
que 
isso 
quer 
dizer, 
Dom 
Juan? 
 
Que, 
se 
voc 
alcanar 
a 
liberdade, 
ela 
tambm 
alcanar. 
 
Como 
ela 
vai 
fazer 
isso? 
 
Atravs 
de 
Carol 
Tiggs. 
Mas 
no 
se 
preocupe 
com 
Carol 
 
falou 
antes 
que 
eu 
verbalizasse 
minha 
apreenso. 
 
Ela 
 
capaz 
dessa 
manobra 
e 
de 
muito 
mais. 


Havia 
uma 
imensido 
de 
coisas 
empilhadas 
sobre 
mim. 
Eu 
j 
sentia 
seu 
peso 
esmagador. 
Tive 
um 
momento 
de 
lucidez 
e 
perguntei 


#
a 
Dom 
Juan: 


 
Qual 
vai 
ser 
o 
resultado 
disso 
tudo? 
Ele 
no 
respondeu. 
Encarou-me, 
me 
analisando 
da 
cabea 
aos 
ps. 
Ento 
disse 
lenta 
e 
deliberadamente: 


 
O 
dom 
concedido 
pelo 
desafiador 
da 
morte 
consiste 
em 
infinitas 
possibilidades 
de 
sonhar. 
Uma 
delas 
foi 
seu 
sonho 
com 
Carol 
Tiggs 
em 
outra 
poca, 
em 
outro 
mundo; 
um 
mundo 
mais 
vasto, 
escancarado; 
um 
mundo 
onde 
o 
impossvel 
pode 
ser 
vivel. 
O 
sentimento 
pendente 
 
que 
voc 
no 
apenas 
viver 
essas 
possibilidades, 
mas 
um 
dia 
ir 
compreend-las. 
Ele 
levantou-se, 
e 
comeamos 
a 
andar 
em 
direo 
 
sua 
casa. 
Meus 
pensamentos 
comearam 
a 
correr 
feito 
loucos. 
Na 
verdade 
no 
eram 
pensamentos, 
e 
sim 
imagens; 
uma 
mistura 
de 
lembranas 
da 
mulher 
da 
igreja 
e 
de 
Carol 
Tiggs 
falando 
comigo 
na 
escurido, 
no 
quarto 
de 
hotel 
de 
sonho. 
Umas 
duas 
vezes 
estive 
perto 
de 
condensar 
essas 
imagens 
num 
sentimento 
do 
meu 
Eu 
usual, 
mas 
tive 
de 
desistir; 
no 
tinha 
energia 
para 
uma 
tarefa 
assim. 


Antes 
de 
chegarmos 
 
casa, 
Dom 
Juan 
parou 
de 
falar 
e 
me 
encarou. 
Outra 
vez 
me 
examinou 
cuidadosamente, 
como 
se 
estivesse 
procurando 
sinais 
em 
meu 
corpo. 
Senti-me 
obrigado 
a 
falar 
direto 
num 
assunto 
sobre 
o 
qual 
pensei 
que 
ele 
estava 
totalmente 
errado. 


 
Eu 
estive 
com 
a 
verdadeira 
Carol 
Tiggs 
no 
hotel. 
Por 
um 
momento, 
eu 
mesmo 
acreditei 
que 
ela 
fosse 
o 
desafiador 
da 
morte, 
mas 
depois 
de 
avaliao 
cuidadosa, 
no 
posso 
continuar 
acreditando. 
Era 
Carol. 
De 
algum 
modo 
obscuro 
e 
espantoso 
ela 
estava 
no 
hotel, 
como 
eu 
tambm 
estava. 
 
Claro 
que 
era 
Carol 
 
Dom 
Juan 
concordou. 
 
Mas 
no 
a 
Carol 
que 
eu 
e 
voc 
conhecemos. 
Era 
uma 
Carol 
de 
sonho, 
como 
eu 
disse, 
uma 
Carol 
feita 
de 
puro 
intento. 
Voc 
ajudou 
a 
mulher 
da 
igreja 
a 
tecer 
aquele 
sonho. 
A 
arte 
dela 
foi 
transformar 
o 
sonho 
numa 
realidade 
totalmente 
inclusiva: 
a 
arte 
dos 
feiticeiros 
antigos; 
a 
coisa 
mais 
apavorante 
que 
existe. 
Eu 
disse 
que 
voc 
iria 
receber 
a 
lio 
definitiva 
sobre 
o 
sonhar, 
no 
disse? 
#
 
O 
que 
voc 
acha 
que 
aconteceu 
com 
Carol 
Tiggs? 
 
perguntei. 


 
Carol 
Tiggs 
se 
foi 
 
ele 
respondeu. 
 
Mas 
algum 
dia 
voc 
vai 
encontrar 
a 
nova 
Carol 
Tiggs; 
a 
que 
estava 
no 
quarto 
do 
hotel 
de 
sonho. 
 
O 
que 
quer 
dizer 
com 
ela 
se 
foi? 
Senti 
uma 
onda 
de 
nervosismo 
me 
atravessando 
o 
plexo 
solar. 
Eu 
estava 
acordando. 
A 
conscincia 
de 
mim 
mesmo 
comeara 
a 
se 
tornar 
familiar, 
mas 
eu 
ainda 
no 
estava 
totalmente 
no 
controle. 
Ela 
comeara 
a 
atravessar 
a 
nvoa 
do 
sonho; 
comeara 
com 
uma 
mistura 
de 
no 
saber 
o 
que 
estava 
acontecendo 
com 
a 
sensao 
de 
que 
o 
incomensurvel 
estava 
logo 
atrs 
da 
esquina. 


Devo 
ter 
feito 
uma 
expresso 
de 
incredulidade, 
porque 
Dom 
Juan 
acrescentou 
num 
tom 
convincente: 


 
Isto 
 
o 
sonhar. 
Voc 
deveria 
saber 
que 
as 
transaes 
que 
ocorrem 
nele 
so 
definitivas. 
Carol 
Tiggs 
se 
foi. 
 
Mas, 
para 
onde 
acha 
que 
ela 
se 
foi, 
Dom 
Juan? 
 
Para 
onde 
foram 
os 
feiticeiros 
da 
antigidade. 
Eu 
lhe 
disse 
que 
o 
dom 
concedido 
pelo 
desafiador 
da 
morte 
eram 
as 
infinitas 
possibilidades 
do 
sonhar. 
Voc 
no 
queria 
nada 
de 
concreto, 
de 
modo 
que 
a 
mulher 
da 
igreja 
lhe 
concedeu 
um 
dom 
abstrato: 
a 
possibilidade 
de 
voar 
nas 
asas 
do 
intento. 
#
E
EEs
sst
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bbr
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Impresso 
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Brasil 
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Sistema 
Cameron 
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Diviso 
Grfica 
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